antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Corria o ano de 1835. Insatisfeitos com o governo imperial, um grupo de estancieiros, militares e políticos do Rio Grande do Sul, liderados por Bento Gonçalves, faziam planos para proclamar a república e a independência do estado. Para derrotar as forças do governo, os insurgentes fizeram alianças com os mercenários Orcs da Banda Oriental do Uruguai e os Centauros dos Campos da Serra. André Gouveia Trajano da Silva Torquato, tenente do exército , acompanhado de seu fiel escudeiro, Arquimedes de Sergipe, chega a capital para defender a cidade com um exercito de robôs. André e Arquimedes sobrevoam o campo inimigo num zepelim que, por azar, acaba caindo. Os rebeldes atacam e conquistam a cidade. Protegido pela noite, André tenta entrar na fortaleza para ativar os robôs, mas ele é preso pelos orcs e acaba tendo uma bela surpresa.


Ficção científica Steampunk Todo o público.
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A Revolta

Insatisfeitos com o governo imperial, um grupo de estancieiros, militares e políticos do Rio Grande do Sul, liderados por Bento Gonçalves, faziam planos para proclamar a república e a independência do estado. Para derrotar as forças do governo, os insurgentes fizeram alianças com os mercenários Orcs da Banda Oriental do Uruguai e os Centauros dos Campos da Serra.

Como coronel do exército imperial, recebi do ministro da guerra, a missão de defender a capital da província e prender os líderes da revolução.

No dia 19 de agosto de 1835, acompanhado de Arquimedes de Sergipe, astrônomo, físico, inventor, engenheiro militar a serviço do Governo Imperial, chegamos de trem a estação ferroviária Anchieta, última parada, levando 28 robôs, 325 carabinas e 36 peças de artilharia. Dali a carga foi transportada para a cidade em carroças. Um pavilhão do Arsenal da Marinha foi destinado para o aquartelamento dos soldados de metal.

Naquele mesmo dia apresentei-me ao presidente da província, Rodrigues Braga e ao general Daniel Delano, para planejar e executar a defesa da cidade.

Porto Alegre estava circundada por fortificações. Os muros começavam na margem do rio Guaíba, passavam pelo Riacho e iam até a estrada da Azenha. Desse lado mandei colocarem dezenove peças de artilharia. Da Azenha o muro seguia até o quartel do Oitavo Batalhão de Caçadores e dali se estendia para o norte e findava na margem do rio, próximo ao porto da Brigadeira, ficando com mais dezessete canhões.

Como eu nasci e passei minha adolescência em Porto Alegre, sentia-me feliz em poder revê-la e ter o privilégio de comandar a sua defesa

*****

Aproveitando um dia de folga, fui visitar meu padrinho, Manoel Figueira, dono de um armazém na Rua Formosa esquina com a Rua do Arroio. Quando cheguei, encontrei Manoel acabando de fechar o estabelecimento.

— Boa tarde, padrinho! Como está o senhor?

O vendeiro olhou para mim, não me reconhecendo.

— Sou André, filho do Belmiro.

— Ah lá fresca! André! Que satisfação te ver.

Trocamos um forte abraço.

— Eu soube que haviam chegados soldados. Pelo seu traje, vejo que és militar. Veio com eles?

— Sim. Para combater os rebeldes.

— Me disseram que eles são comandados por uma mulher.

— O nome dela não seria Anita Garibaldi?

— Não sei. Acho que não. Me desculpe, estou apurado, preocupado com Rita.

— Deve estar uma bela moça. A última vez que a vi tinha o quê? Nove anos? O que aconteceu que deixou o senhor preocupado?

— Ela saiu com a mucama para ir à igreja e me disseram que elas estavam indo para as bandas do Pelourinho.

— O que foram fazer lá?

— Provavelmente assistir o enforcamento.

— Enforcamento?!

