dissecando Edison Oliveira

Após ser violentada brutalmente, Mariana é deixada para morte. Ela sobrevive mas, constantemente culpa-se pelo ocorrido. A vida se torna dolorosa. Mariana tem nojo de si. Se houvesse uma única chance, você se vingaria? Há uma mão dupla para tudo nessa vida...


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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UMA QUASE MORTE













Quando Mariana Queiroz se levanta naquela manhã de quarta-feira, ela o faz como tem feito durante todas as manhãs desde maio.

Ela sente como se não estivesse apta para aquilo, como se o simples ato de abrir os olhos significassem um insulto. Mariana caminha devagar até o banheiro, o roupão azul arrastando as pontas no chão. Lá, ela senta no vaso e ouve o trânsito na rua, as buzinas frenéticas de todas as manhãs. Ela lava o rosto e encara o próprio reflexo, quase não o reconhece, pois, ainda segue abatido, com olheiras apesar dos fortes comprimidos para dormir.

— Você está um caco, — ela diz para o espelho, e depois sorri. Quando faz isso, exibe a brecha na parte inferior da arcada dentária, onde antes havia um canino.

Ela supõe que o perdeu após receber o soco, mas há dúvidas quanto a isso; talvez o pontapé tenha sido o responsável.

De todo modo, Mariana ainda não estava encorajada o bastante para ir até o dentista e repor aquele dente. Teria de marcar o horário (pouca paciência para isso), e quando chegasse lá teria de dar explicações de como aquilo havia acontecido — e remexer nas lembranças seria doloroso.

Enquanto prepara o café da manhã, prefere escutar o chiado da frigideira com omeletes do que ligar o rádio ou a TV. Naquele horário, tudo que existia eram os noticiários, com repórteres alucinados falando sobre assaltos, roubos ou mortes. Mariana não precisava saber sobre aquilo. Não mesmo.

Ela encara uma viagem de ônibus de duas horas até o trabalho.

O carro seguia sendo um instrumento indesejável, e o ônibus era uma opção mais viável do que o metrô. No metrô haviam pessoas demais, homens aos montes, muitos deles aguardando a oportunidade, os olhares sempre atentos, as mãos sempre ágeis para abrir o zíper e causar algum transtorno.

Mariana nunca sofrera este tipo de abuso (não em algum transporte público), mas já vira uma adolescente ser assediada por um senhor certa vez. Ou acredita que viu. Ela passa o dia no trabalho digitando coisas e atendendo telefonemas, sempre fingindo estar contente, iniciando a ligação com um simpático “bom dia, aqui quem fala é Mariana Queiroz da Oportunity Seguros”, e três segundos depois a chamada é interrompida do outro lado da linha. Então ela fecha os olhos (enxerga aquele sujeito horrível encima dela), sente vontade de gritar e respira fundo.

Tem respirado muitas vezes assim ultimamente, sempre que sua mente resolve reavivar certas lembranças, exibindo tudo como um filme horroroso em um cinema sujo e abandonado.

Ela passa o resto do dia fazendo ligações, conversando muito pouco com os colegas de serviço, se assustando toda vez que alguém tocava em seu ombro para lhe perguntar alguma coisa. Quando o relógio marca 18:00 horas, ela se levanta e ajeita a bolsa no ombro. Não se despede de ninguém, caminha até o ponto de ônibus e fica ali por quase meia hora. Mariana faz todo o caminho de volta em pé, pois os lugares estão todos ocupados. Constantemente ela procura por algum homem ao redor, algum que pareça suspeito, que esteja com as mãos agitadas. Ela desce próximo de sua casa, caminha depressa, se identifica para o porteiro do condomínio e sobe até a sua residência, no terceiro andar. Ela não utiliza o elevador. É apertado demais, e caso haja algum homem ali...

Já em casa, a porta está trancada e com uma cadeira atrás dela. O encosto pressiona a fechadura na altura da chave. A TV continua desligada, e o jantar será uma única taça de vinho. Antes de deitar, Mariana sente o peito aquecer. Já sentiu aquilo anteriormente, e sabe que logo serão as lágrimas que irão surgir. Ela se encolhe em cima do sofá, abraçando as pernas. Os pesadelos certamente estavam chegando, e não dava para fugir deles. Principalmente dos que possuíam um rosto.



