u16228522741622852274 Déborah S. Carvalho

Em 2067, o assassino profissional Noah anda pelas ruas de uma cidade fétida, mergulhada em penumbra e neon. Seu propósito era apenas receber o pagamento por mais um serviço. Mas o que entregaram em suas mãos não foi dinheiro, e sim uma droga potente e misteriosa, que continha uma única promessa: viver outra vida.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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ELYSIUM

Há coisas tão valiosas neste mundo, que é melhor deixá-las escondidas.


Palavras que ecoariam pelos cantos escuros do delírio para sempre. Elas iam e vinham, na voz melodiosa de quem as costumava dizer quando ainda caminhava entre vivos. Vinte anos se passaram desde que o mundo se esqueceu da morte de Annie. Quem sabe, nunca tenha lembrado; nem uma vez. De lá para cá, o planeta Terra sofrera tamanha transformação, que era como se ela e Noah nunca houvessem dividido sua trágica história de quase amor.


Quase amor era algo mais triste do que a morte.


**


2047


̶ Odeio esse lugar... ̶ resmungou Noah ̶ Um dia vou tirar você daqui.


̶ Não seja assim! ̶ redarguiu Annie ̶ Pelo menos, daqui podemos ver as estrelas...


Noah e Annie eram dois adolescentes franzinos para a idade, quinze anos, por conta da malnutrição. Moravam num casebre abandonado, caindo aos pedaços. Para duas crianças que antes viviam na rua, aquele lugar era um palácio. E as semelhanças paravam por aí. Os olhos negros dele eram como os vidros escuros das janelas dos arranha-céus, os quais nunca vira pessoalmente até então. Já os dela eram azuis como o mar, o qual só podia ser contemplado através das telas dos computadores ou do plano da realidade virtual, duas coisas que Noah e Annie jamais poderiam comprar. Comida era o que podiam roubar. Livros velhos, feitos de papel e tudo, eram seu maior tesouro, sempre catados no distrito de Saint John, que antes da revolução tecnológica havia sido um bairro comercial, mas agora não passava de um enorme lixão a céu aberto. Roupas conseguiam por meio de doações de algumas boas almas que ainda apareciam, aqui e ali.


Noah e Annie eram como o dia e a noite. Ele a ação violenta, ela a voz de sua consciência. Otimista e sorridente, apesar de passarem por tantas dificuldades, ela costumava dizer que Noah era seu maior presente. O menino, por sua vez, era incapaz de sorrir, constantemente jurando que tiraria Annie daquela miséria, nem que tivesse que matar um para isso.


Engraçado como as coisas terminavam.


**


2067


A cidade não era apenas grande, era alta. Cada prédio era uma Torre de Babel em si mesmo. Com até quatrocentos andares, almejavam fazer cócegas nos pés do Criador. Uma parte da existência humana se dava no alto. Além dos prédios, vias, ruas e pontes haviam sido construídas lá em cima. Uma cidade à parte, desenhada para os mais poderosos. Muitos edifícios eram verdadeiros obeliscos de vidros espelhados, que lembravam as telas pretas dos antigos smartphones. Uma tecnologia obsoleta comparada com os hologramas que literalmente subiam das smartbands (pulseiras inteligentes) a um toque ou comando de voz.


A imagem era o maior bem da raça humana. A todo tempo, havia uma imagem sendo projetada em alguma superfície. Poderia ser o plantão de notícias sobre o tampo da mesa de um restaurante, ou poderiam ser anúncios da nova coleção outono-inverno da Di’or, protagonizado por modelos perfeitas, cujos corpos eram feitos de borracha e metal, e os cérebros eram chips de computador.


No início do século XXI, ainda havia um pouco de verde nos parques dos grandes centros urbanos, mas agora isso não passava de lembrança. O que dominava a paisagem eram as luzes dos prédios, do comércio, das aeronaves, dos trens que passavam a mil por hora, levados por trilhos suspensos, que mais pareciam teias de aranha feitas de puro aço, cortando o céu e a geografia local. O firmamento estava eternamente mergulhado em tons de verde, azul e lilás, que se estendiam em fachos e tiras esfumaçadas em neon. A Terra tinha a cara do futuro, mas, certas coisas nunca mudam.


