o-mago Alan Anjos

Imagine viver aos arredores de uma das maiores cidades do mundo, rica e farta, esse não e o caso para quem vive no entorno de Londres, Alastor Book desde muito cedo nunca soube o que era poder comer bem, ter uma mesa colorida no almoço, tudo que ele faz e sobreviver com míseros 2 xelins por semana. Quando criança perdeu o pai para a Primeira Grande Guerra, as únicas recordações ainda lhe doem o peito, as cartas que toda semana chegava ate as mãos de sua mãe, um dia nunca mais foram entregues. O tempo foi injusto com a criança, poucos anos depois, a mãe faleceu, devido as complicações de uma alimentação quase nula, antes que a morte pusesse os pés no quarto, Alastor assistiu a deterioração de quem lhe entregava a vida. O menino agora homem, encontrou trabalho mas as memorias ainda vivem em sua cabeça e os fantasmas do passado perambulam pela casa, infelizmente o tempo tende a repetir os dias passados e uma nova Guerra tem origem, Book se encontra repetindo os passos do pai, agora cabe a ele escolher onde pisar.


Aventura Todo o público.

#conflito #Guerra
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Capitulo 01

O céu pintado em tom pastel, naquele azul desbotado manchado por nuvens cinzentas que lembram mais fumaça de algum grande incêndio que qualquer outra coisa, contrastava com o vento seco vindo do Leste, soprava frio, o tipo de frio que lembra mais uma lâmina de barbear gasta mastigando a pele, após ser mergulhada em solução de água e sabão. Nesse mesmo céu azul pastel, pássaros do tamanho de baleias e penas de aço, voavam baixo, zunindo com as longas asas e as hélices que poderiam muito bem, ter vindas do grande moinho do velho Sr. Willer.

Eram dias difíceis, sei que pode muito bem estar se perguntando, “mas há dias fáceis?”, eu admito talvez nunca houve um único dia em minha vida que eu possa dizer que foi bom ou tranquilo, talvez na infância, antes da guerra pelo menos, as “coisas” tendiam a ser fáceis, tranquilas por assim dizer.

Olhar para o passado me traz certa ternura, e como sentir o vento primaveril ou o toque da grama ainda verde-oliva. Hoje sou apenas um de muitos homens que tiveram a boa e velha criação Anglicana, devido a minha mãe que já vinha de uma família tradicional, enquanto meu pai como ela mesma dizia, era um mundano, largado e por assim ia, não queria imaginar como mamãe era nos dias de sua fúria, papai sabia como lidar, “acalmar o leão”, como ele costumava dizer, eu por outro lado me escondia no quintal até que a noite caia como um fino lençol, tampando o sol mergulhado entre as colinas e o gado.

Me chamo Alastor Book, nascido nos arredores de Londres, “o berço da humanidade civilizada”, assim diziam, mas acho que ninguém nunca passou mais que dois minutos em algum dos muitos pubs da região, iriam repensar esta frase.

A grande e numerosa família Book, havia caído em miséria, atribuo esse feito ao senhor Hitler com sua guerra; munido da retorica e do bigode de muito mal gosto, invadiu a Polônia no dia primeiro de setembro de 1939 Anno Domini.

Londres havia mergulhado em vivas, homens e mulheres corriam para as ruas, todos gritando, “Estamos na guerra”, “Vão conhecer os filhos da rainha”, pobres coitados, jamais estiveram na guerra; eu também nunca estive, mas meu pai lutou em uma, e tudo que restou dele foram as incontáveis e pragmáticas cartas, endereçadas a minha mãe, Deus sabe o quanto de sofrimento passamos em casa, lembro como se fosse hoje de algumas linhas, peculiarmente as que se refere ao gás mostarda e as trincheiras que servia de cama, banheiro e ala medica.

As cartas sempre começavam da mesma forma, “Querida Mary, não sei por quanto tempo poderei suportar esta jornada, peço em meus poucos momentos de sono que Deus de alguma forma se coloque presente em nossas vidas, estou cansado”, eu juro que poderia ver meu pai, sentado em meio a lama e aos companheiros entrincheirados, muitos como ele, escrevendo para as próprias famílias, “a chuva não nos dá descanso, o frio nos abraça com um vento cortante, os corpos apodrecidos fedem e os ratos me traz à lembrança de que estou no inferno, pagando por todos os pecados. Hoje um cheiro forte e picante abateu sobre o ar, ao longe uma cortina amarelada se ergueu, ouvi tantos gritos que não sei se poderei fechar os olhos, nenhuma superior se pronunciou, mas tivemos que mudar nossa rota, as pressas levantamos acampamento deixando para trás os feridos, não sei se agimos certo, na verdade nunca saberemos.”

Papai se fora antes da guerra ter chegado ao fim, lembro como se fosse ontem, era uma tarde de inverno; engraçado como todo momento de tragedia está relacionado a mudança do clima, as vezes me pergunto se era inverno para o restante da rua ou se era apenas para mim, mesmo assim era inverno e neve alguma havia caído. Tudo que tínhamos era a fina camada de neblina e o sopro delicado de uma geada próxima, mamãe lia o costumeiro Times que havia surrupiado da casa onde prestava serviços, um trabalho exaustivo onde eu com toda a minha mocidade egoísta jamais se importei de perguntar onde era, arrependo-me, mas quem não se arrepende da própria adolescência?

Bom, era inverno de toda forma, sei que era...

Estremeci quando escutei alguém batendo na porta, mamãe terminara de dobrar o Times, olhou para mim, não havia esperança naquele olhar, percebi o vítreo liquido umidificar a íris, lhe proporcionando o aspecto de lápis-lazúli, meu coração disparou.

Quando dei por mim a porta já estava aberta e um homem de farda e quepe entre as axilas havia entrado, trazia nas mãos uma pasta escura, poderia ser couro ou o lixo que o exército usa chamado lona, isso não importava naquele momento, ele também não ficou por muito tempo, trocou poucas palavras que eu não compreendi.

A porta se fechou e o homem desapareceu, infelizmente a casa já havia sido invadida pelo sentimento da perda, o cheiro forte de terra molhada, o luto que ele próprio carregava dentro da escura pasta, as poucas palavras trocadas era nada mais que o resumo do conteúdo naquele recipiente que eu ainda acredito ser feito de lona.

20 de Dezembro de 2021 às 13:18 0 Denunciar Insira Seguir história
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