antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Vincent Van Gogh é convidado a expor um de seus quadros no Salão Laverne. Lá ele encontra pintores conhecidos, alguns amigos e Paul Gauguin, seu desafeto.


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Van Gogh

Baseado em histórias reais.


França- 1890

Vincent olhou-se ao espelho. Resolveu fazer a barba quando voltasse para casa. Após beber um gole de absinto, guardou a garrafa no bolso do jaleco, acendeu o cachimbo, pegou os apetrechos de pintura e saiu. Caminhou saltitante desviando-se das poças d’água. Havia chovido durante a noite, mas o dia nasceu claro.

O sol encantava-o. Respirando o cheiro de terra molhada na brisa fresca, dirigiu-se para os campos de cultivo.

Saindo da estrada, seguiu por uma trilha entre o bosque de araucárias e o campo de trigo. Próximo do riacho colocou o tripé no chão. Dali podia ver o trigal, alguns ciprestes e uma casinha ao fundo. Tirou a paleta da bolsa e colocou as tintas.

Antes de fazer o esboço, bebeu um gole de absinto. Abanou a mão ao ouvir um zunido junto à orelha. Achou que era alguma abelha. Fez o esboço da paisagem e começou a pintar. Novamente o zunido, inclinou o corpo e olhou para cima e para os lados. Não viu o inseto. Continuou a pintura.

Com o sol no zênite, resolveu voltar outro dia, no mesmo horário. Limpou os pincéis, a paleta e guardou na bolsa, pegou o tripé, a tela e começou a voltar para casa. No caminho ouviu o zumbido. Imaginou que o inseto o perseguia. Apressou o passo.

Chegando em casa, Vincent encontrou uma carta enfiada sob a porta. Imaginou que era de seu irmão Theo, mas o remetente se chamava Hugo Laverne, um rico comerciante de arte que ele conhecia apenas de nome. Hugo Laverne o convidava para expor um de seus quadros na Primeira Exposição dos Independentes, em sua residência, na Rue de l’Ermitage, n° 31, Versalhes, no sábado, às 16 horas.

Vincent decidiu aceitar o convite. Depois de tomar um banho, foi fazer a barba. Postou-se diante do espelho. Com o pincel de barba fez a espuma, passou no rosto. Pegou a navalha raspou a barba do lado esquerdo. De repente ouviu o zumbido. Achou que era a abelha tentando picá-lo, agitou a mão para enxotar o inseto, acabou dando um talho na orelha.

*****

Paul Cézanne dirigiu-se ao Salon de Paris para inscrever uma pintura na Exposição Anual de Arte. Com a tela sob o braço, ele atravessou a Place du Carrossel e entrou por uma porta ao lado dos arcos. Subiu a escada para o corredor que levava ao salão, no segundo andar. No corredor estava um jurado que selecionava as obras. Monsieur Louis Boyer, juiz, dizia a plaquinha sobre a mesa.

Cézanne apoiou a borda da tela sobre a mesa e retirou o papel para o homem examinar. O juiz colocou os óculos e olhou atentamente todos os detalhes da pintura.

─ Como o senhor intitula essa pintura?

─ A Cesta de Maçãs.

─ A perspectiva é bem estranha. A garrafa está inclinada para o lado, o prato de biscoitos parece estar encostado na parede e ao mesmo tempo no centro da mesa. O lado direito é completamente diferente do da esquerda. A toalha me parece amontoada, destoante do conjunto.

─ É um novo estilo de pintura. Um conjunto que representa formas geométricas. O círculo da cesta, o quadrado da mesa, o triângulo da toalha e assim por diante.

─ Que o senhor inventou?

─ Exatamente.

─ Pois é um estilo bem esquisito.

─ O senhor não percebe a originalidade das formas?

Monsieur Boyer olhou Cézanne nos olhos.

─ Acho que o senhor sofre de astigmatismo. Tem comprovante de formação acadêmica?

─ Não. Não achei que precisasse.

─ Essa pintura é disforme, não tem estética. Além do mais, o senhor não tem formação acadêmica. Não posso aceitar sua inscrição. Boa tarde!

Frustrado, Paul Cézanne pegou a tela e foi embora. Não adiantava insistir.

Na entrada do prédio passou por uma carroça transportando uma tela de mais de dois metros de altura. Era Claude Monet, tentando inscrever sua pintura, Mulheres no Jardim. Ele discutia com um dos fiscais que recusava a inscrição da pintura por ser a tela muito grande.

