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Um relato de viagem

Devido à consistência perpeita da neve nas pistas para a prática de esqui, todos os hotéis de St. Moritz, incluindo o famoso Carlton, estavam lotados. Dirigimos noite adentro em busca de pouso nas cercanias, e nada. Exaustos, já havíamos cruzado a fronteira da Suíça com a Itália, quando entramos em Tirano.

Fomos batendo de portaria em portaria e, somente quando a última esperança parecia agonizar, o recepcionista de um hotelzinho nos indicou uma pousada num cafundó da cidade. Ensinou-nos o caminho, e lá fomos nós.

Já madrugada, os faróis do carro nos mostraram um casarão antigo e anunciaram ao rechonchudo proprietário a nossa chegada. Porta afora, veio em nossa direção para indicar a única vaga onde estacionar.

Simpático, gentil, quase saltitante de alegria, convidou-nos para entrar.

Não havia recepção. Era um salão que tinha à vista uma espécie de armazém que também era um tipo de lanchonete. Ao fundo, uma mesa enorme, ao longo de quase toda a extensão da parede. E por trás de uma armário imenso, que dividia os ambientes, as mesas do que seria um restaurante.

Não sabíamos se estávamos famintos ou mortos de cansaço, mas, mesmo tronchos, combinamos dois quartos e o preço do pernoite.

Levou-nos escada acima para conhecermos as acomodações. Simplérrimas.

Cada quarto continha duas camas de ferro (talvez do tempo da Guerra), um aquecedor a gás (que deu três estouros antes de acender, e logo imaginamos que, caso apagasse durante o nosso sono, dormiríamos eternidade afora), cortinas baratas e roupa de cama muito bem esticada. Esticadíssima.

Mostrou-nos os dois banheiros, do andar, digamos, xexelentos.

Já no corredor, cruzamos com o único hóspede naquela noite. Não tivemos dúvidas de que se tratava de ninguém mais, ninguém menos do que Nosferatu.

Enquanto os quartos aqueciam

ao sabor das pequenas labaredas, convenceu-nos a jantar, embora àquela altura sanduíches nos satisfizessem.

Vapt-vupt, e nossos pedidos vieram fumegantes da cozinha. Um lauto jantar saboroso, com tudo o que tínhamos direito, vinho e sobremesa.

Satisfeitos -- grazie, grazie! --, demos buona notte e fomos recolher-nos.

Digo por mim: entrar debaixo das cobertas foi uma operação árdua, quase extenuante. Enfim, consegui meter-me, mas juro que lençol e cobertores não cederam mais do que alguns milímetros. Como não sei dormir de barriga para cima, encarei outra luta para conseguir deitar-me de lado. Obtive êxito, embora tenha girado apenas dentro do meu pijama. Não adormeci. Desmaiei.

Na manhã seguinte, acordamos sãos e salvos.

Fomos recebidos com entusiasmo por papà e mamma. Aguardava-nos um desjejum supimpa.

Passamos o dia a passear por Tirano, que se revelou uma cidadezinha muito bacana, muito agradável.

Pretendíamos voltar à pousada, ajeitar a bagagem e partir, mas o italiano não admitiu que viajássemos sem almoçar. Valeu muito a pena ceder à insistência dele.

O tal mesão, aos poucos, foi recebendo toda a parentela do sujeito. Nonnos e nonnas matusalênicos, a digníssima signora, filhos e filhas, genros e noras, crianças de todas as idades, meia dúzia de bebês, agregados. Em cerca de uma hora, tutta la famiglia -- gente pra caramba!

Comida à beça, vinho a balde. Tudo, partilhado conosco, na nossa mesa de quatro lugares.

Falaram alto, contando casos, deram gargalhadas; quando o vinho cumpriu a sua função, cantaram, alguns partícipes dançaram.

Foram momentos únicos de confraternização, de leveza, de pura felicidade.

Quando chegou a hora de irmos embora, já éramos parte da família. Dezenas de abraços, dezenas de beijos, afagos carinhosos. "Brasiliani, voltem! Voltem sempre!"

Digo por mim: não trocaria a italiana Tirano pela suíça St. Moritz, com o chique Carlton Hotel, esquiadores elegantes e tudo o mais. Não trocaria mesmo.


25 de Julho de 2022 às 13:54 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lira Pavlova Escrevo para espantar demônios. Uma russa de coração brasileiro. Poliglota. #LGBTQIANP+ 🌈

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