wesleydeniel Wesley Deniel

Você já ouviu dizer que, certas coisas, depois de vistas não podem simplesmente sumir de nossa mente? Joanne Ballard buscou por informações que não deveria e isso lhe trouxera à tona fobias que sequer sabia existirem. Agora a noite e o sono tornaram-se para ela uma verdadeira maldição. Memórias traumáticas, insônia, paralisia do sono e o abrir de portas para seres saídos de mundos proibidos... Como alguém tão assombrada poderia voltar a dormir em paz outra vez?


#4 em Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Conto
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Durma em Paz

— Não é possível que tenha esquecido meu remédio, Randy!

Randolph Ballard olhou para a esposa com a mesma cara de cãozinho que caiu do caminhão de mudança que sempre fazia quando "mijava fora do penico", como gostava de dizer seu pai.

— Não sei o que aconteceu, Joan — começou ele, coçando a cabeça por baixo daquela cabeleireira meio grisalha de astro do rock em decadência que cultivava – contra a vontade da mulher – desde 1996 e agora era só uma maçaroca desleixada que disfarçava muito mal a calvície que avançava a galope. — Minha memória está uma merda.

— Mas você falou que poria um alarme no celular para perto da hora de sair do serviço, Randy.

— Sim — concordou o marido. — E ele tocou. Eu vi o lembrete, fui até o carro pensando nele, dirigi rumo à farmácia do Sr. Doug e vim parar aqui em casa.

— Jesus, Randolph. — Com o celular no ouvido, Joan escutava a mensagem eletrônica informando que a Healthy Life já encerrara o atendimento por hoje. — Fechada. A merda agora está fechada.

— Não sei o que dizer. Só que me desculpe, amor.

— Puta que pariu — Joan tinha o olhar de quem poderia cometer um homicídio naquele momento e Randy devia conhecê-lo bem. — Como é que eu vou dormir?!

Randy, que ultimamente fazia Joan pensar no velho Gargamel usando uma peruca barata, franziu os lábios e tentou:

— Posso preparar uma jantinha para nós. Capeletti de frango com molho branco, como você gosta. E um vinho. Uma ou duas taças, que tal? Coloco um Chianti para gelar. Aposto que te ajudará a dormir.

Duas taças, dois tonéis... Joan achou que Randy, àquela altura, já soubesse que nada nesse mundo a fazia apagar para valer – o único modo de descansar minimamente que agora conhecia – além de seu querido ‘Durma em Paz’, um manipulado natural, mas forte o suficiente para derrubar um cavalo. Que raio de papo furado era aquele de massa e Chianti?

— Tem ideia de quando tive minha última noite de sono decente? — perguntou Joan ao híbrido de molestador de Smurfs com roqueiro.

Randy tinha, mais ou menos. Pelo o que ela contara, desde o maldito dia em que decidira escrever uma noveleta sobre fobias. Joan tinha visto algumas coisas interessantes, e outras simplesmente insanas, de dar um laço de marinheiro no cérebro; porras perturbadoras de verdade!

A que definitivamente ocupava o segundo lugar das piores condições que acabara adquirindo (a primeira havia sido a somnifobia, um pavor de se deitar para dormir e nunca mais acordar, ou pior, despertar dentro de um pesadelo consciente) era a repulsiva tripofobia.

Deus quisesse que Joanne Ballard jamais tivesse buscado pela palavra no Google – mais ainda no campo de IMAGENS. A publicação para a bosta do fórum 'Mentes Macabras' nem a pagaria tão bem assim.

A princípio vira apenas desenhos e fotos de superfícies repletas de furinhos irregulares que pouco a impressionaram: peneiras; uma esponja; uma obra de arte bizarra em argila toda esburacada; mil olhos de uma criatura pintada por um fã de Lovecraft... Então é essa a tal fobia de buracos?, ela pensou. Não é grande coisa.

Mas então os links a conduziram por caminhos mais escuros. Joan acabara se deparando com uma infinidade de fotos e matérias de cunho médico sobre feridas abertas por doenças e parasitas em animais e pessoas − a maioria eram ribeirinhos de lugares onde o termo ‘insalubre’ não poderia ser aplicado sem que ele parecesse um eufemismo ofensivo.

Aquilo, sim, a impressionara.