Aquele estava ficando calvo, tinha bigode, talvez na casa dos quarenta e era forte.

As mãos dele apertavam firme os pulsos de Mariana, que já não estava presente neste mundo. Os olhos permaneciam abertos, mas não enxergavam. Ela tentava fugir dali mentalmente, mas não obtinha sucesso. Toda vez que achava que iria conseguir, sentia o corpo ser invadido com força e a repulsa lhe trazia de volta.

O sujeito permaneceu sobre ela durante muito tempo, e quando acabou, jogou sua calcinha em seu rosto e disse que ela era péssima. Frustrado, se aproximou e lhe acertou um murro pesado na altura do queixo. Mariana sentiu uma dor aguda seguida de um apagão. Ela acredita que desmaiou por quase uma hora (como saber?), E quando acordou, o homem estava dentro dela outra vez. Agora com muita raiva e força. Uma lágrima escapou por um de seus olhos, e tudo que consegue lembrar depois disso é do sujeito ficando de pé, subindo as calças e lhe chamando de vaca. Então veio o chute. No lado do rosto, como se sua cabeça fosse uma bola. Seu cérebro sacolejou ao ponto de Mariana conseguir escutá-lo.

Ela foi abandonada para morrer naquele lugar, e quando acordou estava chovendo.

A água escorria por seu corpo, e seu rosto foi parcialmente lavado. Ela o tocou e o sentiu inchado. Havia gosto de sangue na boca. Mariana cuspiu alguma coisa e logo percebeu uma fresta entre os dentes. A chuva caía sem parar, estava escuro, e ela arrastou-se pela lama até encontrar uma árvore que lhe acolheu durante a noite. Quando acordou novamente, havia amanhecido. Tudo estava molhado e sujo. Olhando ao redor, Mariana só enxergou uma vegetação muito alta, garrafas quebradas e algo que parecia um trilho de metrô encoberto pelo limo. Supôs estar muito longe de casa, ao Norte de Pedra Negra, pois era justamente naquela direção que havia a linha férrea abandonada. Delicadamente ela abre as pernas e toca entre elas. Quando traz a mão de volta, percebe haver um pouco de sangue nos dedos. Aquilo a faz chorar involuntariamente. Com certa dificuldade, Mariana se põe de pé. Seu vestido desliza pela cintura, e logo que dá os primeiros passos, enxerga sua calcinha parcialmente soterrada pela lama. Ela caminha sentindo muitas dores por todo corpo até encontrar o seu carro. Ele está estacionado de lado em um barranco, com as janelas abertas.

O sujeito não quis roubá-lo, o que talvez signifique que more naquela região e tenha ido rapidamente para casa após destruí-la na mata. Mariana abre a porta e se atira no banco, sentindo o corpo inteiro aliviar. Ela joga a cabeça para trás por um tempo, e quando gira a chave e o motor ronca, ela vê o seu rosto no retrovisor e sente nojo. Ele está inchado, e seu lábio inferior possui um corte. Seus cabelos loiros estão desgrenhados e com mechas de lama e sangue.

— Sua vaca! — ela fala, a voz fraca prejudicada pelos lábios inchados. Ela endireita o carro e acelera, levando quase uma hora para finalmente encontrar a rodovia e o rumo de casa.



Isso foi em maio, após deixar o trabalho e ser abordada por um senhor mal-encarado no sinal de trânsito.

Ele aproximou-se com uma caixa na mão, bateu em sua janela com o nó dos dedos e disse estar vendendo doces. Quando Mariana fez um gesto negativo com a cabeça, o cano do revólver já estava apontado na altura de seus olhos. Ao menos, parecia o cano de um. Não era algo em que se poderia pensar, não naquele instante, com sua cabeça criando diversas situações e desfechos para aquele fim de tarde.

Agora, Mariana estava de folga. Ela fez o pedido uma semana antes, e logo pela manhã (enquanto acordava após outra noite ruim), recebeu a confirmação através de uma mensagem de texto. Não se sentiu mais aliviada, porém. Teria o dia inteiro disponível, poderia fazer o que quisesse, mas... O que se poderia fazer quando a vergonha e o medo lhe faziam companhia constante?

