gtsantos Grazyelle T. Santos

Rafiq é um gênio da lâmpada e amigo de uma pequena menina chamada Samira, à qual resolve escrever, como prometido, sobre como é o mundo "dentro da lâmpada" e todas as suas maravilhas, como também seus desencantos. Mergulhe nessa linda narrativa de Rafiq e se surpreenda com o Mundo Genial.


#2 em Conto Todo o público.

#fantasia #aventura #conto #crianca #lampadamagica #geniodalampada
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O mundo dentro da lâmpada mágica

Menina Samira, como um gênio de palavra que sou, estou lhe escrevendo esta carta, ainda que um pouco tarde (em razão de eu ter encontrado uma grande desorganização ao voltar para cá), para cumprir a promessa que lhe fiz de contar como é o mundo “dentro da lâmpada”, a saber, Samira, diz-se “Mundo genial” ou, se preferir, pode chamar de “Mundo dos gênios mágicos”. Vi que pela sua pouca idade você ficou um pouco confusa sobre como funciona esse negócio das lâmpadas, então lhe explicarei de maneira suscinta e espero que, se não tão cedo, em breve, quando tornar a ler esta carta, possa entender: há tempos atrás, Samira, 8 mágicos daqui criaram portais para se introduzirem no mundo daí, as lâmpadas são esses portais e não é bem que haja um mundo dentro da lâmpada, mas ela é a porta que interliga o seu mundo e o nosso. Então, para os gênios chegarem ao outro mundo, bastou esfregarem suas lâmpadas e “cabum!” Lá estavam eles do outro lado; quando precisassem, porém, retornar para cá, era só esfregarem novamente as lâmpadas e rapidamente estariam de volta.

Contudo, passadas já sete luas que os gênios andavam pelo novo mundo, homens feiticeiros daí descobriram os gênios e que haviam adentrado seu mundo por meio de lâmpadas mágicas e roubaram-lhes as lâmpadas, achando que poderiam fazer o mesmo, passar daí para cá. Mas, descobrindo eles que isso não era possível, “prenderam os gênios dentro das lâmpadas” e lhes impuseram a maldição sob a qual só poderiam retornar ao mundo dos seres humanos se algum dia alguém encontrasse as lâmpadas e se conectasse com eles, esfregando-as. Além disso, sempre que invocado, o gênio mágico, ao sair da lâmpada, teria de conceder desejos à pessoa. Acredita-se que algumas dessas lâmpadas ficaram num esconderijo por muitos e muitos anos, outras foram roubadas e outras perdidas, então raramente acontece de alguém encontrá-las por aí, como você encontrou uma, no fundo do mar. Alguns dos mágicos “presos” talvez jamais possam retornar ao mundo de vocês, se as lâmpadas deles tiverem sido destruídas. Eu sou um dos mágicos de sorte, pois você achou a minha lâmpada e eu pude retornar ao seu mundo.

Então, menina, você poderá se perguntar: mas, ora, porque razão vocês quiseram visitar o meu mundo aqui? E por que você, Rafiq, não empresta sua lâmpada para outro gênio vir para cá também? Bom, menina Samira, por tudo o que tenho dito até aqui, você deverá entender que todos os seres deste mundo são gênios mágicos, mas nem todos podem chegar até aí, porque nem todos têm uma lâmpada. Quando descobrimos que era possível criar os portais, entendemos o quão arriscado poderia ser e que apenas alguns gênios deveriam experimentar dessa aventura. Nós, os 8 gênios destemidos, criamos cada um a sua lâmpada e em cada uma delas e também em nossas pulseiras introduzimos uma pedra mágica de cor diferente: rosa, escarlate, azul turquesa, laranja, verde esmeralda, amarela, negra e violeta. A minha é minha cor predileta, laranja. Sempre que alguém esfrega a lâmpada, a pedra da pulseira se acende e rapidamente nos apresentamos. Portanto, Samira, se há algum gênio mágico além dos 8 gênios das lâmpadas que deseja conhecer o mundo de Samira, terá de se contentar com o mundo dos gênios, sem contar que foi por mera vaidade (eis aí o motivo) que nos dispomos a pisar no mundo de vocês, como todo ser, repleto de luxúria, tende a querer sempre mais pratas e adornos. Bom, mas isto você entenderá aos poucos, quando eu for lhe contando sobre este mundo tão mágico e frustrante, o nosso mundo.

