fernando-camargo1554138998 Fernando Camargo

Depois de cumprir a sentença de prisão de mais de vinte anos, Fabiano é solto. O Esquartejador vai para uma nova cidade, para tentar uma nova vida, mas lá ele é contratado por um homem que ordena que ele elimine seus inimigos, no entanto, Fabiano se apaixona pela primeira vítima, Dona Olívia, a proprietária da pensão da cidade, lugar onde vive O Esquartejador. Cheio de dúvidas, Fabiano fica entre a paixão ainda não correspondida e o desejo de matar e esquartejar pessoas.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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O Esquartejador: um novo começo

A luz do sol é tão bonita vista do lado de fora das grades de um presidio. Já se passaram vinte e poucos anos desde que eu fora condenado injustamente por crimes que eu não cometi. A única culpa que realmente tive e eu não nego é de ter esquartejado todas as vítimas, mas é muito melhor retalhar um corpo e enterrá-lo, do que ficar com eles dentro de casa. Como eu disse anteriormente: eu não tive culpa, eu fui jogado às garras da justiça graças a minha grandessíssima ingenuidade.

Eu trabalhava em uma firma de contabilidade, ganhava um salário legal e vez por outra dava umas festinhas. E em uma delas algo desagradável aconteceu. Todo mundo já tinha ido embora. A casa uma bagunça só. Garrafas de cerveja descansavam pelo chão imundo de bitucas de cigarro, restos de cocaína repousavam solenes e inertes na pia da cozinha ou em cima da mesa. A casa toda fedia, um cheiro tão acre que ardia nos olhos e a vontade de colocar tudo pra fora aumentava cada vez mais.

O corpo da moça no meu quarto. A imagem dela de braços abertos igual a Jesus Cristo na cruz surge em minha mente constantemente. Da serrinha cortando seus membros, do sangue ainda quente jorrando em meu rosto, enfim, são tantas coisas que ficaria o restante da minha vida narrando aqui.

Virei a esquina e vi a rodovia sumir no horizonte. Não tinha casas, apenas terra ao meu redor. Não me assustei. Sabia que a região onde o presidio ficava não progredia, também, qual empresa investiria em uma cidade cujo ponto turístico é uma cadeia? E quem moraria em uma cidade em que os presos viviam fugindo?

Peguei a sacola com as poucas coisas que tinha: a carteira sem um centavo furado, a identidade estragada, uma foto da gostosa da Kátia, dobrada num canto perdido, e o principal, o documento que provava de uma vez por todas a minha liberdade.

Eu nem sei mais o que é ser livre, deve ser uma sensação maravilhosa e eu vou ter de descobrir tudo de novo. Com uns trocados que recebi de um colegaeu peguei um ônibus, desci muitos quilómetros depois.

A cidade era um vai e vem de pernas, rodas de bicicletas e patas de cavalos. Sujeitos de camisas de botão, chapéu na cabeça e cigarros de palha enfiado nas bocas de dentes podres. Senhoras de vestidos na altura dos joelhos, com estampas berrantes e cabelos soltos em penteados que mostravam e muito o formato de seus crânios. As crianças usavam calças curtas e vestidinhos de pano vagabundo, com rostinhos sujos, todas armadas de geringonças eletrônicas.

Entrei em uma lojinha minúscula. A parede cheia de quadrinhos pendurados, mesinhas espalhadas e cadeiras de plástico. Em uma vitrine em cima do balcão salgados de aspecto estranho murchavam aos olhos dos clientes. Vi o que parecia ser uma coxinha, apontei e pedi; o atendente com cara de poucos amigos limpou as mãos gordurosas em um pano de prato encardido. Ele me serviu o salgado em um prato forrado com um guardanapo de papel. Peguei e avistei um lugar vazio, sentei-me. Na mesa havia uma bisnaga de mostarda e outra de catchup. Mordi o salgado, estava frio e murcho, tinha sido a pior coxinha que tinha comido na vida. De estômago entre aspas cheio fui embora.

