lova LOVA ⊙.☉

15º conto da série HaloTales


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#vingança #abandono
Conto
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Mas por que chora afinal?


Essa pergunta repetia, martelava, instigava, enlouquecia minha cabeça. Todas as quintas eu encontrava com ela no elevador, com cara de choro, retocando a maquiagem. Ela querendo disfarçar e fingindo que eu não estava ali, tirava da bolsa um estojo preto de maquiagem, abria e usava aquela esponjinha para secar as lágrimas, ao mesmo tempo que retocava os olhos inchados. Sempre cabisbaixa nunca me encarou. Numa quinta-feira dessas recusou-se até a me dar bom dia, que soberba. Quinta após quinta, sempre às 7:30 da manhã, ela desce comigo no elevador. Quando entro, ela já está lá. Sempre, cabisbaixa, retocando a maquiagem.

Comecei a desconfiar dessa mulher tão linda sempre chorando. Será que ela está sofrendo algum tipo de violência? Na nossa sociedade de “cuidados” que nos autorizou a se meter na vida alheia, logo me veio o número de denúncias anônimas do governo. Preciso fazer alguma coisa, essa mulher chorando, não pode! Uma mulher chorando sempre mexe comigo, com exceção de quando eu termino com elas, porque sou imune a este tipo de choro, foram vários, e como choram meu Deus!

Estávamos no elevador, ela vindo do 13º andar e eu esperando pra vê-la no 7º, e juntos descendo para o andar do estacionamento. Minha vaga era a 13 do 7º andar, e a dela era a 7 do 13º. Não pude deixar de reparar na coincidência dos números, só podia ser o destino. Eu poderia usar isso na semana que vem pra puxar uma conversa, quem sabe? Mulher adora esse papo de destino. Entrei no meu carro, e ela no dela. Eu fui logo atrás, e me deu uma vontade louca de dar um encostão no carro dela, só para ela descer e eu poder puxar uma conversa. Mas deixei passar, minha coragem não foi tão grande assim. Saímos da garagem do prédio, ela foi pra esquerda e eu pra direita.

Linda, uma mulher grande, boa de se olhar, com curvas espetaculares, seios no tamanho certo, cintura marcada, e quadril arredondado e empinado, rosto de pêssego e rosado, olhos muito negros, mas com pouca maquiagem, e os cabelos lisíssimos. Terninho de quem precisa trabalhar em ambiente formal, caimento perfeito, não era justo nem apertado, deixando claro que pensou no que vestir antes de sair de casa. Realmente, ali está a minha futura esposa. Essa eu não faria chorar, não de propósito.

Na semana seguinte não foi diferente. Finalmente é quinta-feira e eu parei na frente do elevador, chamei, ele saiu do 26º, veio direto, andar por andar, fui torcendo para parar no 13º, e parou. Desculpei-me por não ter conseguido segurar a vontade de rir, como será que ela estará hoje, será que é mesmo ela? Era. E de novo, maquiagem na mão, passava a esponjinha por debaixo dos olhos, olhando no espelhinho do estojo. O elevador foi descendo e ela no ritual. Não sei por que o elevador ia tão rápido às quintas, ela passou um batom bege. E depois pegou o celular dentro da bolsa, começou a deslizar seus dedos esculpidos por Da Vinci só para não me olhar e não precisar falar comigo. Foi assim mais um dia que eu não olhei para o rosto dela direito. Chegamos no S3, e nos dirigimos aos nossos carros, mas ela demorou a sair, será que estava me esperando? Não. Seria muita paranóia até para minha cabeça obsessiva. Tão obsessiva que esperei uma eternidade de 3 minutos até que ela saiu, finalmente. Resolvi que hoje eu bateria na traseira do carro dela, cheguei perto, mas, não consegui. Minha covardia no que se refere a danos materiais foi mais poderosa do que a minha coragem e a curiosidade de conhecê-la. Então só me restou segui-la.

