raphaelmqs Raphael Marques

Uma criança descobre logo cedo a dor da perda, a morte, uma viagem de ida sem volta. Vivemos cerceados de imperativos biológicos, o limite de cada indivíduo está na estrutura da realidade, codificada pela ditadura das leis naturais. Imagine se um dia isso mudasse, se outras camadas fossem acessadas, se a vida não fosse uma imposição e sim uma escolha. Não se trata do que seja real ou não, mas sobre qual a realidade que se escolhe aceitar, pois todas as coisas existem, algumas em instâncias diferentes e outras na mesma categoria, explico: basta que se pense em algo, estará lá a existência dele, nem que esse algo seja apenas um pulso de informação armazenado em impulsos eletroquímicos que escorregam pelos neurotransmissores esperando uma oportunidade para emergir. Então esse algo existe na dimensão pensamento. O único meio provável de algo não existir ou deixar de existir é você não o conhecer ou você esquecê-lo definitivamente. No primeiro caso a resposta é que não há forma alguma de se empreender um tipo de esquecimento que seja absoluto, no segundo não é que algo não exista, mas sim que você se ocultou dele com sua ignorância. Uma vez que todas as coisas estão intrinsecamente conectadas entre si na natureza, a combinação dessas faz com que tudo se torne a se repetir em um loop eterno, de forma cíclica, variando em graus, em uma oitava superior. O NFT cósmico que esconde a assinatura de Deus ou o arquétipo universal cuja autoria não nos é conhecida sempre estará disponível como fonte geradora de energia da criação, sendo assim todas as coisas não só podem existir, mas existem para todo o sempre. Conclui-se então que tudo que existe está fadado a existir eternamente. Não temos autoria de nada no universo, somos apenas receptores e reprodutores. O que supostamente não existe, na realidade representa apenas uma possibilidade quem ainda não fora manifesta. É a partir daí que surge todo tipo de projeto: da misteriosa vontade humana. De onde vem essa vontade? Por que ela assume formas diferentes entre uma e outra pessoa? Estamos realmente vivendo e construindo nossas vidas na medida que caminhamos ou estamos sendo sempre levados pelo inexorável fluxo dos acontecimentos, não importando as escolhas que sejam feitas? Será que tudo sempre culminará a um lugar predestinado? Bem-vindo à Doce, amarga vida, onde os paradoxos anseiam em ser reconciliados.


Ficção científica Distopia Para maiores de 18 apenas.

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Prólogo

Ao longe vinha ele, pés de pato, cabeça chata e ligeiramente vesgo, apesar desses atributos pouco louváveis tinha uma arcada dentária invejável, também pudera, Dona Lícia regulava, obstinadamente, o consumo de doces naquela casa. Motivo disso foi que Arnaldo, irmão mais velho daquele (põem mais velho nisso) e sempre muito asseado, venceu uma seleção, há 4 anos, para garoto propaganda de uma campanha publicitária promovida por uma marca de pasta de dente muito popular.


Com uma considerável entrada de dinheiro entrando na conta da casa (considerável em relação as pífias provisões pecuniárias desta), a família que passava eternos perrengues financeiros passou a observar a saúde bucal dos seus como nunca, na esperança, pueril até, de que o feito se repetisse, mas Aldo, como era conhecido na região, passou em um concurso público em outro estado e lá se estabeleceu. Anselmo, o da cabecinha icônica citado acima, por mais irônico que pareça era vendedor de doce. Todos os dias Dona Lícia preparava bombons e doces de leite e entregava para o pequeno, franzino e atarracado garoto vender nos semáforos.


Em um dia insuportavelmente quente e de tanto tomar sol na moleira, Anselmo decide, em um ato de rebeldia, que aquele dia ele não iria trabalhar, na realidade ele não o fez mesmo, não trabalhou, mas deu muito trabalho. O garoto pegou todos os doces, sentou embaixo da marquise de um famoso shopping local, deitou suas costas nuas no chão gelado e comeu doce por doce, um a um, até sentir uma espécie de fastio que lhe foi percebido por um refluxo impiedoso que rasgava seu esôfago. Antes de chegar a esse ponto, enquanto degustava seus doces caseiros carinhosamente preparados por sua idosa mãe, olhava a paisagem local, via-se cercado de um contraste social irrecusavelmente imperceptível.


A nítida realidade se desvelou por uma fração de segundo e a criança pode enxergar a vida não apenas como uma sequência ordinária de fotogramas descartáveis, mas exercitando um breve exercício de empatia se sentiu tocado com a dor de todas aquelas pessoas automatizadas. O pequeno não sabia de muita coisa, era só um infantil vendedor de doces, que sequer há pouco, nunca havia comido um.


Uma pequena estrela muito brilhante despontou no céu, na realidade bem provável que fosse Vênus e um pouco mais tarde do que o horário habitual o garoto retornou a sua casa, uma residência murada muito pequena em cima de um morro cercado de barro vermelho. Nesse dia caiu uma insistente garoa e o percurso de volta foi feito bem devagar, pensando e refletindo na desculpa que iria contar a sua mãe sobre os doces “desaparecidos”. Foi aí que virando a esquina que lhe aproximava da sua rua ouviu um barulho de sirene e uma movimentação atípica em frente à sua casa. Era um alvoroço só, o garoto correu em direção aquele furdunço e não mais de uma vez caiu no chão, que a essa altura estava bastante enlameado pela chuva persistente.


Com certo esforço chegou próximo ao local, abrindo caminho aqui e ali, afastando curiosos e vizinhos mexeriqueiros e ao recostar seus pés imundos sobre a soleira da porta da entrada de sua casa avistou sua mãe sendo coberta por uma espécie de pano branco. Haviam paramédicos dentre outros profissionais da saúde no quarto dela, mas já era tarde.

