antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

O casamento de Jorge está conturbado. Depois de dois anos de casamento, Angelina se tornou uma megera. Acabou mostrando o seu verdadeiro caráter. Não aguentando as brigas, Jorge resolve se separar. Ele vai para a capital, morar numa pensão. No quarto havia um espelho e este espelho não era um objeto comum. Coisas estranhas começaram a acontecer....


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O Espelho

*****

─ Não aguento mais! – disse Jorge sacudindo as mãos. Procurou manter-se calmo para poder resolver a situação com civilidade. Seu casamento com Angelina andava conturbado. Ela mudou de comportamento depois de dois anos de casados. Começaram as discussões, o desinteresse, o distanciamento. O amor que devia ser a continuidade da paixão inicial, esmoreceu, acabou como uma árvore que morre antes mesmo de criar raízes. Ele já tinha pedido transferência do emprego para a capital e a Secretaria da Educação concedeu. Precisava agora dar a notícia para a mulher.

─ Nosso casamento acabou, Angelina. Nos tornamos como cão e gato que se detestam e não conseguem viver juntos. Estou indo embora. Levo só os meus pertences pessoais. A casa fica com você. Trataremos dos papéis do desquite outro dia.

Angelina encheu um copo de água da pia e bebeu. Ficou por um momento calada, com uma expressão dura olhando para a rua através da janela da cozinha.

─ Vou arrumar minhas malas.− disse Jorge e fez menção de se retirar. De repente a mulher atirou o copo nele. Jorge agachou-se e o copo estilhaçou-se na parede.

─ Vai, seu desgraçado! Não preciso de você para viver.

Era o ano de 1945. A guerra estava acabando, os exércitos de Hitler foram derrotados. Havia um certo ar de alívio e alegria nos semblantes das pessoas pelo fim da guerra. Saindo de casa, Jorge sentia outro tipo de alívio.

Deixando Rio Grande, ele foi morar num quarto de pensão na capital, Porto Alegre. Era um cômodo de duas peças 3m por 4m, decorado segundo o gosto do proprietário. Gosto que nem sempre combinava com as necessidades do inquilino. Jorge não era exigente e pouco se importou com os parcos móveis que compunham o ambiente, uma cama com guarda de ferro, mesa pequena, duas cadeiras, cômoda para guardar as roupas de cama e um roupeiro de duas portas.

*****

Depois de 3 anos morando na pensão, com financiamento do Banco da Província, Jorge conseguiu comprar uma casa na rua da Azenha, próximo da Faculdade de Direito. Naquela casa, ele seguiu sua vida tranquilamente. Dava aulas na Escola Normal da Província à tarde, de manhã ficava em casa revisando as provas. Naqueles primeiros meses, não teve contato com Angelina e nem se preocupou com ela.

Certa tarde de sábado ele resolveu pegar um livro e ler sentado na praça. Apesar de passar a semana no colégio, entre livros e cadernos escolares, sempre gostou de ler os grandes escritores brasileiros.

Mal tinha se sentado quando o tempo virou. Grossas nuvens negras rolaram pelo céu e um vento forte começou a soprar. Jorge deixou a praça e foi direto para casa. Foi obrigado a acender o lampião porque o dia se tornou noite. Quando depositou o livro sobre o criado mudo, um trovão abalou a casa e no mesmo momento uma luz intensa brilhou no espelho pendurado na parede. Era como se um raio tivesse caído sobre o telhado e saído pelo espelho. Jorge se assustou, mas logo acalmou-se ao ver que nada mais aconteceu dentro do quarto. Mas os trovões e relâmpagos continuaram lá fora. A tempestade foi amainando, transformando-se numa chuva intermitente.

Jorge estava recostado na cama, lendo O Gaúcho, romance de José de Alencar, quando notou uma claridade estranha no espelho. Aproximando-se, viu a imagem de um dormitório no espelho, só que não era o reflexo do seu quarto. Era como se tivesse colocado uma vidraça no lugar do espelho, dando visão para um outro ambiente. Jorge saiu e foi olhar para o outro lado da parede e encontrou apenas o corredor. Voltou e olhou por todos os ângulos. Conseguiu ver uma cama, um roupeiro de 3 portas.

Uma garota entrou no quarto e sentou-se na beira da cama, segurava algo encostado na orelha enquanto conversava com alguém. Jorge achou que ela conversava com alguém que estava no quarto dele. A jovem largou o objeto sobre a cama e começou a trocar de roupa. Jorge ficou embaraçado, virou o rosto para não ver as partes pudicas da moça. Logo em seguida ela saiu.

*****

Jorge ficava sentado numa cadeira diante do espelho, observando aquela mulher jovem, talvez com pouco mais de 20 anos. Às vezes ela encostava o mesmo aparelho na orelha enquanto conversava com alguém, mas esse alguém nunca aparecia no quarto, ou então, ela falava sozinha. Outras vezes a jovem sentava-se na cama e batia com os dedos num teclado como se fosse uma máquina de escrever só que, nessa máquina não havia nenhum papel.