Com um histórico de assassinatos em meu currículo, dificilmente me dariam trabalho e foi o que aconteceu. Bati em duas lojas da região onde placas ofertando vagas jaziam dependuradas nos muros; eu não era qualificado para nenhuma delas, mas não custava tentar. Fiquei dias vagando pela cidade a procura de algo e não consegui. Quando tudo parecia perdido, eis que um homem de barriga avantajada, careca reluzente e dentes bem brancos surge, o nome dele era Sandoval, aparentava ter mais de cinquenta de idade. Quando se aproximou de mim, me olhou, estudou por um ou dois segundos e disse:

  • Vejo o senhor perambulando pelas ruas da nossa cidade nos últimos dias. Posso saber quem é o senhor? - A voz dele era anasalada e esquisita e confesso que de início tive de conter o riso.
  • Fabiano, me chamo Fabiano. - A voz saiu tremula, cortada.

Sandoval ficou parado, a mão no queixo.

  • O que faz por aqui? - Ele perguntou.

Não poderia mentir, mas não havia outra alternativa a não ser dizer a verdade.

  • Eu fiquei alguns anos preso e saí recentemente. - Expliquei.
  • Está no semi-aberto, então?
  • Não senhor. Sou um homem livre, cumpri a minha sentença.
  • E qual foi o crime que o senhor cometeu?
  • Assassinato e esquartejamento das vítimas. - Respondi. A primeira parte era mentira, pois eu não matei ninguém, mas o restante era a mais pura e cruel verdade.
  • Você esquartejava as suas vítimas, é isso mesmo? - Questionou ele.

Conversamos por mais de hora. A conversa terminou com um aperto de mão e a promessa de um emprego.

  • Fabiano. Você será o responsável por eliminar alguns inimigos meus. - Disse Sandoval.

Olhei bem fundo nos olhos daquele homem poderoso antes de dar a minha resposta.

  • Pode contar com os meus serviços, senhor Sandoval.

Dormi aquela noite no quarto de uma pensão bem simples. Tinha cama com lençóis novos, uma mesinha de canto, um armário de duas portas; havia também um chuveiro e um par de toalhas limpas, tudo perfeito. Adormeci e acordei só no dia seguinte com a barriga roncando. Me aprontei e desci as escadas que levavam ao refeitório da pensão. Logo de cara eu devorei uma maçã bem grande; também comi um pão com manteiga e tomei uma xícara de café, estava com o estômago forrado.

Chegando à casa do senhor Sandoval me deparei com uma dezena de homens vestidos em uniformes estranhos, todos utilizavam revolveres presos à cintura. Um deles, com poucos dentes na boca se aproximou de mim, ele fedia a bebida barata.

  • É você quem vai trabalhar para o doutor Sandoval? - Ele perguntou.

Fiquei atordoado pelo cheiro impregnante da bebida.

  • Sim, sou eu. Ele está?

O homem apontou para a enorme casa cercada de vasos enormes de plantas, alguns coqueiros. O Portão era grandioso, todo pintado de branco, com leões de cimento parecendo dois seguranças. A casa era toda pintada de azul por fora. Quando adentrei a casa me deparei com as paredes pintadas de um verde bem clarinho, dois enormes sofás. Não tinha televisão, mas dava para ouvir o rádio bem baixinho tocar uma canção que me fez lembrar da minha mãe.

Sandoval surgiu, uma taça de vinho na mão direita e um charuto preso entre os dedos da mão esquerda. Ele me estendeu a mão e prontamente eu a apertei firmemente.

  • Seja bem-vindo, Fabiano. Sente-se. - Sandoval apontou para uma cadeira com assento e encosto acolchoados. - Quer beber alguma coisa?
  • Obrigado, estou bem assim.

Sandoval levantou-se e retirou-se do recinto por alguns minutos, ao retornar tinha em mãos uma caixa de madeira de tamanho médio. A caixa foi me entregue em mãos.

  • Isso agora é seu, pelo menos pelo tempo que trabalhar pra mim. - Ele disse.

Abri a caixa e me deparei com um revólver bonito e brilhante. Segurei a arma, era muito pesada. Não estava acostumado com ferramentas de trabalho como aquela, minha especialidade eram as facas, as serrinhas, os serrotes, e até aquelas máquinas elétricas de cortar piso. Sandoval enfiou a mão no bolso e de lá tirou um papel dobrado, era o retrato de uma mulher. Antes de pegar a foto enfiei o revólver atrás da calça, preso no cinto. Era uma mulher de cabelos negros, alta, magra, aparentava ter pelo menos uns quarenta anos.