Enquanto a cidade prosperava do alto de suas lindas torres de vidro e aço intocadas, a sujeira, a miséria e o crime cresciam ainda mais no chão. A altura era o símbolo da lógica desse novo mundo. Quem morava, trabalhava e comprava no alto não se misturava com os habitantes que tinham os pés no chão.


Noah tinha dinheiro; bastante para comprar uma vida mediana na chamada Cidade Alta, mas preferia o seu apartamento nos andares baixos. Sua modéstia era, entre outras coisas, uma ferramenta de trabalho. A discrição tornava a sua atuação no ramo mais longeva do que a de seus colegas, que preferiam a ostentação.


Matava pessoas por dinheiro. Gostava de se considerar um justiceiro, mas a verdade é que sua moral começava e terminava nos números de sua conta bancária. Sua vida de assassino rico e modesto era um paradoxo. Não vivia na opulência dos privilegiados que se isolavam em suas torres de vidro. Porém, o medo subconsciente de voltar à época em que perdera tudo era tão grande, que precisava se apegar a pelo menos uma coisa. Dinheiro era tudo o que lhe restava. Era a única certeza da vida. Sem Annie: sem família, sem lar, sem escrúpulo... Se não tivesse dinheiro, só sobraria como pertences a morte ou a loucura.


A maioria de suas vítimas merecia morrer, mas isso nunca impediu Annie de invadir seus sonhos e acusá-lo. Se ela estivesse viva, provavelmente ia odiá-lo.


**


O holograma azulado projetado por sua smartband marcava 23:45. O contato já estava quinze minutos atrasado, carregando o pagamento pelo seu último serviço. Negócios desse tipo costumavam ser conduzidos nas salas pomposas dos prédios de luxo, e remunerados em meio à Cidade Baixa, constituída de ruas malcheirosas, residências precárias e estabelecimentos como clínicas clandestinas, prostíbulos, pontos de venda de drogas e bares por onde o dinheiro mais sujo da cidade circulava.


Noah esperava, como uma estátua, pela chegada do maldito. Suas narinas abriam e fechavam, aspirando o ar fétido da rua. Seus olhos contemplavam através da escuridão, de forma desgostosa e nostálgica, a decadência humana como uma tela de museu. Uma mistura feita de sangue, urina, sêmen e restos de comida embalada pintava o chão da calçada. Alguns mendigos e usuários de drogas baratas, como cocaína e heroína, se aconchegavam em torno de um barril sujo onde fizeram uma fogueira. Seus olhares eram perdidos, seus lábios secos e seus poucos dentes amarelos caídos nas dobradiças. Contavam piadas indecentes porque esse era o máximo de entretenimento de que poderiam desfrutar antes de morrerem hoje, amanhã ou depois. Seus corpos iriam se juntar à tinta da calçada dentro em breve.


O sujeito chegou numa bicicleta que rangia e que tinha um sininho barulhento, chamando a atenção de todos que estavam sob o abrigo do viaduto. Noah rolou os olhos para as espinhas na cara de deboche que ele exibia.


̶ Não gosta de andar por essas partes, não é, senhor assassino? Faz você se lembrar da infância, não é?


No trabalho, onde precisava às vezes se infiltrar em certos lugares, podia vestir um terno de corte italiano, uma jaqueta preta de couro ou um macacão de técnico de energia. Tudo dependia de quem era o alvo. Ademais, a constante mudança de vestuário ajudava a mascarar um pouco sua identidade. No momento, ele usava um jeans e um moletom azul de capuz. Do alto de seus trinta e cinco anos parecia um adolescente viciado.


̶ Sabe que não estou aqui para conversa fiada. Está com o dinheiro ou não?


O assassinato em questão havia sido encomendado por um famoso banqueiro. Ele queria a morte de um concorrente. Noah não ligava para a vida dos banqueiros. Apenas havia matado um alvo. Uma de suas regras era nunca receber o pagamento pelas mãos do mandante. Por isso estava agora debaixo daquele viaduto, tendo que lidar com um espertalhão que falava demais.