Meu palácio fica perto das Crianças Choronas, são as quatro grandes cachoeiras que caem de um mesmo penhasco. Aqui eu tenho toda a exuberância que você pode imaginar, desde as belas almofadas de cetim aos lençóis de fios dourados, das pratarias às mesas fartas de frutas gigantes e suculentas. Há uma fonte jorrando no centro do jardim e a sua água reluz à noite mais que as estrelas; há 17 grandes colunas de pedras preciosas que equilibram o palácio; há um salão onde os pássaros repousam e recitam versos e o portão principal é do tamanho de uma baleia e para abri-lo é preciso estalar os dedos três vezes e dar uma cambalhota. Não, isto é brincadeira..., mas todo o resto é verdade!

Daí, você me diz: “mas tudo isso parece tão bom! Como puderam ainda desejar um mundo melhor? E eu te respondo, minha menina: Você, uma das pessoas que encontrou uma lâmpada mágica, vê, nós gênios, como seres exclusivamente concedentes, contudo, não é só isso. A propósito, nem seres concedentes somos, lembre-se, menina, que isso foi uma maldição lançada sobre nós, de modo que as únicas pessoas a quem concedemos desejos são aquelas que esfregam as lâmpadas e nos invocam. Porque o resto é tudo mágica! Nosso mundo é repleto de mágica, temos um poder extraordinário de fazer aparecer, de criar, é um “cabum!” que se pratica a toda hora. Podemos fazer uma ponte surgir no meio do mar, um gato aparecer do nada nos braços do rei enquanto ele está cochilando, um prato desaparecer enquanto alguém come; podemos transformar a face dos outros e a nossa própria face; eu posso até fazer nascer um dente num alho. Hahaha! Eu sei, isso foi bobo, é que vi que vocês humanos se surpreendem com tanta coisa... Bom, mas aí está, menina Samira, o grande enigma, decifre-o! Não consegues? É que és pequena demais para entender... Entretanto, é coisa simples: ao passo que tudo que nos cerca é mágica, tudo acaba perdendo a sua essência, a sua veracidade, o seu valor; o mundo mágico pode ser até muito bonito, cheio das suas cores, dos seus fascínios, das suas peraltices... Mas andar por uma ponte mágica não é como esculpir um barquinho e ver que a sua obra consegue flutuar sobre a água, atravessar o mar, e é verdadeira; acariciar um gato mágico não é como acariciar o felino que está abandonado numa viela e espera pacientemente por uma alma piedosa que o carregue para casa e o conquiste aos pouquinhos, e é verdadeiro; desaparecer com um prato não é como ter uma porção deles para lavar e a satisfação em ver a pia limpinha e eles branquinhos, bem postos, enfileirados no armário, e verdadeiros; transformar uma face não é como ter uma face que se transforma por si só, com um sorriso, com uma tristeza, com um susto! Ou até com a velhice, e é verdadeira.

Então esta é a resposta: o mágico é feliz até o tempo que dura a sua mágica, e quando ela se acaba, ele se sente só e muito iludido; então procura um novo mundo, o mundo de Samira, a menina que acha que o mundo “dentro da lâmpada” é o que a fará feliz. Tu não sabes, pequenina, que eu, cá, sonho em viver aí?

