palasemple Palas

Irina, ainda que esteja morando sozinha para fazer faculdade em uma cidade distante daquela em que foi criada, se sente presa aos antigos, e mais confortáveis, dias de escola. Presa nos segundos logo antes, descobre nas dificuldades da vida jovem adulta um amor de anos depois.


Romance Contemporâneo Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#memórias-de-infância #são-paulo #porto-alegre #jovem #romance
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Barquinhos de Papel

Se eu sabia? Claro que eu não sabia.

—Mas não é esquisito? — Ele tinha acabado de descobrir uma falha incrível na realidade. — Você não sabe fazer barquinho de papel?

— Que que é tão esquisito?

— Ah, sei lá. Você faz maquete o tempo todo, não faz?

— É diferente. Eu sou muito ruim em seguir passo a passo.

Morder copo de isopor é gostoso, mas uma hora eu tinha que parar. Joguei fora. Pedi outro café. Ia me destruir no voo, mas era melhor que dormir de novo. Pegar avião tinha perdido quase toda a graça, mas por algum motivo tomar café ruim no aeroporto, antes de um voo super cedo, ainda me dava uma sensação diferente. Saudade da cama, saudade do dia anterior, saudade da época da escola.

— Eu tenho saudade é de vocês. Da escola? De jeito nenhum. — ele disse, por gentileza, já que eu tinha deixado escapar.

— Esse seu próximo show é no Rio, mesmo?

— Não sei.

— Então por que você vai pra lá?

— Não sei.

Ele bocejou igual bocejava antes da aula. A gente chegava mais ou menos na mesma hora. Ele me atrapalhava, me irritava. Ele destruía meu momento favorito do dia.

— Ah. Meu voo é agora. — Sabe quando a pessoa estava esperando o momento fazia tempo, mas ensaia a surpresa mesmo assim quando ele chega? Foi assim que ele falou. — Irina, bom te ver, viu? A Pipoca precisa continuar fazendo aniversário, né? Se não, a gente nunca se encontra!

Embora, realmente, ele estava quase atrasado, já. Ele deixou em cima da mesa a nota fiscal do bolo que ele comeu. Dobrada em formato de barquinho. Acho que ele não percebeu que estava fazendo isso, não foi por mal. Ele sempre se distraiu assim.

Depois eu que era esquisita.

Talvez eu fosse. Eu gostava de chegar cedo para aproveitar o momento calmo antes de o mundo começar a girar. Como agora, com outro copo de isopor na boca. E esse momento acabava justamente quando outra pessoa — no caso, ele — chegava. Mas vai ver foi por isso que ficamos amigos. Um dia, antes da aula, ele tentou me ensinar a fazer dobradura. Não consegui aprender.

Eu gostava do segundo logo antes de a escola encher de gente, do segundo logo antes de o sinal tocar, do segundo logo antes do primeiro som de mochila abrindo, do segundo logo antes do grupo brigar, do segundo logo antes do Júlio se mudar pro Amazonas para fazer medicina, da Pipoca se mudar para a capital, para fazer direito; de eu me mudar para Porto Alegre, para fazer rabisco de casa e prédio; e do Mariano se mudar para… onde quer que mandassem ele ir tocar violão, aparentemente.

O café duplo não adiantou nada. No segundo logo antes do meu avião decolar, eu dormi.

22 de Outubro de 2021 às 22:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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