andromedalactea Andromeda Lactea

Um homem tenta atravessar seu país em busca de sua esposa, que se separaram no primeiro dia do início de um apocalipse com criaturas angelicais. A dura tarefa se torna cada vez mais difícil conforme desafios morais e sobrenaturais surgem no caminho de nosso protagonista.


Pós-apocalíptico Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#apocalipse #terror-cósmico
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Couro de um serafim

Depois do primeiro arrebatamento, procurei achar o último lugar onde encontrei minha esposa, antes que qualquer coisa me aconteça, quero encontrar ela pela a última vez, é a única coisa que me restou depois do fim. Nada mais importa, apenas quero estar do seu lado antes que a morte absoluta chegue para mim e para ela. Infelizmente tive que fazer uma última parada em uma pequena casa perto do local de nosso encontro, estava cansado demais para andar mais 4km’s, mas pelo menos nesse estado, nem com ladrões ou bandidos devo me preocupar mais, talvez eu seja uma das últimas pessoas dessa maldita e abandonada terra. Após adentrar o local, observei como a casa era aconchegante, com certeza quem morou aqui amou ela e teve memórias, assim como tive memórias e amei minha amada, me sentei no que tinha restado da sala, e tirei minhas coisas da mochila, talheres, lanterna, um isqueiro e por último meu único companheiro atual, meu diário.

Nunca pensei que a única coisa que me restaria para falar sobre minha vida, seria um caderno, nunca fui uma pessoa de escrever diários, mas por que estou escrevendo agora? É bem simples, ficar sozinho não é uma tarefa fácil, pelo menos não para mim, sua sanidade fica cada vez mais frágil, seus objetos começam a virar seus ‘’amigos’’ para você ter uma companhia, e para finalizar, sua cabeça começa a imaginar coisas ao seu redor, e por mais estranho que pareça, eventualmente você nunca deseja tanto ir para o inferno, porque lá ao menos vai ouvir sons de gritos e terá pessoas, diferente desse vazio de prédios e carros.

Tudo começou com uma tímida e comum tarde de terça-feira, minha esposa, me ligava de maneira ansiosa e insistente, eu estava dormindo depois de um turno de madrugada desgastante no trabalho, esfrego as mãos dos meus olhos antes de levantar, faço movimentos confusos e lentos, até que em um esforço ponho meus pés para fora da cama, meu corpo mole e minha boca seca não ajudaram muito no meu humor atual, porém ouço um alvoroço de longe de fora do meu condomínio, será que algo de sério havia acontecido? Fico um pouco preocupado ao pensar no que poderia ser, meu celular fica quieto novamente por 4 segundos, e de novo, ele toca.

Atendo preocupado e um pouco irritado, minha esposa, quase gritando no telefone, me diz para olhar para o céu, fiquei confuso com esse pedido e senti minha barriga se remexer um pouco de raiva por ela me acordar por um motivo tão bobo! Entretanto, não poderia ignorar a confusão ao redor de meu apartamento, e sem cerimônias abro as cortinas do meu quarto com um movimento brusco.

Nem mesmo todos meus pesadelos juntos e de maneira mais nítida iriam chegar aos pés da quantidade de sentimentos negativos que senti ao olhar os céus daquela terça-feira, meus olhos doeram um pouco ao olhar diretamente para aquela coisa lá no alto, porém com o tempo foram se acostumando ao brilho intenso, quem me dera fosse só a dor a única coisa ruim desse assombroso dia da humanidade, minha cabeça começava a zumbir, minhas pernas a tremer, sentia ansiedade, calafrios e principalmente, um medo terrível que começava do meu peito e se espalhava para todo o resto do meu corpo.

