asheviere Marianna Ramalho

Na Torre do Feiticeiro, três fantasmas são obrigados a conviverem no mesmo lugar onde cada um matou um outro. Ou: Um final alternativo para a drabble Desarranjado, de 2020.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #fantasia #magia #fantasmas #morte #fantasma #angst #darkfic #death-fic #feiticeiros #desarranjado
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Único - O frio, o fogo e a escuridão.

Notas: "Fantasmas na Torre" é um conto não canônico dentro desse universo. Esse conto não é o final real dos personagens na drabble Desarranjado. O título "Fantasmas na Torre" também é o título do capítulo 4 de "O Que Dizem de Nós", quando Elyn e Arcaent assistem a um teatro de sombras que conta a história como se eles tivessem morrido. Então, como eu estava com saudade desses personagens, resolvi mostrar como isso teria acontecido.

***


Estava anoitecendo novamente.

Pela nona vez naquele outono.

Pela centésima vez no trigésimo ano.

Eles contavam cada dia, mesmo com a dificuldade de perceber o tempo passar. Cada um contava o tempo por um motivo diferente, um tormento diferente, um ressentimento diferente. Deitada no alto das ruínas, com as pernas cruzadas sobre os escombros, sem preocupação alguma com o fato de estar se equilibrando em uma parede estreita e escorregadia pelo lodo e o desgaste natural, ela observava a luz alaranjada invadir a torre pelos últimos minutos antes que fossem novamente imersos na escuridão.

Não suportava mais passar metade de sua existência na escuridão. Não suportava mais passar toda a sua existência no frio. Estendeu a mão alcançando o feixe do sol, ciente de que deveria sentir algo, mas sua mão permanecia fria como se jamais tivesse deixado as sombras. Era a mesma sensação de seus últimos momentos respirando. Aqueles segundos após o golpe, sentindo o sangue abandoná-la deixando apenas o frio alcançando-a até os ossos. Inconscientemente, levou a mão ao peito, de onde o sangue continuava a abandoná-la do ferimento que nunca fechava, como fazia quando se perdia em seus pensamentos.

— Elyn – chamou a voz de Arcaent, sempre atento a suas preocupações. Elyn olhou para baixo, no interior já escuro da torre, encontrando-o diante da lareira no salão. A lareira que há trinta anos não era acesa, e as cinzas velhas da última lenha queimada misturavam-se à poeira e às cinzas do incêndio que assolara a torre. – No que está pensando?

O olhar de Arcaent cruzou com o seu, a ternura em seus olhos escuros era a única coisa que permanecia inalterada em seu rosto, coberto de queimaduras que nunca cicatrizavam. Elyn pulou para o chão. A queda não a feriu. Nada mais podia feri-la. Feri-los. Nem a Elyn, nem a Arcaent, e nem àquele que os causara tamanha dor.

— Ele só fica lá fora… – murmurou, com o rancor transbordando de sua voz. – Ele fica olhando o horizonte, perdido, como se fosse a vítima sofredora…

Aquela raiva voltava com frequência. Os anos passados na convivência forçada com o Príncipe Oizus – agora apenas Oizus, pois ninguém era príncipe no mundo dos mortos – não aliviaram sua revolta. Elyn não era inclinada a perdoar. Algumas coisas estavam além do perdão.

Arcaent não respondeu. Também tinha raiva, mas doía ouvir da voz de Elyn a injustiça daquela situação. Ela também estava sendo torturada naquela existência espectral, e Arcaent não conseguia imaginar o porquê. Entendia porque ele e Oizus estavam ali, mas Elyn, que nada fizera de mal a ninguém? Como aquela condenação podia se estender também a ela?

É claro, sobre isso eles tinham opiniões diferentes. Elyn não se achava inocente.