— O senhor não sabe? Vão enforcar um assassino. O homem matou a esposa por ciúmes, por uma bobajada! Acho que apressaram a execução para dar um aviso aos rebeldes. Preciso procurar minha filha. O senhor me acompanha?

— É claro! Vamos.

— Rita é uma tirana! Espero que se case logo. Com um bom homem, mas que lhe ponha freios. – disse Manoel começando a andar. Depois mudou de tom. — Não vá pensar que quero me livrar de minha filha como se fosse malquerida. Acontece que Rita é rebelde, independente e eu não consigo educá-la como se deve. A mãe dela morreu há cinco anos e nos faz muita falta. Se Januária ainda estivesse viva, talvez Rita fosse mais comportada. Ela já havia me falado que queria ir ao enforcamento e eu não permiti, é claro!

— Como uma moça pode querer assistir um acontecimento tão chocante como esse?

— É para o senhor ver como Rita é. Acho que não é por gosto e sim curiosidade. No fundo minha filha tem bons sentimentos, é caridosa, gentil e muito religiosa. De qualquer maneira vou lhe dar um corretivo.

Logo depois chegamos ao Pelourinho. Ali estavam tropas Militares, oficiais de Justiça, padres e curiosos. No centro da praça fora colocado o patíbulo e ao lado dele se postava o carrasco com a cabeça encoberta por um capuz, pronto para puxar a alavanca que abria o alçapão. O condenado, um homem de cerca de 40 anos, permanecia com as mãos amarradas ladeado por dois soldados.

— Vai ser difícil encontrar sua filha no meio dessa gente.

— Vamos nos separar. – sugeriu Manoel. — O senhor vai pela direita eu vou pela esquerda. Voltamos a nos encontrar aqui.

— Não sei se vou reconhecê-la depois de tanto tempo...

— Vai sim. Ela se destaca da multidão.

O murmurinho silenciou quando o oficial de Justiça começou a ler o resumo do processo de acusação contra o condenado. Preso em flagrante, o sujeito foi condenado à forca segundo as leis vigentes.

Contornando o povo, seguindo rente ao rio, avistei duas garotas de pé sobre uma mureta. A mais velha possuía traços fisionômicos de Manoel e achei que fosse Rita.

— Senhorinha, seu pai a procura. Ele está muito bravo por teres desobedecido suas ordens.

Rita olhou-me, impassível.

— Do meu pai eu me preocupo depois. – respondeu com desdém.

Fiz um gesto largo.

— Como podes gostar de ver uma cena tão horrorosa como essa?

A mucama murmurou algo ao ouvido de Rita. Ela encolheu os ombros e voltou a me encarar.

— Cuida que sei, não o conheço e nem sou casada com o senhor para vires cá me criticar.

— Não está me reconhecendo? Sou André, afilhado de teu pai. Eu lhe peço como amigo, vamos embora antes que ele decida castigar-te com essa sua travessura.

— Travessura? O senhor me considera uma criança?

A jovem mostrava ser uma pessoa de personalidade forte.

— Eu lhe considero adulta, e acho que é corajosa, independente e obstinada.

— Obsti...o quê?

— Teimosa.

Ela virou o rosto, olhando para o patíbulo.

— Vou ficar aqui até o fim.

— Está bem, então diga isso a seu pai, pois ali vem ele.

A jovem sobressaltou-se e desceu da mureta. Manoel aproximou-se a passos largos. Com ar severo, disse:

— Vamos embora já! Nesse momento!

Rita enrubesceu e de rosto carrancudo, seguiu o pai.

— O senhor vem conosco? – perguntou Manoel.

— Deixarei para visita-lo num dia mais calmo.

— Venha mesmo, para prosearmos e tomar um mate.

Quando eles começaram a se afastar, o murmúrio de vozes cessou e logo se ouviu o ruído do alçapão abrindo-se. Rita tentou olhar para trás, mas Manoel segurou-a pelo braço e obrigou a olhar para frente.