Por um segundo me mantive são e percebi com um reflexo involuntário as mãos suadas e fechadas, como se meu subconsciente quisesse correr ou lutar, ao tentar me acalmar e recobrar a racionalidade, gravo bem a aparência daquela criatura… 3 anéis de ouro de proporções ridiculamente grandes pairavam no céu, um dentro do outro, do maior até o menor, não sou físico, mas sabia que aqueles movimentos quais os anéis faziam desafiavam completamente as leis da gravidade, enquanto giravam, centenas de olhos se encontravam grudados naqueles anéis, sua graciosidade ao girar também acompanhavam sua bizarrice, aquilo estava parado no céu, e não sabia o que fazer, as pessoas ao redor, gritavam, choravam, outras ficavam catatônicas, e de fundo, jurei ouvir alguém gritar a plenos pulmões que ‘’ o fim do mundo havia chegado’’. Meu corpo estava paralisado, só pude sair desse estado de choque quando ouvi minha esposa gritar no celular comigo novamente, logo quando acordei, soltei o meu mais natural ‘’QUE PORRA É ESSA?’’, ela também estava confusa, porém estava um pouco mais lúcida no momento.

Após meu pequeno surto, comecei a pegar tudo que achei que seria preciso, dinheiro, chaves do carro, e até mesmo um facão, não sabia o que esperar, mas queria estar preparado para qualquer coisa que viesse, comecei a pedir para que minha esposa ficasse no hospital onde ela trabalhava, e que ficaria tudo bem, porém ao tentar sair do meu apartamento, aquela criatura no céu começou a emitir várias vozes, de início, todas eram desafinadas e desalinhadas, em tons e frequências diferentes e com o tempo, foram entrando em uma estranha harmonia, até que incrivelmente um couro quase ‘’divino’’ foi formado, por um minuto, todo o estresse, adrenalina e medo foram embora, foi como se um velho amigo estivesse entrado no quarto, segurado meu ombro e falado: ‘’vai ficar tudo bem’’.

Esse couro era hipnotizante, fiquei paralisado e completamente influenciável por ele, como minha mente fosse imergida em um sonho lúcido e belo, o qual não queria acordar, mas algo me fazia sentir uma sensação horrorosa ao ficar naquele estado, como se algo estivesse me observando diretamente na minha alma.

Logo depois que o couro parou meu corpo tinha relaxado, aquele estado de quase sonho havia acabado, fiquei meio tonto, confuso e me sentido fraco, como se realmente tivesse tido longas horas de sono, logo que minha consciência havia voltado totalmente, olhei rapidamente o celular, porém a chamada já havia terminado há mais de 30 minutos. Fiquei me perguntando quanto tempo fiquei naquele transe, para mim, pareceu apenas 30 segundos, no mundo real, foram mais de meia hora, isso me deixou inquieto e preocupado, o estado de pânico havia passado graças ao couro, porém comecei a temer que aquela criatura no céu era bem mais perigosa que eu pensava.

Ao sair do meu apartamento, sabia que não era muito ideal usar o elevador, com certeza já tinha muitas pessoas já usando ele, quase ninguém estava no meu andar, exceto minha vizinha, ela estava assustada e disse que estava tentando ligar para o filho, porém afirmou não conseguir porque ele não havia retornado a ligação, só que.. a maioria dos moradores do andar sabia que aquela senhora, a dona Cleide, teve seu filho morto há 5 anos atrás em uma acidente em uma cachoeira, ouvi dizer que ela tinha sido diagnosticada com Alzheimer.

Não sabia como dar essa notícia a ela, tentei ser o mais sensível possível e pedi para que ela tomasse os remédios que os médicos receitaram para ela antes de tudo, dona Cleide parecia desnorteada e ansiosa, porém mesmo preocupada voltou para seu apartamento e provavelmente tomou seus remédios, pedi para que ela ficasse em casa por enquanto, que possivelmente estava um caos lá fora, e ela mesmo relutante por seu filho, permaneceu no seu apartamento.

