kaminari Gustavo Cosmo

O mundo está mudando. Entidades paranormais desconhecidas começam a ganhar cada vez mais notoriedade na sociedade, conforme cultos e seitas ficam maiores e mais influentes. O motivo para isso acontecer é desconhecido, mas parece estar ligado a um jovem rapaz chamado Erick, portador de uma forte conexão com o Sobrenatural. Inserido em uma guerra caótica contra essas criaturas, ele lutará para encerrar tudo isso de uma vez por todas. A sede por respostas sobre o mundo e sobre si mesmo o guiará por um caminho sem volta onde a morte é iminente e o desespero, garantido. [ Essa é a primeira versão dessa história, portanto, o seu feedback (elogios, críticas e/ou sugestões) é essencial para que a versão final fique o mais próximo possível da perfeição (sem quaisquer erros gramaticais, furos de roteiro e etc) ] Obrigado por ler!


Paranormal Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #novel #lutas #demônios #fantasmas #monstros #mistério #ação #sobrenatural
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Exorcista

Sangue. Esse era o primeiro gosto que vinha na boca de Erick, dominando por completo seu paladar. O rapaz não percebia, mas estava mordendo seus próprios lábios com uma força angustiante, como se aquela fosse a única forma de aliviar o seu tormento.

A chuva caía sobre sua cabeça, tentando lavar pecados dos quais ele nunca poderia se livrar. As gotas d’água limpavam o sangue que escorria pelo queixo, mas não conseguiram fazer o mesmo com o líquido vermelho-escuro em suas mãos. Afinal, este já havia secado há muito tempo.

No entanto, o sangue impregnado na pele de Erick não pertencia a ele. A substância viscosa transbordava do corpo de outro jovem a sua frente, o qual permanecia imóvel, como se fosse uma estátua. Seus olhos estavam abertos há muito tempo, mas, nem mesmo assim, ele se movia.

Por diversas vezes Erick tentou fechar os ferimentos no corpo daquele garoto, fazendo uso de tudo ao seu alcance para isso, mas foi inútil. Ele não despertou, e o rapaz, culpado, ajoelhou-se no chão lamacento.

Olhando para as mãos encharcadas de sangue, sentiu um aperto em seu coração. Uma dor lancinante percorreu seu corpo, ao passo em que seus pulmões pareciam se contrair, impedindo a passagem de ar. Como se estivesse no topo de uma montanha, Erick começou a hiperventilar.

Enquanto tentava respirar, transtornado pela reação de seu corpo a tudo aquilo que estava acontecendo, o rapaz não conseguia parar de relembrar o que havia feito. Enxurradas de pensamentos repetitivos consumiam sua mente, torturando-o com uma realidade que ele tentava recusar.

“Você matou ele.”



Horas antes...



Os fracos raios solares perfuravam as pequenas frestas entre as tábuas de madeira pregadas nas janelas daquele lugar esquecido no tempo. A luz não conseguia clarear nem um terço do ambiente, mas permitia, ao menos, identificá-lo.

Tratava-se de uma escola em estado degradante, abandonada durante muito tempo. O mofo, a sujeira e as pragas tomavam conta da construção, enquanto parasitas ainda piores se escondiam nas manchas negras das paredes e do teto.

Dentro desse lugar inóspito, no entanto, ainda havia a presença humana. Abafadas, vozes ecoavam pela região, aproximando-se cada vez mais, até se tornarem nítidas o suficiente. Estranhamente, elas não pareciam calmas, e sim desesperadas, harmonizando com os sons de passos apressados.

— O que era aquela coisa?!

— E eu, sei lá! Só foge, porra!

— Calma aí, preciso ver mais de perto!

As vozes ficavam cada vez mais altas, até que, da penumbra, surgiam quatro figuras joviais. Elas avançavam rapidamente pelos corredores escuros, deixando um rastro de poeira no ar por onde passavam. Um deles, aquele que estava na dianteira do grupo, parecia muito mais aflito do que qualquer um ali.

— Pelo amor de Deus, alguém faz alguma coisa! — gritou Marcos, num tom de voz extremamente escandaloso.