Assim era a vida naqueles tempos.

Segui para o pavilhão B do Arsenal da Marinha. Ao lado do prédio estava estacionado um balão dirigível, amarrado a blocos de cimento. Arquimedes estava na porta do pavilhão, sentado num mochinho.

Dei para ele um cinto de couro com bolsinhos, que havia comprado num bolicho.

— Um presente de gaúcho para você. Um cinto de utilidades para você guardar o que quiser, moedas, relógio, canivete, óculos.

— Obrigado, estava precisando mesmo. Vou guardar o meu isqueiro.

— Isqueiro?

Ele pegou o objeto para mostrar. — Pedra de fogo com pavio e reservatório de querosene, que eu chamo isqueiro. Você tira a tampa, gira a pederneira que acende a ponta de um pavio mergulhado num reservatório com querosene. Ideal para acender fogueiras, cigarros. Vou guardar no cinto.

— Guaiaca.

— O quê? Tá me xingando?

— É o nome do cinto, guaiaga. Vamos deixar de conversa fiada. Alguma novidade sobre os rebeldes?

— O zepelim já está pronto. Podemos voar quando você decidir.

— Já está escurecendo. É melhor deixar pra amanhã de manhã.

— Conversei ainda há pouco com o general Delano e ele disse que as sentinelas não relataram nenhum movimento. Não se tem certeza de nada.

— É por isso que vamos voar amanhã sobre os campos para descobrir. Agora vou pra casa dormir. E você, está bem acomodado aqui?

— A cama é boa, tem comida a vontade, e um bom vinho. Tudo por conta do governador. Se quiser, tem uma cama sobrando.

— Estou bem lá na pensão. Fiz amizades com a dona.

— Você não perde tempo, einh? – disse Arquimedes num tom malicioso.

— A mulher tem idade pra ser minha avó, amigo.

— Brincadeira. Toma. Acabei de construir. É uma caixa-falante.

Colocou o aparelho na minha mão e depois se afastou alguns passos.

— Você fala aí que eu respondo aqui. – disse o inventor, exibindo outro aparelho idêntico. — Pode sussurrar.

— Que lugar eu falo?

— Qualquer parte. Aproxima da boca.

— Que dia é hoje? – Falei tão baixo que Arquimedes não poderia ouvir de onde estava.

A voz dele saiu do aparelho — Sexta-feira 28 de setembro de 1835.

Até me assustei com aquele fenômeno. Se não conhecesse Arquimedes, diria que aquilo era bruxaria.

— Infelizmente o aparelho não funciona além de vinte metros.

— Então não serve pra nada.

— Vou tentar aumentar a carga elétrica.

— E eu vou dormir. Boa noite.

*****

Na manhã seguinte levantamos voo no zepelim. O objetivo era observar do alto, a movimentação dos rebeldes. Porém, sobrevoamos Pedras Brancas e os campos de Camaquã sem avistar nenhum acampamento ou movimento de tropas militares, muito menos orcs e centauros.

— Não encontramos o inimigo. – disse Arquimedes — Podemos voltar?

— Sim. Acho que eles ainda estão se reunindo na fronteira. Ou talvez tenham desistido. Eu bem que deseja ver os robôs em ação. Ver como lutam, se são tão eficientes no combate corpo a corpo como os soldados de carne e osso.

— No Rio você assistiu aos testes.

— Sim, vi você colocar aquele aparelho na cabeça e controlar três robôs fingindo lutar contra soldados armados de espadas. Eles mais se defendiam do que atacavam.

— É claro que eu não iria machucar os soldados. Aquilo foi uma representação. Na luta real, eles serão capazes de rachar a cabeça de um orc com um soco, ou qualquer outra criatura de carne e ossos.

