antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

João Foreman chega a ilha para ocupar o cargo de faroleiro e logo se acostuma com a rotina e a solidão do lugar. Ele não pretende ficar muito tempo naquele emprego, porém, coisas estranhas começam a acontecer.


Horror Todo o público.
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Farol

A barca Gaivota aproximou-se do píer encostando suavemente nos contrachoques. A prancha foi estendida e 2 passageiros desembarcaram. Oito pessoas que estavam esperando, entraram a bordo. Eram habitantes da ilha que trabalhavam no continente e estavam indo para o trabalho.

Segurando a maleta numa mão e a mochila pendurada ao ombro, João Foreman caminhou ao lado de Anderson Ferguson, funcionário da Capitania dos Portos. Eles seguiram para o empório de Jeferson Miller.

O bazar era o único estabelecimento comercial em atividade na ilha. A população havia diminuído, emigrando para o continente e o progresso local estagnou. A maioria dos moradores eram pescadores, associados de uma pequena empresa de pesca, à beira da falência. O vilarejo se resumia a uma vintena de moradias.

— Bom dia! – saudou Anderson.

— Bom dia! – respondeu Miller, varrendo o assoalho. Ele vendia desde mantimentos a ferramentas, bebidas, roupas e remédios para dores e males do estomago, além de querosene para lampiões. Largou a vassoura num canto e foi receber os visitantes.

— Se bem me recordo, o senhor trabalha na Marinha.

— Capitania dos Portos.

— O antigo faroleiro deixou uma pequena dívida no meu estabelecimento. Me pareceu que ele foi embora as pressas.

— Não suportou a solidão. – respondeu Anderson e indicou João. – Eu trouxe um novo faroleiro e esse confirmou que está acostumado com a solidão. Apresento ao senhor João Foreman. Vim pagar a dívida do outro e peço por gentileza conceder crédito ao senhor Foreman no que ele precisar. Como acordado, vou pagar o que o outro ficou devendo e pagarei as despesas do senhor Foreman no fim do mês quando eu trouxer o salário dele. As despesas do faroleiro, como o senhor sabe, fica por conta da Marinha.

— Não tem problema. – respondeu Miller e olhou para João- Vai comprar alguma coisa agora ou vai deixar para depois?

João hesitou.

— Acho melhor levar algum mantimento. –aconselhou Anderson.

— Apenas o básico. Café, pão, arroz, feijão e um pedaço de toucinho.

Miller colocou as compras numa sacola de lona e anotou as despesas num caderno, colocando o nome de João no topo da página.

Para ajudar João, Anderson carregou a sacola. Do vilarejo até o farol, eram cerca de 2 ou 3 quilômetros. Não sabia ao certo, mas era o que calculava. Enquanto seguiam pela trilha, João se perguntava, por que ninguém da ilha se candidatou a vaga de faroleiro, já que a função não exigia experiência.

— Acho que tem uma bicicleta lá, - disse Anderson. – O farol não é muito longe da vila, mas indo e vindo a caminhada cansa.

João não respondeu. O funcionário da Marinha já havia notado que ele era de pouca conversa. Ficou a pensar o que faria depois de instalar oficialmente o novo faroleiro. A barca só voltaria no fim do dia. Teria que esperar, ou contratar um barqueiro para leva-lo ao continente.

João observava a paisagem. O lugar tinha um aspecto selvagem, primitivo. Nenhuma habitação à vista, a campina ressequida tentava sobreviver ao sol e o vento salgado, se estendia até os penhascos. Do lado oposto, um grupo de rochas escuras parecia o lombo de um grupo de elefantes deitados ao pé de um morro coberto por uma galhada cinzenta, ao redor de uma árvore seca com seus galhos retorcidos apontando para o céu azul pálido.

O braço e a mão segurando a mala começou a doer. Agora não podia desistir. Finalmente chegaram ao farol, uma torre de 40 metros quase na beira do despenhadeiro. Era pintado de branco e vermelho. A casa ficava ao lado, com dois cômodos, sala e cozinha. Fogão antigo de ferro, uma cama, roupeiro, mesa duas cadeiras, uma despensa, e nos fundos um pequeno galpão.

Anderson mostrou o interior da casa e depois a torre, subiram a escada em espiral, a lâmpada no bojo com os espelhos, dando todos os detalhes da função de um faroleiro e como João era bom ouvinte mas avesso à conversa fiada, foi embora.

