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O véu e as luvas

Suas mãos pequenas perdiam um pouco do ar etéreo nas luvas que cobriam uma parte das inúmeras tatuagens, cujos símbolos já conhecia de algumas aulas de semiótica e religião. Ela estalou os dedos como se percebesse aquela investigação fortuíta porém muito detalhada dos olhos dele em suas mãos, pousou - as no colo e se inclinou um pouco para trás.

Agosto em Santa Terezinha ainda é um mês muito frio, comparado com Setembro e Outubro, parecia gelar os ossos, mínimas de 08°c e 06°c ao longo dos anos faziam suas vítimas, mas o que chamava a atenção nesse mês era a neblina espessa e cinzenta que descia das montanhas sempre a partir das 23:00, não importava quanto vento houvesse, a névoa ia e vinha, percorria todas as ruas, passava pelos portões e quase não deixava ver as estrelas, algumas noites a cor mudava do cinza para vermelho, e quando isso acontecia não se marcavam festas, saídas porque ninguém sabia o que podia acontecer se alguém entrasse no nevoeiro. Havia muitas lendas, histórias contadas a luz do dia, com muito sol e a céu aberto, mas de verdade eu nunca soube o que aconteceria se alguém desafiasse essa regra.

- Até os dias do evento.

- Sim, até aqueles dias.

- Já havia algum registro de desaparecimento ou violência, coisas insólitas ou essa era apenas uma tradição oral de pais super protetores?

- Você sabe o que aconteceu lá, não?

Droga ela se irritou novamente. Vou ter que fazer uma ginástica nessa edição viu. Qualquer um vai perceber que ela está cansando de me responder.

- Perdão, eu ainda estou impactada pelas coisas que vi em minha terra natal, quase toda minha concepção de crença e universo foram abaladas por essa sequência de acontecimentos, tem gente ao redor do globo que pagaria milhões para que essa história fosse abafada ou desmentida, eu posso e vou perder minha credibilidade e reputação quando a entrevista sair, mas concordei com ela unicamente para preservar minha segurança já que fui a única a atravessar os portais e retornar viva.

- E como a senhora descreveria o que aconteceu?

- Você está disposto a acreditar em mim ou está aqui só pela oportunidade de entrevistar a famosa e reclusa escritora de best sellers de romance.

- Eu sou um fã, e lógico que não perderia essa oportunidade.

- Quando cheguei na vila como sempre cada vez que os visito causo uma pequena comoção, meus tios e primos ainda estão por lá, meu pai e irmão moram perto então sempre fico com eles mas fazendo algumas visitas, os feriados de final de Outubro caíram perto do fim de semana, resolvi passar com eles esses dias, chegava na casa de uma ou outra prima, dos amigos da escola, e no fim do dia jantava com meu pai e irmão, eles se detestam ainda, faz 10 anos que fui embora e eles ainda brigam como se fossemos jovens.

É um tormento, inclusive foi por isso que fui embora, mas eu não podia abandona - los por completo.

Dinheiro pode ser enviado por qualquer dispositivo eletrônico mas a presença, a comida, as risadas do meu sobrinho, não.

Eram 29 de Outubro quando acordei as 02:45 da madrugada com gritos horríveis dos cachorros na rua, me levantei num salto, corri até a janela e joguei a cortina pro lado, e o que vi foi a névoa vermelha se adensando em locais diferentes da minha rua, e de partes que podia ver da vila, a névoa mudou para um pulsar estranho de luz, a luz foi se intensificando em todos lugares ao mesmo tempo até ter uma explosão, a onda de choque daquilo se chocou todas as casas ao redor eu fui jogada contra a parede mais próxima, obviamente perdi os sentidos por algum tempo, quando acordei voltei a janela e havia portais naqueles lugares, portais de luz de diferentes cores, alguns tinham uma variação de tons, alguns objetos sendo tragados para eles outros expelindo algo como água ou lama, e os cachorros enlouqueceram, todos corriam gritando e ganindo e se jogavam dentro dos portais, os que estavam presos uivavam de uma forma tão grotesca que eu jamais em toda minha vida esquecerei daquele som.


As pessoas começaram a acordar e sair de suas casas, alguns como que em transe se encaminhavam direto para os portais, outros correram e conseguiram os conter mas alguns dos que entraram não foram mais vistos ou sairam por outros portais nos pontos opostos da vila, a maioria desmembrados, reconhecíveis apenas pelas roupas ou marcas de nascença. No mesmo segundo que atravessavam surgiam em outro lugar.

Todos mortos, até que alguém chegou mais perto daquele portal que vertia algo e eram pedaços de carne misturada a sangue, lama.


O repórter estava perplexo, olhava para moça completamente boquiaberto, não acreditava em uma palavra que saíra da boca dela mas eram detalhes demais para uma mentira tão complexa. Uma vila com quase 12.000 habitantes assolada por portais assassinos, era mais inusitado que qualquer coisa que ele já tinha ouvido em toda sua vida.

Agora notara, lágrimas escorriam grossas pelo rosto dela, pingavam nas luvas, molhavam o colo. Ela chorava copiosamente mas em silêncio, sem um soluço, sem mover um músculo do corpo agora completamente retesado na poltrona.

3 de Julho de 2022 às 01:15 2 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos. Navegante do multiverso, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

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Norberto Silva Norberto Silva
Caraca! Adorei essa ideia dos portais assassinos! o diálogo da moça com o repórter tbm foi muito bem escrito e impactante. Quero, prá ontem uma continuação! Mandou bem demais
July 05, 2022, 03:02

  • Siph Ferreira Siph Ferreira
    Ahh muito obrigado Norberto, estou transcrevendo agora a continuação, mais tarde estará aqui. July 05, 2022, 21:12
~