Fui indo logo atrás dela como que, por coincidência, eu estivesse fazendo o mesmo caminho. Claro que eu conhecia bem o trajeto, nada me era estranho. Fomos indo e surpresa ela entrou bem no estacionamento do prédio da empresa que eu trabalho. Mas que coisa! O que ela tá fazendo aqui? O estacionamento é enorme, mas ela ficou bem no começo, nas vagas da diretoria, eu ainda não poderia entrar lá. Mas ela entrou, vai ver se enganou. Eu corri pra achar uma vaga no estacionamento das pessoas comuns, traduzindo, dos que não haviam tido sorte na vida ou estudado e se esforçado o suficiente para poder estacionar o carro na diretoria, e claro que onde eu posso estacionar é lotado. Parei o carro muito longe da entrada, corri o mais que pude pra chegar a tempo de continuar a seguindo sem me suar. Eu não poderia parecer sujo naquele dia, isso porque finalmente eu ia passar por uma apresentação no trabalho que me deixaria mais perto “daquele” estacionamento. Não consegui. Cheguei esbaforido na entrada de funcionários e ela já não estava mais lá. Então só me restou perguntar para o porteiro meu amigo quem era ela. Depois de uma breve descrição, ele disse.

_ Ela é a Dona Clara, diretora de RH.

Não acredito, ela trabalha aqui e eu nunca notei?

Mais um martelo na mente, a pergunta da vez era: Como eu nunca notei? Repetida e repetida durante toda a manhã, ao mesmo tempo em que revisava a apresentação do projeto de implantação da nova sessão de vendas de artes. Caso fosse aprovado eu estaria bem perto da diretoria, mas antes teria que passar pela gerência. Quando me dei por satisfeito com a apresentação, recebi um email da chefia que dizia. “Às 11h horas, esteja na sala de reuniões da diretoria. Boa Sorte!”

11 horas eu já estava na antessala da sala de reuniões já há quinze minutos. Não estava nervoso mas também não era meu estado normal. Quando a estagiária me chamou.

_ Você pode preparar sua apresentação, o pessoal foi tomar um café e volta em alguns minutos.

Eu comecei a arrumar tudo, quando eu estava organizando meus lembretes ela entrou na sala. Sim ela, a moça do elevador, foi direta e se apresentou:

_ Oi, meu nome é Clara, diretora de Gestão de Pessoas. Como vai?

_ Tudo bem. Um pouco ansioso hoje com a minha apresentação.

Respondi no impulso, pra ver se disfarçava o verdadeiro motivo de eu estar possivelmente pálido e trêmulo, era ela!

_ Você não se lembra de mim mesmo, não é?

_ Lembro sim! Do elevador...

_ Não, é de muito antes disso...

O que responder numa hora dessas, ela me conhecia e eu certamente a ela. Com o detalhe de eu não me lembrar. E agora é que eu não vou lembrar mesmo, por mais que eu olhe pra esse rosto perfeito e sorridente que está na minha frente, vejo que a minha incapacidade de raciocinar está destruída de vez.

_ A gente se conhece? Mil perdões, mas a única coisa que me passa pela cabeça agora é que eu sempre te vejo no elevador do meu prédio.

_ A não, aquilo não. Nas quintas eu saio é da minha terapia. O prédio também tem uma parte comercial, você sabe.

_ Sim claro!

Mas eu não sabia. E os outros diretores começaram a entrar na sala às 11h em ponto.

_ Bom, vamos começar a sua apresentação.

_ Sim, mas, primeiro você vai me dizer de onde a gente se conhece. Não é?

_ Hum, acho que não. Vou te dar um tempo pra ver se você se lembra.