Com cabelos castanho-claros, quase raspados, olhos esverdeados e uma feição apavorada, o rapaz corria vigorosamente, desejando sair daquele lugar o quanto antes.

Apesar de baixinho, ele era um atleta bastante reconhecido na escola por sua velocidade. Normalmente, é alguém que inspira as pessoas, mas, nesse momento, inspiração é a última coisa que alguém sentiria ao vê-lo.

— Vamos jogar o Marcos para aquele bicho comer! Isso vai nos dar tempo para fugir! — exclamou Eva, uma garota que vinha logo atrás.

Os longos cabelos rosados flutuavam para trás enquanto ela corria carregando na mão dominante um taco de beisebol, repleto de gravuras e desenhos coloridos. Apesar de ser a mais nova do grupo, deveria ser a mais intimidadora.

— Quê?! Tá maluca?! — ele não pareceu nada contente ao ouvir aquilo.

— Não vai adiantar, é claro! Entidades sobrenaturais não se alimentam de pessoas, mas de seus espíritos. Eu vi naquele filme “Largados e Assombrados” — pontuou Cecília, outra colegial que vinha por último. — Espera... Talvez possa funcionar, na verdade! Marcos, fica para trás!

Levantando seus óculos, que estavam quase caindo pela correria, ao mesmo tempo em que tratava de desenhar alguma coisa num pequeno caderno, Cecília parecia ser a mais calma de todos ali.

Talvez por ser a veterana ou, quem sabe, devido aos seus gostos excêntricos, ela se preocupava mais em rabiscar as folhas do que fugir. Pouco a pouco, ela tracejava o que parecia um ser vivo completamente negro e dotado de diversos membros retorcidos.

— Você também, Cecília?! — reclamou Marcos. — Se eu soubesse que me jogariam para os lobos, nem tinha vindo!

— Mas foi você que pediu para vir junto — Cecília respondeu. — Agora lide com as consequências.

— Sério que ele se prontificou? Achei que tinham forçado esse bundão — Eva se intrometeu, rindo.

— Ele tinha me dito que não viria, mas depois mudou de ideia, por algum motivo. — a veterana ergueu uma das sobrancelhas, sorrindo, enquanto olhava de canto para Marcos. — Posso saber o motivo?

Marcos sentiu o suor escorrendo pela testa, uma mistura de fadiga com nervosismo. Ele desviou o olhar de Cecília e continuou a correr.

— Na... Nada não.

— Gaguejou, perdeu o argumento.

— Me deixa, vai! — esbravejou. — Estamos sendo perseguidos, vamos nos concentrar em fugir! Erick, ajuda aí!

Ao ser chamado, o rapaz de cabelos pretos que seguia junto ao grupo e, até então, estava imerso em seus pensamentos, decidiu finalmente abrir a boca.

— Virem essa esquina e entrem no refeitório! Eu vou dar um jeito nele! — disse, enrolando algo em seu antebraço.

Sendo um pouco mais baixo que Cecília, a maior dali, Erick era um rapaz que, assim como Marcos, possuía considerável fama dentro da escola. No entanto, diferentemente do amigo, sua reputação não era muito positiva.

Devido aos rumores envolvendo a “profissão” do garoto, muitos tinham certo receio de conversar ou mesmo ficar próximo dele. Por outro lado, havia algumas pessoas que não se importavam com isso e até achavam interessante, de certa forma. Essa minoria envolvia justamente os seus amigos.

De qualquer forma, após o comando do amigo, o grupo se dividiu. Enquanto Marcos, Eva e Cecília dobraram a esquina, à esquerda de uma bifurcação, o rapaz parou no meio do caminho.

Erick se virou e esperou, segurando o punho direito. Nele, entrelaçava-se entre o pulso e os dedos um extenso rosário formado por uma corrente preta e nós vermelhos. Na ponta dela havia uma cruz ornamentada com a mesma cor dos nós, a qual estava sendo apertada firmemente pela mão destra do garoto.

Durante alguns segundos, Erick ficou encarando o breu do corredor que mal parecia ter fim. Em determinado momento, ele parou de ouvir os passos de seus amigos e pôde concluir que eles haviam se escondido. A partir daí, o silêncio reinou sobre a região.