O combinado era que o entregador desse a Noah uma ficha eletrônica, que ironicamente lembrava às dos cassinos antigos. A ficha continha informações que, ao serem inseridas no computador transfeririam o dinheiro direto para uma conta fantasma do assassino. Mas, não foi isso que o ciclista atrevido deu nas mãos de Noah.


̶ Palhaçada é essa?!


̶ Seu pagamento.


Noah já era calejado demais pela vida e pela morte (especialmente pela morte) para ter paciência com essas gracinhas. O corpo da vítima estava esfriando lá no tricentésimo sétimo andar do Majestic (um dos edifícios mais caros da Cidade Alta). Havia sido um assassinato sujo. Não porque Noah não era capaz de dar três tiros na cabeça e dois no peito e sumir pela noite, como costumava fazer, mas porque o mandante do serviço era, além de homem de negócios, um sádico que fizera questão de que a morte fosse por esfaqueamento. Ele queria “mandar uma mensagem” ou qualquer coisa assim, aos outros homens de negócio. Noah não dava à mínima. O que importava era que o sangue seco fazia suas mãos coçarem.


Nervoso por natureza, bateu no entregador antes de perguntar mais. Após uma escarrada de sangue no chão e um dente a menos, o sujeito riu com os pulmões cheios de muco.


̶ Deixa de reclamar da vida boa que tu leva! Você sabe muito bem que essa coisinha aí vale cem vezes o seu serviço!


Noah sabia.


Tratava-se de uma nova droga sintética bilionária. Sua reputação era tão tenebrosa quanto o seu preço, que era o valor aproximado de um apartamento de cobertura nas torres altas. A droga já estava no mercado desde 2047, quando Noah era adolescente e Annie ainda vivia. Era tão potente, devastadora e cara, que seu preço ultrapassava os dos diamantes de sangue.


A pergunta era: por que um mero entregador estava portando algo tão valioso? O chip com as informações ele não poderia usar, pois caberia somente no computador do destinatário; Noah. Mas, a droga... Era só virar com um copo d’água ou tentar vender. Nenhum empresário bilionário sádico que se prestasse deixaria algo tão valioso assim nas mãos de um qualquer. Algo cheirava mal.


O valor exorbitante tinha dois motivos: a qualidade da substância e a escassez. Diz-se pelas ruas que fora criada pelo Dr. Fitzgerald, proeminente chefe do Núcleo de Estudos da Mente, da Universidade de Yale. As motivações nobres do Dr. Fitz envolviam criar um tratamento para alguns casos de depressão elevada e até mesmo insanidade. Ao ingerir a substância, o paciente seria transportado, em sua própria mente, para uma realidade alternativa em que sua vida se passaria de forma diferente. Dentro dessa realidade, tempo, espaço, sensações e percepções seriam distorcidos de tal maneira, que seria como se o paciente tivesse a chance de viver outra existência; uma nova vida, na qual seria curado até o nível do subconsciente. Poderia viver uma história inteira, de dez, vinte, trinta anos, no espaço de uma hora de efeito da droga no chamado “mundo real”. Seria como o sonho mais lúcido e duradouro já criado pela mente humana. Lá, naquela “vida alternativa”, a mente do paciente seria curada em definitivo, e ele poderia retornar são ao mundo da realidade concreta.


A escassez da droga se dava pelo mesmo motivo de sua qualidade. Poderosa demais. Conta-se que o experimento do Dr. Fitz fora um sucesso e um fracasso em proporções igualmente dantescas. O paciente número um havia sido um jovem, que na época tinha apenas quinze anos, mas que já colecionava tentativas de suicídio. O jovem era muito rico, filho de magnatas do aço, que era a matéria-prima na construção de quase tudo que existia nas Cidades Altas em todo o planeta. Os pais do jovem, que conheciam tudo do mundo e do submundo, imploraram ao Dr. Fitz que tornasse seu filho uma cobaia dos experimentos. O cientista, receoso dos efeitos colaterais que aquela substância poderia causar, havia dito que ainda não era a hora de começar experimentos em humanos. Mas, no fim, o dinheiro e a curiosidade científica falaram mais alto. O experimento fora conduzido, a droga fora administrada; o jovem fora transportado com sucesso através da própria mente para uma realidade alternativa. O problema foi o retorno à consciência.