Abriu o armário em sua cozinha. Estava quase vazio, exceto por um pacote enrugado de biscoitos esquecido num canto. Ir ao mercado poderia ser interessante. Encontraria muitas pessoas até lá, e esperava encarecidamente que ninguém desconfiasse de nada. Ela não possuía marca alguma pelo corpo, e era só não sorrir para ninguém que a falta de seu dente não seria notada. Ótimo. Ela ajeita sua bolsa, desce os três andares pela escada e ignora completamente o cumprimento do porteiro.



Leva cerca de doze minutos até o Mercado Olavo, onde começa a empurrar o carrinho e circular pelo lugar. Ela passa por algumas prateleiras de enlatados, atravessa a sessão das verduras e legumes e acaba diante dos congelados. Mariana retira um pacote de frango do freezer, depois analisa a melhor opção de vinho e fica satisfeita quando sai dali sem adquirir nenhum. Achava que vinha bebendo demais desde o ocorrido, e para sua infelicidade aquilo não estava ajudando em nada.

Quando o carrinho está praticamente cheio, Mariana se desloca até o caixa. Havia uma fila considerável na única registradora que funcionava naquele horário, e Mariana temia que fosse notada. Ela agora estava usando calças largas e um moletom com a estampa do ursinho Pooh, não havia nenhuma cicatriz em seu rosto e sua maquiagem não estava em dia. Já em maio, seu vestido preto era bastante curto, delineava as curvas de seu corpo e seu batom vermelho podia ser notado a quilômetros. Sua mãe sempre lhe dissera o que pensava sobre mulheres que se vestiam daquele jeito, de como elas deveriam pendurar uma placa no pescoço com os dizeres ME FODA, e Mariana sempre a detestou por aquilo. Isso até maio, quando aquele homem desprezível bateu em sua janela e lhe deu o que sua mãe disse que mulheres como ela queriam.

A fila até que andou depressa, e vinte minutos depois Mariana já estava subindo as escadas de seu condomínio, abrindo a porta, fechando-a à chave depois e acrescentando uma cadeira na fechadura. Ela guarda todas as compras em pouco tempo, depois se deita no sofá e fita o teto por algumas horas. Quando torna a olhar o relógio, descobre serem apenas 11:00 horas. Decide então ligar a TV. Evita passar pelos canais de notícias e só para de usar o controle quando o Pernalonga aparece na tela.

Ela aperta o botão do mudo. Apenas olhar as imagens já bastam, não está interessada em que aquele coelho falante tem a dizer.

Poucos minutos depois, começa a preparar o almoço. Hoje será macarrão com filé de peixe, e o cheiro até que está agradável. Por um instante muito pequeno, Mariana parece esquecer de sua vida. Da mulher frágil que se tornou, envergonhada, que se culpa diariamente pelo que lhe aconteceu.

Ela faz o almoço sem pensar em nada, apenas em que tempero irá usar e no quão saboroso tudo aquilo irá ficar. Mariana se alimenta bem, lava toda louça e ainda lhe sobra um tempo para ler. Ela adora ler. Seu tablet possui diversos arquivos em formato de e-book, e ela já leu quase todos. Após vasculhar um pouco, escolhe TEATRO DA VIDA, de um autor ainda pouco conhecido, mas que Mariana admira bastante.

Ela não sabe exatamente do que trata o livro, mas espera que não haja nada violento em alguma parte. Após ler quase vinte páginas, Mariana deixa o tablet de lado. Ela ficou incomodada com um parágrafo que leu, onde havia um sujeito que pretendia comprar uma arma para se proteger. Para ela, aquilo não significava proteção. Cansada, quis dormir. Dormiu. Acordou com o sol começando a se esconder entre nuvens escuras. Ela levanta do sofá e repara no celular ao lado. Há uma quantidade absurda de mensagens em sua tela. Quando as lê, descobre que todas foram enviadas por Daiane Coimbra, sua colega de trabalho. Ela quer que Mariana se reúna com outros colegas em um restaurante, pois parece que alguém está de aniversário. Este alguém é a própria Mariana, que não sabia ao certo nem o mês que estava. Ela digita que não poderá ir e envia. Segundos depois Daiane lhe responde ser uma pena. Mariana ignora.