— Vem, pode vir...

Parecia loucura. Do que mesmo eles estavam correndo? Não havia nada lá. Estas eram indagações comuns na cabeça do rapaz, que ainda tentava usar um pouco da razão para entender a situação. No entanto, nenhum tipo de lógica poderia explicar o que eles haviam visto. Mais do que ninguém, Erick sabia disso.

Quando a diretora da sua escola solicitou um trabalho de “limpeza” ao garoto, depois de ouvir a respeito das habilidades incomuns dele através de alguns moradores locais, Erick não imaginava que realmente seria um problema.

Quer dizer, mesmo que conseguisse, de fato, ver fantasmas, assombrações ou como queira chamar, ele não esperava precisar lidar diretamente com um. Normalmente, quando era contratado, bastava fingir que expulsava as entidades de dentro das casas e pronto.

Todavia, ao contrário do que se esperava, havia sim um ser sobrenatural dentro daquele colégio abandonado que, a propósito, ficava nos fundos da escola atual. E, pior ainda, ele era do tipo agressivo.

Ou seja: algo que Erick não estava acostumado a lidar.

— Aparece, seu merda.

O silêncio atordoante permaneceu. Após alguns segundos, o colegial notou uma espécie de névoa fina se espalhando pelo chão. Não sabia há quanto tempo aquilo estava ali, nem se era uma névoa mesmo ou apenas poeira. De qualquer forma, não teve tempo para responder tais perguntas.

Um grito gutural ecoou pelo corredor, aumentando de intensidade rapidamente. Erick arregalou os olhos e, por reflexo, abaixou-se. “RARG!” – o som estrondoso de algo perfurando concreto veio aos ouvidos do garoto.

Ao olhar para cima, Erick pôde ver três riscos cravados na parede, no formato de garras. Alguém o atacou, mas, felizmente, ele conseguiu esquivar. Teria suspirado de alívio, isso se não tivesse olhado em direção ao corredor antes.

Camuflada na escuridão do teto, uma massa negra disforme se suspendia de cabeça para baixo através de seus incontáveis braços de aparência humana, semelhante a um aracnídeo. Ela observava Erick, seu alvo, através de suas quatro pupilas amareladas, imersas numa esclera branca.

De sua boca, uma neblina esbranquiçada escorria até o solo, quase como se estivesse salivando. Além disso, emitia um gemido incessante e quase imperceptível, mas suficiente para assombrar qualquer um que o escutasse.

Assustado, Erick se levantou. A criatura tinha movimentos involuntários, semelhantes a espasmos, mas não parecia estar indo a lugar algum. Toda a atenção dela estava no rapaz.

E era exatamente isso que ele queria.

— Vem comigo, bicho feio.

Após essas palavras que mal escaparam de sua garganta, Erick saiu em disparada pelo corredor à direita, contrário ao caminho do refeitório onde permaneciam seus amigos.

Quando virou a esquina, conseguiu fugir do campo de visão do inimigo por um momento e, aproveitando-se disso, procurou algo para emboscá-lo. Os segundos passavam rapidamente, conforme os ruídos no teto aumentavam gradualmente. Ela estava vindo.

O colegial, sabendo disso, precisou tomar medidas drásticas. Percebendo algumas carteiras caídas ao seu redor, Erick teve uma idéia e logo começou a erguer uma delas. Porém...

“Tec, tec, tec, tec...” – passos e mais passos podiam ser ouvidos. A criatura mergulhava na escuridão do teto e, num instante, dobrava o caminho à direita, exatamente por onde Erick havia seguido. Ela esperava vê-lo correndo, mas, ao invés disso, surpreende-se com o que surgia bem em frente aos seus olhos.

Um ruído estridente ecoa pelos corredores e, em seguida, um grande impacto acontece. No momento em que a entidade adentrou a esquina, o rapaz saltou daquela carteira e, puxando o punho com o rosário para trás, socou a massa negra com toda sua força, deixando que a mesa se espatifasse pelo chão.

