natsu_yk Natsu

Quando a guerra finalmente acaba e o lado "bom" vence, é plausível acharmos que tudo ficará bem. Mas nem sempre é o que acontece... Meses depois de tudo acabar, ainda é difícil desabafar, principalmente se for com pessoas que dedicaram a vida a te machucar com a desculpa de que queriam te ajudar. Com ele não seria diferente... "Eu não sou seu espelho..." ~ Pode conter gatilhos em relação a ansiedade, depressão, 4ut0 multil4ç40, tentativa de suic1di0, família narcisista entre outros. Se algo assim te faz mal NÃO LEIA.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#hp #familyissues #drama #narcisamalfoy #luciumalfoy #dracomalfoy #harrypotter #fanfic
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I'm not a mirror

Caso vocês tenham gatilhos com: auto multilação, crises de ansiedade, family issues ou qualquer coisa do tipo eu peço que você NÃO leia. Sua saúde sempre deve vir em primeiro lugar.

Mas se você for ler, boa sorte e boa leitura! sz

~~~~~~


Era manhã e fazia frio. O dia estava nublado e ao olhar pela janela pude ver o céu totalmente cinza escuro mostrando que poderia chover a qualquer momento.

Hoje era dia de visitá-lo e senti no meu âmago que, ironicamente, o tempo combinava com isso tudo.

Eu me dirigi ao banheiro para tomar banho e ao sentir a água morna bater em contato com a minha pele gelada relaxei os músculos que eu nem notei estarem retraídos.

Essa sempre era uma época do ano difícil para mim, a tensão me tomava e eu constantemente era assombrado pelo passado. Deixei minha mente divagar por aí enquanto tomava banho e me permitindo suspirar em desagrado quando, ao fechar o chuveiro e abrir o box, o vento gélido bateu em meu corpo.

Apesar de estar sempre ouvindo música, a minha casa hoje estava silenciosa, o que dava contraste com a minha mente que não parava quieta por nem um instante.

Me apressei em vestir a clássica roupa social preta e alguns acessórios prata logo me dirigindo para a cozinha para poder comer alguma coisa.

A guerra havia acabado há alguns meses, mais precisamente no ano anterior, mas nem por isso tivemos um tempo de paz. Assim que a batalha acabou, algumas semanas depois as aulas em Hogwarts retornaram e fomos obrigados a nos habituar com a nova realidade que antes era desconhecida.

A ordem havia vencido Voldemort e ele, juntamente de seus apoiadores, não seriam mais um incômodo. Mas não é porque os "bonzinhos" venceram que estaria tudo certo.

Pessoas e famílias sofreram danos irreparáveis, diversas perdas, sejam materiais ou sentimentais, aconteceram. Era fácil ver na expressão de algumas pessoas o quanto elas estavam prejudicadas, mesmo agora.

Diversos adolescentes foram obrigados a lidar com algo que não deveriam, diversas crianças traumatizadas pelas suas famílias. Não que eu não estivesse acostumado com o sentimento de caos, mas agora que tudo estava se apaziguando, o caos, mesmo que fosse mínimo, parecia ter um impacto muito maior em nossas vidas e mente do que teria quando estávamos na incerteza da vida.

Não é o que deveria acontecer, mas agora a incerteza parecia muito maior e por diversas vezes eu me peguei desejando voltar algum tempo no passado. É com certa frequência que vem na minha mente o pensamento do que poderia ter sido.

Se eu tivesse feito escolhas diferentes, se eu não tivesse tentado voltar atrás, se eu não tivesse falado, se eu não tivesse mudado e se eu não tivesse me forçado a tentar mudar... o que poderia ter sido? Quando há tantos "se" em uma história é comum ouvir para deixarmos isso, esquecer. Mas para mim, esquecer nunca foi uma opção. Acredite, eu tentei.

Ao terminar de tomar café eu me levantei saindo de casa e trancando-a. A viagem até onde ele estava seria meio longa então era importante que eu saísse cedo. O motorista já me esperava em frente a minha porta para podermos dar início a viagem.

Eu nunca gostei da ideia de dirigir, mas mesmo que gostasse não poderia, já que ainda estou no que deveria ser o auge dos meus 17 anos.