As mãos que vira... Santo Cristo. Um pobre gato que tivera sua órbita ocular direita reduzida a uma colmeia em que todas as larvas irrompessem de seus alvéolos ao mesmo tempo. Uma mulher indiana sofrendo similar angústia, mas em um de seus seios, e um garoto no Camboja que tinha...

Pare! Pare de pensar nisso!, Joan ordenou a si própria, mas é claro que não adiantou nada. Fazia dois meses que vinha tentando pôr a mente sob seu comando outra vez, mas não conseguia.

Na verdade, vinha piorando dia após dia. Aquilo a havia afetado em tudo, desde sua alimentação (pensar em comida a deixava nauseada, pois as horrendas imagens adoravam voltar exatamente nesses momentos tão convenientes à sua memória), até seu sono.

Antes do medo de dormir, viera o que Joan determinava ser 'A mais fodida insônia da história'. Foram noites sem pregar os olhos, só deitada na cama, no escuro, pensando em buracos.

E quando, cinco dias depois, seu corpo finalmente cedera ao cansaço, o diabo lhe apresentara à paralisia do sono. As abominações que vira naqueles breves períodos em que o Sr. Pestana deixava que dormisse, eram enlouquecedoras.

Longe de um descanso saudável, Joan apagava, acordava em sobressaltos e tornava a apagar, apenas para ser atormentada por todos os demônios do inferno – ou da porra da internet.

Bastava cochilar para, de repente, ver-se caindo no vazio, ou sendo arrastada por garras invisíveis. Certa madrugada, uma velha e uma menina entraram em seu quarto, de mãos dadas e ficaram de pé junto à cama, a observando com curiosidade, apesar de Joan não saber como faziam, já que suas visitas não tinham rostos.

Outras vezes, presenças que Joan não saberia descrever, sentavam-se sobre seu peito ou se acocoravam perto da cabeceira. Em nenhuma ocasião conseguia se mover nem gritar, por mais que ela se esforçasse.

— Não... Eu não acho que faça ideia, Randy. Mas eu vou te dizer: não tenho paz há tempo o bastante para pensar seriamente em pular de nossa sacada.

— Joan... — Randolph Ballard abaixou a cabeça. O pobre homem não era um marido ruim, sempre fazia de tudo para ela, mas não sem dar ao menos uns respingos fora do penico, toda santa vez. — Posso ir até o centro, ou à drogaria do Providence Royal, ver se encontro algo que te faça dormir...

Não. O buraco (vejam: estão em toda parte!) era mais para baixo. Ela não poderia tornar-se viciada em benzodiazepínicos, ou qualquer outro calmante químico. Tivera sua cota de vícios já. Fumara feito uma condenada por quase vinte anos e enfrentara problemas com medicamentos para emagrecer que por pouco não a mataram. Encher sua cuca de mais desses lixos era a última coisa que precisava.

— Olha... Deixa pra lá — disse ela tentando conter a raiva. Entendia que não era fácil para o marido também. Explodir de novo com ele não levaria a nada. Era um tapado, mas tinha bom coração. — Só preciso ficar quieta. Minha cabeça está doendo. Amanhã pegamos o remédio, está bem?

— Sim! Vai ser a primeira coisa que farei, assim que sair cedo! Passo lá, pego, trago aqui e...

— Tá bom, Randy. Eu vou lá pro quarto.

Randolph sorriu, solícito.

— Podemos tentar uma técnica de respiração que vi outro dia num canal de yoga. Dizem que ajuda...

Mas o homem já falava com as costas dela. Joan podia estar se segurando, porém, mais uma frase de apoio a faria mesmo pular pela amurada do sétimo andar – ou lançar Randy lá para baixo.

Deitou-se. Dez minutos depois, ela acendeu o abajur sobre o criado. Virou-se para um lado, para o outro, daí desligou a luz. Tentou rezar.

Meu bom Deus, o Senhor e eu não temos nos entendido muito, sei bem disso, mas se é tão misericordioso como todo mundo fala, por favor, tire essas porcarias de minha mente.

Nada. Enquanto conversava com Deus, seu cérebro a zombava, fazendo flutuar diante dos olhos fechados um desfile de pessoas furadinhas como tampa de saleiro.

Quer saber, Senhor? Esqueça. Só me...

Então seu pensamento foi ficando mais lento, as palavras perdendo o sentido e as visões chocantes que a levavam ao mesmo tempo odiar e desejar dormir, foram desvanecendo.