Alguns dizem que ele está morto, ironicamente por suicídio. Outros afirmam que ele permanece em profundo estado de coma até os dias atuais, vinte anos depois da primeira e única dose; preso numa realidade alternativa. Há quem seja simplista e diga que ele simplesmente enlouqueceu. Existe um debate filosófico que decorre das conversações em torno dessa droga. Se a vida real é o mesmo que sofrimento e tortura mental, que mal há em fugir para outra?


É desconhecido se a vida que o paciente número um supostamente vive em sua mente é, de fato, boa; feliz. Apenas especula-se que ele está preso dentro da própria mente há duas décadas. Fala-se, também, que a droga, chamada no mercado negro de Elysium, ganhou status de lenda urbana. Conta-se que em todo esse tempo, apenas sete doses de Elysium foram criadas, devido ao custo de produção e ao perigo que ela representa. É desconhecido se alguma das sete doses foi consumida. Mas, vez por outra, ela circula na mão de poderosos como moeda de troca. Seu valor de mercado é altíssimo. O suficiente para aposentar um assassino profissional.


̶ Você pode vender isso, não pode? ̶ Sugeriu o entregador ferido ̶ Não se cansa de matar pessoas?


Noah gostaria de respondê-lo com tiros na cara. Ninguém daria por falta daquele verme. No fim, acabou pegando a pílula bilionária e foi para casa.


**


Dentro de um apartamento modesto e funcional, o assassino sentava ao sofá. O holograma que projetava a banda de jazz produzia uma melodia encorpada. Um robô, que era de fato um quadrado de metal cromado, mantinha a casa limpa e preparava uma refeição. O prato apresentava uma gororoba cinza que, por meios tecnológicos, tinha aparência de bife com batatas. Em uma das poucas ocasiões em que comera bem na infância, ele e Annie dividiram bife com batatas. Noah havia roubado de uns desavisados num restaurante.


Comer era impossível. A pílula verde o encarava da mesa de centro. Uma vez mais, as palavras de Annie ecoavam:


Há coisas tão valiosas neste mundo, que é melhor deixá-las escondidas.


O melhor a se fazer era vender Elysium. Conhecia as pessoas certas para isso, mas eram tão perigosas quanto o próprio Noah. Vender seria tão trabalhoso quanto assassinar as próximas dez pessoas. Sendo que essa nem era a grande questão. O poder de Elysium era lendário por um motivo muito simples.


Em um mundo tão desenvolvido e high-tech era cada vez mais difícil surpreender um ser humano. Tudo devia ser intenso, marcante; visual e potente. As drogas antigas, como a cocaína, a heroína, e até mesmo o LSD só não eram coisa do passado porque se tornaram baratas; os entorpecentes da ralé.


Elysium era outro mundo, quase literalmente. Seu poder ia além da recreação ou da alucinação. Ao produzir uma nova realidade e imergir o usuário lá dentro, Elysium prometia derrubar a fronteira entre a vida e a morte. A mente de um usuário poderia chegar ao ponto de reconstruir pessoas já mortas nessa nova realidade.


Qualquer pessoa poderia facilmente entrar numa VR e mergulhar no próprio passado, customizado e construído por computador. Havia empresas inteiras lucrando sobre essa promessa. Mas, jamais seria uma experiência perfeita. Sempre ficaria aquela impressão digital do IA, porque não era possível, ainda, chamar de realidade a mera reprodução de imagens e sons, sem uma experiência concreta por parte do imerso.


O que tornava Elysium tão especial e perigosa era sua atribuição de criar, dentro da mente do indivíduo, uma narrativa de contornos reais em tempo irreal. Para Noah, usar Elysium significava ver e viver ao lado de Annie novamente, em uma realidade onde ela e ele envelheceriam juntos e felizes. E daí que não era o mundo real? O que tinha a perder? Não passava de um assassino cuja única prova de vida era o dinheiro e cujo propósito era inexistente. Mas, ali, em forma de pílula, bem ao seu alcance, estava a possibilidade de ter uma vida inteira ao lado de Annie...