João guardou as roupas e depois pegou a mochila e enfiou em um vão debaixo da escada da torre. Naquele primeiro dia ele limpou os espelhos, deu manivela no dínamo e testou a lâmpada. Inspecionou o galpão, encontrando ferramentas, galão de óleo, graxa, cal virgem, uma caixa de lâmpadas, pregos, cola, querosene para os lampiões. Anotou numa folha de caderno tudo que tinha para poder controlar o estoque.

Pegou uma enxada, envelopes de sementes de hortaliças que havia levado e começou a fazer uma horta. Precisava ocupar-se com algo mais do que acender e apagar a luz do farol.

****

Os mantimentos estavam acabando e João resolveu fazer compras no empório. Havia consertado a bicicleta e com ela chegou na vila. Deixou-a encostada na varanda e entrou no bazar. Deu uma lista de compras para Miller.

— Como está o trabalho? Está gostando da ilha?

— Sim. Eu tenho notado que as pessoas da vila me olham de um jeito estranho.

— Estranho, como?

— Como se eu fosse o bobo da corte.

Miller foi colocando as compras na sacola.

— É porque a gente, quando digo gente, inclusive eu, tentamos ver se você está assustado, agitado, com medo.

— Não entendi...

— Dizem que o farol é mal-assombrado.

— Não acredito em fantasmas.

— Virginia era filha de um pescador, uma jovem sonhadora. Quando o namorado dela soube que ela estava grávida, foi embora. Desiludida, a moça preferiu morrer. Atirou-se no mar.

— Que história triste!

— Não quero meter medo no senhor, mas alguém jurou que viu o fantasma dela rondando o farol.

Miller acabou de colocar as compras na sacola, olhou para João por sobre o balcão.

— Os dois últimos faroleiros também disseram que não acreditam em fantasmas, mas eles pediram demissão e saíram da ilha bem assustados. Algumas pessoas também disseram ter visto um vulto por lá. O padre Américo esteve no lugar da tragédia, fazendo uma reza. O padre vem todos os fins de semana rezar a missa. Aliás, ele reclamou que você não apareceu na igreja.

— Então, é por isso que ninguém da ilha quis o emprego.

— É uma pergunta ou uma retórica?

— É o que eu penso. Não acredito em fantasmas. Só vendo para crer. E diga para o padre que eu não tenho religião.

Miller sacudiu a cabeça.

— Mas acredita em Deus?

John ergueu os ombros num gesto de dúvida..

O assunto morreu ali. João não gostava de conversa fiada, pegou a sacola, despediu-se e foi embora.

****

Com o passar dos dias, João acostumou-se com aquela vida, que ele considerava não ser definitiva. Tinha outros planos para o futuro. Duas semanas depois, quando foi ao empório comprar café e feijão, encontrou-o fechado. Achou estranho, Miller só fechava aos domingos. Avistando um dos moradores, consertando uma rede de pesca, aproximou-se.

— Sabe se o senhor Miller está doente? O empório está fechado.

— Ele deve de estar no cais. Tá todo mundo lá.

— Aconteceu alguma coisa?

— Faz dois dias que a barca não vem.

João não entendeu muito bem o motivo de estar todo mundo lá. Praticamente todos os habitantes da ilha estavam no píer, olhando para o mar.

— O que aconteceu? - indagou João a Miller, morador que ele tinha mais contato.

— A barca não vem faz dois dias. As pessoas que foram ou trabalham no continente não voltaram. Dois moradores partiram num barco para saber o que aconteceu e também ainda não voltaram.

Um homem subiu num caixote para falar e ser ouvido. Padre Américo vinha a ilha todos os fins de semana para presidir a missa.

— Não aconteceu nenhuma tempestade messes dias.- disse o sacerdote. Ele usava roupas comuns, mas com um colarinho branco para mostrar a função de clérigo.- Se o tempo estivesse ruim, poderíamos pensar num naufrágio. Pode ser que tenha surgido uma epidemia na cidade, alguma praga e o governo proibiu as pessoas saírem. Eles devem ter ficado em quarentena. Acho melhor a gente ficar e esperar. Seria bom irmos pra igreja rezar.

