ladysiph Siph Ferreira

O imperador em seu distante planeta observa a vida humana.


Conto Todo o público.

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Sentando em seu trono, o imperador dourado observava a vida num planeta muito distante, com um gesto aproximava as imagens, apreciando calmamente os detalhes daqueles povos um pouco diferentes do seu, há centenas de anos viviam em uma paz um pouco entediante até mas que os consevara seguros, ocupados e prósperas várias camadas de sua sociedade. Aqueles que não eram abençoados com a fortuna podiam buscar formas de ascender seja com estudos pagos e promovidos pelo imperador e suas instituições ou na carreira militar, o império pacífico e opulento necessitava de proteção, quer por sua tecnologia e ciência avançada, ou por seu numeroso e hábil contingente, distribuído pelos 3 planetas. O imperador já passava dos seus 100 anos, ainda não se dispunha a constituir uma família ou demonstrava o mínimo interesse em fazê - lo, seja qual fosse seu molde.

- A vida de monarca é ocupada demais. Era o que respondia a seus ministros e conselheiros quando mesmo em uma brincadeira o indagaram de sua pretensa e silenciosa solidão.

Seus familiares estavam em viagem pelo cosmo, buscavam conhecer outras culturas e planetas, modelos de governo e saberes diversos para enriquecer sua terra natal com o conhecimento de muitas manifestações da vida e da ordem. Não apreciam culturas que extrapolam no uso das forças bélicas ou não conseguem manter preservados seus recursos naturais, a troca com esses povos não seria equivalente e geraria conflitos desnecessários, muitas vezes se compadeciam deles, em seus discretos contatos fora do protocolo imperial forneciam soluções de problemas seculares, cura para doenças e até algum conforto de que não estavam sozinhos naqueles recantos do universo. Expandir a consciência e capacidades dependia exclusivamente do compromisso com o bem estar de seus irmãos, se houvesse isso, certamente os dourados e seus semelhantes mais aventureiros entravam em contato com exemplares daquela civilização, de um modo simples, confortável e deveras gentil sem levar nenhum prejuízo ou medo. Tinham o cuidado de não revelar inteiramente a localização de Haja, preservar os seus entes e seu povo era uma lei que regia até os mais nobres.



O imperador tinha sido educado desde a tenra idade para assumir o poder quando chegasse o tempo de exploração, tradicionalmente a família imperial passava o comando ao primogênito e traçava os planos para explorar, ficavam em Haja nos primeiros anos de governo e se o herdeiro ou herdeira imperial se provasse justa e digna eles partiam deixando o comando total para ele. Estabeleciam comunicações periódicas e instrutivas mas a viagem e o governo seguiam suas próprias circunstâncias.


A noite chegava trazendo ventos frios, protegido em seu quarto, o imperador meditava olhando as estrelas, embalado por uma música alegre e distante que vinha dos pátios do palácio, as altas janelas de cristal durante o dia captava a luz solar armazenando sua energia e transformando para que todo o palácio fosse auto suficiente, luz era seu combustível mas havia setores dos planetas que usavam energia eólica e nuclear, que apesar de rudimentar aos olhos dos hajastanes era barata, e sustentava o império nos invernos mais rigorosos.

Os satélites naturais e artificiais que compunham o império tinham funções específicas que mantinham a existência harmônica e equilibrada com o cosmo e a natureza. Kitai o planeta verde e sua natureza exuberante, naturalmente rico e preservado com vida animal e vegetal, Haja a estrela mãe, planeta do conhecimento, das bibliotecas e minérios preciosos, fornecia toda estrutura material e científica do império, Naran o protetor cujo tamanho excedia em 10 vezes Haja, Kitai e seus satélites, abrigava os exércitos e tecnologias de exploração e proteção, os jovens em treinamento, os mestres e os sacerdotes da Kaimé, deusa do conhecimento, guerra e amor. As forças equilibradas e dispostas faziam de Haja um verdadeiro paraíso que só figurava em nossos sonhos.


Sempre antes de dormir Kaysar pensava nos problemas do governo, como solucionar as questões pendentes, como manter a paz e sustento do seu povo, a responsabilidade era imensa mesmo dividida com ministros, conselheiros leais e comprometidos, mas ultimamente sentia um certo incômodo, subia ao seu quarto todas as noites, afastava as cortinas de gaze de seda transparente e ficava diante das estrelas, mesmo sob todo conforto e beleza seu coração se inquietava. Nessas horas corria os olhos pelas telas projetoras e via um planeta distante, esse o fascinava deveras, sua fauna, flora, habitantes o deixavam bastante curioso, por vezes lhe pareciam hostis mas ainda assim não perdiam a beleza natural que tinham. Suas cores, arte, música o modo como se expressavam deixava Kaysar hipnotizado, parecia voltar aos primeiros anos de sua existência quando contemplava aqueles seres.

As vezes ansioso por conhecer mais deles passava horas na biblioteca do palácio ou observando os registros nas telas projetoras, a história deles, o modo como se desenvolviam o interessava cada dia mais, quando chegasse o seu tempo de explorar era para lá que iria. A madrugada em Haja avançava devagar enquanto seu primeiro zelador se distraia em devaneios com uma galáxia imensamente distante.

Concentrado na observação Kaysar não via o tempo passar até ter projetada em sua frente uma mulher.

Fisicamente era completamente diferente das hajastanes, mas de uma beleza descomunal. A principal diferença entre aqueles a que se chamavam humanos eram as habilidades natas, velocidade, força, inteligência e até voo eram comuns aos filhos de Kitai, os humanos dependiam de várias máquinas, combustíveis, redes de comunicação para ter uma vida minimamente digna mas seu planeta estava doente, vinha a olhos vistos definhando. No rosto daquela mulher havia tudo que ele por anos contemplara e ainda assim conseguia ser única, se destacar, emanar algo que a milhares de anos luz era captado e percebido por ele.


Estava sozinha, encostada em uma parede, com algo que não lhe permitia ouvir os arredores e prestando atenção a uma pequena tela luminosa que estava em suas mãos, parecia esperar algo, mas não havia enfado em sua postura, sua inquietude era repleta de gestos harmoniosos que lhe emprestavam um ar quase onírico, de quando em quando até sorria, algo a divertia, era perceptível. Um transportador chegara, ela circundou o veículo e entrou seguindo o seu caminho.


- Adara, salve os últimos 5 min dessa projeção, eu preciso descobrir tudo que puder sobre ela.

Adara é a inteligência artificial e particular do imperador, respondeu positivamente a Kaysar e salvou as imagens da mulher.

- Está feito senhor, se quiser posso fazer uma varredura para que o senhor tenha todas as informações disponíveis sobre ela, seus familiares e possíveis descendentes.

- Não, eu quero fazer isso pessoalmente.

Pela primeira vez em muitos anos Kaysar sorriu, sentiu a face se aquecer, o peito estava aos saltos, precisava e desejava mais do que tudo vê - la novamente.




23 de Julho de 2022 às 22:43 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

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