O risco de se perder, até de morrer, era grande. Conhecia os boatos sobre o destino do paciente um. Muita coisa podia ser exagero, mas até mesmo as fantasias surgem de fatos muito bem ancorados na realidade. O risco era real. Entretanto, a possibilidade de vencer a morte era ainda mais. O usuário de Elysium desejava continuar a vida em outro mundo, ao lado de outras vidas, que podiam ser construídas da imaginação, da memória ou de ambas. Noah apenas sabia que se tomasse a droga, Annie o estaria esperando do outro lado do delírio.


**


Elysium escorregou garganta abaixo, afogada em água. Muito se falava dos seus efeitos iniciais; como era feito o transporte da mente. Noah se lembraria que assim que sentiu Elysium dentro de si, o jazz ambiente havia se tornado em pressão do ar. Todo o som escapou, e foi como se estivesse surdo, sem conseguir ouvir os próprios gritos. O mundo a volta não girou, apenas apagou gradualmente até tornar-se negro, e foi como se estivesse cego. Suor gelado, frio na espinha, mas a maior de todas as sensações era irônica.


É como morrer.


Um sintoma apto para aqueles que desejam ressuscitar em outra vida.

Seu corpo, já vencido e no chão, era sacudido por violenta convulsão. Ouviu dentro dos tímpanos o coração batendo pela última vez. Lábios tortos libertaram o derradeiro suspiro. Uma vida sem qualquer recompensa termina com uma morte vazia. Mente liquefeita construiu um último pensamento.


Só me resta a loucura.


**


Os olhos negros de Noah se arregalaram de susto, imediatamente se fechando ante a claridade que os violentava. A luz natural era um luxo da civilização antiga. Custou a acostumar às vistas. A paisagem que o recebia só existia em livros de História. Lá no alto, as copas verdes das árvores o davam boas-vindas. A brisa acariciava seu rosto. Junto ao canto das águas tranquilas, uma voz se fez ouvir.


O peito do frio assassino deu saltos. Elysium não estava de brincadeira. Já na primeira dose, já no primeiro instante, lá estava ela.


**


Oficialmente, Annie morrera aos quinze anos, em 2047. Magra, estendida sobre uma cama mal ajambrada, sustentada por analgésicos que jamais teriam o poder de curá-la e muito menos de aliviar a sua dor. Em seus últimos minutos, ela vomitava bile, sangue e declarações de amor ao amigo.


Fascinante era viver em um mundo tão tecnológico e colecionador de vitórias científicas, e mesmo assim tê-la perdido para uma doença misteriosa e fatal. A verdade é que toda doença é misteriosa e fatal quando não se tem dinheiro para tratá-la. Ao perder Annie perdeu a si mesmo, e resolveu usar seu talento de não se importar com nada para obter algo dessa vida. Dinheiro. Simples. Quantificável. Concreto.


**


Linda, dos cabelos de onda, da pele negra viçosa e convidativa ao toque. Os seios pequenos pareciam prontos a perfurar o tecido vaporoso de seu vestido branco. Assim que viu Noah, Annie correu para ele. Fizeram amor ao primeiro toque de peles.


Quando eram jovens e miseráveis, o erotismo havia passado longe de suas vidas. Abraçavam-se em noites frias, mas como irmãos. Além do cenário surreal, agora tinha Annie pronta a ter relações físicas. Dois indícios de que aquilo era bom demais para ser verdade.


Mas, durante o espaço de uma hora de amor, nada disso importou para Noah. Poderia estar morto e não se importaria.


Amaram-se sobre a relva como faziam os animais. Provaram um do outro como se o corpo de cada um fosse uma fonte em suas últimas gotas. Noah e Annie embalavam um ao outro; almas sedentas e esfomeadas. Algo dentro de si gritava, incomodado com aquela perfeição, mas Noah não deu atenção. Era o seu pedaço da eternidade.