Eu sabia que ele se importava comigo, mas pouco antes de a guerra estourar nós conversamos, eu falei meus pontos e ele me contou alguns dos dele e foi difícil ir contra. Fui obrigado a ficar ao seu lado, eu nunca me importei em fazê-lo antes, eu gostava de os agradar, mas com o tempo você começa a montar as próprias opiniões e gostos e se torna difícil continuar tentando agradar pessoas ao seu redor quando isso vai contra seus princípios e o que você acredita.

Dificilmente ele me falava todos os seus pontos, só me proibia de fazer algumas coisas, me mandava fazer outras e eu, se quisesse que todos em casa continuássemos "bem", deveria acatar sem tentar insistir nas minhas ideias. O que nunca deu muito certo já que em algum momento eu me cansei de fazer as coisas para os outros sem nunca me priorizar.

Foi nesse ponto que se tornou comum ouvir eles falarem coisas sobre mim. Foi quando eu retrocedi e voltei a tentar agradar eles novamente, mas não seria tão fácil quanto quando eu não sabia de nada.

Todos os meus anos se tornaram muito conturbados em prol de agradar o meu pai e a minha família, mas isso me corroía enquanto me marcava com danos que até o momento eram irreparáveis. Ou eu acreditava serem... muitas vezes eles ainda parecem ser, mesmo depois de diversas sessões de terapia.

Mesmo sem querer algumas vezes, eu ainda guardava um carinho imenso por todos os que faziam parte da minha família, mas eu não poderia fingir que não fui muito ferido por ela direta e indiretamente.

Eu deixei de me sentir suficiente e de fazer coisas que eu gostava. Senti vergonha de ser eu mesmo e a essa altura era comum eu afastar as pessoas de mim por medo do que iriam falar ou de como iriam reagir.

Quando a guerra acabou eu pude começar a me sentir vivo novamente, tentar correr atrás de algumas coisas que eu gostava. Mas eu ainda morava com meus pais e a ideia de seguir com o que eu gostava se tornou distante, quase impossível.

Era como se a minha vida fosse uma tela que eu sempre tentava pintar com diversas cores quando tentava ser eu mesmo, mas ao colocar uma cor diferente alguém vinha tacar um balde de tinta cinza novamente.

Morar onde eu morava era sentir como se eu estivesse sendo constantemente despedaçado, estando perdendo pedaços de mim que eu havia acabado de achar pois alguém fazia questão de o arrancar. E esse alguém era, geralmente, pessoas que deveriam ser a minha família e que deveriam me aceitar... não é?

Eu ouvia frequentemente a frase "Isso é para o seu próprio bem, eu só quero o melhor para você." como desculpa para tais ações, mas nunca consegui realmente aceitar e perdoar isso vindo deles.

Outra frase era "pessoas machucadas machucam pessoas" mas não eram eles que deveriam me proteger?

Um tempo depois do início da calmaria pós guerra as relações entre membros de algumas famílias começou a ficar complicada. Filhos discordavam dos pais, casais discordavam e brigavam entre si... e mesmo na minha casa a relação entre eu e os meus pais começou a ficar mais complicada.

Minha mãe, que já não estava muito bem, veio a falecer pouco antes de eu começar a ir na terapia trouxa. Nós fizemos o velório e depois disso nunca mais fui ao seu encontro, observar o seu túmulo era mais do que eu me permitia passar. Depois de tudo, não conseguia sequer pensar nela como uma pessoa boa, que um dia eu acreditei que ela era.

Depois de algumas horas o carro finalmente parou e eu desci me permitindo parar por um momento encarando a entrada do local e voltando a andar para adentrá-lo.

Eu passei pelos corredores que se formavam a céu aberto olhando alguns nomes pelo caminho com flores e velas ao seu lado.

Segui andando até finalmente ver o seu nome. "Lúcius Malfoy" estava encravado no mármore do túmulo com uma foto sua ao lado. Em baixo seguia sua data de nascimento, mas a data de morte faltando, além de uma breve frase:

"Dois lobos brigam, qual deles ganha?"

Ao lado de seu túmulo vazio, ficava o túmulo de minha mãe. Mas hoje, eu não tinha vindo até ali pra ver ela. Acho que eu nunca iria ali para vê-la...

Eu me sento em frente ao túmulo com uma certa dificuldade. Era possível sentir todo o meu corpo travando e o sentimento que gritava para que eu saísse correndo dali, mas esse não era um dia que eu poderia fazer isso.

