helainaideas H.C. Crisostomo

Você acredita em lendas? E se uma maldição colocasse sua vida em risco? Annabelle e Felipe, fãs de filmes de terror, jamais imaginaram vivenciar aquilo que assistiam apenas nas telas. O que começou como uma viagem de final de semana nas proximidades da cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais; foi drasticamente interrompido por uma tempestade, obrigando os dois amigos a se hospedarem num hotel isolado. Aos poucos, no entanto, a estrada parecia cada vez mais segura do que aquele lugar de atmosfera sombria. A amizade deles será suficiente para proteger da ameaça sobrenatural que irão enfrentar? Venha acompanhar essa aventura, e não se esqueça de apagar a luz! Estejam avisados. Obs: Foto usada na capa - Elijah O'Donnell (Unsplash)


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Capítulo 1

Annabelle andava sem destino pelo centro comercial da cidade que a havia acolhido tão bem pelos últimos meses lamentando o fato de em breve precisar abandoná-la. Sua estadia já havia extrapolado os planos iniciais quando ela concluiu o curso de Ciências Biológicas na Universidade Federal de Juiz de Fora e conseguiu emprego em um laboratório de análises de histocompatibilidade. Agora, eram dois os motivos para precisar voltar a morar com os pais em uma pequena cidade no interior de Minas Gerais.

O mais forte era o fato de não ter mais como se sustentar financeiramente, pois com a redução do quadro de funcionários no laboratório onde trabalhou por um ano, ela havia perdido sua única fonte de renda. O outro motivo foi ter flagrado seu agora ex-namorado, aos beijos com outra mulher na sala dos funcionários do banco onde ele ocupa um dos cargos de gerência.

Seu olhar vagava pelas fachadas das lojas sem se prender a nenhuma, até o cansaço conduzi-la para dentro de uma cafeteria graciosamente encaixada entre uma livraria e uma loja de sapatos de grife próximo à entrada de um shopping. O letreiro em madeira sobre a porta, as mesinhas do mesmo material, em cor mais escura, com quatro cadeiras em volta e o ambiente em estilo retrô, visíveis através da vitrine, era convidativo demais para Annabelle procurar por outro lugar onde descansar e fazer um lanche.

O estabelecimento estava quase vazio, provavelmente pelo horário — ela imaginou. A maioria das pessoas ainda deveria estar ocupada trabalhando. Esse pensamento fez a mulher se lamentar por não estar mais na mesma situação. Das sete mesas, apenas duas estavam com clientes e os quatro banquinhos de frente para o balcão estavam livres. Ela escolheu uma mesa decorada com uma pequena toalha e um arranjo delicado de flores num canto entre a estufa de pâtisserie e a vitrine da loja. Enquanto escolhia de longe uma das guloseimas, um homem usando um avental bege com o nome da cafeteria bordado em azul; Art’s Café – se aproximou dela.

— Posso interromper seus pensamentos? — perguntou ele com um sorriso no rosto.

— Tudo bem, não está interrompendo nada — respondeu Annabelle deduzindo com base na própria idade que ele não deveria ser muito mais velho do que ela e, portanto, não deveria passar dos 30 anos. — Estava apenas escolhendo um daqueles. — Ela apontou para as rosquinhas.

— O doughnut de chocolate com recheio de morango é um dos meus preferidos, se me permite a sugestão — disse ele sem esconder a animação.

— Gosto da mistura de sabores, acho que vou aceitar a dica... — Ela apertou os olhos para ler o nome no crachá fixado no avental. — Felipe.

— Ótima escolha!

Os dois trocaram um sorriso.

— Posso sugerir também um café para acompanhar? Os grãos são da fazenda da minha família, que fica perto daqui, e é a nossa especialidade. Atrevo-me a dizer que é o melhor de Juiz de Fora!

— Uau! Acho que não posso sair da cidade sem experimentar então! — Ela sorriu. — Pode me trazer uma xícara, por favor.

— Em um minuto — respondeu Felipe se afastando.

Annabelle ficou olhando enquanto o homem se afastava. Cabelo castanho escuro curto, pele clara, alguns músculos, mas nada exagerado, sorriso bonito, simpático. Praticamente um clichê de comédia romântica ambulante. Talvez se estivesse com seus longos cabelos castanhos presos em um coque frouxo e a cafeteria fosse de uma franquia famosa, a sorte estivesse a seu favor. No entanto, a falta dos dois detalhes a fez sentir que a chance de a sua vida ser transformada com aquele encontro casual dissipar como fumaça. A mulher riu com aquela ideia maluca.