**


O sonho tornou-se pesadelo.


Como um passe de mágica, o cenário perdeu a cor. Quando se virou para sua amada e viu o rosto dela literalmente se desfazendo em flocos que foram carregados pelo vento, Noah desconfiou que estivesse usando uma versão adulterada de Elysium. Afinal de contas, a droga prometia uma vida inteira de alegria, não apenas uma hora. Seguido da suspeita, veio o terror inoculado nos labirintos venosos como toxina. Num segundo, já não estava mais na floresta encantada ao lado da viva Annie. Fora transportado, como um adulto, para a cena da morte trágica dela.


Foi como morrer.


Um grito rasgou sua garganta e o céu. Por que o efeito de Elysium fora cortado tão rápido? O que realmente aconteceu é que Noah se incomodou com aquele mundo perfeito e passou a questionar a própria realidade. A bela ilusão podia ser rica em detalhes, mas frágil como um castelo de cartas. Bastava a descoberta da verdade, uma suave brisa, para derrubá-la.


Algo dizia a Noah que a viagem de volta ao seu apartamento funcional e a sua vida de assassino seria fúnebre. Ao que o mundo acabava, a vertigem o balançava, a paisagem enegrecia e os sons emudeciam, Noah só podia pensar em quantos mais mataria para poder ter acesso a segunda dose de Elysium, a fim de continuar vivendo sua existência imortal ilusória. Era a única vida que valia à pena.


Morreu pela segunda vez, mas não acordou onde esperava.


**


Paredes brancas acolchoadas o cercavam. Uma camisa de força bloqueava seus movimentos, mas ele tinha energia o bastante para tentar derrotá-la. Tão logo se percebeu acompanhado, cessou a luta. Sua mente caótica correu para perguntar-lhe quem eram aquelas pessoas sentadas ao outro lado da mesa, mas as respostas vieram crepitando pela sua consciência.


Dr. Fitz...

Cientistas do núcleo de estudos da mente de Yale...

Sanatório Criminal Saint John...


̶ Noah, lembra de mim?


Sentindo o cérebro dar voltas, e o vômito subir azedando a garganta, Noah indagou numa voz quebrada de mau uso:


̶ Onde está Annie?


Babava. Sentia a língua pesando. Não era efeito de Elysium, mas um coquetel de medicamentos potentes.


̶ Noah... Acho que você não se lembra, mas você usou Elysium pela primeira, e última vez, há vinte anos.


Estava internado em todo esse tempo?


̶ Elysium é a droga mais valiosa e potente já criada. Estimula áreas do cérebro de tal maneira que você passa anos vivendo num mundo de sonhos.


Com a força que o restava, Noah retrucou:


̶ Isso é coisa daquele maldito, não é? O homem que mandou o último assassinato. Ele me induziu a tomar essa droga para tentar me enlouquecer.


O interesse do homem em Noah se reduzia ao fato de que o jovem era hábil para acabar com seus inimigos. Não fazia o menor sentido ele estar atrás do próprio Noah. Nada os unia. Era uma mera teoria da conspiração a qual se agarrar. Uma alternativa para uma realidade muito pior, que começava a emergir por entre as rachaduras da ilusão que implodia em sua mente.


̶ Vou falar um pouco sobre os fatos. ̶ começou o Dr. Fitz, num tom calmo de quem sabe o que está falando, ou de quem já passou por essa conversa muitas vezes ̶ Seu nome é Noah. Você foi criado nas ruas. O amor de sua vida, Annie, ficou doente e vocês não podiam pagar o tratamento. Após a morte dela, você, Noah, se virou como podia até cair no mundo das drogas e finalmente do crime. Depois que executou sua primeira “missão” nunca mais parou. Já matou mais gente do que gosta de listar. Em seu último assassinato, você foi pago com Elysium. Foi para sua casa, ingeriu a droga e foi parar num mundo de ilusão ao lado de Annie. Só que o efeito da droga passou e agora sua vida terrível voltou ao normal.


Isso. Exatamente. Não respondia por que estava amarrado num hospício, contudo.