Quando nos aproximamos de Porto Alegre, ficamos surpresos ao ver os rebeldes atacando a cidade. Eles tinham chegado pelo rio em 2 barcos que estavam atracados na margem, próximo ao portão norte. Os orcs atacavam as muralhas tentando subir por escadas, enquanto os centauros lançavam flechas sobre a cidade. Na retaguarda estavam os comandantes e a brigada de lanceiros.

O grupo abriu passagem para uma locomotiva adaptada para rodar sem trilhos. A máquina tomou velocidade em direção ao portão de madeira reforçada com barras de ferro, mas que não foi suficiente para deter o bólido. Soou um estrondo quando a porta se partiu em pedaços.

Os robôs permaneciam no quartel, pois ninguém tinha condição de ativá-los, fato que deixou Arquimedes arrependido por não ter pensado em outro modo de funcionamento.

— É hora de fazermos alguma coisa. – disse ele.

— O que podemos fazer daqui meu amigo? Só nos resta lamentar.

— Veja isto.

Arquimedes manobrou o dirigível para ficar de costas para o sol, em seguida girou uma manivela, apertou um botão e segurou um manche. Uma portinhola se abriu sob a cabine e dali saiu uma lente de vidro de dois metros de diâmetro. Arquimedes moveu-a de modo que o sol passasse através dela. A luz concentrada num feixe, tornou-se um raio poderoso e com ele, Arquimedes colocou fogo nas velas dos navios. Em seguida direcionou o raio sobre o inimigo. Como uma espada de fogo, mutilava orcs e centauros, queimando, decepando membros com um chiar sinistro.

O raio fazia tanto estragos na horda como os canhões na muralha. Mas a nossa alegria durou pouco. Um terceiro navio surgiu no rio e os seus canhões dispararam sobre o zepelim, destruindo as hélices. Como um balão murcho, a aeronave começou a cair. Arquimedes ainda conseguiu guiá-lo para a outra margem do rio.

Após a queda, conseguimos sair sem maiores consequências.

Ficamos escondidos na mata o resto do dia.

— Aqueles robôs foram inúteis – disse Arquimedes, quebrando o silêncio. — Foi uma ideia idiota traze-los e colocar fé neles. Ainda se tivesse ficado na cidade, teria a oportunidade de ativá-los. Poderíamos ver seu potencial. Agora nem podemos chegar perto deles.

— Não temos culpa de nada. Foi o destino, os eventos que nos trouxeram para onde estamos.

— Você é indulgente consigo mesmo, André. Eu, ao contrário, quando erro fico furioso, como agora. Tenho vontade de me castigar, de me morder!

— Aceito os meus erros de modo eu possa me redimir. Reparar de alguma forma. Acho que tem um jeito de entrar na cidade sem sermos vistos. Passei minha adolescência em Porto Alegre. Conheço bem. Caçava passarinho na Azenha, pescava na Praia do Arsenal. Um pouco adiante, no barranco tem a saída de uma galeria fluvial. Podemos entrar por ali.

Arquimedes animou-se.

— Ótima ideia! Vamos fazer isso à noite. Precisaremos de uma canoa e tochas.

Não foi difícil arranjar uma canoa na beira do rio. As tochas foram feitas de capim seco trançados numa ponta de pau.

*****

Fui acordado por Arquimedes espetando o dedo no meu ombro.

— Já passa de meia-noite. Está na hora de irmos.

Havia me recostado no tronco de uma arvore, com a disposição de ficar em vigília, mas acabei adormecendo. Ergui-me e segui Arquimedes, ele iluminando o caminho com seu isqueiro. Saímos da mata para a margem do rio. Tiramos os galhos de árvores que ocultavam a canoa, entramos nela e remamos em direção a cidade. A luz da lua cheia criava reflexos de prata nas águas, uma brisa fresca soprava das bandas da Lagoa dos Patos. Lampiões alumiavam alguns pontos da cidade.