  • Essa é Dona Olívia, quero que a mate. - Sandoval me ordenou.
  • Posso saber o motivo?
  • Não é da sua conta. Você não queria um trabalho? Pois bem, aí está.

Confesso não ter gostado das falas daquele homem. Fingi ter aceitado a bronca, peguei a caixa com a arma e a munição e fazendo um gesto com a cabeça me despedi. Quando cheguei na pensão fui direto para o quarto. Botei a caixa de madeira na mesinha de canto. Tirei o retrato da mulher do meu bolso, olhei por um instante, joguei a foto num canto qualquer do quarto, deitei-me e adormeci, só acordaria no dia seguinte.

Despertei com pancadas fortes na porta. Acordei assustado, ainda vestia as roupas do dia anterior. Percebi a camisa amassada, o cabelo bagunçado, enfim, uma baderna só. Olhei para trás e vi a caixa no mesmo lugar, enquanto as pancadas aumentavam corri para esconder aquilo. Abri a porta e dei de cara com Dona Olívia a tal mulher da foto, a pessoa a quem eu teria de matar.

  • Bom dia, senhor! - A minha primeira vítima estava bem na minha frente. - Vejo que passou duas noites aqui na minha pensão, quero saber o que tem achado das acomodações. - Ela quis saber.

Sorri sem graça. Atrás de mim a cama desarrumada, roupas espalhadas pelo chão. Percebi ela esticando o pescoço e vasculhando com aqueles grandes olhos toda a baderna. Notei também o sorriso dela, o batom vermelho contornando os lábios e os olhos verdes bem escuros, penetrantes, invadindo Minh 'alma.

  • Sim, estou gostando, tudo bem confortável.

Ela sorriu pra mim e botou a mão no meu ombro, fazia tanto tempo que isso não acontecia que eu cheguei a falsear as pernas.

  • Ótimo! Fico feliz em saber. - Ela disse.

Olívia retirou-se. A bunda grande balançando junto dos cabelos compridos, eu me excitando e tentando me controlar. Eu não podia matar aquela mulher, de jeito algum, eu devia sim, amá-la loucamente.

Passei a noite em claro. Deitado na cama não parava de olhar para a foto dela e para o teto descascado. Eu não iria conseguir matar aquela mulher. Pela primeira vez em muitos anos eu me sentia verdadeiramente apaixonado. Levantei-me no dia seguinte e parti para um banho quente e demorado.

Desci e fui tomar café da manhã na pensão. Dona Olívia ajudava a servir as mesas. A vi olhar e sorrir para mim e em seguida se aproximar. O cheiro dela era muito bom.

  • Bom dia! Dormiu bem? - Ela perguntou educadamente.
  • Dormi sim. Obrigado! - Menti. Deveria ter dito: passei a noite pensando em você. Mas não tinha coragem. Para ser sincero, eu não sabia como contornar toda aquela complicada situação. Outra coisa que ficou martelando os pensamentos foi o seguinte: ela era educada com todos os hospedes da pensão, ou toda aquela lisura era somente comigo?

Terminei o café, subi de volta ao quarto, peguei o revólver, enfiei dentro da calça e cobri com uma das camisas que ganhei do doutor Sandoval. Sai para a rua. Estava tudo tão igual aos demais dias, nada a acrescentar de diferente. No bar da coxinha ruim vi um dos capangas de Sandoval encostado na parede na frente do estabelecimento. Usava a camisa com alguns botões desabotoados, ele mostrava também a arma e mascava o que aparentemente parecia ser alguma goma de mascar, mas depois eu percebi que era tabaco, pois quando fui me aproximar dele para um breve comprimento percebi o cheiro.

Estendi a mão e ele nem fez menção de estender a dele.

  • Você parece não querer conversa, não é?

Aquele homem se aproximou de mim com tudo, a arma encostada no meu pescoço, os olhos injetados de fúria.

  • Não fala comigo ou te meto chumbo, entendeu?