̶ Tudo o que eu acabei de dizer é falso, exceto o nome “Noah”.


Sem qualquer miligrama de Elysium em seu sistema, foi lançado de uma existência para a outra; do inferno a um inferno muito pior.


̶ Meu nome é Noah... Meu nome é...


Sentiu tudo escurecer. A sala apertou ao ponto de parecer que estava sendo sufocado pelas paredes. O médico, Dr. Fitz, falava, contudo mal podia ouvir sua voz. O mundo estava mudo e Noah estava surdo. A vertigem tomou conta, e contou os últimos fios de sanidade se partindo no meio. A vida real estava às portas e não havia mais como se enganar.


̶ Meu nome é Noah M. Smithers. Sou filho de Joane e Bruce, dois grandes empresários do ramo do aço. Aos quinze anos, caí num profundo estado de depressão. Tentei tirar minha vida duas vezes. Nas duas fui impedido. Meus pais, desesperados, buscaram uma solução. Eu estava doente e quase insano... Eles permitiram que o próprio filho fosse uma cobaia dos experimentos do Dr. Fitzgerald.


Eu sou o paciente um.


̶ Na primeira e única vez em que administramos isso que vocês informalmente chamam de “Elysium”, tivemos grande êxito. Depois que o efeito passou você voltou à consciência diferente.


Uma estridência em forma de memória rasgou sua mente. Levou às mãos à cabeça, aturdido e em franca dor. Liberou urros de agonia ao que as imagens voltavam para si, com cores, texturas e significância tão reais que faziam Annie, a vida nas ruas e os assassinatos parecerem miragens.


Na lembrança, passado o efeito de Elysium, Noah levantara da cama, curado para todos os efeitos aparentes. No entanto, bastaram alguns dias no convívio das pessoas e na rotina de sua própria vida para as sequelas adversas aparecerem. Ele começara a ter alucinações relacionadas à Elysium.


̶ No começo, os sonhos eram curtos, e meio confusos. Mas, a cada noite eu sonhava mais e com mais detalhes ̶ revelou o rapaz, espremido na camisa de força ̶ Até que chegou um momento em que mesmo nas horas em que eu estava acordado, eu queria continuar sonhando. Eu desejava por isso como um viciado em heroína deseja por mais uma dose.


Noah ouviu a própria voz, que sobressaía em meio à confusão de sensações e imagens. Começava a sentir que a sala branca de paredes acolchoadas se tornava ligeiramente mais sólida. Experimentava o chão sob os seus pés, como se estivesse aos poucos se ancorando naquele lugar. A mente flutuava, mas de maneira menos intensa, ao que lembranças, sonhos e realidade se encaixavam em seus respectivos, corretos lugares.


̶ Eu me lembro de você, Dr. Fitz! Você conduzia muitas entrevistas comigo depois que eu tomei a droga.


̶ Foi um período de observação.


O Dr. Passou a explicar que quanto mais o tempo passava, mais Noah vivia para aquele sonho.


̶ Mas... e Annie? Ela sequer existe?


O coração apertava como se fosse morrer só de pensar na possibilidade de sua amada ter sido mero fruto de sua imaginação.


̶ Annie... Era uma empregada que limpava seu quarto. Na época em que estava depressivo você não falava com ninguém. Ela tentou te ajudar.


Veio a imagem da bela moça, vestida de uniforme, tirando poeira dos móveis caros em seu quarto, ao que Noah olhava perdido para o horizonte e contemplava o vazio de sua própria alma. E havia aquele livro de poesias que ela adorava ler. Uma das frases do livro:


Há coisas tão valiosas neste mundo, que é melhor deixá-las escondidas.


Annie era só uma empregada e aquilo que ela tanto gostava de falar, como um mantra, era apenas uma frase de efeito poética de um autor qualquer. Mas, de alguma forma, tudo havia sido transformado em protagonismo na história criada pelo poder de Elysium.


̶ Mas, minha vida em Elysium foi um inferno... Eu passei fome, frio, sofri com a violência, perdi Annie, matei tantas pessoas... Por que eu ia querer viver num mundo de fantasia tão terrível como esse?