“Dona Lícia”, batizada como Alvilícia Silveira Nunes, que a última vez que assim fora reconhecida foi para receber, muito tardiamente, sua certidão de nascimento no cartório, agora será mais uma e a última vez reconhecida por esse nome para receber o seu atestado de óbito e assim vida e morte se entrelaçam.


É o fim.


No mesmo dia Arnaldo fora informado da morte de sua mãe, pegou um avião até o aeroporto da capital e foi de ônibus a sua cidade natal, o percurso da capital à sua cidade deve ter durado em média duas partidas de banco imobiliário. Nisso Anselmo estava sendo assistido por Marta, uma assistente social. Algum tempo depois dele chegar e após as formalidades burocráticas, ele, o garoto doceiro, um cortejo de beatas e um Tio distante que até hoje ninguém sabe como ele ficou sabendo do ocorrido, sepultaram sua mãe. Era 16h:30m e ao fundo ouviam-se fogos de artifício, mas era tão somente porque o Palmeiras tinha ganhado o mundial daquele ano.


Arnaldo agora é detentor legal da guarda do irmão. Na volta para casa, sua nova residência na capital, Anselmo olhou tristonho e choroso para o vidro do ônibus. Ainda chovia e as janelas pareciam também chorar.


Enquanto as gotas da chuva escorriam pela superfície lisa e transparente do vidro que separava o abatido garoto do mundo exterior, uma reflexão travestida de uma culpa sorrateira invadiu-lhe a mente, a voz de sua finada mãe ecoava em sua cabeça, era uma espécie de adágio que ela carregava consigo e reproduzia diariamente após assistir alguns crimes que repercutiam no noticiário local. Ela assim dizia de forma contumaz e com certa altivez:


— Se um dia filho meu fizer algo assim eu morrerei de desgosto.


Anselmo ruminou essa frase todo o percurso de sua viagem à sua nova casa, embora ele não tivesse culpa alguma pela morte de sua mãe, que teve um mal súbito devido a idade, pensava ele que de algum modo sua conduta “delinquente” de comer os doces ao invés de ajudar sua mãe vendendo-os afrontava a ética dela.


Ponderou que, por algum motivo, quem sabe até místico, essa atitude chegou aos ouvidos dela ou ela percebeu por intuição (ele sempre ouviu dizer que as mães têm ótima intuição), fazendo sua nobre e justa mãe falecer desgostosamente pela atitude de um filho ingrato e desobediente. De tanto pensar no caso teve uma espécie de burnout, esgotado mentalmente dormiu de forma breve e acordou durante uma das paradas no ônibus na estrada.


Levantou do acento junto ao irmão para comer alguma coisa, se embrenhou no corredor do veículo que estava lotado, talvez além do limite (de gente e de galinhas também) até que o ônibus deu um solavanco, o que fez com que seu corpo raquítico se projetasse à frente. Seguindo rigorosamente as leis de Newton, seu corpo desmilinguido se chocou com um homem gordo de meia idade, a reação a esse fato foi mais psicológica que física, o garoto muito nervoso ia xingar a palavra mais curta que se pode dar a um palavrão, mas antes disso sentiu cair do seu bolso um doce, era um pirulito, não tinha ideia de como ele havia parado ali. Com mais raiva ainda, pois o peso da consciência pela morte de sua mãe em nada diminuiu e o recente evento ainda fez esse sentimento insuflar, bradou então furiosamente:


— “Juro por tudo que há de mais sagrado que nunca mais colocarei um doce na minha boca”.


Pegou o pirulito e o arremessou aleatoriamente e com todo o combustível de seu ódio, o doce raspou a orelha de um passageiro deslizando para fora do ônibus por uma fresta de janela entreaberta. Mas certamente esse ímpeto reproduziu apenas uma promessa de menino. Algum tempo depois Anselmo teve que, segundo ele, por educação e para não fazer desfeita comer um doce de abacaxi na casa do seu melhor amigo Victor, mas deixemos isso para outro momento.


Da zona suburbana no interior de uma pequena cidade, Anselmo perpassou fronteiras culturais, expandindo limites e conhecendo outro mundo. Se mudou para um ótimo condomínio na grande capital e foi matriculado na melhor escola particular que o dinheiro pode pagar. A vida que era absolutamente previsível criou raízes se abrindo como leque que pode levar à inúmeras possibilidades.


Mas havia algo estranho, à medida que o tempo passava ele ia se tornando cada vez mais seu irmão mais velho, em tudo. Não digo quanto as influências que geralmente uma pessoa passa à outra pelo convívio a longo prazo, mas sim, literalmente pelo fato de Anselmo estar se tornando idêntico a Arnaldo: pele, cabelo, simetria facial, altura, timbre de voz, estrutura óssea, algo muito estranho está ocorrendo. Certo dia Anselmo encontrou no escritório do seu irmão um bilhete escrito “palíndromo; palíndromo são as flechas do tempo”; e noutro dia teve a impressão de ter visto seu irmão sem o umbigo quando ele estava se vestindo para ir ao trabalho. Nada de concreto se sabe até agora, mas ninguém disse que a vida seria fácil.


Doce, amarga vida, pegue o seu pirulito ou espere o próximo Cosme e Damião, pois mais à frente veremos aonde essa trilha de açúcar irá nos levar.

7 de Janeiro de 2022 às 20:54 0 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Raphael Marques Ando, canso, descanso, torno a andar; balanço, tropeço, levanto, volto à caminhar, mas não importa onde eu esteja e onde eu vá não me parece que lá será onde eu queira estar.

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