Eu estou dormindo. Era estranha a maneira como Joan sabia ser uma ideia consciente e também onírica. É isso, garota... apenas... continue assim...

Ah, sensação maravilhosa! Joan se encontrava numa nuvem. Tudo no cosmo se resumia a ela e à maciez perfumada onde se esticava toda, igual a uma gata.

Bom Jesus; deixe-me aqui. Só por umas doze horas, por duas, uma que seja.

A nuvem era imaculadamente branca, como nos desenhos mais inocentes de uma criança feliz. Até que passou a um tom cinza, e sua fofura ao conforto precário de um colchão que precisa ser trocado. Conforme ela escurecia e ficava dura como o chão de uma cela, tudo ao redor era preenchido por trevas.

Foi aí que alguém disse:

— Alguns sugerem que a paralisia do sono é o mais perto que se pode chegar de uma experiência sobrenatural. — A voz que falava com Joan de algum lugar no breu que invadira seu sonho, por mais absurdo que soasse, era a de seu pai, falecido havia dez anos. — Outros vão mais longe e cogitam se não seriam de fato passagens para alguns seres adentrarem em nosso plano... Fascinante, não?

Bem, por que acharia difícil crer que seu pai também pudesse vir assombrá-la? Se parasse um pouco para pensar, estava imersa em um mar de insanidade por causa dele. Joan se tornara escritora para seguir seus passos, afinal.

— Não deveria ter me mostrado suas histórias, pai.

— Eu? — disse Edmund Clarence, saindo do vazio. Uma sombra em meio a um mundo de sombras. — Era você quem pedia para lê-las, não se lembra?

— Não. Thadd era o fanático por essas besteiras de monstros, deuses antigos e de horror-cósmico...

— Os dois eram — insistiu o velho. Seus contornos deixavam Joan nervosa. Não era seu pai ali, apenas algo tentando se passar por ele, tinha certeza. — Se não gostasse também, escreveria sobre o amor, um romance de época, talvez. Podia escrever esses tais "Hot" que vendem como água, em vez de viver atrás de coisas sinistras.

Que engraçado, pensou ela; se não me engano, quando morreu nem existia essa porcaria de termo. As pessoas ainda chamavam a coisa de histórias de sacanagem.

Então, pronto: o finado pai ali com ela no escuro era mesmo fruto de sua mente combalida. Ou isso ou o mundo espiritual vinha se mantendo bastante antenado nas tendências literárias.

— Sim... Posso ver. Você adora um bom terror.

Joan quis contestá-lo, mas notou que não tinha mais uma boca para fazê-lo. Tentou abri-la, rasgá-la em um grito, mas ou estava colada ou apenas sumira. Quis erguer os braços para tocá-la, mas eles não se moveram.

Como se o piso de vazio pesadelar debaixo de Joan tivesse ganhado vida, sentiu seu corpo se mover contra sua vontade, levado para a escuridão por uma esteira que era o próprio mundo deslizando.

Formas que parodiavam seu pai passavam como borrões agora, ela se debatia igual alguém costurado dentro de um saco de farinha, e tentava gritar e berrar.

— Não devia ter-nos deixado entrar, querida — disse a coisa-pai, com carinho na voz. — Seu irmão ficará tão feliz em vê-la de novo, mas eu não aprovo.

E de onde ele está vindo? Até onde Joan sabia, Thaddaeus havia desaparecido; não ido até a sorveteria. De acordo com o que um de seus colegas lhe contara, seu irmão estava morto, embora ninguém pudesse prová-lo. Não há morte quando não há corpo, e o de Thadd jamais seria encontrado.

O tal segurança do monitoramento de câmeras do Providence Royal Mall, o que alegara num sussurro de quem já não regulava mais tão bem das ideias (nem tudo para a polícia, mas com detalhes para ela, por querer que soubesse a verdade) tê-lo visto “do outro lado”, dissera que Thadd jazia agora em um mundo além do alcance.

Tolice.

“Um lobo gigante o comeu”, dissera-lhe. “Ele morreu como um herói, Joan.”

Loucura. Pura loucura.

Era mais provável que algum desafeto dos tempos em que fora leão de chácara junto do colega maluco, o tivesse achado, matado e jogado seu corpo amarrado a um pedregulho no fundo do rio Seekonk.