Tenha a santa paciência, pensei comigo. O que se seguiu depois foi uma descarga de adrenalina tão grande que eu acabei fazendo a melhor apresentação da minha vida. Fiquei com tanta raiva dela, por ter me deixado assim no vácuo que a única coisa que consegui fazer foi fingir que ela não existia, só porque é diretora se dá o direito de fazer essas coisas? Mas, depois de tudo, aquele rosto de anjo me elogiando por causa da apresentação foi metralhador. Devo confessar, estou na lona com essa mulher. A apresentação foi um sucesso e apesar disso todas as terríveis situações de gafes e de abandono me passaram pela cabeça, pelo fato de não me lembrar da diretora Clara.

_ Posso te convidar pra almoçar?

Obviamente eu não recusei, e por isso fomos ao restaurante do prédio. Não era chique, mas era saudável, gostoso, limpo e com preço bom. Preço bom entenda-se é aquele que meu salário de quase gerente pode pagar. Chegamos e nos servimos, finalmente sentamos pra almoçar e conversar.

_ Vou ter que te perguntar.

_ Claro eu já imaginava. Mas vou responder com outra pergunta. Quantas “Claras” você conheceu na vida?

Realmente inteligente, percebi na hora que não conheci muitas “Claras na minha vida”. Olhando pra ela num período de 5 segundos, três “Claras” vieram em minha mente. A primeira era a minha professora particular de matemática, a segunda era a Dona Clara a vizinha da minha falecida avó, e claro a que estava na minha frente “A” Clara. Minha namoradinha de escola.

Eu com certeza estava com uma cara muito engraçada, pois ela riu muito quando eu me toquei de quem era ela e soltei um belo:

_ Claro!

_ Não, Clara!

E nós rimos. A uma hora e meia que tínhamos de almoço foi uma diversão. Colocamos o papo em dia, até o momento em que perguntei sobre a terapia e ela se deu o direito de pelo menos isso ser preservado. Depois fomos cada um para suas vidas. A tarde passou, a hora de ir embora chegou. Quando eu estava saindo olhei para o estacionamento da diretoria para ver se o carro dela ainda estava lá. Não estava. Exausto do jeito que eu estava era até bom mesmo, não aguentaria mais emoções hoje. Também não vou me atrever a ligar pra ela, seria arriscado, não estou pensando direito. Precisava dormir e amanhã ver o que eu faria. Ainda bem que amanhã é sexta.

Mas chegando em casa, com o corpo agitado, eu não consegui dormir. Foi aí que eu resolvi me lembrar dela, e foi nessa que eu percebi que na minha época se usava muito papel principalmente nas fotos, tenho uma caixa cheia delas contando a minha vida.

_ Achei!

Eu me esqueci dela. O tempo é implacável e no caso de Clara foi impiedoso com o peso. Por isso não a reconheci, ela deve ter ganho uns trinta quilos. E ficou linda. E eu, como será que fiquei? O passado começou a pipocar em imagens e calafrios. Eu, sem controle, não parava um segundo sequer de relembrar nossa história juntos. Nós namoramos, e eu tenho certeza que o primeiro beijo dela foi comigo e a primeira vez também. Foi a primeira que vi chorar. Depois nos formamos e seguimos nossos rumos, nos separamos definitivamente. Eu apaguei sua presença. Mas não importa ela está de volta, e eu vou casar com ela.

Como o sono não veio resolvi ir pra casa da minha mãe, ainda não era tão tarde e poderia filar a janta e me exibir com a possibilidade da promoção. Chegando lá, revelei a mim mesmo que o que realmente queria era perguntar pra minha mãe, que foi professora na nossa escola, se ela se lembrava de Clara.

_ Lembro sim, garota problemática, não se alimentava e vivia em depressão, até tentou suicídio uma vez por causa de um garoto.

_ Nossa quando foi isso, por que eu não lembro.

_ Foi logo depois que você se formou. O pai dela morreu, o irmão foi preso...

_ Mas por que ela fez isso?

_ Já falei, por causa de um namorado e muitos problemas com a família. A mãe nunca me contou a historia toda e nem quem era o tal garoto. Ela mora no final da rua, outro dia comentou que depois dele não namorou mais ninguém. Mas pelo menos enfiou a cara nos estudos e parece que é bem numa empresa grande aí.

