antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

O mundo já não é o mesmo, ainda existem justiça, regras e leis, mas a civilização está acabando. Rubens não tem esperanças, só sonhos efêmeros. Quando a máquina se recusa a lhe dar um copo de café, ele entra em depressão. Só lhe resta matar os monstros e ver pela ultima vez a mulher de seus sonhos...


Ficção científica Todo o público.
Conto
0
34 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

O JEITO DE CAMINHAR DE SCARLET LORENA JOHSON

Rubens tentava pegar café na máquina automática.

─ Créditos insuficientes – dizia a máquina com sua voz impessoal.

Rubens voltava a colocar o cartão de crédito na ranhura e a cafeteira continuava a dizer que o cartão não tinha créditos. Ele tinha certeza de que havia dinheiro na conta e estava a ponto de dar um pontapé na máquina, quando Jairo chegou. Ele tinha trocado o uniforme militar por um conjunto de calça e túnica azul. Jairo era seu melhor amigo e companheiro de pelotão.

─ Problemas com as máquinas? - indagou ele num tom alegre.

─ Sei que tenho créditos na minha conta, mas essa maldita máquina afirma que não.

Jairo sacou o seu cartão de crédito do bolso e colocou no mecanismo e apertou o botão. Dois copos de café saíram deslizando da portinhola.

─ Essas coisas já estão velhas e caducas. – Justificou Jairo, pondo-se a caminhar. Rubens seguiu ao lado dele, bebendo o líquido preto e aromático, mas quase sem gosto. Sempre ficava admirado com o café, uma bebida que persistia nos costumes da civilização há milhares de anos.

─ Já notou que o café está cada vez mais ruim? Acho que ninguém está fazendo a manutenção dessas máquinas. Algumas ruas estão escuras durante a noite. Lâmpadas queimam e ninguém às trocas. Parece que o governo não está mais interessando no bem-estar e segurança do cidadão!

─ Esqueceu que não temos mais governo? Tudo é controlado por Mark-9

─ Quem?

Jairo estacou, olhando para Rubens como se ele fosse um alienígena.

─ O Sistema. Não sabe mais o nome do Sistema?

─ Detesto o Sistema! Gostaria que tudo sumisse e voltasse ao que era antes.

─ Você é bem estranho, sabia? A gente batalha junto, conversa no quartel, como estamos fazendo agora, mas quando te convido para ir ao clube militar nos divertir, conhecer garotas, transar com elas, você arranja uma desculpa para não ir.

─ Transar com mulheres insensíveis? Entorpecidas pelas drogas? Nossa sociedade está ruindo, Jairo. A civilização está caindo aos pedaços! Nós combatemos monstros virtuais para ganhar créditos, dinheiro para comprar comida sintética! Para ter direito em viver, viver uma vida de ilusão? Até aquela árvore é uma imitação, é de plástico.

─ Você está muito irritado e irritante hoje. Afinal, o que você faz nas horas de folga?

Rubens sentou-se num banco. Eles estavam numa das praças do quartel, um lugar especialmente construído para o soldado espairecer.

Rubens respirou fundo, acalmando-se.

─ Gosto de ficar em casa, assistindo filmes antigos. Principalmente com a minha atriz preferida. Já assistiu um filme com Scarlet Lenora Johnson? Sabe de quem estou falando?

─ Claro! Sei quem é. Uma vez assisti um filme dela na casa do meu avô. Acho que o título era, A Cidade Perdida de Marte.

—Bom filme, não?

─ Faz tanto tempo que não me lembro mais como era a história!

─ Gosto muito dela. Notou que ela tem um andar bem peculiar?

─ Só notei que ela é bem gostosa!

Rubens semicerrou os olhos fazendo gestos com a mão.

─ É um andar elegante, sensual. Notou como os quadris se movem? E as pernas? Bem torneadas, o passo firme e preciso. Ela tem um porte aristocrático. Parece uma rainha!

Jairo esboçou um sorriso ─ Não me diga que se apaixonou por uma estrela de cinema que já morreu há séculos!

─ Não estou apaixonado não. E se estivesse? Acha que sou maluco? Malucos somos todos nós, lutando contra um bando de lobisomens virtuais!

– Melhor do que trabalhar nas minas, ou nas fábricas no deserto. Temos que dar graças a deus por ter nascido em berço de ouro, como dizia os antigos.

De repente uma sirene começou a tocar. Rubens acabou de beber o café e jogou o copo na lata de lixo, enquanto Jairo mudava de roupa com um simples apertar de botão em seu cinto. Eles correram para a muralha. O quartel estava sendo atacado. Centenas de criaturas surgiram no horizonte. A tarja escura foi se avolumando, se definindo em seres medonhos, correndo, pulando com suas garras riscando a terra seca que outrora foi um campo verdejante. Com seus focinhos projetados para baixo, os olhos fixos no alvo, os caninos rebrilhando no violento desejo de matar.

Posicionado no alto das muralhas, os soldados disparavam suas armas laser. Algumas feras conseguiam escalar o muro alcançar um soldado e matá-lo, rasgando suas carnes. Centenas morriam pulverizadas pelo calor intenso dos raios laser. Lado a lado, com o rifle apoiado no ombro, Rubens e Jairo disparavam sem cessar.

De repente as feras sumiram e o silencio caiu sobre a campina.

Os soldados estranharam o fato. Havia tempo que não acontecia blecaute no sistema. No fim da batalha, as feras simplesmente se retiravam e os números de abatidos e feridos de ambos os lados eram contabilizados. Acima do horizonte, letras brilhantes anunciaram pausa na guerra; Intervalo Para Manutenção do Sistema. Os soldados mortos foram incinerados, os sobreviventes se retiraram para seus apartamentos.

****

Faziam dias que Jairo não via Rubens, desde que a luta com os lobisomens foi interrompida. Ele não ia mais à praça, tampouco atendia o telefone. Jairo resolveu visitá-lo. Chegando ao apartamento, acionou o intercomunicador por três vezes sem obter reposta. Ia desistir quando resolveu experimentar a maçaneta da porta. Acabou descobrindo que ela não estava trancada, tampouco o alarme estava ativado.

Ao entrar, a primeira coisa que sentiu foi o forte cheiro de produtos de limpeza. Viu um projetor sobre a mesa, a figura tridimensional caminhando na sala. Ela ia de um extremo a outro do aposento e tornava a voltar. Uma mulher nua, translúcida, caminhando sem parar. Tinha cabelos ruivos, a pele clara, o corpo esguio bem torneado. Era uma imagem virtual criada por Rubens. Era Scarlet Lenora Johnson.

Rubens estava sentado no sofá. O que restava dele, um corpo esquelético, mumificado por constantes banhos de componentes químicos. Os robôs de limpeza permaneciam inertes, parados ao redor, esperando ordens que ele não podia mais lhes dar. A mão direita ainda segurava uma pistola iônica. Era bem visível o furo redondo na cabeça inclinada para o lado esquerdo.

Acho que ele não aguentou a rotina. Pensou Jairo. Na verdade, era um simples pensamento para justificar aquele ato extremo do amigo. Teria ele coragem para fazer o mesmo?

6 de Junho de 2022 às 13:15 0 Denunciar Insira Seguir história
0
Fim

Conheça o autor

Comente algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~