Isso, claro, se o próprio Lester não o tivesse assassinado. A hipótese fora investigada à época. Ninguém em sã consciência queria acreditar na história sem cabimento que ele contara. Só não havia sido preso porque uma garota (Joan não fazia questão de lembrar o nome dela há tempos, apenas que era do sul) tão transtornada quanto o guarda de vigilância, fora sua testemunha e a polícia não conseguira outra explicação para os fatos.

Lester... Tinha demorado a tirar o nome do cara da cabeça, e agora, lá estava ele de novo, e Thadd – que ela recusava a aceitar como morto, muitas vezes se iludindo com devaneios de que o irmão apenas juntara alguns panos de bunda e caíra no mundo. E havia também seu pai, a porra do pai.

Só mesmo sua maldita paralisia do sono para fazê-la voltar a uma lembrança tão louca assim. Tinha quase um ano que tentava esquecer Thadd. Doía muito.

No entanto, e se fosse mais que isso? E se tivesse pensado tanto em coisas tão terríveis, que algo a ouvira?

Um relance do que seria seu pai agora e como a visão completa a deixaria insana caso ele decidisse sair das sombras, passou por sua mente. E ia muito além... Via ao irmão, nem vivo nem morto, uma aparição semi-devorada que vinha lhe contar com entusiasmo sobre mundos proibidos bem à vista, mas ainda assim, invisíveis.

— Você é escrava do que pensa — disse Edmund Clarence, agora um eco de dez mil vozes no vazio. — E isso, minha pequena Joan, sempre irá causar desgraças. Veja o que fez... Pode não nos desejar, mas nos convidou e abriu a porta, e agora vamos entrar. Todos nós iremos.

Thadd vai ficar exatamente onde estiver! Você também, pai. E pode dizer para qualquer um dar o fora daqui, porra!

O imperativo saíra apenas em pensamento, mas a legião de coisas-pai pareceu ouvi-la, pois passaram a sumir, uma a uma. Logo Joan estava novamente em sua cama, de olhos arregalados no escuro e sentindo poder respirar pela boca.

— Bosta... de... paralisia.

Era culpa de Randy! Precisava ter feito só uma coisinha sem cagar em tudo, e ela estaria no décimo sono agora, nocauteada feito um boxeador na lona. Idiota!

Então, como se conjurado por suas imprecações, a mão do marido pousou leve em seu ombro.

Será que gritei durante...?

Joan usava uma camisola de alcinha e aqueles dedinhos cheios de castidade de Randolph corriam por seu braço. Não era possível que ele estivesse pensando em sexo. Quer dizer que ela despertava de uma quimera envolvendo seu pai morto e o irmão desaparecido, e o griteiro que devia ter aprontado, pusera o soldadinho de Randy em prontidão?

A ideia era grotesca, e o coice que daria nele se fosse isso, deixaria um hematoma. Sim, o sacaninha poderia apostar!

Porém aquilo não lembrava em nada a mão de Randy; era macia demais. Joan se contraiu e, se pudesse ter se mexido, teria virado um tatu-bola. Mas não podia.

A boca, notou, sumira outra vez. Estava dormindo ainda – ou achava estar...

Um pesadelo dentro de outro, pensou, e começou a imaginar coisas medonhas quanto àquele resvalar suave de mão.

Bem, não precisara exercitar sua mente febril por muito tempo. No lugar de um correr de dedos, a mão se fechou próximo ao seu cotovelo, e era enorme – quase duas das do marido. Além disso, Randy teria de ter saído direto do chuveiro para a cama, em um acesso de luxúria nunca visto, para ter um toque molhado e pegajoso como...

Randolph?

Silêncio. Não que Joan estivesse surpresa: se fosse mesmo Randy, no mundo real, como ela achava que ele conseguiria ler seus pensamentos?

Pare agora com isso, Randolph!, Joan insistiu. Não existia mais porra nenhuma de mundo real. Desta vez, mergulhara tão fundo que agora só haveria os abismos do terror e da loucura.

A mão não era somente úmida e fria, mas também horrivelmente errada, como as que ela vira na internet. Joan sentia a ausência de carne em cada furinho daquela pele. Eram os buraquinhos, os desgraçados dos furos que a vinham empurrando ao limite, eram eles que causavam a repugnante sensação de sucção, de ventosas de polvo roçando-lhe o braço. O que estivesse ali com ela estava doente.

