liralov Lira Pavlova

Você tem medo de quê?


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Medo
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Você tem medo de quê?


Eu tenho medo de tudo. Não tenho pânico de nada. Eu tenho medo de tudo. Medo de morrer, de ficar doente. Medo de acidente, de ser traída, medo da injustiça. Eu tenho tanto medo de injustiça que se o jogo estiver zero a zero e o outro time estiver jogando melhor, eu começo a torcer pelo outro time só pro resultado não ser injusto.

Você tem medo de que? Que pergunta é essa. Eu tenho medo de tudo. Medo de barata, de gente ignorante, de gente burra também, violenta, de gente insegura morro de medo. Gente histérica também me dá medo. Eu tenho medo. Muito. O tempo todo. Tenho medo de levar uma bronca da minha mãe, do olhar enviesado do meu pai, do meu irmão me bater, até hoje!

Do beliscão da professora. Morro de medo de não ter dinheiro no final do mês. De me sentir roubada. E quando o telefone toca lá em casa tenho certeza que é notícia ruim. Eu tenho medo. Da porta bater, de ficar presa no elevador, do carro enguiçar, de ter esquecido a carteira em casa e ter que voltar, eu tenho medo de mim. Medo de olhar pra dentro e ver coisas que não vou gostar, medo de que meus filhos não gostem de mim, que meu chefe não goste de mim, medo de descobrir alguma coisa que desgoste em mim, de ter feito alguma coisa errada, de desapontar meus pais, de ter magoado alguém. Nossa. É muito medo.

Morro de medo de errar o português, o plural, de dizer “pra mim fazer?”, de descobrirem que não sei inglês, de ser chamada a atenção, medo que não vai ter vaga, do ônibus estar cheio, do trem atrasar. Acordo todos os dias com medo do que me vem pela frente, com medo do que fiz pra trás, com medo de crescer, de não crescer, acordo todo dia com medo de já estar atrasada, de ser assaltada, de levar um tiro, de pegar sol, de sentir frio, de câncer de pele, de osteoporose, de ficar diabética, de ser muito estupida, de falhar no sexo, de ser muito rápida, de passar por debaixo da escada, do escuro, do desconhecido. Morro de medo de me relacionar, de falar em público, de descobrirem em mim uma gordurinha a mais, de não conseguir acordar, de não conseguir dormir, de não dar tempo, de cair da escada, de quebrar minha unha, de me emocionar demais, de pisar no cocô, de escolher, de me machucar, de levar um tombo, de andar de avião, de não poder ser mãe, de ter um filho doente, é muito medo, o tempo todo, o dia todo. Impressionante como eu tenho medo de tudo: de ser mandada embora, de cometer um erro, um medo danado de sentir medo. De bala perdida, de virar mendiga, de uma hora pra outra, de dormir sozinha, de acumular dívidas, de precisar de um médico e não ter como pagar, medo de ficar louca, de pirar e nunca mais voltar, de descobrirem meus defeitos. De ser pega na mentira, de ficar sozinha, de pegar chuva, de despentear meu cabelo, amassar minha roupa, de estar malvestida, de engravidar sem querer, de não ser correspondida, de transar sem camisinha, de perder o trem, o avião, o bonde, a van, medo, medo, medo, medo.

Medo de tempestade, de trovão, de raio, de altura, eu tenho tanto medo que se eu fosse aquele gráfico bolinha era cem por cento medo. Eu morro de medo de ser sacaneada. Pela vida, pelo outro, pelo meu cachorro. É medo de parar de existir, de uma hora para outra, medo do mundo se acabar, de uma hora para outra, de cobra, sapo, aranha, tubarão, mosquito, de perder um braço, uma perna, um olho, de grito, de cair um galho na minha cabeça, a marquise, o céu, o medo é minha maior companhia.

Sem falar no medo do ridículo. Meu Deus, como eu tenho medo do ridículo. De passar vergonha, de ta chateando vocês. De ta longo. De isso aqui ta curto. De vocês não estarem gostando. De passar mal, de enjoar. Eu morro de medo do que vão pensar de mim. De deprimir, ficar perguntando pra que. Do dente cair, da pele cair, do peito cair, do ... cair, da bunda cair. Meu Deus, eu tenho medo de tudo. Medo de sair de casa. De ser feliz. De Deus. Do diabo. De ser castigada. Medo da lei. De ser multada. De cair da bicicleta. De errar o passe. De falhar no gol. De deixar a bola cair. Do silêncio.

