lova LOVA ⊙.☉

3º conto da série HaloTales


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#estrada #caminhao
Conto
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Estrada de ferro.

Todos sonham com uma história de amor tocando suas vidas no breve período que passam aqui neste plano. Muitos contratos fechei por aqui com pessoas que queriam se casar e assim ter uma companhia para os dias na experiência da carne. Uns escolhiam os seus pares, outros pareciam vítimas, e outras ainda pediam sem especificar direito o que desejavam, deixando assim ao meu cargo a tarefa de analisar os detalhes e enviar a melhor opção de marido.

Com João não foi diferente, ele pediu e eu mandei uma das minhas meninas. Seria muito feliz com ela se o destino não quisesse que algumas desgraças mudassem o rumo de sua vida e o transformassem em uma pessoa terrivelmente triste.

João, quando jovem era o caminhoneiro mais porra louca da BR101. Extremamente competente não precisava de nada para ficar acordado. Era tão agitado que todo mundo que convivia com ele achava que se entupia de bala, mas não. Devido ao seu jeitão de ser, a vida na estrada era fácil acompanhada de uma rotina de festas, farras, mulheres e noites em claro vividas em boites de beira de estrada. João subia e descia sem cessar a 101 desde os quinze anos de idade, acompanhando seu avô Adhemar. Os dois aguentavam todas e Adhemar, que Deus o tenha, o comparava ao cavalo do diabo, isso porque passava dias sem dormir ou comer direito. Nunca ficava doente e ainda era musculoso e macho.

João herdou o Tânder do avô, um caminhão Volks preto e cromado que brilhava mais que penteadeira de puta pobre. Era a sua única companhia de confiança. O caminhoneiro mais desejado da 101 ainda levava pendurada na traseira da boleia uma motinha 250 para bater por aí quando dava vontade. Essa ele ganhou de presente do dono de um bar de beira de estrada, metido a motoqueiro de Harley, esse senhor não tinha como bancar uma de verdade então ele pegou uma cgzinha e customizou a pequena quase numa delas, tinha o banco abaixado e o guidão levantado. Deu para João quando ficou aleijado depois de surra de chave de roda que levou.

Mas, caro colega que aqui se encontra lendo esta história hoje, esse João porra louca parecia não mais estar ali naquela boleia. O que vejo agora é só mais um caminhoneiro que tenta se manter acordado usando rebites, vários deles. Já completou seu quarto dia na boleia sem dormir nenhuma das noites que se apresentaram entre eles. Costurando entre as pistas da BR101 estava passando por Florianópolis, seu destino era meio confuso já que ele tinha que ficar olhando suas anotações para lembrar onde deixar a carga que estava na carroceria. Além de doidão, burro e distraído nosso motorista também estava com a arca caída, sobrepeso, fedido e barbudo. E nesse inverno cultivava uma pneumonia que lhe corroía os pulmões. Em seu desejo, bom seria morrer.

João estava de luto, um luto eterno por sua mulherzinha, aquela que eu falei agora há pouco. João conheceu a felicidade há 7 anos atrás quando cansou da vida de esbórnia e casou. A responsável pelo feito de sossegar o leão de João se chamava Mariluce, sua puta favorita. Foi amor à primeira vista, a menina tinha 15 anos quando o conheceu e sabia que tinha encontrado seu príncipe. Mariluce, nascida e criada na boite de luz, junto com sua mãe, encontrou João em sua estreia na casa, ele foi seu primeiro e favorito cliente. Alguns anos depois João não teve muito trabalho para convencê-la a abandonar tudo e ir com ele numa igreja, pertinho do cabaré que ela trabalhava, e só com um buquê e uma aliança prometeu amor eterno:

E assim foi. Ela saiu vestida de noiva do puteiro direto para a igreja e depois para sua casinha de dois quartos na periferia de uma cidade qualquer na ribeira da BR101. Tinha que ser bem perto da estrada para ficar fácil de João entrar e sair para trabalhar.

João não deixou de ser caminhoneiro e enfrentava o ciúme de Mariluce com bom humor, já que em todo puteiro que ele entrava as meninas iam logo avisando sua mulher. Ela fez questão de acionar sua rede de amigas para além de avisar que ele tem dona, elas o vigiarem para ela. João agora era um impegável.

Então não era difícil encontrá-lo, era só dar um telefonema ou passar o rádio oferecendo a localização do dito cujo maridão interditado que Mariluce logo o encontrava, celular desligado um ova.

Foi assim, quando numa noite dessas João estava tomando uns litros de wisky com outros caminhoneiros quando Zula se aproximou pálida e chorando para avisar João do que aconteceu com sua Mari. Zula era da família das putas amigas dela, e estava calada com o telefone da mão. João sentiu na hora que tinha alguma coisa errada. Ele era esperto demais, o que se passou depois foi tão triste... Zula desligou o telefone e com a voz embargada só conseguiu dizer:

_ João. A Mariluce...

