vhgreis Vinícius Reis

O mundo esteve em paz por um longo tempo. Apenas o bastante para que forças estranhas se manifestassem. Forças que não deveriam ser desprezadas ou esquecidas do mundo. Sem a devida resolução. Dizem os sábios que para se esquecer de uma maldição é preciso que ela tenha uma resolução. Os livros alertaram disso. O céu incandescente uma vez alertou disso. As aves bateram o desespero no lugar de asas, alertando isso. Em vão. Pois a maldição não foi esquecida. Todos estão sendo enganados. Mas está aqui um algo de esperança. Pois em cada Grande Terror de nosso mundo, a vitória só foi possível pelas mãos de seres realmente notáveis. Que descansaram por eras, ou estão por aí, vagando sem serem incomodados. Mas o tempo deles agirem enfim chegou. Com o Nascimento, a Busca, e a Ressurreição, este fantástico e tão precioso mundo tem ao menos uma chance. Assim foi observado. Sim, assim foi observado


Fantasia Épico Para maiores de 18 apenas.

#alquimia #fantasia #épico
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Caminhemos com as aves no céu. Façamos isso por uma viagem longa. Ela sai de uma grande montanha em forma de pirâmide num lugar muito distante dentro de um desfiladeiro rodeado por cachoeiras sorrateiras descendo as paredes rochosas. As aves gostam de fazer ninho ali. Muita comida e, talvez, até mesmo a bela paisagem do Pináculo devem chamá-las a residirem naquele lugar.


Quando saltam dos ninhos, buscam as viagens que nenhum homem poderia realizar, planando acima das montanhas, erguidas pelas correntes quentes. De lá, descem rápidas atravessando pântanos, florestas, rios que morrem em desfiladeiros e desfiladeiros escondidos por represados enormes. Passam pelas sombras que a lua faz na noite. Os voos apertam o bater de asas como se pedissem pressa para chegar a algum lugar. Uma migração, talvez? Ou o instinto de liberdade sendo grasnado para o céu? É que no ar não havia nenhuma prisão. As aves poderiam voar para todas as direções sem que encontrassem obstáculo.


Elas atravessaram o caminho de muitos povos. Voaram muito tempo, dezenas de dias para chegar a um lugar longínquo. Um lugar próspero. É verdade, um lugar tão belamente próspero, coberto de pomares e riquezas que as aves se aproveitavam para fazer outra morada rápida para uma viagem ainda mais longa.


Uma dessas aves planou rodopiando elegantemente até se empoleirar numa placa de madeira onde se lia o nome Luniestra entalhado. Curiosa, a ave bicou seis vezes na placa. Seis leves batidas despretensiosas, sem a intenção, senão, de bicar como a um ovo fresco. Mas houve um efeito.


Seus olhos desnudaram o negro. Tornaram-se estranhamente amarelos. Se a ave percebera o que havia de errado com seus olhos, isso nem ela poderia grasnar.


Ela correu novamente pelo ar, deslizando até parar num galho de uma árvore. Ficava no ponto alto da cidade dedilhando numa janela grande, quando o vento assim o queria. A ave então ficou a observar o que havia lá dentro.


Inesperado para ela, conseguia entender cada uma das palavras que a pessoa lá dentro do suntuoso aposento dizia. Nunca conseguiu isso. Regozijava-se sem do sentimento compreender. Deliciava-se sem sabor nenhum conceber em sua boca. Era estranho, a ave ria-se sem emitir voz ouvindo atentamente as conversas alheias:


– Que flagelo – dizia um homem vestido em manto bege e carmim. – Por que isso? Por que essa maldição?


Tenha a ave agora como a um corvo. Ela ria-se dos lamentos. Grasnava com a voz que não era a do riso, e continuou a ouvir:


– Danação! Não entendo. Sou viril. Meus antepassados, todos eram viris! Sou justo, dos lordes o mais honesto, não há dúvidas! Meu povo se regozija das riquezas da prosperidade, da vida de seus corpos. Sabe do valor de serem cuidados com bondade! Por que então?


Mais risos lá fora e grasnos. Um vento soprava tênue. Murmurava um curto tom de lamuria. Sons que se fundiam com a angústia daquele homem desesperançado.


Naquele momento, alguém entrava. Era uma mulher de feições belas. Seus cabelos eram louros, o rosto entristecido, de jovialidade muito maior do que a do homem. As lágrimas irrompiam junto às palavras.


– Não se culpe! – dizia ela tomando o lorde nos braços. – Não se culpe. Seja forte. Devemos ser fortes e buscar outras saídas.


– E que saída? – indagava suplicante o homem. – Não consigo enxergar, se realmente existir uma.


– Somos duas pessoas, mas se nos tornarmos três ou quatro, poderemos achar respostas. Devemos procurar alguém...


– Os curandeiros já fizeram tudo o que podiam – interrompeu o lorde.


– Não os curandeiros. Alguém cuja maestria seja subverter além da cura e da compreensão.


– O que sugere, então?


– Você pode achar estranho. Mas vi em um sonho algo acontecer comigo e com você. Algo maravilhoso e no centro dele estava alguém que curava de maneiras distintas dos curandeiros. Aquele que usa aquilo que está sendo muito difundido em outras regiões, principalmente na região das Vagas da Tormenta.


– Alquimia? Essa coisa, dizem, é muito perigosa, querida. Tanto amena quanto condena, foi o que ouvi falar dos conselheiros.


– Podemos ao menos tentar uma vez – era ela quem suplicava desta vez. Era um cômodo lindo ao redor deles. Mas nenhuma beleza trazia conforto à falta de esperança do casal.


Ela prosseguiu tomando as mãos do lorde:


– Já não temos outra coisa, senão algum tipo de magia. Mas das magias eu tenho muito medo, como bem sabe. Feiticeiros de Larrviant são uma raça perigosa. Bruxos são perigosos. Necromantes erguem corpos. Magos vertem nossos próprios pensamentos, nos enganam. Prefiro essa nova forma de ciência. E dizem que a alquimia é muito mais parecida com as curas com ervas, cogumelos e outros insumos. O que custa tentarmos?


O lorde ficou pensativo, e lá fora alguém ria e o mesmo alguém grasnava, tudo ao mesmo tempo. A ave estava atenta como um gato por sua presa. E não era à toa, pois as palavras do Lorde e Rei da Maçã de Luniestra dobrariam o mundo. Uma história que muitos caminharam para que não acontecesse, e outros nem se davam conta de que andavam para alcançar. O tempo se atormentava pela chegada deste momento. A ave sabia. O céu sabia. O tempo sabia. Somente os atores ainda não sabiam.


Bastava uma voz ser entoada. O silêncio diria outra história. Mas o tempo não queria o silêncio.


– Pois bem – disse o Lorde e Rei resignado tomando as mãos da rainha formando uma concha. – Se é o que deseja, procurarei o melhor alquimista.


E foi assim, que se teve início com o regozijo estrondoso do corvo lá fora. Um relâmpago, um raio e um trovão brandiram seus gumes na janela acompanhando os gracejos da ave. Dali em diante, só o que fez foi observar o homem a contra gosto, contra sua vontade. Vontades, em verdade, tinha muitas. Mas nenhuma delas era atendida por suas asas: se queria voar, não voava, se queria beber não bebia, se queria comer não comia. Nunca comia, bebia, ou sentia. Por fim a ave acabou morrendo, mas suas asas continuaram voando e seus olhos observando.


E em algum lugar no mundo, em sinal do horror de nosso tempo, o próprio céu eclodiu.



27 de Outubro de 2021 às 19:11 0 Denunciar Insira Seguir história
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