Ele saía ás 13 horas para dar aulas no colégio, voltava às 17:30. Sua curiosidade sobre a jovem diminuiu. O fato do espelho mostrar outro quarto, se tornou algo sem importância. Era como a janela de outra casa, que eventualmente a moradora aparecia.

Aconteceu num domingo. Ele acordou e viu no relógio da cabeceira que já ́ eram 10 horas da manhã. Ao sentar-se na beira da cama, olhou para o espelho e viu a garota olhando para ele. Imediatamente saiu do seu campo de visão e mudou de roupa, depois voltou e postou-se diante dela. A expressão da jovem era de desconfiança e ao mesmo tempo curiosidade.

─ Se eu não soubesse que isso é um espelho, diria que alguém tirou o vidro espelhado e colocou uma vidraça no lugar. Além disso, essa parede dá para o jardim e isso prova que não tem nenhum cômodo do outro lado. Não sei o que é que está acontecendo. Você me ouve?

A voz dela era nítida, como se estivesse realmente a pouco mais de 1 metro de distância.

─ Sim, eu ouço. Eu também não sei que fenômeno é esse. Mas o fato é que está acontecendo desde há duas semanas, desde a tempestade.

─ Duas semanas? Então você me viu pelada? Que vergonha!

Jorge gesticulou com as mãos, apressando-se em dizer:

─ Não! Não! Nessa hora eu olhava para o lado, juro. Não sou depravado, sou um homem integro, justo, não tenho por costume bisbilhotar a intimidade dos outros, principalmente quando mudam de roupas. Juro que não olhei.

─ Está bem, acredito em você. Meu nome é Alice e o seu?

─ Jorge. Sou professor, sou desquitado e moro sozinho.

─ Que cidade?

─ Porto Alegre.

─ Eu também. Moro no bairro Moinhos de Vento e você?

─ Na rua da Azenha número 242, perto da Faculdade de Direito.

─ legal! Jorge, eu vou ter que sair agora. Vou viajar para visitar minha mãe no interior. Vamos deixar para conversar amanhã, está bem? Só mais uma pergunta, em que ano nos estamos?

─ 1945.

─ !945! Bem que eu desconfiava, pelos detalhes do seu quarto, o lampião, o relógio e suas roupas.

─ O quê?

─ Nada. Me desculpe, preciso interromper a conversa. Tenho que sair. Eu vou colocar um pano sobre o espelho para preservar minha intimidade. Está bem?

─ Sim, tudo bem. Também me sentirei mais tranquilo. Bom passeio.

*****

Quando voltou do passeio, a primeira coisa que Alice fez foi olhar o espelho. Para sua surpresa, não viu o seu reflexo, tampouco o quarto de Jorge. Logo ela percebeu que, do lado dele, ele havia colocado uma toalha sobre o espelho. Depois de tomar um banho, ela deitou-se para dormir, era tarde e tinha que levantar cedo. Achava curioso aquele fenômeno, de ver o quarto de um homem que vivia no passado. Era como uma brecha no tempo. Não contou para ninguém sobre aquilo. Geraria muita curiosidade. Se alguém soubesse, tentaria ver e com certeza faria um vídeo para colocar nas redes sociais. O apartamento seria invadido pela mídia, talvez cientistas quisessem o espelho e tirando ele do lugar, quebraria a magia. Assim, Alice guardou segredo. Queria saber mais sobre a vida de Jorge, sobre aquele mistério.

No dia seguinte, ela contou para Jorge que estava no ano de 2017. Ele custou a acreditar e então, ela mostrou os aparelhos que ele já tinha visto e disse como funcionava. Também mostrou a foto da mãe. Conversaram por quase duas horas aquela noite.

Alice procurava entender aquele fenômeno. Se tinha alguma coisa ligando os dois, porém, não encontrou nenhum parentesco. Perguntou para Jorge se o espelho dele tinha alguma marca, ou etiqueta de fabricação e, por sua vez, examinou o seu espelho sem tirá-lo do lugar. Ela o tinha herdado da avó, portanto era um espelho antigo. Durante a inspeção descobriu uma etiqueta na lateral da moldura. O nome do fabricante tinha sido gravado a fogo; João Belmonte, vidreiro-Portugal, 1939.

Jorge revelou que no espelho dele, o fabricante era o mesmo. Então eles entenderam que ali estava a ligação que os intrigava, mas não explicava aquele fenômeno.

*****

O incidente aconteceu no sábado. Jorge tinha acabado de chegar do mercado com uma sacola cheia de legumes e frutas. Estava colocando tudo sobre a mesa quando bateram na porta. Ao abrir, ficou surpreso ao ver Angelina. Ela estava com os cabelos presos num coque, usava um vestido floreado e pintou os lábios com um batom cor de vinho, que ele achou horrível.