GYAAAAAAAAHHH!!! — a criatura emite um gemido agudo, quase como um berro, claramente sentindo algum tipo de dor.

O soco a atingiu exatamente no centro de um de seus olhos. No entanto, analisando de perto, algo curioso, porém previsível, fica explícito: aquele golpe pareceu transpassar a entidade, perfurando completamente seu corpo como se não houvesse nada ali.

O fato de que aquilo deveria ser um fantasma desprovido de forma material já estava óbvio desde o começo. Apesar disso, ser capaz de infligir dano à criatura sem nem mesmo tocá-la fisicamente era um fato bastante intrigante mesmo para Erick, que, por sua vez, sorria de satisfação.

Caindo no chão de qualquer jeito após o ataque, o rapaz se levantou o mais rápido que pôde e se afastou, olhando para seu inimigo. A entidade, assustada, agarrou-se no teto com suas dezenas de braços e voltou para a escuridão, depois de quase ser derrubada pelo garoto.

O... quê... fez... — balbuciou a criatura, tentando formar uma frase.

A voz dela era desafinada e arrastada, o que a fazia pronunciar as palavras com dificuldade. Mesmo que estivesse falando, não parava de gemer. Erick se perguntou o porquê disso, mas resolveu ignorar por ora.

— O que eu fiz? — questionou, levantando-se. — Eu te dei uma coça, ué.

O... quê... fez...

— Eu já te disse, ô!

O... quê... fez... — continuava repetindo, até mesmo interrompendo Erick.

O garoto suspirou. Vendo que ela parecia menos agressiva agora, conseguiu se acalmar um pouco. Pensando em formas de terminar com aquilo logo, olhou para o rosário em sua mão.

— Isso aqui é um item amaldiçoado! — afirmou, erguendo o objeto. — Com ele, eu posso te ferir como eu quiser e até mesmo te matar. Então é melhor fugir antes que eu fique estressado!

Usando uma entonação mais intimidadora, Erick inventou toda essa história na tentativa de assustar a criatura e fazê-la ir embora do local. Mas, na realidade, o que ele dizia não era inteiramente mentira, principalmente na parte do “posso te ferir como eu quiser”.

Ele não fazia ideia de como isso funcionava, mas, aparentemente, era capaz de machucar esses seres ao utilizar o rosário, mesmo que nada acontecesse fisicamente a eles. Claro, nem sempre funcionava, mas isso podia ficar de fora da história.

Ao ouvir aquelas palavras, a entidade arregalou seus olhos em surpresa por um momento, mas suas quatro pupilas logo começaram a tremer. A massa negra que compunha seu corpo começou a se deslocar de maneira estranha, similar a ondas de lodo escuro. A névoa voltou a transbordar de sua boca e Erick sentiu um arrepio na espinha.

Matar... Perigo...

Quando a voz chegou aos seus ouvidos, o rapaz se lançou ao solo, despencando para o lado. O mesmo grito gutural de antes ecoou pela região, aumentando sua intensidade de maneira muito mais veloz, considerando-se a proximidade entre os dois.

Três braços da criatura se desprendiam do teto e afiavam as unhas pontudas, alongando-se na direção de Erick numa velocidade exorbitante. Devido à reação rápida, Erick conseguiu escapar de dois braços, os quais rasgaram a parede no formato de garras. Entretanto, não conseguiu sair completamente ileso mais uma vez.

As unhas laceraram seu braço direito, fazendo um único corte em sua carne. O rapaz sente uma dor estonteante e, ao olhar para seu membro, não consegue segurar a voz.

— AAAAAAAAHHHHHH!!!

A entidade focou sua atenção no sofrimento do garoto, tendo convulsões por todo o seu corpo. De alguma forma, aquela cena agonizante parecia ser prazerosa para ela, o que a fez perder completamente o senso de seus arredores.

Um erro terrível, afinal, Erick não estava sozinho.

— Ei, seu filho da puta! — exclamou Eva. — Volta pro inferno de onde você veio!

“BAM!” — algo pareceu quebrar. Usando seu taco de beisebol, Eva destruiu as madeiras podres que bloqueavam as janelas da escola, fazendo com que a luz solar transbordasse para dentro do recinto.