Você está doente, Joan.

Tentou mover o braço esquerdo para alcançar o celular, mas não pôde; ele era feito de concreto agora, ou pesava tanto quanto um. E havia outro ponto... Teria ela a coragem necessária para acender a lanterna de LED e iluminar o que se aninhava ali?

Com muito custo, Joan expulsou a possibilidade de tudo ser mais que um sonho... Rá! Sonho. Essa era boa! Aquele seria o pior pesadelo que alguém já tivera! Joan não desejava algo assim nem para Hitler, se o maníaco ainda vivesse; nem para Satã nas profundezas do inferno!

Você não está aí, projetou com a mente. É a merda de uma fobia que vou tratar; só isso. Juro que vou ligar para um psiquiatra assim que sair dessa.

Mas para um sonho, a respiração da coisa parecia verdadeira demais. Senti-la em sua nuca era como devia ser o sopro através dos lábios um cadáver. E por que não? O que fosse aquilo ali, estava para lá de morto.

Aos poucos a paralisia de Joan ia se abrandando e, com toda a força da mente, ela podia mover outra vez alguns músculos. Poucos, era verdade, nada que conseguiria livrá-la da aberração obscena que a tocava, mas seria bom acender o celular. Já não achava mais que veria algo se o fizesse.

Porque está tudo na minha cabeça.

No entanto, o braço que primeiro a obedecia era o direito. Decidida a vencer a insanidade, Joan virou o corpo um tantinho e levou a mão formigante até a companhia cheia de buracos ao seu lado.

Um de seus dedos passaram direto pelo que talvez fosse o ombro nu da coisa e entrou num dos furos. O respirar sôfrego da tripofobia era repelente; o ar saía como se por dez narinas e espirrava nela riscos de muco. Encontrou mais da nojeira no fundo do buraco, tirou a mão num tremor lento e, em vez de afastá-la, obrigou-se a voltar a explorar.

Cócegas percorriam suas costas de cima a baixo. Joan tateou a carcaça que desprendia o odor almiscarado da morte até que lhe achou a cabeça. Oh, bom Deus, em que mundo aquilo tinha recebido permissão para existir?

Joan se engasgava com a própria saliva, seu nariz estava entupido e era com estar sendo afogada num cocho de lavagem. Firmou a mão e estudou o odioso bulbo repleto de furos.

Sentiu dentes por baixo da pele de sapo quando passou os dedos por onde teria de haver uma boca, e se desesperou, tossindo para dentro, ao encontrar as órbitas dos olhos da verminosidade sem nada mais que aquele muco.

— Precisa acordar, Joan — disse a tripofobia, tentando acalmá-la. A coisa tinha a voz pachorrenta de Randy? Sim... Ela apostaria todos os calmantes do mundo naquilo. Era seu marido. — Escute-me, por favor!

Eu quero acordar! Eu quero!, pensou ela no silêncio de sua agonia. Se eu ao menos puder...

— Ah, querida... — Agora quem voltava a falar era seu pai. Estava ali também, vendo-a enlouquecer? — Você está muito além dos sonhos, e eles a ouviram. Eu a ouvi e, quanto a mim, não tem com que se preocupar, mas eles a querem. Amam seu medo.

— Jô...

Havia somente uma pessoa que a chamava assim e, por mais que ela tenha desejado vê-lo novamente, agora o horror de ouvir sua voz (ou o muxoxo ao qual regredira) a deixava aturdida.

Vá embora, Thadd. Por favor! Não você. Eu imploro, não você!

— Vamoch podeeer ficar juntooos, Jô. Eles só queeerem um pequeno xacrifixiooo...

O braço esquerdo dormente, agora era dela de novo. Joan o lançou de qualquer jeito sobre o criado, até sentir o celular. Pescou o com as varetas secas que eram seus dedos e o sacudiu para que a tela acendesse.

A luz faria tudo ficar bem de novo. Seu pai não estaria ali, Thaddaeus também não e, fosse o que fosse a tocando, iria desaparecer.

Antes de mirar a companhia na cama (Randy? Deus permitisse que fosse aquele paspalhão de coração mole! Apesar de tudo, o amava.), entretanto, outra coisa chamou sua atenção...