Não acha de modo algum que é uma pena. Talvez a outra Mariana, a Mari, como gostava de ser chamada, adoraria ir em uma festa. Provavelmente ela beberia e daria risada, depois piscaria para algum rapaz e horas depois estaria cavalgando nele. Sem culpa alguma. Ela pensa naquela possibilidade e sente-se suja outra vez. Enxerga lama escorrendo por seu corpo, e quando passa a mão nos cabelos, os sente emaranhados e sujos. Precisa de um banho. Talvez até de dois. No dia seguinte ao ocorrido em maio, Mariana passou a tarde deitada debaixo do chuveiro, deixando a água escorrer e ir embora, levando toda sua culpa pelo ralo. Levou quase uma semana para que seu rosto perdesse o inchaço, e quando voltou para o trabalho, explicou para o chefe que precisou se ausentar por doença. O chefe entendeu a história toda (ou fingiu entender), e disse apenas para Mariana ir para seu posto.

Ela entra no banheiro e tira a roupa. Vê lama e sangue por tudo. Quando olha para o rosto no espelho, o enxerga inchado outra vez.

— Continua um caco, vaca. — Diz e liga o chuveiro.

Ela não dá importância, e durante o resto da noite, Mariana decide ficar por ali.



Na manhã seguinte, está chovendo. Assim como naquela noite de maio. É difícil até mesmo olhar para a chuva lá fora.

Ela parece exalar um odor forte, talvez de lama, sangue e perfume barato. Mariana não gosta daquilo, pega o celular e envia uma mensagem para o chefe. Nela diz apenas ESTOU DOENTE, sem mais explicações. Espera que o chefe entenda, mas acha difícil que isso aconteça. Ele é um homem justo, firme, mas que já lhe deu inúmeras oportunidades. Mariana não acredita que receberá mais uma. Entristecida, senta diante da janela e passa o dia olhando para a rua.

É horrível olhar para toda aquela chuva, mas não consegue evitar. Talvez, se olhar por tempo o bastante, consiga vê-lo ir embora para sempre.




Não está chovendo quando Mariana acorda no outro dia. O sol está forte, iluminando a cidade, e ali de cima é como se tudo estivesse pegando fogo.

Ela se arruma para trabalhar (não passa batom e coloca a roupa mais larga que possui), desce as escadas, e ajeita sua bolsa que quase cai quando se apressa um pouco mais. Desta vez, ela escuta o bom dia do porteiro e não o ignora. Quando vira a cabeça para ele, seu corpo reage como se batesse em uma porta de vidro. Há um homem calvo e de bigode sentado na guarita, atrás de uma mesa que possui um monitor. Ele está sorrindo para ela.

Mariana não consegue trabalhar.

Faz apenas duas ligações naquele dia, e em ambas não consegue dizer o que o protocolo pede que ela diga. Ao meio-dia, seu chefe lhe chama até a sua sala. Eles conversam por quase uma hora, e em seguida Mariana sai de lá com uma carta de demissão nas mãos. Ela não parece se importar. Talvez nem saiba o que aconteceu. Ela não escutou nada que saiu da boca do chefe. Enquanto deixa o escritório, recebe um cumprimento discreto de Daiane e um gesto que significa que depois irá ligar para ela.

Mariana já está no ônibus retornando para casa quando seus pensamentos quase a fazem chorar.

A quanto tempo ele estaria ali, na portaria? Não era o mesmo porteiro nas outras vezes, antes de maio. Se fosse, o teria reconhecido. Era como se ele tivesse descobrido que ela não havia morrido e voltasse para acabar o serviço. Seria mesmo possível?

Mariana não sabe o que achar. Ela quer apenas deixar de existir, se tornar invisível, encontrar um chuveiro e passar o resto da vida lá embaixo. Seu raciocínio está completamente perdido, e quando ela percebe, há um homem batendo em seu braço a fazendo saltar do banco.

— O que você quer? — ela quase grita, o olhar selvagem.