Estavam os três naquela punição pelos seus crimes. Oizus estava ali porque matara Elyn. Arcaent estava ali porque matara Oizus. E Elyn estava ali porque matara Arcaent. Era o que ela pensava. Porque suas mentiras haviam atraído Oizus e seus soldados até a torre, e foi com seu corpo inerte nos braços que Arcaent permaneceu, cego para os soldados, para o incêndio e para tudo que não fosse a própria dor.

Quando Arcaent finalmente fez que ia dizer algo, a atenção dos dois foi atraída para o terceiro, entrando novamente na torre que eram condenados a compartilhar. Apesar da ausência de luz naquela noite sem lua, distinguiram facilmente o rosto pálido do antigo príncipe à distância, mas as marcas arroxeadas em seu pescoço, geralmente tão evidentes, misturavam-se às sombras. Marcas deixadas por Arcaent quando, mesmo ferido, encontrou forças para dar a ele o mesmo destino que ele impusera à Elyn, tão enraivecido que sequer lembrou de um feitiço que fosse, usando apenas as mãos e a fúria, olhando-o nos olhos enquanto a vida o deixava, da mesma forma que ele a havia roubado de Elyn.

Se soubesse que seria assim… Se soubesse que estava condenando Elyn a vê-lo todos os dias, todas as noites, com aquele olhar de desprezo e segurando a faca ensanguentada que, apesar de todos os anos passados, Oizus não conseguia soltar, como se estivesse presa em sua mão. Mas como poderia imaginar isso? Que os três ficariam presos ali, sem conseguir dar um passo além das pedras escurecidas do chão da torre?

Como de costume, Oizus nada falou, apenas lançou-lhes um olhar rápido, tão ressentido e rancoroso quanto os que recebeu de volta. Há anos não o ouviam dizer nada, e não podiam dizer que isso os desagradava. No começo ele ainda falava. Às vezes até gritava, ou tentava gritar, com aquela voz rouca e entrecortada como se estivesse ainda preso em seu último suspiro com as mãos de Arcaent em sua garganta. Nos primeiros dias, Oizus culpara Arcaent, cuspindo mil maldições contra o feiticeiro, dizendo que a magia perversa dele os prendera ali. Arcaent parecia não ouvi-lo, mal reagia mesmo quando Elyn chamava sua atenção, horrorizado com a constatação da nova existência que teriam, horrorizado em admitir que havia colocado Oizus novamente no caminho dela. Arcaent reagia tão pouco naqueles dias que Elyn pensou que, mesmo diante dela, ele se perderia, se fecharia tão profundamente na própria consciência que ela jamais conseguiria alcançá-lo outra vez. E as incansáveis acusações de Oizus ecoando baixo pelo salão como trepadeiras espinhosas agarrando-se às paredes não lhe ajudavam a se acalmar. Então ela gritou de volta.

— Como se atreve a culpá-lo?! Você sabia a verdade e ainda assim nos atacou! Não estaríamos aqui se tivesse simplesmente aceitado e ido embora!

— Se alguém aqui tem culpa de algo, então deveria olhar para si mesma, princesa ingrata, porque eu vim para salvá-la!

Aquilo doeu em Elyn de uma forma inimaginável. Não precisava ouvir acusação alguma, pois sua própria mente já a julgava. Mas ele, de todas as pessoas, tentar fazê-la sentir culpa…

— Então essa faca que está segurando estava destinada a outro coração? – Ela soltou um riso amargo e ressentido. Foi quando Oizus percebeu a arma que não conseguia largar, o sangue que não conseguia limpar de suas mãos. – Como ousa mentir assim? Você não veio me resgatar, Oizus, veio pela glória de caçar um feiticeiro!

— Cale a boca, princesa!

— Ou o quê? Não posso morrer uma segunda vez!

Em vez de responder, Oizus virou as costas e desapareceu do salão, tentando mais uma vez deixar aquele lugar.