Meu peito doeu ao ver aquela cena, não seria nada agradável para aquela senhora sair com a memória frágil nessa confusão, e por um breve instante, comecei a fazer mais e mais perguntas sobre o que exatamente ‘’o couro’’ daquela criatura fazia nas pessoas, fiquei tentando entender por que ele me afetou daquela forma, ou se fui um caso isolado, o único afetado por isso, mas balancei a cabeça e fui descendo para a garagem, eram 25 andares, e juro que tentei usar o elevador no décimo quinto andar por causa da fadiga, mas em 10 minutos de espera ele não havia chegado.

Descendo pelos andares ouvia todo o tipo de coisa, desde pessoas nervosas até pessoas falando de maneira ansiosa e trêmula, ouvi claro, pessoas rezando, até mesmo rezas de arrependimento pelos pecados, não só da religião cristã, mas em outras também. Ao chegar no 2 andar, conseguia ouvir um murmurinho, pessoas tentando se informar sobre o que havia acontecido, alguns decidindo ir para fora, outras lançando uma enchente de perguntas aos nossos síndicos e funcionários do prédio. O síndico, seu Cláudio, disse para nos acalmarmos, e que foi emitido pelo governo para ficarmos em casa para evitar tumulto nas ruas enquanto as autoridades resolveram as pendências locais, ouvindo aquilo não podia ficar de braços cruzados, minha mulher estava fora e eu precisava ir ver ela! Porém não poderia fazer nada se não permitissem eu acessar a porta da garagem, a qual estava trancada.

Os moradores ficaram perplexos, muitos estavam com medo de faltar comida em casa nessa ‘’crise’’ outros ficaram preocupados com parentes e suas crianças que não haviam voltado do trabalho ou da escola, todos estavam extremamente tensos, mas alguns tentavam manter a calma para que não tivesse um motim e possivelmente, violência.

Eventualmente, os ânimos se acalmaram, o governo uma hora depois havia comunicado que poderíamos sair, porém para evitarmos as áreas onde haviam ‘’criaturas não familiares’’ (seja lá o que isso queria dizer), logo que a porta da garagem foi liberada, todos corremos, precisava entrar de maneira mais rápida possível na garagem para ir buscar minha esposa, meu plano era pegar ela e ir para o interior, seria menos perigoso e teriam menos pessoas lá, porém não era só um, e sim 7 blocos de apartamento no nosso complexo, havia formado uma fila na saída com a movimentação dos outros moradores.

Óbvio que a saída foi frustrante, porém isso havia me dado tempo para ver que o sinal do celular havia voltado, tentei ligar para minha esposa, mas a chamada só ficava em espera, ela devia estar ocupada, imaginei que os sistemas públicos iriam estar com uma superlotação, de qualquer modo, mandei uma mensagem para ela pela internet, na tentativa de receber uma resposta, mesmo que por texto.

Estando imóvel na fila para sair do complexo de condomínios, acessei a internet, e isso tirou novamente meu fôlego, vários e vários vídeos dessas criaturas estavam no Youtube, Facebook, Twitter, e principalmente nos sites de jornalismo, era assustador o fato de que não era só aqui que essas criaturas haviam aparecido, mas em outros lugares do mundo, China Japão, África, Canadá, essas coisas estavam aparecendo em todos os países.

O nome popular dessas criaturas eram ‘’anjos’’ mas depois chamamos eles de Serafins por conta dos relatos de algumas bíblias. Os Serafins geralmente tinham algumas variações, mas suas características principais eram os vários olhos, asas e anéis de ouro ou uma espécie de metal branco em volta de um núcleo de energia ou um olho gigante, dizem que o espaço-tempo se torna instável ao redor de seus anéis, e que eles podem efeitos colaterais diversos na mente humana.

Nem preciso dizer que países mais religiosos entraram em completo colapso, países ligados a fé cristã e suas ramificações estavam em completo êxtase pela chegada dos anjos, a anarquia se espalhava e líderes religiosos ganharam mais força e poder sobre a população assustada ou cega pelo fanatismo religioso, é claro que nos países do oriente médio, as reações eram mais imprevisíveis, alguns líderes falavam que deus havia enviado sua aprovação final para os fiéis, outros falaram que os ‘’anjos’’ eram o próprio anticristo, os governos invocaram uma reunião de emergência na ONU.