Felipe voltou com uma bandeja com os pedidos e um açucareiro. Ele colocou tudo sobre a mesa e esperou enquanto ela adoçava o café e bebia o primeiro gole.

— Humm, — murmurou ela depois de experimentar. — Realmente muito bom!

— Eu ou meu pai vamos todo mês buscar os grãos já torrados, e moemos aqui mesmo.

— Por isso é tão bom! Parece muito mais fresco do que o do mercado. — Ela bebeu mais um gole. — Tem gosto de café.

De repente o semblante calmo de Felipe mudou. — Desculpa. Esqueci de perguntar se você queria um descafeinado. Gosto tanto desse café que às vezes não me lembro de perguntar.

— Não se preocupe, também prefiro assim. — Ela bebeu mais um pouco. — Tem sabor de casa.

Felipe sorriu para ela. — De onde você é?

— De uma cidade pequena aqui perto — respondeu ela sem querer dar muitos detalhes antes de morder um pedaço do doughnut que era tão bom e fresco quanto o café.

— Faz muito tempo que você mora em Juiz de Fora? — Felipe segurava a bandeja vazia na frente do corpo.

— Vim morar aqui depois que passei no vestibular uns 5 anos atrás — respondeu ela. — Consegui um emprego assim que me formei, mas o sonho só durou um ano. E agora vou ter que voltar pra casa.

— Por quê? — A pergunta saiu tão naturalmente que ele se retratou logo em seguida deixando claro que ela não precisava responder se não quisesse.

— Tudo bem. — Ela sorriu. — É que sem um salário não tenho como me manter aqui.

— E se você conseguisse outro emprego? — perguntou Felipe.

A mulher olhou para ele, mas não respondeu.

— Espere um minuto. — Ele se afastou e instantes depois voltou com um homem que parecia ser sua versão envelhecida. O que denunciava a diferença de idade eram algumas rugas ao redor dos olhos, os cabelos grisalhos e o abdome bem mais dilatado.

— Olá, — disse o sujeito estendendo a mão para cumprimentá-la. — Eu me chamo Arthur, e meu filho Felipe disse que você poderia estar interessada em um emprego?

— Ah, bom, eu gostaria de ter essa oportunidade — disse ela compreendendo o que estava acontecendo. — Não estava querendo me despedir de Juiz de Fora ainda.

— Você tem experiência atendendo o público? — perguntou o homem mais velho.

— Não muita... — Ela comprimiu os lábios um contra o outro. — Tínhamos pouco contato com pessoas fora do laboratório onde eu trabalhava.

— Bom, não é um serviço difícil de aprender. — Ele coçou a cabeça. — Estamos precisando de mais alguém para nos ajudar a servir as mesas. O Felipe tem feito o possível, mas ficar no caixa e servir as mesas ao mesmo tempo não são tarefas fáceis — comentou Arthur colocando a mão sobre o ombro esquerdo do filho. — Principalmente nos horários de mais movimento.

A oportunidade alegrou Annabelle, mas o medo de não dar conta do serviço logo apareceu. Interagir com várias pessoas ao mesmo tempo nunca foi o seu ponto forte, característica que a fez escolher um local de trabalho com acesso mais restrito como o laboratório. No entanto, se quisesse continuar na cidade era melhor aceitar a proposta.

— Fique um tempo como experiência, — insistiu Arthur. — Qualquer tempinho que você ficar vai ajudar bastante.

— Vou aceitar o desafio — respondeu ela por fim.

— Quando terminar venha ao meu escritório para acertarmos os detalhes. — O dono do café apertou a mão dela mais uma vez e começou a se afastar, entretanto parou no meio do caminho e se virou de volta. — Desculpe a indelicadeza de não ter perguntado antes, mas, qual o seu nome?

— Annabelle — respondeu ela já esperando pela reação dos dois homens.

Arthur e Felipe olharam um para o outro e sorriram da forma mais discreta que conseguiram. A mulher fingiu não ter percebido, pois já havia se acostumado com aquilo desde o lançamento do filme da boneca amaldiçoada sua xará.

(...)

Seis meses depois

Por mais inacreditável que pudesse parecer, a sorte de Annabelle realmente estava a favor dela e depois de uma primeira semana se sentindo perdida como nunca, a mulher se acostumou com o novo trabalho. O salário que Arthur ofereceu era suficiente para pagar o aluguel do pequeno apartamento onde ela morava com uma discreta sobra para as contas de água e luz, complementada pela hora extra nos dias de mais movimento.