Trinta anos haviam se passado desde então, e Elyn se recordava de cada instante. Mas a sensação do toque de Arcaent em seu pulso após a discussão, um toque quente como as chamas do incêndio sobre sua pele sempre fria, era a que se sobressaía. A culpa silenciosa em seu olhar, por ter arrastado Elyn para aquela punição, os lábios esboçando um pedido de desculpas não dito. Elyn segurou seu rosto entre as mãos, observando as cicatrizes que o fogo causara. Dilacerava seu coração saber que Arcaent se torturava daquela forma. A culpa não tinha sido de ninguém. Boatos se espalham. Uma princesa fugia de um casamento arranjado para o príncipe do reino vizinho, fugia com o feiticeiro que ela verdadeiramente amava, mas histórias são facilmente deturpadas, e logo todos falavam do feiticeiro que havia sequestrado uma princesa. Elyn devia ter retornado assim que ouviu os absurdos, desmentido toda a história, mas achou que estavam seguros distantes de todos. Então seu noivo prometido apareceu com o pretexto de resgatá-la.

Elyn foi a primeira a morrer, e assistiu todo o resto com a angústia muda de não poder intervir. Assistiu ao amor da sua vida, tomado pela dor e o desespero da perda e pelo ódio, condenar-se ao se tornar um assassino. E assistiu quando, em pranto, envolvendo seu corpo inerte como se o abraço pudesse impedi-la de partir, mesmo que já tivesse partido, Arcaent não reagiu quando o fogo veio para destruí-lo.

— Você precisa ir… – tentou alertar. Mas ele não podia ouvi-la, e a cada frase seus alertas tornavam-se mais desesperados. Tentou afastá-lo, sem sucesso, pois Arcaent estava em um mundo ao qual ela não pertencia mais. – Arcen, você tem que sair daqui. Arcen. Arcen, você tem que fugir! Por favor! Esqueça-me e vá! Não me faça ver você morrer!

— Está preocupada – constatou Oizus, agora também um espectro como ela, com a voz rouca e entrecortada como se usasse seu último suspiro para falar. O olhar mortalmente sério e odioso na direção de Arcaent. – Não deveria. Feiticeiros não têm alma para serem condenados por matar.

Ele não merecia uma resposta sua. Elyn continuou tentando ser ouvida por Arcaent, e descobriu que espectros também eram capazes de chorar ao recebê-lo depois que todas as suas súplicas foram ignoradas.

Ao menos estavam juntos. Por isso não estavam enlouquecendo, apesar de às vezes chegarem perto disso. Como viam acontecer com Oizus dia após dia, que, mesmo na presença deles, estava só. Talvez ele merecesse, mas não era uma vingança do casal. O tempo os cansava. Perceber que suas percepções poderiam durar pela eternidade trouxe um sabor ainda mais amargo àquela existência. Não, eles jamais o perdoariam, mas podia haver convivência sem perdão. Oizus é que não suportava a presença deles, isolava-se por vontade própria. Com a eternidade a seu alcance, reconhecer seus crimes era só questão de tempo. E quanto mais se recusava a assumi-los para a própria consciência, menos aguentava a presença do casal, um lembrete constante da realidade.

Nem príncipe, nem guerreiro, nem herói. Apenas um assassino.

O medo da culpa fazia com que evitasse o casal. Afastava-se da torre o máximo que podia – o que não era muito –, observava centenas de sóis se erguerem e desaparecerem antes de pensar em retornar, e quando retornava, tentava passar tão despercebido que quase parecia uma das sombras nas paredes das ruínas.

— Um dia, é só o que vai restar de você… – Arcaent murmurou uma vez, como se conhecesse seus pensamentos. A única vez em que lhe dirigiu a palavra em todos aqueles anos. A voz não tinha apreço ou simpatia, mas era um aviso sincero. – Se continuar assim.