Ao encarar a pedra por um tempo eu senti meu coração errar uma batida e logo começar a acelerar descontroladamente.

Enquanto tudo o que eu já vivi vinha a minha mente eu sentia a minha temperatura corporal abaixar me deixando tremendo, se eu tremia pelo dia frio ou pelo ataque que eu comecei a ter que fazia eu me sentir gelado mesmo de casaco eu já não sabia. Pude ter uma noção leve das minhas palmas suando e contraindo em torno das minhas coxas e um filete de líquido correu pelo meu rosto, me deixando sem capacidade de diferenciar se eram lágrimas ou mais suor.

Falar com meu pai, ele podendo responder ou não, continuava a ser aterrorizante para mim. Nunca consegui falar o que eu queria com ele, por mais que o preferisse à minha mãe, assim que ele falava um "a" eu só ouvia e não ousava responder. Por mais que eu não concordasse com ele, tudo o que eu conseguia fazer quando "conversávamos" sobre algo sério era assentir positivamente e em silêncio.

- Oi, pai... - me forcei a começar. - Faz um tempo que não conversamos, né...

Era notável a falha na minha voz trêmula. Percebia a garganta ficar seca e logo mais ficaria irritada, tenho certeza.

Eu nunca fui muito de acreditar que as pessoas poderiam ouvir algo que nós disséssemos depois de mortas, apesar de que definitivamente acredito ter algo após a morte. Esse fato tornava estranho para mim estar naquela posição, mas era algo que eu sentia que deveria fazer.

Eu não queria guardar mágoas, depois de tudo, eu precisava desabafar para seguir em frente.

- Há muito tempo eu quero falar algumas coisas pro senhor, mas não acho que você vá ouvir de qualquer forma. Você nunca foi muito de ouvir... - retorno a fala. - não queria ter ressentimentos, mas eu tenho, e não quero conviver muito mais com eles. Acho que no final esse foi um dos principais motivos por eu ter me afastado do senhor.

Era um fato esse, eu não achava. Eu guardei muitos ressentimentos da minha família e, por isso, mesmo enquanto morava com eles eu me deixei afastar o máximo possível.

Eu nunca gostei muito de contato com pessoas, por diversos motivos e traumas, mas mesmo em casa eu era resguardado. Me permitia mostrar um pouco mais, ao mesmo tempo que não mostrava nada. Sair do quarto para interagir era um desafio. Eu me levantava mais tarde e me recolhia mais cedo, isso para não ter que falar tanto.

Eu atribuo isso às diversas piadas, que ouvir em qualquer lugar que eu ia, que falavam sobre como eu era ou sobre o que eu gostava.

- Sabe... era muito doloroso viver ouvindo que você me apoiava mas perceber que esse apoio só vinha se eu agia como você esperava... - a minha voz quebrada dificultava a minha fala e ela insistia em sumir com frases demasiado longas. A essa altura o chão já tinha algumas manchas das minhas lágrimas e eu lutava para impedir meu nariz de escorrer muito. - Eu guardei tudo por muito tempo tentando agradar vocês, mas vocês sequer percebiam isso, não é?

O bolo na minha garganta machucava e eu sentia como se fosse vomitar a qualquer momento. A minha roupa já começava a encharcar com o suor e pude sentir gotas caírem do céu aos poucos. Calmas, devagar, grossas....

Molhando ainda mais meu corpo e a minha face, iniciando poças ao meu lago. Em um som baixo demais, quase mudo. Pingando, respingando...

Pinga, pinga, pinga...

- Minha intenção nunca foi ir contra vocês, mas eu não conseguia mais ficar ao seu lado e foi... difícil quando... o local que deveria ser para me proteger... de repente pareceu me atacar... - a voz cada vez mais baixa à medida que eu me molhava e a chuva engrossava se tornando mais alta com trovões ressoando pelo céu.

Falar tudo aquilo em voz alta doía muito, eu não entendia ainda o porquê de eu sentir a necessidade de falar com ele em morte uma vez que em vida eu nunca procurei essa conversa. Na verdade... procurei sim, mas ele nunca me permitiu demonstrar o meu lado.