Os militares já estavam para chegar nos locais onde os anjos haviam aparecido, aparentemente eu com certeza não poderia ficar mais no meu apartamento, alguma notícia havia falado sobre o aparecimento de outras criaturas, porém quando eu ia clicar no link, ouvi buzinas atrás de mim, a fila já havia andando consideravelmente enquanto eu lia e via os vídeos.

Saindo com meu carro, passei pelas ruas, alguns lugares estavam congestionados, outros tão vazios que pareciam abandonados há vários anos, fui seguindo ajustado meu GPS para rotas com menos carros, quando vi que em um dos caminhos que havia pegado, um carro estava virado, não pude ignorar aquilo então executei um freio bruto, dei ré de maneira ansiosa, estacionei o carro e desliguei o motor, um carro havia batido em um poste, infelizmente era uma família, todos haviam morrido, a mãe tinha morrido abraçada com uma criança de pequena em seu colo, o pai estava há 10 metros do carro, voou pelo para-brisa, coloquei uma mão na boca e senti uma lágrima quente descer pelo meu rosto, uma tristeza profunda havia invadido meu peito, um medo familiar tomou conta do meu corpo, como se eu tivesse vivido algo parecido de um acidente antes, mas acho que deveria ter sido só minha empatia pela família. O mais assustador não era apenas isso, eu queria ver do que o carro havia desviado, e foi a primeira vez que me deparei com o que chamamos de ‘’abençoados’’.

Uma criatura que parecia uma espécie de tronco, mais ou menos 1 metro e 20, só que feito de carne e pele humana, olhos cresciam e desapareciam em seu corpo, a carne parecia se revirar e contorcer lentamente, criando a impressão para quem olhasse que estava se transformando em algo, ela parecia estar em uma dança estranhamente calma que me lembrou algas dançando no mar, por incrível que pareça aquilo não cheirava mal, porém o que me incomodava muito era o fato que aquela coisa, grotesca e bizarra, cantava com uma voz quase não humana, parecia estar alegre em seu tom de voz. Ao chegar perto da criatura, ela olhou para mim, com seus vários olhos surgindo e desaparecendo em seu corpo, suas bocas verticais cantando e rindo.

Aquilo tudo era forte demais para mim, uma família inteira havia morrido por causa daquela coisa e ela aparentava estar..feliz, sentia que estava a beira de um surto, minha garganta ensaiou os gritos e os braços começavam a fervilhar de nervosismo, me lembro também que minhas pernas estavam bambas, já estava tão estressado da primeira experiência com o ‘’anjo’’ e o ‘’couro’’ que quando tentei gritar, porém não saia nem um pio, e nesses minutos, pensei que se estivesse no inferno, estava de camarote observando a loucura, dor, miséria e morte imparáveis.

Uma das coisas que sempre me assustou na vida foi o desconhecido, a falta de lógica em certas coisas as deixavam perigosas, não saber o que esperar daquela situação fazia ela só ficar mais assustadora, e se aquela coisa levantasse e corresse atrás de mim? Ou chamasse alguma coisa maior para me pagar? Soa ridículo agora que não estou mais lá, porém era o que se passava na minha cabeça.

Bem meu amigo diário, estou um caco da viagem, preciso descansar para meu grande encontro amanhã, comer um pouco e dormir são meus planos para essa noite, mas se eu tiver pesadelos novamente talvez te use para me acalmar, afinal, parece que agora tenho todo tempo do mundo nessa terra esquecida pelo universo.

Termino nossa conversa com uma passagem que li uma vez:

‘’Deus, o que nos prometei em troca de morrer? Pois o céu e o inferno nós já os conhecemos - cada um de nós em segredo quase de sonho já viveu um pouco do próprio apocalipse. E a própria morte.’’ - Clarice Lispector

2 de Abril de 2022 às 17:25 0 Denunciar Insira Seguir história
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