É
Érica Quintana


Johann é um jovem viking que chega a Inglaterra sedento pela prata e pelo sangue, mas quando descobre que sua irmã está prometida a nobre inglês, ele se vê envolvido em uma trama que muda completamente os rumos do seu destino.


Aventura Todo o público. © ericaquintana

#mitologia-nórdica #vikings #historico #nordico #aventura
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Prefácio

Essa não é uma saga como as outras… Sobre heróis ou vilões… Na verdade, o que você realmente precisa saber é que somos apenas fios, frágeis linhas, nessa grande tapeçaria da vida criada pelas nornas, criaturas poderosas e cruéis, encarregadas de determinar o destino dos deuses e dos homens, Urd tece o passado, Verdandi o presente e Skuld o futuro. E para essa saga devo admitir, Urd caprichou...

No horizonte era possível ver uma ilha se aproximando, não tenho ideia de qual seja seu nome, mas posso lhe garantir que depois desse dia, essa ilha se tornou importante. No topo de um monte uma construção de pedra se destacava, tinha uma torre pontuda com um sino dentro, quando a noite cedeu seu lugar para o dia, o som das badaladas ecoaram pelo oceano, levadas pelo vento, o vento que tocava furiosamente a vela branca e vermelha, enquanto a proa enfeitada por uma cabeça de dragão rasgava as ondas sem misericórdia, esse era o início da canção, a canção de sangue e prata.

Eram três barcos ao todo, cada um carregando vinte homens, é importante você saber disso, pois essa história poderia ter acontecido com qualquer um daqueles sessenta homens, mas a velha Urd não se contentava com qualquer um… Quando os cascos de madeira deslizaram pela areia molhada, eles saltaram do barco ansiosos, a água gelada tocou suas pernas despertando seus sentidos para que estavam prestes a fazer. Eles empunharam seus escudos e machados, cobriram suas cabeças com elmos e seus torsos com cotas de malha. Era isso que eles faziam, remavam e pilhavam, seus bolsos ansiavam pela prata e seus machados pelo sangue, essa era a canção que eles cantavam.

– Vocês não! – Um homem robusto falou, era o líder deles e vestia a melhor armadura dentre o grupo. – Vocês dois vão ficar aqui! – Ele apontou para dois jovens que estavam prestes a pular do barco, ambos o encararam confusos.

– Mas pai… – Um deles protestou hesitante, tinha olhos verdes e longos cabelos loiros. – Nós viemos para lutar! – Ele encontrou coragem em sua voz para encarar seu líder.

– Preciso que vigiem nossos barcos, para que eles não os queimem – O pai disse, embainhando sua espada.

– Nós estamos prontos, podemos lutar… – O filho continuou, tirando um suspiro pesado de seu pai.

– Do que adianta tomar todo ouro e prata, se não tivermos como voltar? – O líder disse, depois pôs a mão sobre a cabeça do amigo de seu filho e bagunçou-lhe os cabelos. – O dia de vocês irá chegar, até lá… Vigiem os barcos. - Ele ordenou com a voz calma.

E os dois jovens ficaram lá, em pé na embarcação, observando o grupo de guerreiros se perder pela mata em busca daquilo que vieram tomar e pouco tempo depois os dois ouviram gritos de desespero misturados com brandos ferozes de fúria, que se espalharam pelo ar como fogo consumindo a palha seca que cobria o telhado das casas.

- Não é justo! - O filho exclamou para o amigo. - Nós treinamos, estamos prontos! - Ele disse, indignado com a decisão de seu pai.

- Ragnar pediu para vigiarmos os barcos! - O amigo repetiu as palavras de seu líder, tinha cabelos curtos e escuros, mas seus olhos eram cinzas como a tempestade que se formava no horizonte. - Só os deuses sabem o que pode acontecer se eu o desobedecer novamente… - Ele disse com a voz baixa e olhar preocupado .