- Eu sei que o senhor pensava em me proteger, mas o que você não entendia é que não era esse tipo de proteção que eu queria ou precisava. Eu não precisava de proteção, eu carecia de apoio. - as palavras e frases escapavam da minha boca. A essa altura eu não tentava mais controlar o que eu falava ou não e isso provavelmente resultaria em frases confusas e palavras soltas, como sempre. Mas não era algo com o que eu estava me preocupando agora. - Eu não queria, nunca quis e ainda não quero alguém para me levar à crença certa, ao lado certo da guerra ou ao romance certo, como vocês tentaram me levar ao arranjar aquele casamento com Astória... eu confiei em vocês, mas... era só me ajudar a estudar e me ouvir quando... tantas vezes eu tentei falar pra ti sobre um assunto que eu conhecia e tantas outras você me dizia que eu estava errado e que deveria pensar mais até pensar cada vez mais como você... dizendo me proteger, até minha carreira você tentou escolher.

Era um fato, muitos pais machucavam seus filhos ao tentar protegê-los, não há como mascarar isso ou fingir que nunca aconteceu.

Eu abro os olhos que não notei estarem fechados e tiro os fios de cabelo encharcado que caíam em meu rosto o jogando para trás junto dos outros. Minha roupa agora pesava com a água e puxei a manga da minha blusa até a altura do meu cotovelo.

Eu ainda me encontrava ajoelhado no chão sem me preocupar em achar um abrigo das gotas que vinham do céu e se misturavam com as que vinham dos meus olhos me deixando sem saber quais eram as minhas lágrimas ou as das nuvens.

Era como se os Deuses se compadecessem do meu sofrimento e fizessem o mundo chorar pelas minhas dores.

Quando olho para os meus braços consigo ver as marcas mais claras que meu tom de pele normal se destacando me fazendo fechar os punhos com força cravando as unhas feitas em minha palmas.

Eu me lembro de quando fiz aquilo... quando as coisas começaram a ficar difíceis demais pela guerra, pelo repúdio de meus próprios colegas em relação a mim, pelo aumento das brigas em casa... e então me pareceu essencial externar aquela dor e usar a dor física para me distrair da bagunça psicológica que era a minha mente. Começando com arranhões, mordidas, passando para os cortes... até aquilo...

Ao me lembrar de tudo em flashes rápidos que surgiam na minha mente, o dia do sectumsempra... os dias das brigas... os desabafos com a murta no banheiro do quinto andar... quando tudo veio a minha mente eu me permiti rir. Eu ri do meu azar, eu ri da minha vida, eu das minhas dores, ri da minha clara incompetência até mesmo em acabar com a minha própria vida uma vez que eu ainda estava aqui e tentando ficar bem.

E era legal pensar que agora eu poderia ficar bem, se não fosse pelo fato que meu corpo e mente sempre desejavam piorar novamente, porque tudo parecia tão mais fácil quando eu estava mal. Tudo parecia simples quando eu não tinha ao que me apegar e quando eu poderia desistir a qualquer momento sem me preocupar.

E aos poucos tudo o que tinha era o som da chuva e as minhas risadas, quase como um maníaco rindo descontroladamente ali, num dia chuvoso, no meio das centenas de túmulos do cemitério, em uma conversa com uma pessoa morta que sequer estava em seu devido caixão.

Pinga, pinga, pinga...

Os pingos abafando a risada que diminuía gradativamente até ficar somente a sombra de um triste sorriso em meu rosto.

- Isso também foi por você, lembra? - perguntei mostrando meu braço com as cicatrizes por cima da marca negra. - Um pacto que, para os comensais, era tão sagrado quanto uma devoção a um Deus. Uma promessa forçada que eu mataria pessoas semelhantes a mim e que seria fiel a isso pelo resto da minha vida... Uma proteção a família e um agrado a vocês... Isso me causou tanta confusão, fez eu me odiar por muito tempo... era um sinal claro que eu estava me forçando a me tornar tudo aquilo que eu mais repudiava. No momento em que eu ganhei essa marca, não só no corpo mas também na alma, foi quando eu mais tentei abandonar quem eu era para virar aquilo que as pessoas esperavam que eu me tornasse. Foi quando eu tentei deixar de ser o julgado para me tornar o juiz.

O sonho de todos que não se encaixam em um grupo é se tornar padrão, porque dificilmente achamos um lugar para nós a menos que algum de nós crie ele. O conquiste.

As marcas permanentes no meu corpo vivo seriam sempre um lembrete do quanto eu fui forte nesse processo de desistir de me encaixar em um canto para agradar aos outros e criar o meu lugar, o meu império. Mas isso não significava que eu gostava delas, só que eram um símbolo de várias batalhas minhas, onde conseguir pintar a minha própria tela era uma delas. Mas elas também eram um bilhete de como eu fui fraco ao ponto de precisar fazê-las para aguentar a vida aqui.