Dr. Fitz ofereceu um semblante de pura resignação.


̶ Eu achava que Elysium seria um mundo ideal, mas você nos provou que é apenas outra versão do mundo que a mente concebe. Você ansiava por algo que julgasse real. Como sempre foi um ser humano pessimista, narcisista e descontente com o mundo, você jamais iria acreditar que uma realidade sem dores fosse verdadeira.


Não à toa, Elysium falhou no momento em que Noah percebeu que aquele mundo de conto de fadas não estava certo. A lógica da vida era a dor. O ditame da existência humana era a mortalidade. Não havia como escapar disso. Não à toa, tornara-se um assassino em Elysium; alguém que não valoriza a vida. Já era assim no mundo real. Apenas esse desprezo era direcionado a si próprio.


̶ Então, isso aqui é real?


̶ Outras coisas aconteceram na época. Tente lembrar.


Não precisou se esforçar. A conversa com o Dr. Fitz tinha o poder de despertar memórias adormecidas. Noah já havia se tornado um assassino muito antes de ter a mente aprisionada por Elysium. A verdade rolava por entre seus lábios, pegajosa.


̶ Eu matei Annie... Eu a matei dias depois de tomar Elysium.


Não havia sido o assassino discreto o qual se acostumara ser em suas alucinações eternas. Havia esfaqueado a pobre moça a sangue-frio, na cozinha, pouco antes do jantar ser servido, na frente de todos. Por causa desse incidente havia parado no sanatório. De lá para cá, vivia entre o mundo dos acordados e em Elysium. O efeito químico da substância já havia passado, mas a experiência marcara sua mente a ponto de negar o que era real, e de correr para o mundo dos sonhos, por mais terrível que pudesse ser. Toda a sua vida como a conhecia era falsa.


Sua cabeça latejava a um ritmo violento. O coração palpitava de novo. Tornava-se uma guerra manter-se consciente. Mas, algo o dizia que valeria a pena persistir. Estava finalmente pronto, quiçá são o bastante para descobrir todas as respostas.


̶ Se isso aqui é a realidade... Como foi que eu saí de Elysium?


Como foi que escapou daquela ilusão que não passava de uma obra de arte de sua perturbada psique? Mas, a resposta já estava ali, no último evento da sua narrativa fictícia. Dr. Fitz deu um meio sorriso fraco. Parecia satisfeito com o fato de que pela primeira vez, em vinte anos, seu paciente exibia algum progresso.

̶ Através da própria Elysium.


Para sair de uma ilusão com aspecto de realidade, foi preciso criar uma ilusão com aspecto de ilusão. O mundo dos sonhos começara a ruir quando o pagamento do último assassinato foi a própria droga que o prendera naquela realidade em primeiro lugar. Por Elysium morrera, por Elysium ressuscitara. Era quase poético. Era irônico. Era engraçado.


As gargalhadas de Noah sacudiram a sala branca e fizeram tremer a alma do Dr. Fitz. A baba escorria novamente pelos cantos dos lábios. Um brilho de pura insanidade coloria olhos negros.


Assassino na vida real. Assassino na vida irreal. Solitário ali. Solitário aqui. Pecador na Terra. Pecador no Paraíso. Prisioneiro na mente. Prisioneiro na camisa de força. Condenado no Inferno. Condenado no próximo Inferno. Quase sentiu saudade dos tempos em que o dinheiro era sua única âncora. Quase pediu bis pela cena da morte de Annie; a que morreu de doença misteriosa e fatal; não a que morreu pelas mãos habilidosas de um assassino cruel. Ao fim da história, só lhe sobrou à loucura.


Engraçado como as coisas terminavam.


--- fim ---

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Ei, pessoal! Esse é meu primeiro conto de ficção científica! Espero que gostem!




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Conheça o autor

Déborah S. Carvalho Eu sou a Déborah, mais conhecida como "Debescreve". Amo ler e escrever! Textos longos, curtos, contos... Até nas poesias me arrisco às vezes. Aqui teremos romance, humor, drama, suspense, reflexão... a boa e velha prosa literária que corre por minhas veias, agora na tela!

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