— Você precisa descer, moça. Estamos no fim da linha.

O motorista está apontando para a saída. Mariana não imagina onde está, e isso não importa. Ela sabe aonde não quer estar. Após descer, começa a andar na direção que ela supõe que fica sua casa.

O sol está forte, esquentando seu corpo magro preso naquele moletom. Em momento algum ela cogita tirá-lo; a camisa que está usando por baixo é reveladora demais.

Momentos mais tarde, ela enxerga o seu condomínio ali perto. Logo depois, enxerga também a guarita. Seus braços se arrepiam apesar do calor. O suor está escorrendo pela sua testa quando ela chega diante do portão de ferro. Seu dedo treme ao tocar no interfone.

Após o bipe, uma voz masculina surge por ali.

— Sim?

É a voz dele. Está um pouco distorcida por causa do fone, mas é a voz dele, com certeza. A mesma voz que a chamou de vaca e disse que ela era péssima. Mariana tenta dizer alguma coisa, mas está quase chorando. Após se recompor, aproxima os lábios do interfone e diz:

— Sou moradora deste edifício. Libere minha entrada, por favor.

Pedir por favor fez seu estômago revirar. Ela havia lhe pedido a mesma coisa em maio, enquanto ela estava quase desmaiada e com as pernas abertas.

— Eu pediria para ver a sua identidade, — a voz chiou no interfone. — Mas eu já lhe conheço. Pode entrar.

O portão fez um ruído ao ser destravado. Mariana salta quando o escuta. Ela o empurra e pensa em correr, mas desiste da ideia logo que nota que não irá conseguir. Suas pernas estão moles demais para isso. Devagar, ela cruza diante da guarita. Não quer olhar lá para dentro, mas não consegue evitar. Primeiro, vê seu próprio reflexo no vidro escuro e repara o quanto está assustada.

Não queria demonstrar aquilo para aquele monstro, mas falhou miseravelmente na intenção. Em seguida, enxerga o sujeito lá dentro. Ele está sentado, vestido com um uniforme branco, um sorriso malicioso nos lábios. Mariana sente vontade de entrar naquela sala e esmurrar o rosto dele, chamá-lo de enrustido, de covarde e de monstro, mas o medo a faz manter o controle. Ela desvia o olhar e acelera o passo, e quando já está longe o bastante, escuta a voz dele lhe chamar. Seu corpo congela instantaneamente.

— O que você quer? — ela pergunta, sem se virar para ele.

— Chegaram algumas coisas para a senhora, hoje. Pelo correio. Precisa vir até aqui buscar. Ou, se preferir, entrego mais tarde em seu apartamento.

Mariana achava horrível como tudo que saía da boca daquele sujeito soava nojento e obsceno. Ela suspeitava que essa era de fato a intenção, que ele fazia propositalmente apenas com a ideia sinistra de constrangê-la. Devagar, ela se vira na direção da guarita. O enxerga de pé, escorado na janela. Não está sorrindo desta vez. Daquela forma, lembrava ainda mais aquele homem perverso, coberto de más intenções.

Mariana se aproxima e pede que ele lhe entregue suas coisas.

— Claro, — ele diz. — Apenas rubrique aqui.

Ele mostra uma linha pontilhada no rodapé de um folha, apontando com uma caneta que Mariana retira de sua mão rapidamente. O sujeito se afasta e quando retorna está segurando um envelope pardo. Ela pega de sua mão e da as costas sem agradecer.

Quis dar uma rápida olhada para trás para ver se ele continuava lhe observando, mas preferiu se conter e continuar andando, cada vez mais depressa, só parando após entrar em sua residência e trancar a porta com duas voltas a chave e mais a cadeira.



O envelope pardo foi jogado sobre a cama. Nele havia apenas uma conta que ainda precisava ser paga e uma amostra de estofados para sofá enquadrados em uma única folha.

Mariana estava agora sentada, apreensiva, o olhar teimando em apontar para a porta sempre que seus pensamentos ordenavam.

Duvidava que aquele homem conseguisse subir até ali para lhe infernizar, não com toda a segurança que protegia o condomínio e seus arredores.