- Se todos os saxões morrerem, não haverá ninguém para queimar os barcos - O filho de Ragnar disse, batendo o dedo indicador em sua testa e tirando um sorriso faceiro dos lábios do amigo. - Vamos drengr!(guerreiro) Valhalla nos aguarda! - Ele tomou seu machado, saltou na água e andou até a praia.

Como eu disse antes, essa não é uma saga sobre heróis ou vilões, não… Essa história é sobre escolhas e quando aquele jovem saltou da proa para a água, uma escolha foi feita e o fio dessa escolha costurou não só ele, mas seus filhos e neto a um destino turbulento e difícil, assim como a própria Urd. Mas é claro que ele não fazia ideia do que Skuld tinha lhe reservado, então saltou. Sentido suas botas afundarem na areia molhada e a água salgada passar por entre os joelhos, ele foi em direção a praia apertando com força o cabo do seu machado, tentando acalmar o tambor que retumbava em seu peito.

- Vamos! - Ele disse, tentando afastar o nervosismo que agitava suas entranhas com coragem, mas não havia uma gota sequer dela em seu corpo. Algo que não parecia incomodar o filho de Ragnar, que estava pronto e sedento pela batalha, ele gritou algo para os deuses e correu na direção dos gritos. O amigo o observou e depois fez o mesmo:

- Odin guie meu machado! - Ele pediu, na esperança de que O pai de todos o ouvisse e o abençoasse, mas o deus não ouviu, estava ocupado demais recrutando almas para seu exército para atender ao pedido de uma criança amedrontada.

O jovem entrou na mata e depois seguiu o caminho que levava até o vilarejo, antes de chegar já era possível escutar o som de aço contra aço e o choro de desespero que os acompanhava, esse era o ritmo da canção de sangue e prata. Ele nunca havia visto uma batalha de perto, mas sempre ouvia falar da glória, porém alí naquele lugar e naquele momento, não havia nada além de caos. Corpos em pedaços pelo chão e a mistura nojenta de lama, vísceras e sangue, muito sangue… O fedor abominável que vinha dos corpos entrou por suas narinas e queimou sua garganta, fazendo seu estômago se retorcer, então vomitou tudo que havia consumido na viagem. Não havia glória apenas carnificina.

Por um momento sua visão ficou turva, tudo pareceu se mover de forma lenta, até que ele ouviu uma voz chamar seu nome… Seriam os próprios deuses? E novamente a voz o chamou. Com o canto dos olhos ele viu um arqueiro saxão soltar uma flecha em sua direção, por instinto suas mãos empunharam o machado enquanto o projétil cortava o ar e antes que o atingisse a lâmina do machado bloqueou o golpe, dividindo a seta em dois, naquele momento tudo voltou a se mover de forma normal.

- Covarde! - Gritou, sentindo o calor da batalha queimar seu sangue. - Me enfrente como um homem! - Ele correu na direção do arqueiro, que preparava de forma atrapalhada outra flecha e lançou sua arma, que afundou no crânio do saxão com facilidade. Na verdade, a grande dificuldade foi retirar a lâmina a tempo de se defender do golpe desferido por outro guarda que o atacava. Ele lutou bravamente contra qualquer um que viesse o enfrentar, cortando suas cabeças, membros e entranhas, deixando uma pilha de corpos ao seu redor e sentiu que havia sido abençoado por um deus… Mas não era o deus que ele imaginava. À sua frente, estava seu amigo, o filho de Ragnar, combatendo com o mesmo frenesi, com as mãos cobertas de sangue e o rosto tomado por um sorriso animalesco.

