silva-pacheco1589114879 Silva Pacheco

A Velha República agoniza. Enquanto os conspiradores reunem suas tropas, o destino da nação é decidido na sombria cidade de Serafins, onde um antigo horror despertou...


Suspense/Mistério Para maiores de 18 apenas.

#guerra #vampiros #surpreendente
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Prólogo

Todo mundo nas redondezas se sentia desconfortável em Serafins. Exceto, é claro, os próprios e indiferentes moradores daquela cidade. Somente os excêntricos iam passear lá, a despeito da beleza daquela cidade do oeste mineiro. Conhecida pelos estudantes de História da Arte como “A Cidade Barroca” ou “O paraíso Barroco”, a beleza de sua arquitetura chamava a atenção. De fato, a fama de Serafins é merecida, devido a sua arquitetura peculiar, na qual as fachadas dos prédios, as praças e até algumas calçadas são adornadas com imagens barrocas de pedra sabão.


Mas o deslumbre se resumia aos olhos. Um tom melancólico, quase doloroso, exalava pelas travessas da cidade.


Se fosse só isso, talvez Serafins fosse menos estranhável. O mais assombroso, contudo, são os estranhos acontecimentos que vez por outra nela ocorrem. E impressiona ainda mais a acentuada naturalidade com a qual os habitantes locais lidam com relatos confusos, dignos de causos dos mais duvidosos. Estes, apesar de sua natureza folclórica, parecem dotados de uma assustadora e próxima realidade diante das juras de algumas pessoas de que foram testemunhas dos fatos estarrecedores que parecem evidenciar tais mitos.


Abundam de serafins relatos de almas penadas em locais mal assombrados, demônios enganadores nas esquinas e até monstros bebedores de sangue na noite. Lendas como a da Noiva (a alma penada de uma moça virgem que sonhava casar-se, mas jamais pôde ter um pretendente devido a seu irascível pai) do Entulheiro (um homem negro que carrega e retira entulho, sempre sabe o nome da pessoa com quem fala e teria o dom de curar) e da Freira Louca (uma jovem e pacata freira que largou o convento, vendeu sua alma ao diabo e entregou-se à bruxaria, vivendo numa capela abandonada na mata) são recitadas pelos cidadãos de Serafins e dos arredores, sendo espantosamente confirmadas pelos moradores das cidades vizinhas da região com uma inaceitável naturalidade.


Diz-se mais. Conta-se que a cidade está jurada por uma maldição antiga, que remonta aos tempos coloniais. Reza a lenda que, se um inocente for assassinado num feriado cristão, então todos os mortos levantar-se-ão do Sheol (o nome popular do Cemitério Municipal de Serafins) para levar o horror à cidade até que a morte do inocente seja vingada. Apesar de tratada como “causo” até mesmo pelos moradores locais, alguns anciões juram que ela é verdadeira e que vivenciaram tal horror décadas atrás.


Uns dos relatos mais comuns que por lá circulam são os dos Cães da Noite. Estes cachorros, de tenebrosos e indescritíveis latidos, teriam sido criados no mais profundo dos infernos e lançados no Nosso Mundo pelo próprio Lúcifer, com o objetivo de assombrar locais amaldiçoados. Segundo se diz, estes mesmos latidos podem ser ouvidos, não importando a distância, por qualquer um que já tenha entrado em contato com tão abjeto som, e de fato alguns cidadãos de Serafins alegam ouvir tais ruídos horrorosos pelas madrugadas ao mesmo tempo em que são julgados loucos por seus vizinhos que nada ouviram.


Mais assombroso que os relatos dos Cães da Noite eram as chamadas Festas do Barão, no qual uma humilde e sofrida família de camponeses recebia roupas novas e era convidada por um poderoso fazendeiro local (o tal Barão) para jantar em seu casarão na cidade. Uma vez lá, a família sofria uma morte terrível e misteriosa, jamais sendo vistos novamente. Aqui, as narrativas se ramificam: uns dizem que os pobres coitados eram sacrificados em rituais de bruxaria, outros juram que é um horror indescritível bebem-lhes até a última gota de sangue ou, ainda, que eles seriam aprisionados no casarão e assombrados por uma Alma Penada até os dias de hoje.


De qualquer forma, o fato do casarão está abandonado há décadas e de que o próprio Barão jamais era visto na cidade apenas serviu para aguçar a curiosidade do povo e encorpar a crendice.