Levamos meia hora para encontrar a galeria. Ficava num barranco, perto da cadeia, a meio metro acima do rio. Logo que entramos já ficamos enlameados. Meu companheiro não reclamou, era imperativo ficarmos em silêncio. Acendendo as tochas, seguimos pela galeria, caminhando dentro de uma corrente d’água que chegava aos tornozelos. Seguimos procurando por um bueiro que deveria haver em algum ponto.

Chegamos finalmente a um bueiro. A claridade de um lampião num poste, passava pelos furos da tampa. De repente, Arquimedes escorregou e caiu. Ficou sentado com uma expressão de dor. Ajudei-o a erguer-se, mas soltou um gemido e voltou a sentar.

— Acho que quebrei o pé. – disse num murmúrio.

— Tem certeza? Não será apenas uma torção?

— Não sei. Dói muito.

— Quer desistir?

— Desistir? Jamais. Vamos fazer o seguinte, eu fico aqui e você vai até o galpão pegar o capacete.

— Acho que nós estamos sob a rua da Passagem. Daqui até o galpão deve dar uns mil metros. Vou demorar uma meia-hora para ir e voltar. Se eu não aparecer em uma hora, vá embora. Pegue a canoa e vá para Pedras Brancas. Combinado?

— Combinado. Boa sorte.

A rua estava deserta, casas com suas portas e janelas fechadas. Segui pelo caminho mais escuro. Logo depois levei um susto ao me deparar com quatro centauros sob uma árvore, na praça do pelourinho. Por sorte eles estavam dormindo, de pé, a cabeça inclinada sobre o peito. Desviei meus passos e entrei num beco. Logo depois cheguei diante do pavilhão B. Havia luz lá dentro. Imaginei que, depois da invasão, os soldados que sobreviveram ao ataque, estariam presos ou teriam sido executados. Achei que alguém deveria ter deixado o lampião aceso.

Com cautela abri a porta e entrei. Os robôs continuavam deitados no chão, perto da parede onde haviam sido colocados. Notei um movimento a direita. Numa travessa estava pendurado por um cordão, um prumo. Achei estranho ele girar continuamente, quase tocando o solo. Não havia vento, tampouco uma leve brisa para mantê-lo naquelas voltas sucessivas.

Estaria o prédio em movimentos imperceptíveis sacudindo a trave para se livrar dele?

Pensamento absurdo.

O prumo é uma ferramenta importante nas construções de prédios. Com extrema precisão, marcava o eixo da Terra, que daquele ponto se iniciava todas as coisas. O chão estava coberto de poeira. Menos dentro do círculo que o prumo fazia. Talvez o deslocamento de ar empurrasse as partículas de pó para fora, para os limites de seu movimento, mais ou menos 1 metro de diâmetro. Seria o círculo magico dos bruxos e feiticeiras? O símbolo de Hades, Senhor do Mundo Subterrâneo?

Percebi um ruído na peça contigua. Fui até a porta e fiquei espantado com o que vi. Na trave do teto estava Manuel, pendurado por uma corda no pescoço. Girava como o prumo.

Os olhos brilhantes, vivos, arregalados, a expressão angustiada. As pernas giravam num diâmetro mais largo do que a cabeça, os braços rijos, espichados ao longo do corpo, imobilizados por uma força desconhecida. Ele não conseguia falar com a corda no pescoço. A pressão deveria destruir os tecidos, no entanto, continuava incólume naquele balanço eterno.

Imediatamente peguei um caixote, coloquei debaixo de seus pés e tirei-o dali. Alguém surgiu por trás de mim e me agarrou, levantando-me no ar. Fui levado para o salão por dois orcs. Olhei com horror para aquelas criaturas humanoides. Eram feios, de estatura baixa, troncudos, de braços compridos e pernas arqueadas.

