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Carmen

Quando Carmen se mudou para a cidade universitária, conseguia pagar o aluguel com o trabalho de meio período na locadora, passar na universidade com bolsa integral foi uma conquista tremenda pra alguém tinha pouco tempo pra estudar pois cuidava dos irmãos menores, da casa, mas o sacrifício da mãe valia a pena, agora os irmãos tinham vagas na creche, a mãe fez o curso noturno e conseguiu um trabalho melhor numa fábrica de cosméticos bem grande, com os benefícios tinham uma chance, um pouquinho de sorte e comida na mesa. Carmen não queria perder aquela chance, o turno da tarde e da noite eram passados no curso, se podia adiantar matérias, era o que iria fazer, a sorte veio mesmo quando achou uma casinha pequena entre aqueles prédios enormes, apesar de intimidar a jovem, subiam bonitos e espelhados, enquadrando um pôr do sol visto nos dias de folga dela. A vida era simples, corrida mas valia muito a pena. Cada segundo. Os meses foram passando e se sobrava um dinheiro conseguia comprar uma ou outra coisa, as vezes olhando as ruas mais chiques conseguia mobília semi nova que só precisava de uma pintura e uns pregos no lugar certo, quando muito, desse jeito montou seu cantinho com tudo que queria e precisava, chegava da locadora, vestia a farda da universidade e pegava o ônibus, 15, 20 minutos de percurso que poderia fazer a pé mas não arriscava, principalmente a noite, alguns trechos do caminho eram mal iluminados, e querendo ou não alguns dias o cansaço era tão grande que só conseguia mecanicamente tomar um banho e cair na cama. As provas chegaram e se foram, Carmen seguiu firme seu primeiro ano de curso, boas notas, trabalhos entregues no prazo ou adiantados, se caia em um assunto que gostava ia a fundo, tecia comentários, traçava hipóteses, se divertia com os tratados técnicos, o material de apoio da biblioteca, devorava livros e filmes nas horas livres do dia. Descanso mesmo só no último fim de semana do mês pois durante, dava tudo de si pra ter aquele sossego.

Sua mãe vinha lhe visitar a cada 3 três meses, fazia uma ginástica danada pra trazer comida, plantinhas e coisas que a filha gostava, da última vez, conseguiu uns vasos de espada de São Jorge só porque não gostou da casinha ter tão pouca luz natural.

- O sol é a maior proteção que a gente tem, espanta coisa ruim, aquece, dá coragem, se não tem sol suficiente a gente fica triste, mirrado, tem coisa no mundo que só precisa de uma brechinha, aqui não vai entrar.

- Tá certo Mãe, e precisa regar todo dia? - Não, a cada 3 dias, abra essas janelas pra mudar o ar, da próxima vez vou trazer uma vassoura de ramo, umas pedras, ervas pra você ter em casa, é bom, sempre bom, sempre lhe incentivei a confiar no que você aprendia na escola e no que sabia do coração. E foram dormir rindo daqueles medos bobos de quem cresceu longe dos grandes centros. Chegava a hora de se despedir da mãe, dava um aperto no peito toda vez, mas tinha que ser assim. - Deus te abençoe cabeçuda, e cuidado com esse tanto de livro, saia, vá dançar um fim de semana, faça umas amizades, vai lhe fazer bem.

- Ahh Mãe tenho tempo não mas se tiver um dia lhe conto tudo.

Dias se passaram e uma noite voltando da universidade reparou em um casarão, fachada verde e branca, portões brancos e muros altos, alguns anjinhos esculpidos em pedra sabão, uma fonte e uma moça sentada nos degraus da entrada, quando passou o ônibus parecia desacelerado, todos esses detalhes lhe pareceram tão próximos que sentia no rosto a garoa que começava a cair. A moça vestia uma roupa de tecido claro, parecia um vestido não conseguia precisar, as mangas longas e um abotoamento que ia até o pescoço, muito antiquado apesar da cor bonita, um azul claro enfeitado com rendas, botões de pérola branca.

A moça olhava o chão mas bem no momento que a janela de Carmen se alinhou bem com o portão do casarão ela levantou o rosto, seus cabelos antes caídos agora flutuavam como se batesse um vento de baixo pra cima, as mechas longe do rosto revelaram uma face impossível.

No lugar dos traços um tom de cinza com pequenos pontos verde limão se mexendo freneticamente. Carmen apertou os olhos para ver melhor e o rosto vazio a encarou de volta, poucos segundos foram tão arrastados quanto aqueles em que o vazio notou sua presença. Sentiu a curiosidade da mulher sem rosto, sem globos oculares o seu olhar extradimensional lhe queimou a pele e parecia perscrutar sua alma.

Então, sentiu o solavanco do ônibus e acordou com a cobradora prestes a lhe tocar o rosto, a mão que se aproximava também estava cinza, os pontos verdes se chocando uns com os outros, tão perto que podia ouvir um chiado, o cinza profundo lhe tapou os olhos e com um sobressalto acordou no balcão da locadora, era hora de ir para casa.

30 de Junho de 2022 às 16:27 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos. Navegante do multiverso, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

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Norberto Silva Norberto Silva
Muito bom! Adorei a montagem da personagem, deixando-a tridimensional e tão comum para, de repente surgir a "esquisitice" como uma porrada e com esse fim dentro de um fim. Bom demais!
July 04, 2022, 02:22

  • Siph Ferreira Siph Ferreira
    Ahhh valeu, esse conto foi daqueles que a ideia surgiu de uma conversa e eu n sosseguei enquanto não escrevi. Feliz que tu curtiu, de verdade. July 04, 2022, 19:21
Pensador Louco Pensador Louco
Uau, sensacional do início ao fim. Uma weirdtale de primeira grandeza, e li duas vezes pra apreciar melhor essa história linda. Parabéns.
June 30, 2022, 21:23

  • Siph Ferreira Siph Ferreira
    Ahh obrigado Mestre, de verdade, fico feliz que curtiu. June 30, 2022, 22:11
~