umehatake Ume Hatake

Pela dor ela se rebelou. Pela dor ela mentiu. Pela dor ela matou. Por amor ela tentou. Por amor ela se entregou. Por amor ela sofreu. Até descobrir que seu coração já havia sido tomado por outro.


Fantasia Fantasia negra Para maiores de 18 apenas.

#adulto #Amor #inkspiredstory #newadult #magia
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Capítulo 1

Aquele não era um dia incomum, a mesma lua despontava no meio do céu azul escuro como breu. As várias folhagens eram quase indetectáveis pela falta de luz direta, escondidas pelo arco de galhos e arbustos que se juntavam se privando da luz do luar.

Uma visão realmente ameaçadora se não conhecesse o caminho que existia adiante, mata fechada cercava os arredores até a descida para o litoral. Ninguém tinha coragem de se aventurar por ali, pelo menos não à noite.

Segui meu caminho como fazia todas as noites que a lua começava sua subida cheia até o topo do céu, no mesmo dia em que todos se escondiam dentro de suas casas, dentro daquela pequena aldeia medíocre.

Meu corpo sempre queimava com a chegada do meio da noite, quando a grande luz se posicionava no ponto mais alto. Eu podia ver ela subir lentamente pelas frestas das folhas do arco desalinhado de galhos, enquanto caminhava pelo caminho pedroso. Podia sentir também o poder subindo desde o meio do meu ventre até as pontas dos meus dedos, pronto para explodir. Mais uma vez.

Deixei meus dedos serem arranhados conforme passava a mão pelos arbustos baixos, as pontas e os pequenos espinhos causavam pequenas cócegas enquanto minha caminhada seguia para o lado contrário do litoral; subindo e subindo para o ponto mais alto.

Lentamente, dolorosamente e suavemente as sombras deixavam meu corpo, ondulando e serpenteando atrás de mim e adiante. Elas adoravam aquele ritual, adoravam a força bruta e antiga que a lua entregava nas noites cheias, adoravam a profundidade da solidão que ela transbordava. Então as deixei que me guiassem, me levando como um condutor até o alto da colina onde as pedras quase polidas foram agrupadas quase que milimetricamente formando um semicírculo.

Era um espaço aberto, um lugar feito por antigos e eu o usava desde que essa força dentro de mim me tomara e vem crescendo. O terreno amplo era coberto pela terra seca e aberto até as pontas das pedras, seu centro tinha a superfície rochosa e abrigava fuligem e poeira, partes de madeira queimada que eu normalmente usava para atiçar o fogo e alimentá-lo até que ele passasse da altura das árvores que cresciam ao redor do terreno.

Segui para o meio do semicírculo e suspirei, as sombras que me envolviam em uma dança se chocaram e explodiu ao redor como uma bomba de fumaça. Juntei aquele poder, a força que eu sentia revirar em meu ventre e a expulsei para fora. Meus ossos tremeram com a força que tomou meus braços até as pontas dos dedos e logo o fogo explodiu em cima da superfície rochosa, a força fez a terra tremer levemente sob meus pés e o fogo serpenteou em cima das cinzas e das rochas no centro do espaço.

Era um lugar de adoração.

Um lugar de sacrifício.

Meu lugar de sacrifício.

O poder ondulou dentro de mim quando a lua finalmente se pôs no ponto mais alto do céu, o fogo que agora estralava dançando no meio das pedras reclamava pela falta de combustível, e isso fazia com que as chamas chicoteássem exigindo aquilo que eu havia me preparado para entregar a ele, o sacrifício da lua cheia, o sangue e o poder que eu havia roubado naquele mesmo dia mais cedo.

Ergui as mãos com uma longa respiração acima do peito e lancei essa mesma respiração em direção do fogo, ele brilhou e consumiu o último suspiro do sacrifício. Puxei a ponta da capa que cobria meu corpo completamente nu debaixo do tecido, deixei ela cair ao lado dos meus pés e girei nas pontas dos pés deixando sair cada um dos movimentos que foram feitos pelo meu corpo.