Chegando em casa, Cézanne recebeu um envelope com um convite para expor um de seus quadros no Salão Laverne.

*****

A exposição foi realizada no salão de festas da mansão de Hugo Laverne. Vincent achava que ele fosse um homem maduro, de cabelos grisalhos, mas Laverne era jovem, bem-apessoado. Estava na entrada, recepcionado os convidados. Ele o cumprimentou, desejando boas-vindas com um vigoroso aperto de mão. Vincent era avesso a vida social, mas esforçou-se para ser comunicativo, simpático. Entregou a tela que havia trazido para o secretário de Hugo, que a pendurou na parede junto às outras obras.

No salão estavam Émile Bernard, seu amigo, os dois haviam trocado quadros.

Henry de Toulouse- Lautrec, Claude Monet, Paul Gauguin, Paul Cézanne, Theodore Gericault e outros pintores conhecidos, além de negociantes de arte.

Ao avistar Paul Gauguin, Vincent afastou-se para o outro extremo do salão. Ele e Gauguin haviam pintado juntos em várias ocasiões, mas o contato diário dos dois não deu certo. Cada um tinha uma opinião diferente sobre o processo de pintar, as discussões se tornaram frequentes até que Gauguin resolveu cortar relações. Sentindo-se ofendido pelo palavrório de Gauguin, Vincent também passou a evitá-lo.

Émile Bernard aproximou-se dele.

─ Machucou a orelha? − perguntou, olhando para o curativo que Vincent havia feito no corte.

Ele decidiu usar um gorro para ocultar o ferimento, mas pelo jeito, não foi bem-sucedido.

─ Um pequeno acidente sem importância.− não querendo falar sobre o ocorrido, mudou de assunto. ─ Qual pintura você trouxe? Alguma antiga?

─ Não. É um bem recente. Venha ver.

Eles foram caminhando ao longo da parede, onde as obras estavam expostas. Émile estacou diante de uma pintura.

─ Casa Entre Árvores, é o título. Pintei em Pont-Aven, próximo do castelo de Rustephan, quando visitava um parente.

Naquele instante, Hugo chamou a atenção de todos.

─ Senhoras e senhores, bem-vindos à Primeira Exposição de Arte Individual do Salão Laverne. Uma oportunidade para pintores exporem seus trabalhos. Ocasião favorável para que quem ama a pintura, escolha a obra que mais lhe agrade, aquela que fará a diferença, que irá embelezar a sua sala de estar, o seu gabinete ou mesmo, o seu dormitório. Temos na sala contígua, canapés e champanhe para servi-los. Aproveitem. Boas compras a todos. Obrigado.

Van Gogh se dirigiu para o bufê. Ali já estava Édouard Manet conversando com Berthe Morisot, sua pupila. Ele comia um mille-feuille, ela segurava uma taça de champanhe e ria de uma piada que ele disse. Van Gogh, pegou um croissant. Ao se virar, esbarrou em Paul Gauguin.

─ O que houve com sua orelha?

─ Nada que te interessa.

─ Estúpido! Eu só fiz uma pergunta.

─ E eu repito que não te interessa.

─ Cavalo!

─ Se eu sou cavalo você é um asno fedorento.

As ofensas continuariam se não fosse a interrupção de Émile Bernard.

─ Vincent! Venha comigo. Quero te apresentar mademoiselle Anna Boch. Ela quer comprar o seu quadro.

***

Na tarde do dia seguinte, depois de pagar um dívida com o dinheiro da venda do quadro, Vincent saiu para pintar. Voltou ao campo de trigo para terminar a pintura. Resolveu incluir um bando de corvos que sobrevoava o campo. Estava colocando a tela no tripé, quando ouviu disparos. Alguém estava atirando com uma pistola nas aves. Elas crocitaram em algazarra e fugiram. Vincent sentiu uma ardência no peito. Baixou os olhos e viu uma mancha vermelha se espalhar na brancura do tecido. Parecia uma rosa vermelha que abria suas pétalas. A bala não atingiu nenhum órgão vital. Vincent ignorou a dor e continuou pintando até acabar o quadro. Guardou seus apetrechos e retornou cambaleando para casa. Os corvos voltaram, fizeram uma revoada sobre ele. Julgou que eles diziam, melancólicos; - Nunca mais! Nevermore! Nunca mais!

14 de Julho de 2022 às 22:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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