Outro entrou pela porta, trazendo Rita e atrás dele apareceu a mulher que os comandava. Fiquei surpreso ao reconhecê-la. Aurora Silvester! Quatro anos atrás tivemos uma relação amorosa que durou seis meses. Uma grande paixão, como se diz. Aos poucos fui descobrindo sua verdadeira personalidade. Como toda paixão, aquela arrefeceu. Aurora me convidou para ir ao Tibete, procurar a pedra que dava poderes sobrenaturais a quem a possuísse. Achei uma loucura, disse que se ela fosse, nosso relacionamento estaria acabado. Ela partiu mostrando que nada sentia por mim.

— Meu caro André! Meus espiões tinham razão, o comandante das forças imperiais é André Monteiro Falcão!

Ela vestia-se como um homem, mas de um modo extravagante, calça comprida, justa, camisa de camurça com um colete de couro adornado com fivelas de prata, botas de cano alto. Tudo nela era preto, como sua alma. Em mim acontecia um conflito de sentimentos, eu não sabia se era amor ou ódio. Também sentia temor por Rita e Manoel.

— Mande soltar a menina, por favor.

Ela fez um gesto e o orc soltou Rita, que correu para amparar o pai.

— Achei que o chefe dos rebeldes fosse o general Bento Gonçalves.

— Eu o convenci a esperar. Prometi conquistar Porto Alegre e dar para ele e depois atacarei a capital do império do Brasil e para isso, preciso dos robôs.

Notei que Aurora carregava uma joia pendurada no pescoço, uma esmeralda verde com cordão de ouro.

— Parece que você conseguiu a pedra que tanto desejava.

Ela esboçou um sorriso, deu dois passos em minha direção.

— Um dos meus desejos.

— Desejos e sonhos insanos. Você é impulsiva, não se importa com as consequências. Mexer com o sobrenatural é perigoso. É com essa pedra que você controla os orcs e centauros? Pelo que eu sei, é para isso que ela serve, dominar as pessoas, torná-las escravas.

Aurora ficou séria, um vinco surgiu entre seus olhos, reflexos vermelhos brilharam na íris.

— Não interessa. Quero saber como vocês controlam os robôs. Me diga. Se não falar, torno a pendurar teu padrinho na corda. Talvez Rita.

— Teu poder não pode controlar o que não tem vida, não é mesmo? Nem as pessoas de alma limpa. Só os degenerados, os maus, os que estão biologicamente vivos, mas mortos espiritualmente. Não é verdade?

Súbito, soou um estrondo. O portão partiu-se em pedaços e a locomotiva dos rebeldes adentrou no pavilhão, resfolegando e rosnando como um monstro pré-histórico. No comando estava Arquimedes.

Aproveitei a hesitação do orcs e o susto de Aurora para arrancar a pedra de seu peito. Joguei a esmeralda sob as rodas da locomotiva e gritei para Arquimedes, fazendo sinal com as mãos:

— Dê a ré! Dê a ré!

Arquimedes manobrou a máquina para trás, passando por cima da joia que foi esmigalhada soltando um vapor esverdeados.

No mesmo instante os orcs se libertaram do poder de Aurora. Seus raciocínios ficaram claros e como seus interessem não eram os mesmos dela, eles foram embora, juntamente com os centauros. Aturdida, Aurora nada mais pode fazer a não ser, fugir. Ela saiu correndo, mas eu fui atrás e consegui detê-la.

*****

Manoel foi atendido por um médico. Ficou acamado até se recuperar. Rita dedicou-lhe toda assistência, pois era uma boa filha. Aurora foi detida, presa na cadeia a espera de julgamento.

Com a missão cumprida, eu e Arquimedes voltamos para o Rio de Janeiro, onde recebemos uma condecoração das mãos do Visconde Ouro Preto, Ministro da Guerra.

A luta dos farrapos ainda não tinha terminado. Voltando do Uruguai, para onde havia fugido, Bento Gonçalves e seus companheiros reuniram suas tropas para atacar Porto Alegre no dia 20 de setembro de 1835. Mas isso já é uma outra história.

20 de Junho de 2022 às 20:18 0 Denunciar Insira Seguir história
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