João sentiu seu corpo gelar e eu pensei que ele ia morrer ali mesmo.

_ Fala logo! Que bosta Zula.

_ É pra você ir pra casa, mas eu não posso deixar você ir sozinho. O Tião vai contigo tá?

Tião estava em pé chorando logo atrás de Zula.

_ O que foi? Merda! Fala de uma vez, por que essa palhaçada?

_ O Daniel, matou ela João.

Daniel, seu antigo cafetão, fez de conta que não se importava de perder a chefe das putas, a mais cara de todas. Mas como João andava armado e era bem maior que ele... Daniel foi traiçoeiro. Pagará por isso depois.

_ Foi só um tiro. Ela não sofreu.

Zula e Tião ainda tentaram aliviar a notícia, mas obviamente isso não era possível. Era apenas uma daquelas asneiras que vocês falam quando não aguentam ver alguém sofrendo. Juro para vocês que é melhor não falar nada.

Acho eu que foi por causa disso que naquele dia João saiu louco. Hoje ele não lembra direito o que foi que fez até chegar em casa. Até tem alguns flashes da estrada e do choro. Mas o pior foi quando quatro dias depois que saiu da Zula chegou em casa, mas não a tempo para o enterro. Encontrou seu lar vazio e um túmulo com o nome de Mariluce no cemitério da cidade.

João ajoelhado na cova rasa de sua mulher também morreu um pouco, adiantou meu serviço. Depois disso a dor nunca mais apagou de seu peito. Desde aquele dia ele tem aquela vontade de chorar que nunca passa, uma pena de si mesmo que não cessa, e a depressão acompanhada da vontade de morrer. Agora, João do caminhão, precisa levar a vida com rebites, pó e álcool. A seco não dá.

Naquela madrugada chuvosa lá pelas alturas do morro dos cavalos em Santa Catarina, João estava pensando muito nela. Não era normal ele já havia superado sua morte, mas não o fato de viver sem ela. Ao passar pelo morro lá no alto pensou em jogar o caminhão lá de cima, mas a curva que ele gostava passou e o caminhão não caiu, só deu uma raspada no guard-rail.

_ Deus me tira daqui!

Quando Knocking on heaven's door tocou no rádio, chorou de novo. Mais adiante, quando ele estava quase em Capivari de Baixo se deu conta de que tinha passado do trevo de Laguna. Deu mais um soco no volante por causa da sua distração passou direto de onde teria que deixar uma mudança que estava levando. De uma tal de Ana Diablo, mudança estranha cheia de coisas esquisitas, de artista sei lá. João voltou quando encontrou um retorno. O mal humor era tanto que pensou consigo mesmo:

_ Agora já foi.

E quando estava quase chegando à Lagoa São Francisco, lembrou que queria se mudar para ali quando resolvesse se aposentar e morrer. Para ele é tudo tão lindo e calmo, o lugar mais bonito da BR101. Viraria pescador e largaria a estrada de vez.

Esse plano era dos tempos que vivia sozinho e não contemplava a presença de Mariluce. Isso acalmou seu sofrimento e o distraiu um pouco. Tanto que só percebeu o perigo quando seus ouvidos foram quase perfurados por um apito longo e agudo que vinha pela contramão. Junto vinha também um farol muito forte e um tic tac que parecia um trem. Um monstro de trem, muito perto.

_ Puta merda!

Como será uma pancada de trem vindo de frente pra você? João adorava a estrada de ferro que passava bem do lado da 101 naquela região, ele só não imaginava que ela era ativa e pior que ela estava muito alinhada no nível da estrada, e ainda mais que ele conseguiria sair da via, passar pelo acostamento e invadir o trilho só porque dormiu no volante.

_Puta merda!

O trem veio para atropelar mesmo, João cruzou os braços na frente do rosto e depois encarou o estouro. Sem medo no coração bateu de frente com a escuridão e foi jogado contra o para-brisa. Saiu voando e mais a frente rolando pelo chão do vagão se ralou todo nos cacos de vidro e trombou com os bancos do vagão. Sem entender muito o que estava acontecendo parou quando deu de cara com alguma coisa que parecia um espelho que ele quebrou com a cara mesmo.

Era oficial pela primeira vez na vida, João sofreu um “acidente”, e ele nunca tinha experimentado isso.

_ Deus ouviu minhas preces?

Perguntou a si mesmo sem esperar resposta. Porém ela veio.

_ O de cima ou o de baixo?

_ Oi?

E a voz não respondeu mais. João percebeu que estava dentro do trem em movimento. Mal conseguiu se levantar por causa da velocidade, mas não sentia dor nenhuma, concluiu que estava bem dopado. Olhou em volta e uma bruma cinzenta passava rápido pela janela. Por dentro, os bancos vermelhos estavam dispostos um de frente para o outro e as mesas entre eles postas com um belo Bourbon. O trem ia cada vez mais rápido, e numa acelerada repentina o caminhoneiro que não estava acostumado a ser o carona caiu de bunda no chão. Chão esse que não estava mais com os cacos de para-brisas, e o espelho que ele antes tinha quebrado com suas fuças apresentava-se inteiro de novo, até mais bonito que antes.