- Eu não culpo você por elas, sabe? - voltei a externar. - Realmente não culpo você pelas marcas físicas que eu carrego, afinal, como poderia? Não foi você que escolheu as fazer em mim, eu fiz porque eu quis, mesmo que não estivessem em minha plena consciência. Fiz porque no momento eu acreditei verdadeiramente que isso iria me ajudar... Mas sim, eu coloco algumas das minhas marcas psicológicas como culpa sua, mesmo que eu esteja tentando resolver isso, não consigo tirar toda essa culpa de você ainda. E cá estamos nós, com você morto, parecido demais com a minha mãe, e eu tentando parar de te culpar para enfim poder ter a fase de luto e superá-la eventualmente.

Meu corpo ainda estava um pouco trêmulo, mas o choro, eu tinha quase certeza que havia cessado. Minha voz fraca e baixa, mas não mais falhada, apesar das pausas para a respiração pesada.

As flores dos outros túmulos agora estavam esmagadas pela água e não aparentavam ter vida mais, assim como meu corpo com diversos pontos doloridos pela chuva forte que continuava a cair deixando a minha vista embaçada com a dificuldade em abrir os olhos.

- Sabe... eu sentia que você, muitas vezes, queria um espelho seu andando por aí. Às vezes, figurava não como se você quisesse um filho seu no mundo, e sim alguém igual a você em certos aspectos, andando pelos lugares. Em Hogwarts... na mansão... com os comensais... - falo e dessa vez levo uma das mãos para o meu rosto tentando secá-lo inutilmente e passando os dedos de forma leve pelos meus próprios traços.

" Acontece que, eu não sou seu espelho.... eu já quis ser. Ser idêntico a você, eu já tentei. Fiz coisas que você faria, falei coisas que eu imaginava que te agradaria, mas eu entendi com o tempo que... eu não queria isso. Eu não precisava disso... mas aparentemente, quando eu fiz essa descoberta já era tarde demais. Afinal,"você foi assim a vida inteira e agora vem com essas ideias do nada. Isso não é você, com toda a certeza é obra dos seus amigos que ficam te pervertendo e colocando você contra a sua família. Você tem que ter mais noção e nós temos que passar a limitar essas amizades." - recitei a fala como ele fez tantas vezes antes. - E dessa forma se iam meu contato com tantas amizades e a minha segurança para ser eu mesmo, tirando toda a felicidade e dando lugar a uma imensa amargura que coexistia com um vasto amor e carinho. Conflitos... conflitos de pensamentos e sentimentos para com a minha própria família, para com a minha própria imagem... Picos de ego alto e autoestima baixa..."

Essas eram coisas que realmente me incomodavam. Eu sempre era impedido e por um longo tempo fiquei fazendo as coisas somente em casa, interagindo profundamente somente com quem meus pais permitiam e me perdendo dentro de tantas incompatibilidades e estradas tortuosas.

- Isso seguiu por um longo tempo, lembra? Mas então eu comecei a estudar e tentar me encontrar sozinho. Lia livros escondido, ouvia o que as pessoas falavam de certa forma sem demonstrar realmente ouvir, via debates de todos os lados para poder tomar as minhas próprias conclusões e então passei a refutar. Não importava se eu concordasse com algo ou não, eu sempre refutava a pessoa para ver até onde ela conseguiria se defender e onde estava a falha em seu argumento. Várias vezes entrava em discussões por diversão indo contra as pessoas, e quando eu me cansava eu parava de respondê-la. Isso realmente me ajudou a me entender, ver coisas que eu concordava ou não. Mas ainda não podia falar sobre nada disso em casa... E então ela morreu. O narciso de nossa casa se foi em corpo, apesar de que ela já estava morta a muito tempo antes disso. - Comentei me lembrando dos momentos que passei com ela.

Minha mãe era o narciso de nossa casa, a única que saiu da grande tradição de gerações da família Black sobre ter nomes de astros espaciais. Quando ela morreu pela primeira vez, as coisas começaram a ficar realmente complicadas. As discussões em casa aumentaram exponencialmente e não havia um único dia de paz. Contudo, no dia em que ela se foi de corpo... algumas coisas melhoram, e muito, mas outras... as cobranças eram absurdas.