Além disso, a porta estava bem trancada. Com duas voltas da chave e mais uma cadeira encostada.

Ela ainda lembrava da maneira que ele estava lhe encarando, do modo como não desviava o olhar, da pouca preocupação em ser reconhecido. Talvez porque ele não temesse as consequências de seu crime. Um crime que Mariana jamais levou adiante, um segredo sujo e depravado que ficava melhor escondido em sua mente do que na gaveta de algum delegado. Ou então (Mariana cogitava isso também), ele simplesmente não a tenha reconhecido. Seria bastante provável. Ela era apenas mais uma vaca, uma terrivelmente péssima, que nem sequer habitava as lembranças daquele sujeito. Preferiu acreditar naquela hipótese e em poucos instantes já imaginava em como deveria agir dali em diante, se haveria algo que ainda pudesse ser feito, quando escutou o telefone tocar. Na tela estava o nome Daiane e uma pequena imagem de seu rosto em um círculo.

Sem vontade, Mariana levou o celular até a orelha.

— Finalmente consegui ligar para você, — ela diz. — Que foi que aconteceu, hoje? Quer dizer, porque o velho demitiu você?

— Eu não estava contribuindo com a empresa. Simples assim.

— Que idiotice. Quer que eu passe por aí, depois do trabalho?

— Não. — Mariana quase grita. Não queria que sua amiga, jovem e atraente, fosse vista por aquele porteiro. — Acho que não vou estar em casa. Preciso arejar os pensamentos.

— Vai ser bom para você.

— Escute, Daia, preciso desligar. Estou organizando minha vida, aqui. Ela está uma bagunça. Outra hora conversamos um pouco. Beijos.

Sem ouvir a resposta da amiga, Mariana desliga a ligação e joga o celular no sofá.

Enquanto conversava, sentiu-se enjoada e achou que iria vomitar. Não sabia calcular em números a extensão de seu medo, mas tinha certeza que ele era enorme. Sentia-se encurralada na própria casa, como se a qualquer momento a porta fosse ser arrombada e aquele sujeito passasse por ela enfurecido, arremangando as mangas e dizendo que finalmente iria terminar o serviço. Sentada e com a cabeça enfiada entre as pernas, Mariana se perguntava quando aquele sonho ruim iria terminar.



Ela evitou colocar os pés na rua pelos próximos três dias, e quando finalmente o fez, o homem que estava na guarita não era o mesmo que havia lhe arrastado até a mata.

Aquele se chamava José e já era avô, e sempre fora ele quem esteve atuando como porteiro por ali, Mariana se lembrava. Ainda receosa, ela o cumprimenta e sai até a rua. Então, após andar alguns passos, retorna e bate no vidro. A janela se abre e José está atrás dela, sorrindo.

— Sim, senhora?

— Sei que vai parecer estranho, mas… hum, não havia outro homem trabalhando por aqui, alguns dias atrás?

— Sim, havia, — confirma José, coçando a vasta testa. — Ainda há, na verdade. Ele está de folga hoje. Retorna amanhã. É um bom sujeito.

— Faz tempo que ele trabalha aqui?

José pensa na pergunta e faz um rápido cálculo mental.

— Um mês, mais ou menos — ele responde.

É a vez de Mariana fazer um cálculo rápido. Ela estava de aniversário alguns dias atrás, e isso ocorria em julho. Em maio, ela recebeu a visita do caos e sua vida evaporou do universo, então, se ela ainda for capaz de contar, aquele homem imundo não estava por ali na época do ocorrido. Por outro lado, estava ali tempo o suficiente para vê-la quase todos os dias já há um mês, passando em sua frente, com a cabeça baixa, ignorando tudo a sua volta. Um mês. Não conseguiu controlar um leve tremor que percorreu por seu corpo. Quando sua atenção finalmente retorna, ela vê que José está olhando para ela, preocupado.

— Por acaso ele fez alguma coisa para você, Mari? — ele diz, fazendo com que Mariana cruze os braços, acanhada.

Aquela era uma boa pergunta e uma excelente oportunidade para finalmente contar para alguém, cair em desespero e gritar, mas Mariana possuía uma coisa ainda pior do que sua vergonha; a falta de evidências. Ela poderia dizer a verdade, se agarrar no braço de José e gritar para ele chamar a polícia e... Depois? O que aconteceria depois? Como iria comprovar todas aquelas aberrações?