João tentou se levantar apoiando nos bancos vermelhos, mas a velocidade era tanta que ele não se segurava mais nas próprias pernas, e só uma pergunta ainda ficava na cabeça:

_O que aconteceu aqui?

João não sentia dores e admirando seu reflexo no espelho pode encarar a realidade de que não estava mais machucado, pelo contrário. Estava com a cara inteira e jovem, respirando sem a dor da pneumonia, sem machucados ou ossos quebrados pelo corpo, estava magro, musculoso, bem vestido de terno com a camisa preta aberta até a barriga, tinha um chapéu e bota de vaqueiro, cheiroso e com um charme irresistível.

_ O que é isso? O que é que eu tô fazendo aqui?

Sua respiração não dava conta de tanto medo. Estava sozinho. Correu para uma das mesas e passou a mão num Bourbon e engoliu uma bela quantidade. Até que uma gargalhada veio da parte da frente do trem. Era o maquinista, rindo sem parar jogava a cabeça para trás, e o encarava com aquele sorriso assustador. Ele tinha uma pele vermelha, era careca e parecia ter o rosto todo queimado e no meio disso olhos verdes, e vesgos.

Dongo era mesmo assustador, João já o conhecia da infância, ele aparecia e sentava em sua barriga quando o menino João dormia naquele banco traseiro do Tânder que na época era dirigido por seu avô. Criança ainda gritava e a voz não saia da sua boca, e ele ficava lá rindo para João com um sorriso perigoso ameaçando fazer o avô bater o caminhão. Teve um dia que ele quase conseguiu. Dongo vendo agora o homem que ele se tornou apenas entregou a sentença para João:

_ Eu não sei o que tu fez mas agora eu te peguei. Finalmente garoto, agora tu vai também!

João sentiu que era o fim. Ganhou sua sentença do inferno não quando usou tanta droga pra se matar. Mas quando num dia de chuva, dirigindo seu caminhão numa estrada deserta encontrou Daniel, reconheceu o assassino da mulher, andando sozinho no meio da estrada, cambaleando de bêbado no meio da rua. Não precisou pensar muito:

_ Por que não?

E sem dó passou com o Tânder por cima dele, sentiu o caminhão balançar todas as vezes que os quatro eixos do lado direito passaram por cima dele, o último quase imperceptível. Daniel foi encontrado morto e nunca quiseram procurar pelo atropelador. João saiu impune da lei dos homens.

Ao aceitar o que aconteceu, que sua hora havia chegado, sentou-se em uma das mesas e sozinho curtiu cada balanço do trem. Recordou os bons e velhos tempos de sua juventude com satisfação. E bem por isso ele estava indo para onde estava indo. Não se arrependeu de nada e por isso mesmo a velocidade do trem aumentava cada vez mais. Um sorriso de amor se abriu em João quando a porta de trás do vagão abriu lentamente. E eis que aparece o condutor, com um charuto e uma garrafa de licor. Acompanhada da garçonete Mariluce.

João não se mexeu, levantou as mãos aos céus e depois as cruzou na cabeça. Ele não conseguia conter sua alegria, tanto que agradeceu a Deus, o Capeta a sua frente não se incomodou, entregou Mariluce a João, dizendo:

_ Toma, ela ficará eternamente ao seu dispor. Vocês trabalham para nós agora.

Eles se abraçaram mais forte do que em vida e não conseguiam se desgrudar. Capeta virou as costas antes que visse mais do que ele já tinha visto quando aquele homem jogou sua mulher com as pernas abertas numa das mesas. João não sabia se era bom ou ruim, mas ele resolveu não mais se preocupar

_ Espero que o inferno seja um ótimo lugar.

João não imaginava que dali nunca mais iria sair, seu novo cargo agora era ser o ceifador das estradas, junto com o capeta encarnado Dongo e Mariluce.

Então amigo ou amiga que me acompanhou até aqui para conhecer a história da Estrada de Ferro Thunder Dope Rail Road. Aqui vai um conselho desta que lhes escreve. Quando você estiver muito triste dirigindo na BR101 não se distraia e nem se iluda. A estrada de ferro está desativada.

A não ser é claro que você esteja muito cansado desta vida, daí sim esta é uma ótima opção para você. Temos por política em nossa companhia aceitar apenas aqueles que querem nos acompanhar. Caso seja esse o seu caso, nos chame na BR e quando o trem aparecer perto, muito perto mesmo do seu carro. Vire o volante. Será um prazer recebê-lo.

Até mais ver.

21 de Maio de 2022 às 20:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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