Num instante, a criatura ficou completamente exposta, perdendo a compostura e se afastando como um gato assustado.

— Acende, Marcos! — Eva ergueu o bastão de beisebol, preparando-se para fazer uma grande tacada.

— Meu Pai do céu! — Marcos acendeu o isqueiro de caveirinha em suas mãos. — Espera, é assim?!

Nervoso, ele levou a chama até o pavio de uma pequena bomba que segurava, semelhante a um rojão. Antes que explodisse, ele jogou o objeto para cima, tampando os ouvidos em seguida.

Com um simples giro de cintura, Eva moveu os braços e deu uma poderosa tacada, arremessando a bomba na direção da entidade. Um forte estouro ocorre, fazendo com que a criatura se afastasse ainda mais, desnorteada pelo som alto.

— Boa, Marquinhos! Mais uma!

Ao comando de Eva, Marcos continuou acendendo os rojões para serem lançados contra a criatura. Como se jogasse a final de um torneio de beisebol, a garota não podia conter o sorriso de excitação estampado em seu rosto.

Ao mesmo tempo em que isso acontecia, Cecília cuidava do ferimento de Erick, enfaixando-o com sua própria blusa. Apesar disso, parecia muito mais interessada na entidade do que no tratamento do garoto.

— Ai, ai! — ele gemeu.

— Opa, peço perdão. — Cecília voltou sua atenção para o que estava fazendo. — Prontinho.

Erick ainda sentia muita dor, mas agora que o sangramento estava estancado, podia suportar. Sentado no chão, via seus amigos colocando suas vidas em risco para salvá-lo, enquanto ele permanecia parado, inútil.

Por um momento, sentiu-se culpado por ter arrastado eles para essa situação e os colocado em perigo. Como ele não cogitou que algo assim fosse acontecer?

Erick tentou se levantar sozinho, segurando o braço ferido, mas foi ajudado por Cecília.

— Vamos para a saída, Eva e Marcos vão segurar a entidade enquanto fugimos.

— Nem fodendo. — Erick franze as sobrancelhas, afastando Cecília. — Vocês três vão fugir primeiro.

— Hein? Espera...!

Antes que pudesse sequer terminar sua fala, Cecília é deixada para trás, conforme Erick parte em disparada na direção da criatura. Ainda recuada devido às bombas de Eva e Marcos, ela continuava observando os jovens com olhos cada vez mais irritados.

— Merda! Acabaram as bombas, Eva — disse Marcos. — O que a gente faz?!

— Sério?! Todas elas?! — ela abaixou o taco, suando frio. — Fodeu...

Não sendo mais intimidada pelos barulhos, a criatura desprende dois de seus braços do teto. As quatro pupilas se dilatam e, num movimento rápido, os membros avançam contra a dupla de humanos.

Sabendo o que estava prestes a ocorrer, Eva retrai seu corpo para trás, encolhendo-se, enquanto Marcos coloca seu braço na frente da garota, tentando protegê-la. Seus olhos fechavam, apenas esperando o destino inevitável.

Mas nada aconteceu.

Quando pensavam estarem prestes a morrer, não sentem nada. Ao abrirem os olhos, veem a entidade agarrando outra pessoa. Alguém que eles não queriam ver lá.

— Erick! Não! — gritou Cecília.

A criatura olhou para Erick completamente imóvel em suas mãos e começou a se mover, avançando com rapidez pelo teto. O rapaz, sentindo uma dor terrível em seu ferimento que estava sendo esmagado, conseguiu apenas berrar:

— Saiam daqui! Os três!

Conforme era carregado, a última coisa que Erick pôde ver foi o olhar de desespero no rosto de seus amigos. Após isso, tudo girou. O garoto foi arremessado para dentro de uma sala de aula, destruindo e atravessando a porta.

Uma fina camada de poeira e lascas de madeira pairou sobre o ar, enquanto Erick tentava recobrar a consciência após tamanha pancada que somente não causou danos maiores por estar bastante podre.