Ouvindo história claro que eu me coloquei no lugar desse namorado, mas seria possível? Eu? Naquela noite, quando terminei com ela, depois de tantas idas e vindas, não pude acreditar que ela estava falando sério quando disse que não iria conseguir viver sem mim, e ameaçou se matar. Afinal quem vai se matar mesmo não avisa não é? Eu não deveria ter mudado o meu telefone, e nem pedido pra minha mãe dizer que eu não estava, e nem nada do que eu fiz. Mas como eu iria saber que ela reagiria assim? Se matar?

Preciso falar com ela, pedir perdão sei lá. Amanhã sem falta na empresa.

O dia começou como todos os outros, corri pra empresa e procurei a minha vaga. Cheguei mais cedo, não queria conversar com ela na frente de todo mundo.

_ Você tentou se matar?

_ Não é da sua conta. Onde você foi desenterrar esta historia? Por quê?

_ Fala, foi você que tentou se matar?

_ Eu não aguentei depois de tudo o que você fez!

_ O que eu fiz!

_ Você não lembra?

_ O que eu fiz? Fala!

_ Na festa de quinze anos da minha irmã? Quando eu falei pra você que eu estava grávida?

_ Eu não me lembro de muita coisa, eu tava muito bêbado.

_ Isso eu sei.

_ Você falou na frente de todo mundo que eu tava tentando te dar o golpe da barriga, na frente do meu pai, não só acabou com a festa da minha irmã como fez meu pai enfartar. Não se lembra...

Clara falou tudo isso na minha cara com um nó na garganta, olhos vermelhos e punhos cerrados. E no fim um tom de ironia na voz, ela não acreditou em mim, mas eu não lembrava. A única coisa que me lembro dessa festa foi os berros da minha mãe no dia seguinte ao porre.

_ E a criança?

_ Morreu, quando tinha 2 anos.

_ Passei minha vida toda me tratando... Tentando esquecer vocês dois.

Foi naquele hora que eu morri também. Fiquei paralisado e doido por dentro. Ela saiu correndo. Eu fiquei zonzo, precisava sair dali e ir atrás dela. Tinha que fazer isso. Fui pegar meu carro e quando cheguei nele tinha um outro trancando, gritei como louco pro porteiro pra chamar o dono que demorou pra vir, batemos boca, só não dei umas na cara dele por que tinha coisa mais importante pra fazer. Correr atrás de Clara e ver o que poderia fazer por ela. Da pior maneira possível descobri o por que de ela fazia terapia. Era destino mesmo a gente se encontrar. Essa história não de destino não e besteira mesmo.

Corri o mais que pude e quando fui sair do estacionamento, olhando pra minha esquerda pra entrar na rua com segurança e não provocar mais desgraças do que já havia feito, acelerei quando a rua fuçou livre pra mim. Acelerei mesmo e não pude entender quando o para-brisa espatifou com a pancada. Freei no reflexo e não acreditei que bati em alguma coisa, ou em alguém? Desci do carro, e era ela, caída no chão, desmaiada. Chorei compulsivamente. O que eu tinha que só fazia mal pra essa menina?

Mas por sorte ela acordou, colocou a mão na cabeça e reclamou de dor.

_ O que aconteceu?

_ Eu te atropelei.

_ Você surgiu de repente! Perdão. Não se mexe o socorro já vem.

_ Quero sentar.

_ Clara, calma vai ficar tudo bem, vou cuidar de você agora. Vai ficar tudo bem.

Ela olhava pra mim com as sobrancelhas cerradas e olhos entreabertos, eu ainda pedi novamente, para respirar com calma, que tudo iria ficar tudo bem.

Ela olhou pra mim e perguntou algo que já me dava uma pista de que eu havia sido condenado pra sempre. Ela disse:

_ Moço, quem é você? Por que choras? Nunca te vi!

21 de Maio de 2022 às 20:33 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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