Felipe tinha acabado de completar 30 anos e, portanto, era apenas dois anos mais velho do que ela o que facilitou a amizade entre os dois. Aos poucos ambos descobriram o tanto que tinham em comum, desde os desenhos que assistiram na infância, a seleção de filmes e séries que acompanharam a adolescência e não havia mudado muito na vida adulta. Outro gosto que compartilhavam era o musical, por isso nunca havia briga na hora de escolher o que tocaria no rádio do carro quando faziam as pequenas viagens.

O café usado no local realmente vinha das plantações da família, como o homem dissera, e a cada 15 dias alguém ia buscar alguns pacotes para reabastecer o estoque. Felipe e Arthur revezavam na função até Annabelle ser contratada e ter aceitado acompanhar o mais jovem em uma das viagens. Depois disso, o percurso de 200 km ficou de vez por conta da dupla se tornando hora extra fixa para a mulher, o que a deixou ainda mais confortável com suas finanças. O repertório preferido dos dois para acompanhar o passeio era as músicas da banda brasileira de rock Angra.

Aquele domingo, no entanto, eles haviam cometido um erro. Ao se empolgarem com o dia ensolarado, aproveitando para nadar na cachoeira que ficava no terreno da fazenda da família de Felipe, os amigos perderam a noção do tempo e acabaram deixando o retorno para Juiz de Fora quando já estava escurecendo. Para piorar, uma chuva forte, típica da época na região, estava atrasando ainda mais a viagem, pois o homem precisou reduzir a velocidade e dirigir com o dobro de cuidado.

— Isso tá parecendo demais com um filme de terror — comentou Felipe sem parar de olhar para a estrada e segurando o volante do Fiat Strada com firmeza.

Ainda teriam pelo menos 3 horas de viagem pela frente, isso em condições normais. Naquela velocidade ele estava certo de que só chegariam em casa tarde da noite.

— Tá falando da chuva ou ainda não se cansou de fazer graça com meu nome? — perguntou Annabelle diminuindo o volume do rádio.

Já que iriam conversar, o som da música junto com o da chuva estava sendo demais para ela.

— Se tá querendo me irritar com isso nem perde tempo, já faz anos que ouço as mesmas piadas...

Felipe olhou para a amiga com um sorriso no rosto enquanto comprimia a língua entre os lábios.

— Desde que lançaram aquele filme em 2014 tem sido assim... Tem sempre alguém fazendo piada ou me olhando estranho quando falo meu nome. — Ela revirou os olhos e recostou a cabeça no encosto do banco. — Foi ideia do meu pai... — continuou. — Minha mãe queria Ana, mas ele achou muito simples e começou a vasculhar vários livros até ter a ideia... — A mulher sorriu discretamente.

— Bom, não tinha como ele saber, não é?

Ela negou com um aceno de cabeça.

— Mas eu não me chateio mais... Na verdade me divirto com isso, na maior parte do tempo.

Os dois se olharam por um breve instante e sorriram, mas o gesto foi interrompido abruptamente por um relâmpago que ecoou em um trovão ensurdecedor. A dupla chegou a prender a respiração enquanto impotentes acompanhavam o fenômeno natural.

— Felipe, não é melhor parar em algum lugar e esperar essa chuva diminuir um pouco? — perguntou Annabelle desligando o rádio do carro. Não havia mais clima para música.

— Está tudo bem — afirmou ele tentando parecer despreocupado. — O carro protege a gente dos raios.

— Eu sei, mas não falando disso... A chuva aumentou, quase não dá pra ver... CUIDADO! — gritou ela interrompendo o que dizia para alertar o amigo sobre um galho enorme caído no meio da estrada.

— Foi por pouco. — Felipe olhou aliviado para Annabelle enquanto voltava o carro para sua mão de direção depois de desviar do obstáculo.

As árvores formavam um contorno bonito naquele trecho da rodovia, mas durante as fortes tempestades, elas se tornavam uma ameaça graças a pouca visibilidade do caminho embaixo de suas copas verdes e cheias de galhos grossos. Depois daquele quase acidente, o homem reduziu a velocidade e entrou no primeiro posto de combustíveis que conseguiu ver. Um porto seguro no meio do temporal.

— Onde estamos? — perguntou a mulher olhando o mapa no celular que mostrava apenas a estrada. Não havia sinal de qualquer outra coisa no trecho.

— Vou lá perguntar. — Felipe desligou o carro e saiu sem tirar a chave da ignição.

25 de Junho de 2022 às 20:40 0 Denunciar Insira Seguir história
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