Mas já é hora de eu te desenhar as ruelas desse meu nobre mundo, não quero que mais tarde me chames e digas: “como me deixastes decepcionada, geninho!”, é que me inspiras o dom da palavra, pequena, e convenhamos que sou mesmo um gênio bem tagarela. Tomarei proveito disso para te descrever a feira dos macacos e como ela me arranca gargalhadas! Sempre a cada 15 luas temos uma feira no meio da praça do Babá, é quando os feirantes expõe seus objetos valiosos e mais chamativos, lá se troca, não se compra como aí no seu mundo. Enquanto os feirantes se exibem, numa competição inacabável de vaidade, os macacos saem do bosque e invadem as bancas, sentam dentro das bacias de ouro, batem os canecos e os talheres dourados, arrancam os chapéus dos feirantes e os lenços dos fregueses; o que trocou uma escultura de leão por uma gaiola gigante de araras violetas, quando vê está com um macaco na cesta! E o feirante que tenta afastá-los um pouco, ganha uma jarra bem acertada no coco! É macaco para lá, é macaco para cá, é macaco fazendo macacada e eu só dando risada. Geralmente esta é a minha maior distração na feira dos macacos, mas já saí com muitas coisas interessantes de lá, inclusive, tenho um par de sapatos mágicos que me fazem andar para trás, eu consigo andar toda a cidade de costas sem tropeçar uma vez sequer, já que eles andam por mim.

À noite, eu costumo ir ao Castelo Azul, para assistir aos espetáculos de mágica e, claro, também me apresentar, pois, como já deves ter percebido, sou um gênio de muito talento e não há mágica tão bem executada como a que eu faço. O castelo é impressionante, por fora reluz em tons de azul e seu interior brilha como uma floresta infestada de vagalumes, o que são na verdade os vestígios das mágicas que não cessam. Foi lá, inclusive, que conheci Sula, sim, a bela gênia de que te falei um dia; ela estava flutuando numa bolha gigante e quando a bolha estourou, Sula saiu transformada numa porção de borboletas e todas voaram até o público, uma eu apanhei em minhas mãos e a guardei comigo, mas vi que todas as outras borboletas voltavam para o centro do castelo e se juntavam, até que Sula retomou sua forma verdadeira, todavia, uma coisa lhe faltava, era a borboleta que estava presa comigo. Eu não quis devolvê-la a Sula e corri para fora do castelo, enquanto ela gritava: peguem aquele gênio! Ele está com o meu sorriso! Depois daquela noite nunca mais vi a gênia, mas todos os dias ouço ela sorri lindamente no meio do meu jardim, onde soltei a borboleta. Continuei me apresentando no castelo por diversas noites, na esperança de rever Sula e lhe devolver a borboleta.

Lembro-me, Samira, que você me falou de uma velha emburrada que espantava você e seus irmãos da calçada dela, como se chamava mesmo? É uma pena não recordar. Mas isso me faz lembrar de um antigo e assustador morador daqui, o louco Zayn, ele sempre odiou crianças e aqui é cheio dessas criaturas levadas. Dizem que ele vivia em paz em seu palácio, mas um dia umas crianças fizeram brincadeiras em seu jardim e poluíram a sua fonte e ele ficou tão irritado, mas tão irritado, que jurou naquele dia dar um bom castigo àquelas crianças e as cachoeiras das Crianças Choronas seriam o resultado disso. Ninguém nunca mais viu as crianças pela cidade, nem mesmo Zayn, mas dizem que em todas as noites de eclipse ele vai até a cachoeira e fica rindo das crianças, enquanto elas choram pedindo ajuda. Assustador, não? Bem, poderás contar essa historinha para a sua irmãzinha menor, quando ela fizer alguma travessura com os vizinhos.

Outra coisa que sei que irá te encantar e que jamais poderia deixar de contar aqui, é o trem gigante que percorre todo o Mundo Genial, ele parece uma serpente se arrastando velozmente pelas ruas e pela terra, é tão grande e tão veloz, é a coisa mais linda que os gênios já criaram e, por que não dizer, a mais resistente? Eu sei que neste momento você deve estar pensando nos tapetes voadores, mas acredite, Samira, que nada é tão espetacular como a nossa “serpente gigante”. Ela percorre túneis, sobre a terra e por dentro do mar e sempre que chega à estação sinos badalam alto, é um barulho tão estrondoso, mas não nos irrita, ao contrário, ao vermos o trem chegando dançamos, cantamos e jogamos lenços coloridos e sempre que alguém pega o trem para ir embora, deve retirar dele uma escama, enquanto que quem chega de longe, deve colocar uma nova escama no trem, as escamas são as folhas de uma árvore mágica que beira a estação, ela se chama “Árvore do regresso”, pois cada folha sua que é arrancada representa o regresso de alguém. Portanto, Samira, se um dia você decidir vir nos visitar, não esqueça de apanhar sua escama assim que pôr os pés fora do trem.