— Cof... Cof... Que dor...

Ainda ouvindo os gemidos do lado de fora do cômodo, ele sabia que não podia relaxar. Piscando os olhos repetidas vezes, manteve-se acordado e tentou se levantar. Quando pressionou sua mão contra o solo, entretanto, acabou sentindo algo estranho.

Ao olhar para o lugar onde sua mão estava, notou que, de baixo dela, havia uma espécie de caderno. Ele segurou o objeto e continuou a se erguer, afastando-se em direção à parede. Pensou em dar uma olhada em seu conteúdo, mas precisava lidar com outra coisa agora.

— Você não dá sossego, né?

Atravessando a parede, a criatura caminhava até Erick. Enquanto recuava, tentando manter distância daquilo, o rapaz acabava tropeçando em algumas mesas, cadeiras e objetos no caminho. Num desses tropeços, ele ouve um som peculiar.

O barulho de metal.

Estranhando aquilo, o garoto olhou para seus pés, percebendo, então, que havia algumas correntes espalhadas pelo chão.

— O quê? — murmurou, confuso. — Por que isso está aqui?

Não havia motivo algum para uma tira de correntes de ferro estar dentro de uma sala de aula, ainda mais em um lugar abandonado como esse. O material delas parecia novo, então não deveria estar ali há muito tempo. O que significava isso?

Somente após perceber e se questionar sobre a situação, Erick finalmente começou a prestar atenção nos seus arredores. Foi aí que ele percebeu que havia algo muito errado.

Pelo lugar inteiro, dezenas de instrumentos de tortura estavam espalhados pelo chão e pelos móveis. Sangue seco contaminava as paredes e o chão, marcando um sofrimento vivido em segredo.

E, o mais evidente: bem no centro da sala, haviam diversas carteiras posicionadas juntas, formando uma mesa ainda maior, onde se encontravam algemas, correntes, cordas e todo tipo de aparato de imobilização. Em suma, uma verdadeira cena de terror.

Incrédulo, Erick deixou o queixo cair, demonstrando um espanto que nunca havia sentido em sua vida inteira.

— Que... porra...

A névoa começou a flutuar pelo ambiente. Erick olhou para o lado e, abismado, encarou a entidade em sua frente. Seus dedos apertaram a cruz do rosário e, num ímpeto de força, o colegial simplesmente se lançou contra aquela criatura.

As mesas próximas caíram uma a uma, conforme ele saltava sobre elas para ganhar impulso e altitude. Agora que havia visto aquilo, não podia mais deixar essa entidade viver. Afinal, deveria ser esse local que a prendia dentro da escola.

Percebendo o avanço de sua presa, a criatura gritou mais uma vez e uma dúzia de braços se soltou do teto para atacar o rapaz. Entretanto, quase como se houvesse previsto essa tentativa, Erick usou a altitude ao seu favor para desviar dos braços, escapando por baixo deles.

— Ahá! — exclamou. — Quando você vai atacar com as garras, você deixa muita névoa cair. Eu sou um gênio!

Ao passo em que dizia isso, levantava seu punho direito, esmurrando os braços da criatura. Ela se contorcia em dor, emitindo gemidos ainda mais agudos. Aproveitando-se disso, Erick subiu em mais uma mesa e, com o apoio da parede, impulsionou-se na direção da entidade.

— Adeus.

Girando o corpo, desferiu um último golpe, usando toda a força que podia. A massa negra vibrou e se debateu, e a criatura veio ao chão. Erick caiu também, batendo com as costas no solo. Gritos agonizantes tomaram conta da sala, enquanto a entidade lentamente desaparecia.

Erick permaneceu deitado, ofegando. De canto de olho, podia ver os últimos momentos de “vida” daquele ser de outro mundo. Uma criatura que não deveria existir, mas, por algum motivo, existe.

Os berros se tornavam gradualmente mais fracos e arrastados, até se tornarem gemidos que logo cessaram, quando a criatura desapareceu por completo. Nesses últimos momentos, Erick pareceu ter ouvido algo estranho.

— Isso... era uma voz humana?

16 de Janeiro de 2022 às 02:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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