Ele tentou retomar o fôlego enquanto seus olhos passavam pelo caos que aquele vilarejo havia se tornado, então finalmente entendeu o que era a glória. Ouro e prata reluzindo a luz do dia, as pequenas e delicadas mulheres saxãs, e os suprimentos, sacas e sacas de suprimentos… Aqueles espólios faziam os olhos de qualquer guerreiro brilhar. Ah… A Glória! Ele a viu e a quis para si, ambição correu por suas veias como se fosse parte de seu sangue, aguçando seus sentidos, fazendo sua visão parar em um chalé próximo a grande construção de pedra, era o único que não havia sido queimado ainda. Com um chute ele abriu a porta e logo à sua frente encontrou uma mesa cheia de cálices e outros objetos de ouro, usados pelos cristões para seus rituais. Ele tomou um desses cálices em sua mão e observou seu reflexo dourado, imaginando se os deuses estavam sorrindo para ele… Mas como eu disse somente um deus se importava e ele não estava sorrindo e sim rindo.

Que as nornas são cruéis você já sabe, agora você irá entender o porquê. O jovem ergueu a cabeça e viu ao fundo da simples sala uma moça deitada em uma cama velha, de costas para ele, imóvel, respirava lentamente, porém permanecia imóvel. Seus pés o guiaram até ela, a madeira rangia a cada encontro com o peso que vinha das botas e suas mãos suavam. Quando a distância entre eles se tornou quase inexistente, a moça virou, levantando-se abruptamente, revelando seu rosto com belas feições, porém coberto pelo cansaço e tristeza.

Eles dizem que somos monstros impiedosos e sem coração, talvez parte disso seja verdade, mas se tem algo que sabemos reconhecer é a dor e a dor que aquela jovem emanava era quase palpável, seus olhos se encheram de lágrima e ela olhou para o lado, onde um bebê dormia o sono eterno. Aquela não era a primeira vez que ele vira uma criança morta e nem seria a última, eram criaturas pequenas e frágeis, que pereciam diante de invernos cruéis e doenças virais. Ele voltou-se para ela, que se jogou no chão aos prantos com uma das mãos no peito.

- Acabe com meu sofrimento. - Ela pediu, em sua própria língua, engolindo com dificuldade os soluços. - Eu não quero viver mais, eu quero estar com ele. - Sua voz saiu trêmula, mas a verdade que havia nela… Era compreensível em qualquer idioma.

- Você ainda pode ter outros filhos… - O jovem tentou acalmá-la. Ela negou com a cabeça, como se tivesse entendido cada palavra que havia saído de sua boca.

- Por favor… Acabe com meu sofrimento… - A moça o implorou, encarando com seus grandes olhos azuis. Ele se aproximou e a tomou nos braços, levantando-a delicadamente, afastou a mecha ruiva e tocou a lateral de seu rosto. - Por favor… Eu quero ficar com ele.- Ela puxou a outra mão dele, a que segurava o machado, e aproximou a arma do seu próprio pescoço.

- Não se preocupe… Vai ficar tudo bem… - Ele disse com a voz calma, colocando o machado de volta em seu cinto. Ela o observou, confusa, quase desapontada.

- Seu sofrimento irá acabar… - Ele continuou, e os dois se encararam por segundos ou talvez horas. Ela era uma mãe sem filho, afogada pela dor e implorando para ela fosse embora e ele… Ah ele, era um pobre jovem, comovido pelo seu doce e ao mesmo tempo angustiado olhar, disposto a fazer de tudo para acabar com o sofrimento que a atormentava, e assim fez… Afundando a lâmina de sua adaga no coração já despedaçado daquela moça, concedendo-a seu último desejo, estar com seu filho… Ela esboçou um último sorriso antes de partir e então se foi, em paz e livre de sofrimentos…

Naquele momento, um fio foi cortado e um destino selado. As nornas trabalham e um deus se diverte.

Ele a deixou com seu filho e saiu, a riqueza que encontrara havia ganhado um novo significado e suas escolhas, grandes consequências. Ficou ao lado de fora observando aquele chalé se tornar uma pira, sendo tomado pelas chamas ardentes, esperando que um dia esquecesse o que havia vivido ali, mas aquele dia jamais seria esquecido…

- O que tem aí jovem drengr? - Um homem alto se aproximou, tinha cabelos negros e usava a pele de um urso como capa.

- Um pouco do ouro cristão. - Ele respondeu sério, com a mente ainda presa no olhar daquela moça.

