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Passeando pelo centro de São Paulo resolvi ir no sebo do Messias procurar uns livros diferentes para minha coleção, sábados servem pra isso, curtir o cinza da cidade e uma carga de nostalgia que as vezes nem eu dou conta.

Coloquei os fones, cumprimentei o pessoal e fui entrando, não estava ouvindo nada, era só pra afastar os curiosos que de vez em quando me abordam pra falar qualquer coisa.



O sebo tem aquela cara de palácio antigo, a maioria dos detalhes de piso, alguns azulejos, pedra e madeira esculpidas foram mantidas mesmo depois das 2 grandes reformas, os produtos começavam por música, filmes, revistas distribuídos em gôndolas, prateleiras de metal, bancadas e estantes, dei uma rápida olhada e vi que tinha chegado discos novos, prometi voltar e ver com calma depois, segui pra o salão dos livros, sempre tinha aqueles que eu sonhava mas eram extremamente caros para mim naquele momento, tinha acabado de me estabelecer na cidade, trabalhei 16 horas por dia durante 2 anos para poder comprar um apartamento, e consegui o lar dos meus sonhos, decorei, equipei com cada móvel e objeto que desejei, sim, sou vaidosa a esse ponto.

Se for pra viver que seja com o melhor que puder.


Caminhei um pouco pelas estantes, olhando aquelas maravilhas de décadas passadas, as enormes estantes apinhadas de livros raros, antigos, bonitos, bons, ruins mas todos com aquele cheiro de passado, de velhice, de respeitosa antiguidade.

Distraída, encantada com aqueles volumes enormes, capas coloridas, lombadas trabalhadas esqueci do tempo até que em uma prateleira lá no alto um volume único da primeira antologia de contos de Edgar Allan Poe, tinha pelo menos uns 60 anos, esse eu ia levar comigo, mas naquela altura como conseguiria chegar até ele? Não alcançava nem pulando, amaldiçoei minha estatura de moleca e procurei algo para subir, a poltrona mais próxima iria fazer um barulho enorme se fosse arrastada, não quis arriscar, olhei com cuidado e fui afastando alguns volumes, colocando um pouco pra trás, pro lado, afastei alguns até o limite e subi devagar na estante, tinha que ser rápida, apanhar e ir descendo para não causar um acidente a la filme da Múmia dos anos 2.000. Que lembrança boba daquele filme, mas como eu amava. Minha orientação sexual é aquele elenco. Quando finalmente alcancei a prateleira puxei devagar o livro, com muito cuidado, quase sem respirar fui trazendo ele pra mim. Peguei com uma só mão e trouxe para junto do peito, foi quando ouvi uma voz um tanto familiar atrás de mim.


- Era só pedir que eu pegava.


Achei que estava sonhando mas o perfume me fez ter certeza que não; senti seu braço passar por minha cintura e puxar pra ele, quando estava perto seus lábios roçaram minha nuca então, ele me colocou no chão.


Me virei e ele estava ali,

o Mago.


Fazia tempo que tinhamos nos encontrado, ele continuava belíssimo, extremamente forte, a rotina da academia era a mesma presumi, mas os cabelos não existiam mais, ficou completamente careca, sobrando a barba castanha clara quase dourada e aquele bigode farto sempre bem aparado e charmoso. Me demorei tanto naquela contemplação que ele pegou o livro da minha mão e sorriu, como senti falta daquele sorriso.

- Isso deve estar pesado.

- É, perai, como você me achou aqui?

- Você esquece que eu sempre sei onde você está.

- Quando você voltou ao Brasil?

- Cheguei essa semana.

- E não me avisou porque?

- Quis te surpreender.

- Ahh, sim, conseguiu.

Falei com o rosto queimando de vergonha e o coração aos saltos, tive que me controlar pra não abraça-lo mas ele não quis saber e me agarrou de novo, me apertou com tanta força que achei que ia me quebrar uma costela ou duas. Aquele abraço era minha casa nesse mundo, eu sempre soube, mas nesse momento eu tremia tanto que nem reagi direito, só o abracei de volta. Quando ele me largou, abaixou e sussurrou nosso mantra me olhando com uma cara muito engraçada depois, ele achou que eu não ia lembrar, mas lembrei. Afinal fui eu quem o escreveu.


"Acima das montanhas, os ventos mais frescos, sob sol dourado, eu voltarei para você, das águas mais profundas, com a terra nos meus sapatos que a estrada me leve de volta ao fogo da minha alma, estrela mais amada e meu coração, eu voltarei para você"



- Vamos comer algo, precisamos conversar.

- E pagar o livro.

- Ahh sim, o livro.


Passamos no caixa, pelo que vi ele já tinha escolhido algo antes e só adicionou o meu livro no pedido, quando puxei a carteira para pegar o cartão ele só fez um movimento pedindo pra guardar e dizendo que era presente, o atendente olhou pra nós e perguntou quando começamos namorar. Antes que eu abrisse a boca ele respondeu: - faz muito tempo.


Meu coração acelerou novamente e continuei muda. Parecia que nunca tinha o visto, nem tocado, nada, aquele momento foi dos mais surreais que vivi em todo tempo que já nos conhecíamos. Ele me entregou a sacola e saímos andando em silêncio lado a lado.



- Meu carro está aqui perto, vamos até lá, esse livro não tá pesado mesmo, tem certeza?

- Não, tudo bem. Mas é o seguinte, nós vamos pra minha casa, não vou pedir comida pronta, vou fazer algo para nós.

- Combinado.

Andamos mais uns 10 minutos, ele ainda estava com a Renegade vermelha, impecável como sempre foi, abriu a porta pra mim e esperou eu entrar, fechou e me olhou por uns 2 minutos sem desviar o olhar sabia que eu não iria baixar o rosto, finalmente estavamos sozinhos.


- Você continua linda,

e rabuda sô.

Eu ri de chorar com aquela, e seguimos para o meu apartamento.



16 de Julho de 2022 às 02:38 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

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