Morro de medo de escrever alguma coisa aqui e vocês não gostarem. Já escrevi? Morro de medo de me tornar repetitiva, de começar a esquecer as coisas. Medo dos ratos, do vírus, bactérias, micróbios, medo do lobo mau, de fantasma, lobisomem, bicho papão, medo de amar, me entregar, de não conseguir ir ao banheiro, de injeção. Do outro. Eu tenho medo de tudo. Eu sou só susto. Esculpida no susto. Eu sou só medo, toda medo. É tanto medo que eu acho que eu sou cabeça tronco membros e medo. E o medo pode ser de verdade ou de mentira. Tenho um monte de medos reais, e um monte que eu invento. Para me defender. E quanto mais distante meus medos são do real, mais doente eu fico. Uma confusão. A verdade é que somos regidos pelo medo, movidos, formados a partir do medo. É ele que nos regra, que nos moraliza, e quer saber, eu gosto dele. É o medo que nos civiliza. Medinho bom. Ele que me avisa. Que dá o alerta. O limite. Do que eu posso, e do que não posso. Do que eu devo, e do que eu não devo. Sentimento bom. Esse medinho. A verdade é que a gente não faz..., porque tem medo. A gente não rouba, não mata, não cobiça a mulher do próximo, não é cruel, não sacaneia Deus e o mundo porque acha errado..., mas porque tem medo. Medo do interfone, de postar alguma coisa e ser mal interpretada, de ninguém curtir, de um comentário contra, de se perder, medo de mulher, de homem, de gente radical, que se arrisca, do novo, medo de ir pro inferno, do juízo final, fomos forjados no medo. Nós somos a civilização medrosa. Homo medo sapiens. Eu tenho medo é de quem diz que não tem medo. Perguntaram a um piloto se ele não tinha medo de avião e ele respondeu: o dia que eu não tiver mais medo, o avião cai.

E como se já não bastassem. Nossos medos vindos da mente. Ainda temos que nos defrontar com nossos medos ontológicos, de formação, primordiais, do bicho homem. Aqueles que descontrolamos. Inerentes. Nossos medos principais, que fazemos questão de não enxergar. Que nos constitui. O maior desafio à natureza humana. Medinho ruim. Que destrói o outro. Que destrói a nós mesmos. Todo elemento estranho que se aproximou da caverna, um dia, assustou, e causou medo, e provocou uma reação no homem de tentar se defender. Só que ao invés de tentar se defender, usando a inteligência, a razão e o instinto de curiosidade agregador, de buscar integrar o outro, ... de dizer: oi..., seja bem-vindo..., vamos descobrir um jeito de conviver..., mesmo que sejamos totalmente diferentes?..., não, o homem escolheu o caminho de aniquilar o outro, e assim, responder aos seus medos, com instintos animais, selvagens, de morte, barbárie e destruição. De lá para cá, e olha que maravilhosa que é a linguagem que pode reduzir milhões de anos em “de lá para cá”, enfim, de um modo geral, toda e qualquer coisa de diferente que aparece na nossa vida, dispara logo o alarme interno: Perigo!! Precisamos colocar um fim na ameaça. Na história da evolução da humanidade o homem foi respondendo aos seus medos aniquilando tudo e todas as diferenças que iam aparecendo a sua frente. Até que elas desaparecessem do mapa. Em nome de que? De defender, e manter a sua espécie. Se, não fosse assim, se isso não fosse verdade, estariam todos, hoje, ainda aqui, nesse mundo, andando aqui pelo bairro: seis ou sete brontossauros, neanthertals, quatro ou cinco eretus, todos pacificamente fazendo compras no Zona Sul. Não to querendo assustar não. Mas vocês sabem qual é o maior sonho de consumo de oito entre dez seres humanos, hoje no planeta: um AK, fuzil russo da marca Kalashnikov. Nós: os Homo Medo Sapiens Belicus. E óia isso. Acabei de pensar um jeito de se viver bem e melhor com tudo isso: é só se perguntar diariamente, três vezes ao dia: Ta com medo de que? Ta com medo do que? Ta com medo de que? E esperar a resposta. Sorrindo. E assim que ela vier, dar um enorme abraço no seu medo do dia, repetindo doce e baixinho: calma, calma que passa. E respirando pro fundo, com paciência, ver o que parecia ser um monstro, se dissipar como nuvem. Diante de sua mãe em pânico, petrificada, porque tinha perdido tudo, filhos, neto, marido, cidade, casa, terras, Cassandra disse: Mãe: Viva a vida! Viva a Vida!!!! Viva à Vida. E de tanto falar do medo me peguei com o medo de ficar com medo e pensei... no que seria seu significado oposto. E pensei na coragem. E me lembrei do seu significado. Cor agem. Agir com o coração. Talvez seja esse o antidoto. Talvez não. De qualquer forma: Muito obrigada. E desculpe a intromissão na sua vida. É que não me aguentei. Ah! E ainda tem o medo maior de todo artista: que é o de ninguém aplaudir.

15 de Julho de 2022 às 13:51 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Lira Pavlova Escrevo para espantar demônios. Uma russa de coração brasileiro. Poliglota. #LGBTQIANP+ 🌈

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