Balancei a cabeça concordando com ele, em seguida fui me afastando dele, com medo, mas eu poderia resolver isso depois. Passei o dia e parte da tarde andando pela cidade e conhecendo gente. Conheci um rapaz da minha idade, bastante inteligente e cheio de histórias incríveis. Sentamos a mesa de um dos vários bares daquela cidade e papeamos por horas. Nos despedimos quando o sol já estava indo embora, trocamos um firme aperto de mão e a certeza de que ali se iniciava uma forte amizade.

Depois da morte do Ruan eu nunca mais me preocupei com novas amizades. Durante a terrível estadia na prisão quase não conversava com ninguém, preferia o isolamento dentro da minha cela isolada, sim, pelos crimes nos quais eu fui condenado e por ter um certo grau de periculosidade eu fiquei afastado dos demais presos.

Lá havia estupradores, assassinos, estelionatários, sequestradores e um esquartejador, eu, é claro, e muitos daqueles homens tinham medo de mim, entretanto eu nunca me meti em brigas ou em qualquer tipo de confusão.

Em meus últimos meses de cárcere, um boato corria à boca pequena de que eu seria morto. Confesso que temi, mas antes que algo pudesse acontecer, meus supostos assassinos, além do mandante, foram mortos de uma forma bastante cruel. Ambos foram esfaqueados até morte e tiveram suas cabeças arrancadas e exibidas no pátio do presídio, um verdadeiro show de horrores para os internos que por ali passavam diariamente.

O diretor da cadeia não fez nada. Dizia para quem quisesse ouvir que os presos quem deveriam resolver os problemas entre eles, e caso eles morressem em uma briga entre eles, seria um bandido a menos no mundo.

Uma noite antes a minha saída, recebi a visita de um advogado público. Era um sujeito esquisito, careca, voz anasalada, óculos de aros redondos, e que falava demais, e isso me irritou. Após mais de meia hora de blá blá blá, o homem finalmente levantou-se, apertou minha mão e com um sorriso de nicotina despediu-se de mim.

  • Vejo você lá fora. - Ele disse antes de fechar a porta da sala de interrogatórios e desaparecer.

Aguardei a chegada do carcereiro. Um homem de quase dois metros de altura, forte, e de cabelos compridos, o oposto do estranho advogado. Fui algemado, devido a minha periculosidade, fui jogado na cela sozinho. Não dormi, passei a noite acordado, ansioso pela luz do sol, ansioso para sentir o cheiro da rua, ver pessoas; não as mesmas de vinte anos de prisão, mas sim gente de verdade e não um bando de meliantes, desonestos e inescrupulosos. A luz do dia chegou com tudo na minha cara como um tapa de uma nova realidade. Tomei meu banho, vesti a mesma roupa que vestia quando cheguei, elas estavam largas. Tinha emagrecido e muito, muitas vezes deixava a comida de lado para ficar chorando e relembrando os erros do passado.

O período dentro da prisão foi complicado. Passei por inúmeras rebeliões, e em cada uma delas eu pensei que seria o meu fim. Enquanto eu assistia outros detentos sendo degolados, jogados de andares superiores e tendo por fim, suas cabeças expostas em pedaços grandes de ferro como troféus de um campeonato injusto.

Deixei aquilo tudo sem sentir um pingo de saudade. Agora a história a ser escrita seria outra, com capítulos melhores e quem sabe com um final feliz.

Cheguei na porta da pensão. Na frente paredes pintadas de cinza, flores enfeitando as janelas, e Dona Olívia de sorriso no rosto e avental preso na cintura.

  • Chegaste bem na hora do jantar, senhor Fabiano. - Ela disse.

Sorri sem graça para ela. Mal sabia ela que eu devia matá-la, mas eu não havia criado coragem para tal desatino. Entrei. A sala de jantar estava cheia de mesas e cadeiras. Sentei-me em uma perto da escada que dava em direção aos quartos, a minha intenção era comer e ir para cama o mais depressa possível.

No prato havia arroz com feijão, salada de tomate, carne assada e suco de manga, de sobremesa a mesma gelatina colorida de sempre, deliciosa como de costume. Devorei tudo velozmente. Reparei que Dona Olívia não tirava os olhos de mim, seu olhar parecia me repreender pela pressa na mastigação do alimento. Foi então que ela chegou perto de mim e se inclinou para dizer algo ao meu ouvido.