- Eu realmente achei que tudo iria melhorar quando ela se fosse, mas veja só, não melhorou... - falei soltando um riso anasalado.- E então a guerra contra Voldemort acabou com a vitória de um Dumbledore morto que era representado pela ordem da fênix e, claro, o símbolo de esperança, o santo Potter, o menino-que-sobreviveu... E, uau, quando a esperança passou a alcançar também as pessoas que estavam do nosso lado da guerra foi como se tivéssemos nos tornado sobreviventes de um experimento humano que queriam vingança.

Isso era um fato. Muitos dos nossos começaram a concordar com o discurso de Potter e isso causou pequenas guerras entre os puro-sangue. Era como se os mais novos das famílias fossem obrigados a concordar com a filosofia dos antepassados. As relações das famílias virou um caos.

- Mas agora, não estamos mais juntos. Eu retornei a Hogwarts para estudar e você está morto. Nos encontrarmos a essa altura do campeonato é impossível a menos que seja em outra vida. - minha voz agora saia mais alta e firme, mas lágrimas teimosas ainda escorriam pelos meus olhos junto a chuva que não cessava. - Eu sei que não falei tudo o que havia para falar, afinal, quando tentamos ter uma conversa... espontânea, por assim dizer, nós nunca nos lembramos de falar tudo. Mas eu quero dizer que tenho consciência que a culpa de tudo não foi integralmente sua. Eu sei que não colaborei tanto, que eu deveria ter tentado explicar desde o início, mas não há nada que eu possa fazer agora além de dar o meu máximo para viver bem comigo mesmo. Até porque não tem como eu te trazer de volta à vida... Tchau, pai. Talvez nós nos vejamos em Júpiter...

Terminando aquela conversa de forma tão repentina quando comecei eu senti minhas lágrimas pararem de cair aos poucos e minhas mãos pararem de tremer, mas sem segurança o suficiente para ficar de pé, me permiti continuar sentado por alguns minutos esperando a chuva e observando o céu.

A chuva diminuía até virar uma pequena garoa e o céu começar a limpar tendo como as gotas mais grossas ali aquelas que caiam pela água acumulada em algum lugar...

Pinga, pinga, pinga... Nesse ciclo eterno que retornaria a começar quando a água secasse e a chuva voltasse a cair nesse mesmo lugar.

Fecho os olhos ouvindo os pássaros ressurgirem de seus abrigos para começarem a cantar aquela melodia baixa e bela que atormenta enquanto acalma a alma de uma pessoa terna.

Após minutos nessa mesma situação eu abro os meus olhos quando sinto uma sombra me cobrir ao mesmo tempo que a chuva para de pegar em meu corpo, mas não havia como ter parado de chover uma vez que o som fraco da água em contato com o solo ainda se fazia presente.

- Senhor Malfoy... - Começa o auror que havia me acompanhado, como eles eram instruídos a fazer sempre com qualquer um que teve envolvimento com Voldemort.

- Diga. - Peço que continue de forma curta e rápida.

- Me foi informado que Lucius Malfoy veio a óbito a dez minutos atrás. - terminou me encarando de forma séria tentando esconder a apreensão de me falar tal notícia justo quando eu estava em frente ao seu túmulo.

- Tudo bem. Mande que tragam o seu corpo para cá. - falei me levantando e dando as costas para o auror começando a me dirigir pra o carro. - Vamos, hora de ir embora.

Com a visão periférica vejo ele fazer uma feição de surpresa com a minha frieza diante da informação uma vez que ele acreditava que eu estaria aqui para checar se estava tudo bem com os túmulos dos meus pais, mas logo ele trata de esconder o sentimento voltando para o rosto neutro enquanto puxava a varinha e invocava um patrono para dar a mensagem aos responsáveis pelo enterro de Lucius. Não iria ter cerimónia, somente colocar o corpo no caixão e então no seu devido lugar no cemitério...

Era um fato, quem quisesse se despedir decentemente tinha todo o direito de vir aqui mais tarde para falar com ele.

Logo eu estava em casa, me arrumando para comer algo e dormir... minha vida finalmente iria começar amanhã, comigo podendo agir como eu mesmo, com as minhas cores...

Minha tela finalmente teria uma pintura em si...

19 de Outubro de 2021 às 23:09 0 Denunciar Insira Seguir história
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