Eram perguntas demais, e todas elas só mostravam que Mariana Queiroz estava perdida (talvez até para sempre), naquele labirinto abusivo de lama onde calcinhas não eram bem-vindas.

— Se ele até mesmo falou algo que lhe constrangeu, me diga — continuou José, desconfiado. — Diga que hoje mesmo repasso a informação para nossa central e ele está fora do jogo.

— Ele não me fez nada. — Ela diz, ainda com dificuldade, e dizer aquilo foi quase como ser abusada outra vez. — Apenas fiquei curiosa. Como o senhor sempre foi o nosso porteiro, entende?

José sorri, orgulhoso.

— Quinze anos vendo gente entrar e sair, subir e descer. Muitas histórias para...

— Como ele se chama? — interrompe Mariana. De repente, uma ideia parece surgir no fundo de sua mente, como uma linda rosa brotando em um jardim escuro e pantanoso.

— Bem, é... Acho que Manoel ou Maurício... Não tenho certeza. Só um instante.

Ele se vira para pegar uma prancheta. Passa folha após folha, então confirma com um aceno sutil de cabeça.

— Manoel. Está aqui, na folha ponto.

— Pensei em dar as boas-vindas para ele. Sabe, em nome de todos os condôminos.

— Boas-vindas após um mês? Bem, acho que ele pode gostar. Em pensar que estou aqui há quinze anos e nunca recebi uma festa surpresa.

José sorri mas Mariana não consegue. Ela não o faz desde maio, e não faz questão de lembrar quando foi a última vez que exibiu os dentes.

— Não é uma festa, — ela fala, e se espanta com a tranquilidade em sua voz. — Acho que é apenas um olá. Sabe se ele tem alguma comida preferida?

José teria de pensar um pouco (provavelmente teria até mesmo que ligar para o sujeito), e Mariana não achava que seria um problema. Ela tinha o dia inteiro para ir até o Mercado Olavo, comprar os ingredientes e decidir se escreveria um cartão para ele ou não.

Se escrevesse, o que iria dizer? Ela não fazia ideia, estava entusiasmada demais, e fazia muito tempo que não se sentia daquela maneira. Como uma criança levada que sabia que iria aprontar uma bagunça e que não se importava com nada daquilo.



Ao que parecia, Manoel não tinha uma comida predileta. Tampouco, que gostava de interagir com outras pessoas.

José lhe dissera que ele era um bom sujeito, calado e com boas recomendações de empregos anteriores, mas Mariana estava pouco ligando para todas aquelas informações. Por fim, José lhe dissera que uma torta de limão seria o suficiente para agradá-lo.

— Ele admitiu que adora este sabor em uma torta, — confessou José, rindo com a mão diante da boca como um garotinho travesso.

Mariana despediu-se logo depois, e minutos mais tarde José a observou retornar segurando alguma coisa enrolada em uma sacola plástica. Essa coisa era uma torta de limão, recheada com nata e chantilly. Ela a colocou na geladeira, sentou-se no sofá e esperou.

Desejou que todo aquele fervor passasse, que fosse embora tão rápido quanto ele chegou. Quis, outra vez em sua vida, voltar a ser aquela Mariana covarde, que não mostrava mais as pernas descobertas e que tremia antes de iniciar uma conversa. Torceu para que aquilo se tornasse realidade, mas uma vez que sua mente realizou aquela fantasia doentia, seria difícil desconstruí-la. Ela via Manoel estirado no chão, o corpo convulsionando, baba lhe escorrendo pelo canto da boca e a torta de limão ao lado, parcialmente comida. Era uma visão maravilhosa, e não dava para simplesmente apagá-la. E seria fácil demais, sem sujeira, sem gritos. Tentador.