  • Para quê tanta pressa, senhor Fabiano? - Ela falou. Fiquei envergonhado. - Parece que vai sair com alguém, é isso? - Complementou ela, sorrindo.
  • Se a senhora aceitar sair comigo, eu terei alguém para sair comigo. - A voz saiu tremida, medrosa, parecia que um bolo de timidez segurava tudo dentro de mim.
  • Eu aceito, no entanto, precisa ser amanhã. Algum problema para o senhor?
  • Nenhum. Pode ser às oito da noite em frente a praça?
  • Claro. Às oito da noite na praça.

O coração se encheu de alegria. Depois de anos eu iria sair com uma mulher. Terminei a refeição e subi para o quarto onde tomaria banho e dormiria. No dia seguinte já na casa do doutor Sandoval, uma conversa entre mim e ele.

  • Quando é que o senhor vai acabar com a raça daquela cadela? - Ele perguntou sobre Olívia.

Dei um gole no café quente.

  • Hoje eu vou me encontrar com ela. - Eu respondi.
  • Como assim? - Deu para notar o olhar de desconfiança dele.
  • Bem. Eu costumo convidar minhas vítimas para um jantar, conquistar a confiança, para assim acabar com elas. - Menti com dor no coração, mas pela cara de Sandoval ele acreditou.
  • Tudo bem. Espero que seja rápido e não deixe rastros. Eu não costumo perdoar quem falha comigo. - Ele disse em tom ameaçador.

Engoli em seco e respondi.

  • Não vou falhar, Doutor Sandoval.

Me retirei da casa e fui para a rua andar um pouco. Eu tinha a necessidade de planejar tudo com a maior riqueza de detalhes possível. Com o resto de um dinheiro dado por Sandoval, eu compraria uma camisa e um par novo de calças, além, é claro, de um par de sapatos novos.

Entrei em uma loja pequena e bem arrumada. Manequins distribuídos pelo local exibiam alguns dos diversos modelos que ali havia. Escolhi uma camisa de cor verde escura, calças de cor clara e um sapato com cadarços coloridos. Sai de lá com duas sacolas e fui ao cabeleireiro. Sempre gostei do cabelo cheio com os encaracolados à mostra. Pedi apenas para dar uma aparada dos lados, fiz a barba também e passei perfume.

Voltei para a pensão e pedi para uma das moças que ali trabalhavam que distraísse Olívia para que ela não me visse. Entrei escondido e subi correndo para o quarto, lá me tranquei e passei o restante da tarde. Ansioso, passei e repassei os planos de como mataria Olívia, era a minha vida, contra a daquela mulher.

A mesma moça foi me avisar que Olívia já tinha saído. Me arrumei o melhor que pude e saí. O vento gelado no rosto, as mãos dançando nervosamente nos bolsos da calça, o suor teimoso escorrendo no canto da testa, os lábios secando e o coração disparado.

Lá estava ela, sentada de pernas cruzadas em um dos bancos da praça. Vestida de amarelo, num vestido bonito e esvoaçante, com os cabelos presos com grampos nas laterais e um grande e belo sorriso. Fui me aproximando dela lentamente, cheguei e ela se levantou. Nos abraçamos e trocamos um beijo na bochecha.

  • Me atrasei? - Perguntei, enquanto olhava o relógio da igreja.
  • O senhor foi pontual. - Ela respondeu educadamente.

Ela voltou a sentar e eu me sentei ao lado dela. Ficamos os dois, lado a lado observando o movimento da rua; um vai e vem frenético de sapatos e chinelos, de pneus e rodas de carroça e galopes de mulas malcomidas. Olívia me cutucou forte no ombro quando o pipoqueiro parou bem na nossa frente do outro lado da calçada. Fui lá comprar um saco bem grande de pipoca. Voltei ofertando a pipoca para ele, que agradeceu ao gesto sorrindo. Rapidamente devoramos a iguaria, em seguida paramos em um bar onde apenas eu entrei para comprar duas cervejas, saímos de lá com as garrafinhas nas mãos e com um desejo enorme, pelo menos da minha parte, de entrelaçarmos nossas mãos.