— Eu não vou esperar- disse Wilson Peterson, dono de um barco pesqueiro que estava ancorado ao largo. – Minha esposa e meu filho estão na cidade. Vou buscar o meu barco e quem quiser ir comigo, fique preparado para ir junto.

Ele pegou uma canoa e remou para buscar a embarcação.

Os que tinham parentes sumidos, entraram na embarcação.

— Eu vou ficar para dar conforto espiritual aos que decidiram esperar. – afirmou o padre.

— Eu tenho que cuidar do empório – disse Miller. João permaneceu calado, assim como as outras pessoas.

— Alguém viu se Celina Parks entrou no barco? – indagou o padre, olhando ao longo da rua.

— Ela não apareceu hoje no cais.- respondeu um dos homens.

— Vou procurar na casa dela. Celina queria muito pegar o barco. – disse o padre e se afastou.

— O padre tá preocupado com a amante dele. – murmurou Elvira Thornton.

— Não acredito que o padre tem uma amante! – exclamou outra mulher no mesmo tom.

Miguel Thornton pegou a esposa pelo braço.

— Deixa de fazer fofoca. Vamos pra casa.

O grupo se dispersou. Miller reabriu o empório. John comprou o que precisava e foi para casa.

Três dias depois, ele estava capinando ervas daninhas, quando avistou Miller se aproximando.

— Nós vamos para o continente. – disse o comerciante, ofegante pela caminhada. – Ninguém apareceu. Celina Parks está com dor na barriga, parece que é pedra na vesícula e o padre Américo resolveu leva-la a um hospital. Como restou uma canoa apenas, o resto do pessoal decidiu ir junto. Se eles forem eu também vou. Se você quiser ir embora daqui, decida agora. Não sei o que está acontecendo lá na cidade, pode ser uma epidemia e o pessoal ficou em quarentena. A barca não trouxe mais mercadorias e eu não sei até quando teremos provisões na ilha. Alguns itens já estão faltando.

Miller se calou, respirando fundo. Olhou para João, esperando uma decisão.

— Não posso abandonar meu posto. Navios devem estar navegando por aí e eles precisam se orientar à noite. Talvez algum deles acabem ancorando por aqui. Afinal, se tem mesmo uma praga na cidade, este é o melhor lugar para ficar.

Miller estendeu a mão e entregou a chave da porta do empório.

— Pega o que você precisar.

Acenou um adeus e foi embora.

****

Uma semana depois, João chegou na vila não tinha mais ninguém. O empório e as casas continuavam fechadas. Os moradores pretendiam voltar, mas esse retorno não tinha data certa. Miller deixou a chave do empório com João, para ele pegar o que precisasse, sem esquecer de anotar no caderno.

Os dias foram passando e os moradores não retornaram. Ervas daninhas começaram a crescer ao redor das casas e no meio da rua. João fazia suas tarefas normalmente e depois de algum tempo começou a se questionar, se acender o farol ainda era necessário. Assim como as pessoas, ele não viu mais nenhum navio passar naquela rota.

****

Três dias depois...

João pegou a sacola e despejou os maços de dinheiro sobre a mesa. Dinheiro que ele havia roubado de um carro transporte. Não sabia a quantia certa, mas achava que deveriam ter perto de1milhãol ali. Foi por causa do roubo que ele resolveu candidatar-se àquela vaga de faroleiro. Usou documentos falso e agiu rápido antes que a polícia tivesse pistas sobre o autor do crime.

A ilha era um ótimo esconderijo. Poderia viver ali alguns meses como faroleiro, até a polícia parar as investigações, pelo menos por algum tempo. Ele havia praticado um crime perfeito. Planejou tudo muito bem para não deixar pistas. Acompanhado do funcionário da Capitania dos Portos, havia deixado a cidade sem levantar suspeitas.

****

João decidiu que era hora de pedir demissão. Nem Anderson havia aparecido para lhe trazer os salários atrasados. Considerava-se abandonado naquela ilha deserta.

Andou por toda a orla e não encontrou nenhum barco, nenhuma canoa sequer. O vento varria o píer vazio, assobiava nas cumeeiras das casas solitárias.

Ele pensou em fazer uma jangada, mas o mar estava agitado. Havia o perigo de ela virar e ele não sabia nadar. Morreria afogado. Voltou para o farol.