As sombras que agora tinham formado uma espessa nuvem ao redor do espaço, voltaram e se chocaram contra minha pele, consumindo e procurando onde havia cada um dos toques que absorvi, que permiti antes de roubar as forças da minha última vítima. A nuvem girou me tocando e absorvendo todo o prazer sofrido que o sacrifício me deu.

A chama chiou quando as sombras se afastaram do meu corpo para chocar contra ela, entregando a penúltima parte daquele simples ritual.

Enfim caminhei até as chamas vivas que giravam em torno de si própria, deixei que meus joelhos encontrasse o chão arenoso e deu um outro longo suspiro. Cortei com minha própria unha a ponta do meu indicador e não demorou para que o sangue fluísse por aquela fina fenda na minha pele. Olhei em volta chamando para dentro de mim novamente as sombras que me acompanhavam desde jovem e deixei que elas me invadissem antes das chamas reivindicarem o sangue, a última parte do ritual.

Um pequeno e fino tornado se moveu dentro da fogueira e direcionou a ponta para mim, eu já sabia o que fazer, elas sempre pediam o sangue que eu dava de bom grado em troca da sua força. Estiquei as mãos deixando as gotas escorrerem por meus dedos até que o redemoinho de fogo tocasse a ponta do meu dedo. O fogo subiu até o alto recebendo o que eu entregava e aos poucos as gotas de sangue encontraram a saída do meu corpo por aquela pequena fissura. O cheiro de cobre queimado subiu e a dor aguda acertou meu baixo ventre, uma pontada como se eu tivesse sido apunhalada por uma longa lança.

Meu corpo tremeu eu gritei.

O ritual estava feito.

Então apaguei.



Sua entrega foi aceita.

Minha mente apitou. Era sempre assim, todos os meses eu era obrigada a subir para entregar um sacrifício que as sombras exigiam, e era sempre doloroso demais.

Eu não tinha muita escolha, sequer havia algo a não ser dar o que elas queriam. Todos os meses minha consciência me levava a violar a honra de algum humano, de quem quer que mostrasse algum tipo de poder. Quem sequer pensasse em virar os olhos em minha direção. Era como se aquele poder que reverberava dentro de mim decidisse e escolhesse o que queria, como se conseguisse sentir o sabor do sangue que gotejava das minhas veias.

Busquei a capa que estava jogada ao meu lado e me vesti, não foi uma escolha minha estar nua e sozinha no topo de uma baixa colina. Mas era impossível não gostar de todo o poder que eu sentia fluir pelas minhas veias, era como um líquido viscoso e prateado, como se fosse prata derretida e incandescente escorrendo por baixo da minha pele.

Respirei algumas vezes antes de voltar ao caminho que tomei para subir, um fôlego necessário para conter a energia e cultivar um pouco de paciência para encarar a realidade que me cercava.

Sthenyan ficava abaixo das colinas, entre dois picos salpicados por folhagens e se estendia por todo o continente, mas ali, onde as colinas formavam uma rara e singular fenda quase verdejante, era o pequeno coração dessa cidade.

Onde nasci e ainda assim não era meu lar.

A descida para a minha aldeia era tão cansativa quanto a subida, meus ossos rangiam pelo frio da manhã e isso tornava difícil se movimentar vestida apenas por uma capa.

Ao menos não era tão difícil quanto a máscara que usava e o próprio sacrifício que fazia, mas era necessário; tão necessário quanto o ódio que fervilhava dentro de mim. Era uma troca de favores, minha raiva tocava sutilmente aquele poder e ele se alimentava dos sacrifícios que eu entregava. Por mais que eu odiasse isso, essa moeda de troca me permitia me vingar e me deliciar com isso até a última gota.

Gotas de gritos.

Gotas de desespero.

Gotas de um prazer insano ao ver suas vidas sendo sugadas para dentro do meu ser.