Caminhamos juntos pelas ruas mal iluminadas, paramos e admiramos as estrelas, conversamos bastante, contamos das nossas vidas e fizemos planos para o futuro. Ela contou da vida de solteira, da viuvez recente e do ódio que sentia pelo Doutor Sandoval. Ela afirmava categoricamente que fora ele o mandante do assassinato do marido e mal sabia ela que eu seria o executor da morte dela.

Já se passava das onze da noite quando Olívia pediu para irmos embora. Concordei. Resolvi cortar caminho por uma estradinha de terra, lugar deserto, sem casas e com iluminação ruim, um local assustador.

  • Esse lugar é horrível. - Ela disse baixinho. Olívia falava tão baixo que a impressão que dava era de que ela não queria acordar quem quer que fosse.
  • Fica tranquila. É só um atalho para chegarmos rápido à pensão. - Eu disse.

Era simples. Bastava tirar o revólver da cintura e disparar um ou dois tiros e ponto final. Mas eu não tinha coragem para aquilo. Nunca havia matado ninguém, apenas esquartejava corpos. Caso alguém a matasse eu faria o meu serviço de destrinchar o corpo dela em vários pedaços. No entanto eu estava incumbido de realizar o serviço completo.

Não pensei duas vezes, empurrei ela com tudo em cima de um barranco, apenas a luz da lua iluminava nós dois, ela não compreendeu e a princípio quis se desvencilhar, mas eu não deixei segurando seus braços. A beijei suavemente no pescoço e em vez de sacar a arma da cintura, saquei o pênis da calça e comecei a penetrá-la ferozmente. Quando finalmente terminei notei um sorriso no rosto dela, um sorriso sacana, safado.

  • Perdoe-me por ter sido tão violento. - Eu disse, enquanto vestia as calças e ajeitava o pênis ainda enrijecido dentro da calça. Olívia arrumava o vestido sujo de terra e amarrotado.
  • Não foi violento, foi intenso. - Ela disse.

Voltamos para a pensão como se nada tivesse ocorrido. Eu sonharia com ela pelo restante da noite e talvez ela fizesse o mesmo comigo.

Acordei com os raios do sol invadindo a janela. Desci e tomei meu café tranquilamente. Olívia e as moças que trabalhavam para ela sorriram perante a minha presença, apenas acenei e me levantei e em seguida fui para a rua.

Resolvi ir até a fazenda do Doutor Sandoval. Chegando lá me deparei com os mesmos capangas de sempre, com armas na cintura, camisas com botões abertos e caras de mau. Entrei sem ser perturbado. Estranhamente um deles até me deu bom dia, mas eu não respondi, pois toda vez que eu desejava um ótimo dia nenhum deles respondia, então por que eu teria que fazê-lo agora?

Encontrei Sandoval sentado no mesmo lugar de sempre do sofá, o charuto enfiado no meio da boca, o olhar perdido por aí.

  • O que faz por aqui a uma hora dessas? - Ele perguntou.
  • Preciso conversar. - Respondi.
  • Fez o que eu te mandei?
  • Não fiz.
  • Você lembra o que eu te disse, não é mesmo?
  • A minha vida contra a da Olívia, pelo que eu me lembre.

Sandoval sorriu sarcástico.

  • Vou matar você, seu filho da puta! - Esbravejou.

Eu teria de ser rápido. Caso sacasse a arma mais devagar que ele era morte na certa. Olhei para ele com a maior atenção possível, estudei friamente seus movimentos e calculei a hora exata de pegar o revólver e puxar o gatilho. Sandoval sacou, mas eu fui mais ligeiro. Enquanto ele metia o dedo ossudo no gatilho eu puxava o meu e lhe acertava o primeiro tiro. Vi a camisa dele manchada no peito, vi o sorriso de deboche de outrora se desmanchar numa careta de terror. Sandoval tentou atirar, mas não tinha forças. Dois capangas entraram e antes que atirassem em mim eu atirei primeiro neles.