Naquela noite, começou a contar o dinheiro, fazendo anotações numa folha de papel, quando ouviu barulhos sobre o telhado. Pegou o lampião e saiu. Era uma noite de lua cheia, a ilha estava coberta por um manto de prata. Ouviu um ruído mais distante e pensou que talvez fosse o tal fantasma que as pessoas falaram.

Um bater de asas chamou sua atenção. Voltou-se no mesmo instante em que um animal investiu contra ele. Sentiu o impacto e caiu, a lanterna escapando de sua mão. O ombro começou a doer. Levantou-se rápido, entrou na casa e trancou a porta. Assustado, tirou a camisa e olhou-se no espelho. A ave, pois sem dúvida era uma, havia ferido seu ombro direito com as garras. Na face esquerda tinha outro talho.

Limpou, desinfetou as feridas e colocou uma pomada cicatrizante. Só então, voltou a pensar naquele animal. Não era uma águia real, mas o tamanho era equivalente. O formato das asas parecia mais as de um morcego, não possuía penas. O bico era adunco como as aves de rapina, mas a cabeça possuía detalhes que, definitivamente, não era os de uma águia.

O barulho sobre o telhado voltou. João abriu a porta dos fundos e correu para a torre. Subiu as escadas e acendeu a lâmpada. O facho de luz começou a circular. Olhando por cima do parapeito, John viu as aves sobre a casa, outras saltitando nas imediações. Mas o facho de luz as afugentou. Elas fugiram da luz. Não suportavam a claridade, principalmente da luz do dia. Logo todas desapareceram na escuridão do oceano.

Quando amanheceu, ele entreabriu a porta e não viu nenhum dos monstros. Não sabia o que era aquilo, de onde veio, mas desconfiava que era por causa deles que ninguém voltou do continente. Desistiu da ideia de sair da ilha. O farol era um bom refúgio. Precisava estocar comida. Fez várias viagens, levando todos os mantimentos do empório para o farol. Numa dessas viagens, viu colunas de fumaça preta no horizonte. Havia incêndios no continente.

Ele havia pegado algumas garrafas de whisky do empório e resolveu abrir uma para tomar alguns goles. Levado pelo amortecimento dos sentidos, acabou bebendo demais. A embriagues anulava todos os seus problemas. Era a fuga mais idiota que fez. Acabou perdendo a consciência.

Quando acordou já era noite e os monstros estavam sobre o telhado. O medo, a adrenalina, lhe deu as forças necessárias para raciocinar e agir. As aves estavam arrancando as telhas. Ele correu, pegou a mochila e espalhou o dinheiro sobre a mesa, despejou querosene sobre o monte e colocou fogo.

As chamas se espalharam pela mesa, seguindo a querosene que escorria para o assoalho. O fogo se avolumou, pegando nas traves do teto. João correu para o farol, ligou a luz, subiu para o alto da torre. Os monstros fugiram, tanto das chamas como da luz do farol. João deixou-se cair, vencido pela ressaca, pelo desanimo. Seria uma longa noite.

Estava deitado, quase pegando no sono, quando notou que o bojo do farol girava cada vez mais devagar. Ergueu-se rápido, pensando em descer para girar a manivela do dínamo, mas viu as formas escuras diante da porta lá embaixo. O facho de luz piscou duas vezes e apagou-se. O bater de asas se intensificou. João caiu de joelhos, entregando-se ao seu destino. Aterrorizado e arrependido de não ter pegado o barco com os outros, como se pudesse ter fugido daquele pesadelo.

Súbito, soaram explosões, tiros de metralhadoras, barulho de helicópteros. A ilha estava sendo bombardeada. João encolheu-se num canto. Quando o tiroteio cessou, a torre continuou de pé, os monstros alados mortos ao redor.

João saiu de seu esconderijo. Soldados mascarados andaram pelo meio dos monstros, lançando fogo sobre os cadáveres. John foi levado para um helicóptero por dois homens vestidos com roupas protetoras amarelas, usando máscara contra gases. Na cidade ele foi trancafiado numa cela. Apesar de seus protestos, ninguém deu explicações sobre o que estava acontecendo.

Durante a noite sua consciência se extinguiu.

Ao amanhecer, ele era um dos monstros.

1 de Julho de 2022 às 23:22 0 Denunciar Insira Seguir história
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