Por fim, pequenina, quero lhe contar sobre a lua, sim, a nossa lua. Sei que um dos seus sonhos é viajar até a lua e lá de cima acenar para os seus pais. Fiquei muito triste ao saber que isso lhe será muito difícil, já que a lua aí está bem distante do chão. E se eu te disser, Samira, que aqui onde moro você pode ver a lua bem de pertinho e ainda catar um pouco da sua terra para colocar nos aquários do palácio?! Pois é, aqui a lua repousa juntinho a um monte e para chegar até ela é só caminhar a passarela de madeira. Contudo, é essencial que leves consigo alguma coisa para os olhos, pois a luz que explode do eixo da lua poderia cegar-te! E também leve uma sacola, para tudo o que quiseres apanhar. Ela é tão imensa e tão brilhante, Samira, é como os teus olhinhos quando estão surpresos e se abrem, redondos e gigantes. Pensando bem, não seria de todo um mal vires para cá, se eu pudesse te mostrar essas coisas belas do mundo aqui. Basta que esfregues a lâmpada e me peça, como achares melhor. Todavia, tome cuidado, pois torno a dizer que muito encanto pode desencantar, embora sejas só uma criança, que se admira com tudo, que ama as luzes, o céu, as travessuras, e eu só sou um gênio desiludido, vivendo normalmente as coisas que te fazem dormir sorrindo. Se eu fosse um gênio cruel, sem dúvida faria uma troca contigo, você viria para cá e eu iria para o seu mundo, mas como sei que podes ser feliz aí mesmo onde estás, mesmo vendo a lua tão de longe, ficarei aqui quietinho, torcendo para que você faça o mesmo.

Bom, acredito que isto seja tudo e se algo me faltou dizer, esteja certa de que o mais importante eu lhe disse! Ah, guarde bem esta carta, lembre-se de que as gavetas estão ao alcance do gato e da sua irmãzinha menor. Agora um segredinho: sabia que se mergulhar este papel na água fria ele se transformará em um peixinho amarelo? E basta tirá-lo da água para que volte a ser uma carta. Mas não o alimente, ou as palavras vão se embaralhar, nem o almoce! Ou você poderá perder a voz e nunca mais conseguirá pronunciar uma única palavra. O melhor é que guarde a carta num lugar bem seguro, assim como fazes com a lâmpada mágica, e nunca se esqueça deste seu estimado amigo gênio! Agora preciso descansar, vejo que a lua está se afastando do monte e o sol se aproxima. Uma feliz vida, cheia de desejos realizados para ti, menina Samira, até logo! Ou até quando quiseres.

De seu gênio, Rafiq.


16 de Maio de 2022 às 17:17 4 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Grazyelle T. Santos Uns dizem, "eu amo escrever". Eu escrevo porque amo. Porque amo escrever? Não sei dizer, sei dizer que amo, não o quê. É que amar as palavras não é como amar o meu gato, ou A Noite Estrelada de Van Gogh; é como... Como amá-las não sei como. Por fim, as palavras são parte de mim e cada um de nós somos uma palavra. Que palavra eu sou eu não sei, mas um bocado delas mergulha em mim e sem elas eu seria só um ponto.

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Anderson Fillype Anderson Fillype
Ótima história, tem bastante potêncial. Todo esse fantástico de gênios de lâmpadas que você usou merece ser ainda mais desenvolvido. Espero que não tenha desanimado e continue sua história.
May 25, 2022, 12:14

  • Grazyelle T. Santos Grazyelle T. Santos
    Muito obrigada por seu generoso comentário, meu caro! Estou feliz que tenha gostado do conto:D May 30, 2022, 15:05
Glaon Cruz Vilela Glaon Cruz Vilela
Muito bom. Poderia até criar uma sequência. Acho que poderia dar um bom livro com essa temática. Paz Profunda!
May 21, 2022, 16:20

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