Vi Sandoval agonizar até a morte. Depois fui em direção a cozinha, peguei facas e encontrei um serrote em um quarto escuro nos fundos da casa. Voltei para a sala. Destrinchei primeiro os capangas, em seguida fui para o corpo do Doutor Sandoval, este que mesmo morto tentava sorrir, mas o que ele tinha mesmo era a fisionomia de um garotinho assustado.

Esquartejei Sandoval e o deixei ali mesmo, na sala da casa dele ao lado dos pedaços dos dois capangas. Pela primeira vez na vida tinha matado alguém e a sensação era maravilhosa. Fui embora sem ser incomodado.

Voltei para a pensão. Olívia estava na cozinha, o corpo perto do fogão, cheguei por trás e lhe dei um beijo em seu pescoço.

  • Oi. Tudo bem com você? - Ela perguntou.
  • Estou bem.

Percebi um olhar diferente dela para mim.

  • Isso na sua roupa é sangue?

Puta merda, pensei. Como eu pude ser tão burro? Deveria ter ido ao quarto primeiro, tomado um banho e dado um fim nessas roupas, mas fui em direção da mulher que amo, o jeito seria contar a cruel verdade para ela.

  • Precisamos conversar. - Eu disse.

Dava para notar o olhar assustado dela, e ela se afastando de mim cada vez que eu andava em direção a ela.

  • Você matou alguém? - Eu senti um tremor na sua voz e a palidez de sua pele aumentar.
  • Matei. - Respondi. - Mas calma, não vou fazer nada com você.
  • Mentira! - Ele gritou assustada. - Se afasta de mim. - Disse ela abrindo a gaveta da pia e puxando de lá uma faca enorme.

Recuei. Não queria de forma alguma machucá-la.

  • Vá embora, Fabiano, não apareça nunca mais na minha frente. - Ouvir isso me machucou bastante, mas eu não podia naquela altura dos fatos discordar dela.

Saí sem as minhas coisas. Retornaria no dia seguinte somente para buscá-las, e foi isso que fiz. Dormir em um canto qualquer e despertei quando um cachorro urinou em cima de mim. Sim eu mereci aquele mijo quente no meu corpo, eu perdi a razão ao matar e esquartejar aquelas três pessoas; talvez o Doutor Sandoval merecesse o desfecho que teve, mas os dois capangas não, eram apenas dois pobres coitados iguais a mim.

Parei na porta da pensão. A camisa já tinha jogado num lugar qualquer, no meio do mato, não me lembro muito bem. Bati palmas insistentemente, ninguém apareceu, insisti mais um pouco até que uma das moças que ali trabalhavam aparecesse. Era uma moça jovem, de cabelos loiros amarrados para trás, tinha as maçãs do rosto coradas e uma grossa camada de maquiagem lhe cobria a testa.

  • Bom dia! Eu vim buscar as minhas coisas e se possível eu gostaria de falar com a Dona Olívia.

A moça desceu os quatro degraus de escada que separavam o portão da pensão da porta de entrada da casa. Portão aberto. Entrei e subi para o meu quarto, arrumei minhas coisas, enfiei dentro de uma mala pequena. Passei pelo corredor comprido de quartos e ouvi de longe alguém chorando, fui me aproximando devagar e quando percebi estava na porta do quarto de Olívia. Hesitei por um instante, mas tomei coragem e bati na porta, ninguém respondeu. Era como se ela não estivesse ali, mas ela estava, dava para perceber pelo choro em grandes soluços e pelo coração dilacerado de um amor que para ela não havia passado de uma aventura.

Persisti mais um pouco e quando eu já havia perdido as esperanças ouvi o barulho da chave girando na fechadura; a porta abriu e detrás dela surgiu Olívia, os olhos inchados, a cara desanimada, os lábios tremendo para continuar o pranto.

  • Você me deixa entrar? - Perguntei.

Olívia apenas afastou o corpo e com as mãos fez um gesto para eu entrasse. Ela não fechou a porta, deixou-a escancarada, provavelmente por medo da minha pessoa, ou ela queria mesmo era revelar alguma coisa para mim.

Ela sentou-se na beirada da cama, eu fiquei em pé. A princípio ninguém disse nada, foi um silêncio ruim, chato de se ouvir, de doer os ouvidos de qualquer mortal.

