antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Uma escritora está com bloqueio criativo. Procurando se distrair, ela sai para dar um passeio no bosque. Algo inesperado acontece e ela tem que fugir correndo. Mas o evento assustador lhe dá uma ideia para uma história de terror e suspense...


Horror Horror gótico Todo o público.
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Daphne

─ Vou dar um passeio no bosque – disse a patroa para a criada.

Emma não respondeu, continuou a limpar os móveis, sabia que o aviso não era para seu interesse, apenas para dizer ao patrão, caso ele perguntasse onde a esposa estava.

Ela seguiu pela vereda atrás do casarão, uma antiga trilha de caçadores. Caminhou devagar, apreciando a natureza. Era um dia claro, de temperatura agradável. Logo chegou ao bosque. O sol através das folhagens, tecia intricados bordados de sombras sobre a serralha.

Aspirou o aroma das resinas. A mata transpirava um cheiro adocicado, refrescante. Vinha ao bosque sempre que precisava desanuviar a mente. Os bloqueios criativos a deixavam inquieta, irritada. Só o bater das teclas da máquina de escrever, o processo de criar uma história, lhe davam ânimo, novas energias.

Deixando o esplendor das faias e bétulas para trás, chegou à charneca. Ali estava o velho carvalho em sua morte lenta. Devia ter uns 400 anos. Dos 50 metros de altura, possuía só a metade. Fora abatido por um raio, o fogo eliminou a seiva, secou o cerne. Mas ele não se entregou tão rápido. Rodeado por seixos e liquens secos, jazia moribundo, alguns galhos ainda com folhas verdes.

Num galho baixo estava um ninho, encaixado numa forquilha. Ela aproximou-se e ficou na ponta dos pés para ver o interior. Havia três ovos pequenos, azulados, salpicados de roxo.

Ficou encantada com a descoberta. Súbito, ouviu um bater de asas e pequenas garras atacaram seus cabelos.

Um tordo adejava sobre sua cabeça, defendendo seus ovos.

Afastou-se correndo, respeitando a propriedade alheia. O pássaro foi atrás, mas logo cessou a perseguição quando a intrusa estava bem longe de seus domínios.

Ela começou a retornar para casa, satisfeita com o passeio, descontraída pelo evento inusitado. Enquanto seguia pela trilha, uma centelha acendeu-se em sua mente, colocando engrenagens em funcionamento. Uma ideia despontou como um filhote de passarinho que quebra a casca do ovo e logo sai voando.

Os pensamentos concentrados no episódio tomaram outras formas quando pisou no umbral da casa. O bloqueio criativo fora quebrado.

─ O senhor Maurier está esperando a senhora para o desjejum. – disse Emma.

─ Diga que estou sem fome. Estarei no gabinete escrevendo e não quero ser incomodada.

Foi direto para o gabinete. Sentou-se diante da máquina de escrever, colocou uma folha de papel entre os rolos, ajustou as bordas e bateu nas teclas.

“ OS PÁSSAROS- No dia 3 de dezembro, o vento mudou durante a noite. Era inverno. Até então, o outono tinha sido ameno. As folhas haviam permanecido nas árvores, vermelhas-douradas, e as sebes ainda eram verdes,,,”


Nota do autor; história fictícia sobre Daphne du Maurier, (13/05/1907-, Londres- 19/04/1989, Fowey). autora de; Os Pássaros, conto de terror e suspense que o cineasta Alfred Hitchcock, (13/08/1899, Londres- 29/04/1980, Los Angeles), transformou em filme.

24 de Junho de 2022 às 19:42 0 Denunciar Insira Seguir história
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