- Eu vi você lutando… Está se tornando um ótimo guerreiro! - O homem deu algumas batidinhas nas costas do jovem.

- Obrigada Bjorn. - Ele sorriu timidamente e agradeceu com a cabeça.

- Venha! - Bjorn passou o braço pelo pescoço do jovem e o guiou até a construção de pedra. - Você lutou bem então merece um belo espólio. - Ele o guiou para dentro do lugar onde havia uma fila de jovens mulheres amarradas e sentadas no chão do corredor frio. - Vamos! Escolha uma para você! Mas já vou avisando… Essa aqui é minha - Ele se abaixou para ficar no mesmo nível que uma das mulheres amarradas e era uma bela mulher de fato, com olhos amendoados e maçãs do rosto altas.

- Nunca! - Gritou no mesmo idioma que ele. - Eu pertenço somente a Ele - Ela segurou com força o crucifixo preso a um cordão, envolta do pescoço.

- Hoje é meu dia de sorte então… Pois Ele, parece estar bem morto - Bjorn respondeu rindo, a moça cuspiu em seu rosto, o fazendo rir ainda mais. - Vamos drengr! Escolha uma logo!

- Você fala meu idioma também? - O jovem se aproximou da que parecia ser a mais nova entre elas, a moça o encarou assustada, mas assentiu mesmo assim. - Pode me ensinar o seu? - Ele perguntou com um sorriso contagiante nos lábios, um sorriso capaz de convencer qualquer freira a adorar Odin. …Ah! Escolhas… Ele a escolheu, sem saber que aquela bela noviça se tornaria mãe de seu primeiro filho, que seriam felizes e que ao final do inverno daquele ano, ela e a criança estariam mortas. Eles fazem suas escolhas, mas um deus ri… Ele sempre ri.

- Achei que havia mandado Halfdan e você vigiarem os barcos. - Ragnar os interrompeu, bloqueando a luz que vinha da entrada da porta.

- Foi minha ideia! Eu convenci seu filho a vir comigo. - Ele mentiu e pareceu bem convincente, fazendo Ragnar torcer os lábios.

- Pai, não brigue com eles, estavam ansiosos para mostrar seu valor a Odin. - Bjorn interveio. - Deveria ter o visto lutando, é um verdadeiro drengr! - Ele disse, dando uma piscadinha para o jovem.

- Ah, é mesmo? - Ragnar o encarou sério por um tempo, depois o tomou nos braços e começou a rir, bagunçando os cabelos negros do rapaz. - Eu sei que crescer sem um pai não é fácil… - Ele disse, enquanto o menino observava o chão. - Mas eu o tenho como filho e lhe dou isso como presente. - Ele disse sorrindo, entregando-lhe um bracelete fino trançado por fios de ouro. - Agora você é um homem, um guerreiro, um viking!

- Muito obrigado, Jarl Ragnar! - O jovem assentiu com a cabeça e colocou o bracelete no pulso. - Irei servi-lo até que as valquírias me guiem ao grande salão! - Ele prometeu.

- Agora vá procurar o Halfdan. - Ragnar ordenou e ele concordou, correndo para fora. - E Leif… - O líder chamou, fazendo-o virar para trás. - Não me desobedeça novamente. - Ele disse e Leif concordou, depois saiu correndo em busca do amigo.

Sim… Esse era o nome dele, nome que você ouvirá muitas vezes nessa saga. Mas não se engane essa história não é sobre o jovem Leif de feitos lendários e um pouco controversos… Ah não, essa história é sobre escolhas, e como você já deve saber, para cada escolha existe uma consequência.

19 de Maio de 2022 às 00:17 0 Denunciar Insira Seguir história
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Danelaw
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A danelaw foi criada pelos filhos de Ragnar, após conquistarem grande parte do território Inglês, lá qualquer um pode viver em paz sem se preocupar em ser atacado pelo exército saxão. Leia mais sobre Danelaw.

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