  • Sandoval mandou matar o meu marido. - Ela disse. A voz dura, o peito inchado pela dor. - Aquele maldito pagou você para me matar? Foi isso?

Respirei fundo e dei a resposta:

  • Isso mesmo. Era a ordem dele. Eu ia fazer, precisava do dinheiro, mas foi aí que cheguei até aqui e te vi e me apaixonei.

Quando eu disse que tinha me apaixonado por ela, os olhos dela se arregalaram de espanto, ela parecia não acreditar no que eu tinha terminado de dizer.

  • Eu também me apaixonei por você, Fabiano. - A voz parecia tomar firmeza agora.

Não pensei duas vezes fui na direção dela e nos abraçamos e nos beijamos. Ela me contou da emboscada do marido, dos dez tiros que o acertaram quando ele saia com o carro, da pensão, em direção ao mercado da cidade.

  • Ele não teve chance de se proteger. - Disse ela aos prantos.

O homem responsável pela morte do marido de Olívia era o mesmo sujeito mal-encarado que me olhava atravessado nas ruas daquela pequena cidade. Eu já imaginava isso. Falei para Olívia dos crimes que cometi, das mulheres que esquartejei e da minha vida antes de tudo aquilo acontecer.

Contei sobre o Ruan, meu melhor amigo, da empresa de contabilidade, e das festinhas com muita bebida e cocaína espalhada pelo apartamento. Olívia ficou chocada com o meu relato, mas em nenhum momento ela fez menção de se levantar e sair, ou na pior das hipóteses, chamar a polícia.

Foram mais de vinte anos atrás das grades, após ter sido condenado por assassinato, ocultação de cadáver, e mais alguns crimes. Peguei pena máxima, mas saí por bom comportamento, ou como me confidenciou um dos carcereiros: para que eu não morresse, o diretor do presidio pediu as autoridades a minha soltura, e assim se fez.

Ganhei minha liberdade e parti para uma nova vida em outra cidade. Cheguei e não consegui emprego, até conhecer o Doutor Sandoval e receber dele a missão de matar e esquartejar. Mas como eu poderia adivinhar que eu me apaixonaria pela minha primeira vítima. O coração da gente não tem explicação.

Olívia levantou-se, foi em direção ao banheiro e lavou o rosto, em seguida chegou perto de mim, segurou firme nas minhas mãos e me olhou nos olhos.

  • Obrigado por ter dado um fim justo ao assassino do meu marido. Obrigado do fundo do meu coração. - Ela disse.

Dei um abraço forte nela e a beijei levemente no rosto.

  • Me agradeça casando comigo e indo embora desse lugar.

Olívia respirou fundo, retribuiu o beijo e sorrindo para mim ela disse:

  • Eu aceito, meu amor. - Nos beijamos e sorrimos um para o outro, felizes, amados, amantes, eternos namorados.

Não demorou muito para a polícia encontrar os corpos esquartejados no meio da sala da casa do Doutor Sandoval. Segundo uma reportagem da televisão a cena encontrada pela polícia era horripilante. Pedaços de corpos espalhados, sangue, muito sangue, e a cabeça de Sandoval colocado em cima da poltrona dele, de olhos arregalados e boca aberta, com larvas malditas lhe saindo das orelhas, além do cheiro de podridão daquele lugar.

Os corpos foram encontrados pelo capanga de confiança que ao deparar com terrível cena correu, chamou a polícia e sem seguida se matou com um tiro na cabeça. A perícia alegou não ter encontrado nenhum sinal, nenhuma impressão deixada pelo assassino. Na verdade, eles queriam mesmo era se livrar de Sandoval.

Os dias se passaram. As malas estavam prontas e colocadas na frente da pensão que agora seria de propriedade das assistentes de Olívia. Me despeço dessa cidade para nunca mais voltar, mas levo dela a maior herança, a mulher mais incrível que eu conheci em toda vida, e quanto a esquartejar pessoas, eu tô por aí, é só chamar. FIM

4 de Dezembro de 2021 às 00:24 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Fernando Camargo Escrevo desde os oito anos de idade, culpa da professora de português. De tanto gostar de fazer isso (escrever), resolvi estudar jornalismo. Formado, atualmente eu passo meus dias a criar personagens e novas histórias.

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