Uma mensagem era exibida na tela de bloqueio.

"Não quero correr o risco de te acordar, querida.

Se não me encontrar na cama, volte a descansar:

Estarei no quarto de visitas. Amo você."

Joan — disse a tripofobia. A voz era de Randy, mas ao mesmo tempo não era; não passava de um ciciar oco de um velho carrilhão de vento. — Está tudo bem. Eu estou aqui.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Joan quando ela ativou a luz branca do aparelho e viu o que a acariciava. Vermes caíam da face arruinada, rolavam para junto dela e Joan começava a sentir pequenas picadas.

— Está tudo bem — repetiu a carne viva que a tornaria parte de si. — Não vai demorar agora.

O telefone caiu de sua mão, deixando-a no escuro com seu horror. A pele da boca de Joan enfim se rompeu numa histeria de gritos (ou talvez ela pensasse estar gritando) e ela desejou simplesmente morrer. Só que não seria tão fácil assim.

Houve um último pensamento coerente antes de despencar pelo abismo: se não seria tudo parte de um último sonho. Alguns dizem que a vida passa diante dos olhos daqueles prestes a cruzar para o outro lado, mas podia ser que fosse algo mais insidioso; visões do que estaria por vir...

Não tinha mais importância. Se não sonhava, seria comida viva, ou então, o horror daquele momento a fulminaria e a morte viria da mesma forma.

Se gritou ou não, foi por pouco tempo; os vermes logo encontraram sua garganta. O restante da noite ela passaria muda, e, se Randy, por acaso, encostasse o ouvido na porta, poderia pensar que sua Joan, graças a Deus, havia conseguido dormir em paz.

4 de Outubro de 2022 às 20:16 67 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Wesley Deniel Meu nome é Wesley Deniel, e tenho uma mente cheia de fantasmas. Pelos últimos 20 anos eu tenho vagado pelos recônditos mais escuros deste e de infinitos outros mundos e trazido desses lugares de insondáveis terrores os pesadelos que compõe minhas obras. Embora escreva todos os gêneros e esteja aberto a qualquer desafio, é no horror e no terror que permito que alguns desses fantasmas ganhem força o bastante para atravessar para o nosso mundo.

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Rogério Augusto Rogério Augusto
Colega, isso foi uma das coisas mais perturbadoras que li em nem sei quanto tempo!!! Eu tinha paralisia do sono e era terrível, mas nunca chegou nem perto disso! Medo de voltar a ter e ver algo assim! Muito obrigado pelos possíveis novos pesadelos kkkkkkkkkkk
Isabel Nogueira Isabel Nogueira
Fui mais uma que leu antes de dormir rsrsrsrs Azar o meu agora! 😂 Adorei Wesley!
March 31, 2024, 09:00
Henry Gouveia Neto Henry Gouveia Neto
Meu camarada, isso foi perturbador. Adorei!!!!
March 20, 2024, 04:49
Neon Star Neon Star
Varei a noite lendo e agora vou dormir com essa história na cabeça!! 😨😨😨😄😄😄
March 14, 2024, 11:08
Liliam Castro Bittencourt Liliam Castro Bittencourt
Caraca, cara! Manja de fazer chorar e de causar medo, pânico!!! Tá, a capa bem tentou me avisar rsrsrsrs mas tá valendo, foi uma história muito boa!!! Acho que ganhou uma fã rsrsrsrs
February 29, 2024, 11:37
Vanessa Corrêa Silva Vanessa Corrêa Silva
Quero ver eu dormir em paz depois disso! rsrsrs Ótimo conto! Nitidamente detalhado pra tirar o sono de qualquer um pra sempre rsrsrsrs
February 29, 2024, 08:42
Odair Justino Silva Odair Justino Silva
E bem quando eu achava que pouca coisa hoje podia tirar minha fome ou meu sono, conheço as tuas histórias e vejo que estava enganado!!! Perfeita Wesley!! Pesadelo puro!
February 05, 2024, 10:00
Denis Sakamoto Denis Sakamoto
Jesus amado, você sabe pegar pesado quando quer Wesley huahuahuahua Agora estou aqui com nojo de pensar em comida e medo de dormir!! Mas mandou bem pra caramba! Baita terror de fazer rir e querer vomitar! Por essas e outras que já me considero teu fã!
February 04, 2024, 08:28
Ivone Pereira da Assunção Ivone Pereira da Assunção
Cruzes Wesley! Nunca mais vou dormir de novo! 😂😂😂
February 03, 2024, 08:04
Samuel A. Palmeira Samuel A. Palmeira
Meu amigo, vc demonstra maestria na arte da escrita, cativando o leitor desde as primeiras linhas. A história é muito envolvente, e o estilo narrativo é impressionante, com descrições vívidas e um domínio dos eventos que mantém o leitor ansioso por mais.
January 21, 2024, 03:11