O arco de folhas começavam a se abrir conforme a caminhada até Lyth diminuía, e todo esse trajeto sempre me trazia a memória como eu tinha perdido minha vida para essa tortuosa escuridão, como aquela noite tempestuosa de dor e desespero me trouxeram o poder que agora habita em mim.

Foi escolhida.O líquido de poder ondulou sussurrando.

Afastei aquela voz sibilante da minha cabeça, ela costumava me instigar e escolher suas próprias vítimas, me contando seus pecados, mostrando o quanto eram ruins; tão ruins quanto aquele homem no dia da grande tempestade.

Lyth era o gatilho, aquela aldeia dentro de Sthenyan era o ponto central das minhas dores e doces loucuras.

Todos os ciclos eram os mesmos, todo despontar de lua cheia trazia à tona todas as minhas dores. Minha mente trazia de volta cada uma das sensações que me tocaram naquela noite e talvez por isso eu tivesse forças para subir a colina e derramar meu sangue diante daquele ritual, aos pés do fogo incandescente.

Um passo após o outro e uma lembrança após a outra.

Viver ali... era o que eu tinha.

Tudo o que eu poderia ter desde que meu pai decidiu que eu não lhe servia mais e que me dar a um homem sem nome seria mais proveitoso, claro que sim, os recursos eram poucos e nada, nem mesmo toda a riqueza que ele pudesse querer faria com que me deixasse ficar em casa.

Foi nessa mesma noite que perdi minha inocência e dignidade, foi exatamente nesse mesmo dia que ganhei meus poderes.

A tempestade já tinha dado um sútil aviso de que naquela noite, traria o caos, eu só não sabia que seria tão poderosa assim.

Os ventos derrubaram casas e raios caíram em diversos pontos, tanto em Sthenyan quanto em Syth. Minha casa foi um desses lugares.

Enquanto eu me debatia e gritava, meus pais morriam queimados. Enquanto eu tentava desesperadamente sair debaixo daquele homem, me perguntando diversas vezes o que eu havia feito de errado, meus pais tinham a pele queimada até a morte.

Por sorte eu consegui fugir, não antes de deixar meu orgulho manchado naqueles lençóis sujos ou de me sentir tão suja quanto o barro dos porcos.

Mas consegui, e foi para a colina que recorri, o lugar onde até mesmo meus ancestrais temiam falar. Corri por esse mesmo caminho pedroso, onde o arco ainda não tinha florescido. Debaixo da chuva intensa da tempestade, até cair sobre os joelhos de frente para o núcleo de rochas.

Ele percebeu minha ausência de alguma forma naquela noite, mesmo debaixo do barulho daquela chuva, e me seguiu. Mas eu já havia aceitado meu destino, com as roupas sujas do chão misturadas com meu próprio sangue. Quando ele chegou à colina, eu já havia sido consumida pelas sombras, pela dor, pelo ódio que fervia dentro de mim. Então ele foi o primeiro. O primeiro a ser lançado ao fogo como um grande pedaço de carne, observei ele queimar e sua pele derreter até que sobrasse apenas queimaduras logo depois das sombras se enroscarem nele como uma serpente. Ele gritou quando começou a ser arrastado até as chamas que queimavam firmes mesmo debaixo da chuva.

Então, eu me libertei na mesma noite em que perdi tudo.

29 de Junho de 2022 às 01:51 2 Denunciar Insira Seguir história
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Lanthys LionHeart Lanthys LionHeart
Muito bom, gostei da narrativa inicial de como tudo chegou até o ponto das atitudes da personagem principal... O conto parece se passar em um cenário de idade média ou fantasia, temática que me agrada muito e a forma como a raiva e o ódio moldaram o início da trama, também me prendeu! Parabéns pelo trabalho!
June 30, 2022, 18:08

  • Ume Hatake Ume Hatake
    Caramba!! Muito obrigada! Fico muito feliz que tenha gostado! Espero que continue te prendendo e trazendo surpresas! June 30, 2022, 19:43
~

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