─ Precisamos conversar. – disse ela e entrou sem esperar convite. Olhou a sala considerando falta de imaginação a insípida decoração do ex marido. Foi para a cozinha.

─ Eu mandei cartas para você e como não me respondeu, resolvi te procurar para conversarmos pessoalmente. Fui na pensão que você disse que iria morar e lá me disseram que se mudou. Peguei o novo endereço no colégio e aqui estou para resolvermos logo nossa situação.

Enquanto falava, caminhava pela cozinha examinando superficialmente cada coisa. Seu veredito sobre o bom gosto e a inteligência de Jorge era negativo.

─ O que você quer?

Ela tirou da bolsa alguns papéis e colocou sobre a mesa junto com uma caneta-tinteiro.

─ São os papéis para dar entrada no desquite e uma procuração para que eu possa vender a casa.

Pegando uma maçã, ela deu uma mordida e encaminhou-se para o quarto. Jorge ficou alarmado ao se lembrar que não havia coberto o espelho com a toalha, o espelho que dava visão para um quarto feminino no futuro. Coisa que ela não entenderia, mas com certeza acabaria fazendo um escândalo. Ele correu e ficou a ao lado da cama, ocultando o espelho com seu corpanzil.

─ Vamos conversar na cozinha.

Ela olhou para ele desconfiada. Estreitou os olhos.

─ O que você está tentando impedir que eu veja?

─ Nada. Não tenho motivos para esconder alguma coisa de você.

─ Sai da frente, Jorge.

─ Vamos conversar na cozinha. Tomar um café.

─ Coisa que eu detesto é você mentir pra mim, Jorge. Odeio quando você tenta me enganar. Sai da frente!

Angelina gritou e arremessou a maçã. Por instinto, Jorge abaixou-se e a fruta chocou-se com o espelho. Soou um som sinistro de vidro se quebrando. Ao ver o espelho estilhaçado no chão, Jorge ficou furioso, saltou e agarrou Angelina pelo pescoço. Caíram os dois sobre a cama. Jorge apertou os dedos na garganta dela. Os olhos da mulher saltaram para fora, ela abriu a boca tentando respirar. Jorge deu-se conta que a estava matando e isso era uma coisa que ele não devia fazer, mesmo pela sua vida infeliz, muito menos por um espelho quebrado.

Deixou Angelina se recuperando e foi para a cozinha. Assinou os papéis, colocou na bolsa dela, deu a bolsa para a ex esposa e a empurrou para a rua.

Depois ele pegou a moldura do espelho e levou a uma vidraçaria colocar outro vidro.

*****

Alice achou estranho que a visão do quarto de Jorge havia desaparecido. Agora o que ela via, era seu próprio reflexo no espelho. Enquanto fazia seus afazeres domésticos, de vez em quando olhava o espelho. Duas semanas se passaram e a visão de Jorge nunca mais apareceu. Conclui com tristeza que o encanto do espelho havia acabado.

Jorge disse que morava na rua da Azenha, número 242. A rua da Azenha era agora a avenida João Pessoa. Com a ideia de que a casa poderia ainda existir, Alice pegou um taxi e foi ao local. Sim, existia uma casa com o número 242 e ela estava abandonada.

Na frente tinha um jardim tomado pelo mato. Alice empurrou o velho portão de ferro enferrujado, que abriu apenas o suficiente para ela passar. Entrou e seguiu por uma trilha de lajes carcomidas pelo tempo. À medida que avançava, o lugar se mostrava mais tétrico. Baixou a cabeça para não roçar nos galhos de uma árvore seca e retorcida, como se executasse uma dança ao som do cantar dos grilos. As touceiras de capim pareciam querer barrar seu caminho. Depois de alguns passos no meio daquela vegetação selvagem que se transformara o jardim, chegou finalmente em frente à casa. Plantas sombrias e ameaçadoras debruçavam seus ramos sobre a varanda. Com passos hesitantes, Alice dirigiu-se para a porta que estava entreaberta, como se a convidasse a entrar. No fundo de seu íntimo, o medo tocava uma campainha, mas a curiosidade a impelia seguir adiante. Entrou numa sala vazia, o assoalho era de lajotas vermelhas, cobertas por folhas mortas que caíram pelas frestas do telhado. Alguns restos de móveis foram jogados num dos quartos, no outro estava o espelho.

Alice sentiu uma emoção intensa ao lembrar do seu amigo. Ali era o quarto dele. De repente, o espelho ficou claro como o dia e Alice viu, não o seu reflexo, nem o seu quarto, mas um outro lugar. Parecia uma velha cabana, as paredes construídas com madeira rústica, sem pintura. Naquele lugar estava uma pessoa curvada, fazendo alguma coisa no chão. De repente a criatura virou o rosto e olhou para ela. Ao ver aquele rosto deformado, os olhos grandes, os dentes finos, a boca suja de sangue, Alice gritou apavorada e saiu correndo.

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3 de Julho de 2022 às 19:34 0 Denunciar Insira Seguir história
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