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Samuel ! Que bom ver você em meu humilde calabouço dos horrores ! É uma honra saber que gostou de minha escrita e passou a seguir as obras ! Ah, se todos soubessem como é importante e aquece a alma de um autor ou autora receber feedbacks, o verdadeiro apoio e atenção, algo que não leva, às vezes, mais que um ou dois minutos (mas que, infelizmente, apenas um ou dois à cada mil leituras - pois é, é lastimável – se importa em fazer), haveria mais interações como você, tão gentilmente faz. Espero que conheça mais de minhas obras e também, como jamais gostaria de alcançar o topo sozinho, conheça também as incríveis histórias de gente talentosíssima, como o Le Loustic Hop, o Marcelo Farnési, o Giovanni Turim, a Amanda Kraft, o Jaime Maciel (narrador fantástico do canal de áudio-contos "Domínio Público Áudio-livros" – onde inclusive tenho uma novela narrada) e que se divirta muito ! Adoro conversar com todos vocês. Sem vocês, o escritor não existe. Muito obrigado ! 🙏🏻 January 21, 2024, 05:19
Hugo Gimenez Herrera Hugo Gimenez Herrera
¡Qué agonía! Perdí el hambre, el sueño y el valor para dormir huehuehuehue
January 16, 2024, 03:13
Álvares de Oliveira Álvares de Oliveira
Ora que estou a cá nervoso rsrsrsrs ia traçar um sandes mas foi-se a fome. Fiquei foi abiscoitado com tua noveleta. Escreves muito bem, fixe mesmo!!
January 07, 2024, 08:12
Juliete Paiva Juliete Paiva
Q horooooor!!! Adorei ❤️ Conta mais!!!
September 13, 2023, 09:28
Maria José Gal Maria José Gal
Misericórdia, Wesley 😄 Eu tive algumas vezes quando era mais nova mas nada nem perto disso! Senão tinha morrido também rsrsrsrsrs Parabéns!!!!!
September 07, 2023, 01:10
Walter Fagundes Walter Fagundes
Valha-me Deus Wesley!! Perdi a vontade do lanchinho que ia fazer e também a "paz" de dormir. Kkkkkkkkkk Mais valeu!!! Tá de parabéns!!
September 01, 2023, 07:42
Vicente Trindade Almeida Vicente Trindade Almeida
Agora é tenta esquecer isso até a hora do almoço kkkkkkkkkk Parabéns!!!!
August 29, 2023, 07:19
Le Loustic Hop Le Loustic Hop
Grande mestre Deniel-San, que CONTO. Que história sensacional. Que domínio dos eventos, da linguagem; as descrições impressionantes misturadas aos fluxos de consciência são demais. Cara, você é um mestre mesmo. Ahaha normalmente não me sinto aflito com uma história, mas na parte das descrições do que a Joan viu na internet, principalmente perto do final da consulta dela, meu amigo... Heheheh que nervoso! Você é de fato merecedor de todos os elogios que lhe fazem, de todos os tributos que lhe prestam, Deniel. Parabéns, cara. Eu sou seu fã. Parabéns mil vezes!
August 17, 2023, 01:02
Donovan Carneiro Freitas Donovan Carneiro Freitas
Pelamor, que sufoco rsrsrsrsrs Agora tô rindo, mais me borrei todo 😂😂😂 Parabéns!!!!!
August 01, 2023, 06:53
Rebeca 2003 Rebeca 2003
Agora q jeito eu durmo??!! rsrsrsrs Muito boa!!!
July 27, 2023, 06:54
Miguxinha Dark Miguxinha Dark
Que é isso..... Por que fui ler essa história agora de madrugada!! 😭 Agora é rezar kkkkkkkkk Mas sério, parabéns!!!
July 23, 2023, 06:42
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