Oizus não conseguiu encontrar em si mesmo a força necessária para responder. Preferiria ser uma sombra naquele momento e não ter de ouvir ou dizer nada, ou mesmo existir. Preferiria que Elyn e Arcaent viessem armados de desdém e palavras cruéis, qualquer coisa a que pudesse se agarrar para fingir que seu ódio por eles não havia sido tão errado, fingir que o monstro da história não fora apenas ele. Porém mesmo Elyn, quem mais teria o direito de atormentá-lo, não parecia disposta a torturá-lo com o peso da culpa.

Porque não era como ele.

— Elyn. – Mesmo com o aviso de Arcaent, Elyn pensou que Oizus continuaria afundando em si mesmo até que nada mais restasse. Achou que um dia ele simplesmente se esconderia nas sombras e jamais seria visto novamente. Não esperava que ele reunisse coragem para falar com ela uma outra vez, não depois de anos se recusando a ouvir a verdade de seus atos. Mas Oizus ainda estava ali. Estendeu a mão e conseguiu finalmente deixar a faca cair no chão consumido pelo fogo. – Nada pode ser desfeito… mas o mínimo que devo fazer é dizer que eu sinto muito.

O gesto foi recebido com um silêncio que não o surpreendeu. Não esperava perdão ou mesmo que ela acreditasse em suas palavras. Após isso, ele saiu novamente, e quando não retornou, Elyn e Arcaent souberam que a existência após a morte ainda era capaz de ramificar-se em vários caminhos, definidos apenas por escolhas. A morte era tão imprevisível quanto a vida, afinal.

Para Elyn e Arcaent, os dias seguiram como antes. O sol se erguia e desaparecia como sempre. Mas tudo estava diferente, mesmo o ar que não respiravam parecia mais leve. Os dias ainda eram iguais para os fantasmas presos na torre, com a exceção de que constantemente esqueciam que aquilo era para ser uma prisão. Não era tão diferente assim dos dias de antes dos boatos se espalharem, quando Elyn e Arcaent viviam juntos, apenas um ao outro como companhia. Na verdade, às vezes eles tinham outras companhias…

— Tenho pensado… – Elyn falou, jogando-se ao seu lado depois de passar uma tarde brincando com crianças que não a enxergavam. A “Torre do Feiticeiro” se tornara um lugar de histórias de assombração, onde os garotos se desafiavam a entrar para provar que eram corajosos. Elyn soprava em seus cabelos quando um deles dizia que fantasmas não existiam, ou derrubava objetos, coisas que os garotos sempre diziam ser obra do vento. Brincadeiras inofensivas que terminavam com as crianças correndo para fora da torre e acusando uns aos outros sobre quem correu primeiro. – Se ele conseguiu sair, acha que nós também podemos?

Era o anoitecer novamente. Em algum dia de inverno, num ano que ela há tempos não lembrava de contar, porque em algum momento aquela existência deixara de ser tão tormentosa. Ainda havia frio, ainda havia escuridão e ainda havia marcas deixadas pelo fogo. Mas tinham a eternidade nas mãos para o que não puderam ter em vida.

— Acho que podemos sair há muito tempo, mas nunca tentamos.

— É estranho… Eu não acho mais que isso seja um castigo. Viver aqui era o nosso plano desde o início, não era?

Ela tinha uma esperança hesitante em seu olhar, receosa de que ao começar a se acostumar, tudo fosse ruir novamente. Mas não podia mais ruir. Era um medo incoerente que só podia assombrar os vivos. Arcaent a beijou com delicadeza, transmitindo a certeza que ela precisava. Enquanto quisessem estar ali, nada os impediria. Nem a morte ousara separá-los.

E aquilo podia não ser o que imaginavam do paraíso, mas também não estava assim tão longe disso.

27 de Novembro de 2021 às 03:29 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Marianna Ramalho Também posto no Nyah, no Spirit e no Wattpad sob o nome de Jupiter L. Se houver interesse pela minha escrita de forma "integral", sugiro acompanhar pelo Nyah ou Inkspired. Nem todas as histórias são postadas no Spirit e no Wattpad.

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