Outra lenda sussurrada é o da Dama Vermelha. Segundo dizem, uma mulher (ou o próprio Capiroto, ou uma feiticeira, dependendo de quem conte) de cabelos negros como a noite e convidativos e lábios vagava por bordéis e bares do sertão, sempre com algo em sua aparência (batom, vestido, sapatos, etc.) em um tom vermelho muito forte (daí seu nome). Fingindo-se prostituta, ela aceitava como clientes apenas homens que abusavam ou violentavam mulheres de alguma forma. Após entregar-se a todos os desejos sexuais de sua vítima, ela os matava com requinte de crueldade. De fato, relatos policiais e jornalísticos de homens mortos encontrados em hotéis de beira de estrada ou próximos a prostíbulos, todos eles com um passado de agressões e estupros a mulheres. Seria esta a origem da lenda?


Muito mais assustadoras (devido à realidade dos fatos) são as histórias acerca do criminoso Mata Bode. Homem asqueroso, era procurado pela polícia por roubar galinhas, cabritos e bodes, normalmente esquartejando-os e deixando-os em locais ermos ou imóveis abandonados. Mas este seria o menor de seus crimes, já que era também perseguido por pelo menos seis assassinatos, e suspeito de outros onze, todos envolvendo estupro, tortura, mutilação e esquartejamento. Não é de se surpreender que o povo de Serafins e das cidades ao redor o julgasse um bruxo poderoso e totalmente inumano, que sacrificava suas vítimas em rituais sinistros. Dizia-se, entre sussurros assombrados, que se ele chegasse a dezoito vítimas (6+6+6) então o diabo caminharia livremente entre os homens.


Para capturar tão abjeto malfeitor foram acionados os Caçadores, alcunha popular dos membros da Companhia de Captura, Salvamento e Resgate (CCSaR). Esta milícia, foi criada no auge do ciclo do ouro para proteger a cidade, perseguindo implacavelmente ladrões e outros aventureiros (daí o motivo da alcunha e também o primeiro nome da tropa). Quando da proclamação da República, foi incorporada à Polícia Militar das Minas Gerais. Era (e ainda é hoje) o terror dos criminosos do interior mineiro, sendo formada, desde a época colonial até décadas passadas, por homens rudes e violentos, de passado execrável num processo de recrutamento cuja única exigência era não ter nenhuma passagem pela polícia. De fato, em tempos mais atuais a Companhia se tornou especializada e elitizada, mas em décadas anteriores era uma legião de miseráveis, violentos, persistentes e implacáveis homens desejosos de uma segunda chance em suas sofridas vidas, já que todo o seu passado era esquecido ao adentrarem na Companhia.


Mata Bode então recebeu um inimigo a altura. Ser pego pelos Caçadores, especialistas em perseguir indivíduos ou bandos tanto nas cidades quanto na mata, era ter a certeza de uma morte violenta e inapelável. Até, em 1930, quando da atuação de Mata Bonde, os órgãos legais da capital estavam distantes e não se importam nem um pouco com os criminosos perigosos e rústicos, eliminados por aquela milícia interiorana.


Todavia, nesta mesma época a tropa passava por momentos de tensão. No segundo semestre do ano de 1930, o país convulsionava politicamente. Após uma terrível crise no ano anterior, gerada pela quebra da Bolsa de Nova Iorque, as elites de São Paulo romperam com seus aliados mineiros. Acabaram colocando no poder o presidente de sua escolha nas eleições de 1930, derrotando o engenhoso e promissor Getúlio Vargas, candidato indicado pela coalizão formada por Minas Gerais (feridos e se sentindo traídos por São Paulo), pelo revoltoso Estado do Rio Grande do Sul (insatisfeito há tempos com os governos federais) e pelo Estado da Paraíba (representante nordestino da insatisfação com o governo central).


As eleições foram marcadas pela suspeita e pela desconfiança de fraude. Após o assassinato de João Pessoa, governador da Paraíba, (fato bem aproveitado pela propaganda revoltosa, mas no qual os paulistas não tiveram envolvimento algum), os gaúchos então decidiram resolver o problema a seu modo: através de uma revolução. Minas Gerais e Paraíba aderiram.


No final de setembro, as tropas leais ao governo mineiro estavam em alerta. No interior, Capitão Alvino (comandante da CCSaR) deu ordem para que todos os seus homens espalhados em buscas pelas mais diferentes cidades do interior mineiro retornassem ao quartel e permanecessem na cidade. Alvino, combatente de sangue frio e mentalidade tática brilhante, era a favor da revolução, mas não pôde se pronunciar a tropa pelo lamentável fato de que sua filhinha morrera devido a uma pneumonia. Os Caçadores então ficaram mais divididos acerca de qual rumo tomar, já que Tenente Cruzeiro (subcomandante da unidade) era ardentemente militante do movimento, ao contrário de Tenente Serra (oficial médico), que era legalista e leal ao governo.


E, somando a todo este quadro caótico, ainda restava a missão: capturar o temível Mata Bode, que aterrorizava as redondezas de Serafins.

14 de Junho de 2022 às 20:33 0 Denunciar Insira Seguir história
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