Mariana convenceu-se de que era a coisa certa e levantou-se abruptamente. Vasculhou seu armário de utensílios (uma tesoura de jardinagem, um par de luvas, uma coisa de alumínio que deveria se chamar alicate), e ali, debaixo de um vaso de plantas vazio, ela encontrou a embalagem. Era de plástico, e aquelas coisinhas cor de rosa estavam lá dentro. Elas sempre foram eficazes com os ratos que às vezes frequentavam sua cozinha, e Mariana esperava do fundo do coração que elas não a deixassem na mão daquela vez. Ela sacode a embalagem e escuta o barulho que ela faz. São como pedrinhas caindo no chão.

Em seguida, retira a torta da geladeira. Ela espalha um pouco daquelas coisinhas miúdas entre as camadas do chantilly. Não sabe se espalhou o suficiente (era a primeira vez que estava envenenando uma pessoa), então decide utilizar todas elas. Ao final, amassa a embalagem e a joga na lixeira. Com tudo pronto, Mariana desliza as costas pela parede até cair com a bunda no chão. Está em choque, empolgada, apavorada, todas essas emoções ao simultaneamente, borbulhando dentro de si, uma festa estranha que ela não sabe ao certo quando irá acabar.

Não está dando importância para o que irá acontecer depois; as chances de ser descoberta são enormes, mas ela não vê outro caminho, não algum onde ela possa finalmente ficar em paz — mesmo que sentada atrás das grades. Entorpecida, Mariana joga a cabeça para trás e tenta dormir. Não consegue. Está agitada demais. Ela passa a noite em claro, andando de um lado até o outro, roendo as unhas, olhando para a torta.

Ela já está na quinta xícara de café quando repara o céu ganhar algumas cores no horizonte.

O relógio diz serem quase seis horas da manhã, e ele deve chegar em breve. José havia dito que o turno de Manoel se iniciava às sete, então precisava iniciar a sua empreitada. Mariana agarra a torta e o nervosismo quase faz que ela a derrube. Teria sido um desastre, o fim das belas imagens de Manoel morrendo aos poucos em seus pensamentos.

Com cuidado, ela caminha e atravessa a sala. Em seguida, já está no corredor, descendo as escadas, delicadamente, passo após passo, sem pressa, os espasmos de Manoel cada vez mais altos e prováveis.

Ainda sem entender muito bem como nasceu aquela ideia, Mariana entrega a torta para José. Ele estende os braços e sorri, animado.

— Que coisa mais linda! — ele diz, lambendo os lábios de modo teatral. — Se ele não gostar, é um grande idiota.

— Tem razão, José. Tem toda razão.

— Espero que sobre um pouco para mim.

Mariana sente o coração acelerar. Como aquilo não havia passado por sua cabeça? Que José poderia querer abocanhar um pedaço? Como?

Ela pensa rapidamente em uma saída.

— Entregue para ele assim que ele chegar. Já para você, tem outra surpresa.

— Agora fiquei animado.

— Tem alguns sanduíches em meu apartamento, se você quiser.

— Se eu quiser? Traz logo para cá, moça!

O coração volta a bater normalmente. Mariana leva cerca de quinze minutos para subir e depois descer, segurando uma bandeja com alguns sanduíches que por um milagre de Deus ainda haviam sobrado. Ela os estrega para José, que agradece e abocanha um sanduíche de imediato.

Enquanto ainda está mastigando, ele acompanha Mariana se afastar. Então, uma pergunta lhe vem a mente e ele lhe chama. Mariana olha para trás.

— Digo para ele que a ideia da surpresa partiu de você?

Mariana reflete por um instante e depois diz:

— Não há necessidade. Ele não me conhece.



A última vez que Mariana dirigiu aquele Palio, ela estava desfigurada e se sentindo um lixo.

Agora, ela ainda se sentia um pouco assim, mas estranhamente mais aliviada, como se um peso muito grande escorregasse pelos seus ombros.

Ela dirigiu por quase três horas, sem parar para se alimentar ou descansar. Estava exausta. Estacionada em um refúgio bastante movimentado, Mariana inclina o banco e o corpo geme. Ela sabe que não tem para aonde ir, que logo será uma fugitiva da lei, que seu rosto estará em todos os noticiários, com aqueles apresentadores sensacionalistas lhe chamando de assassina fria e calculista. Não era de todo ruim. Melhor que vaca e péssima, ela achava.

O fato de todas as coisas terem invertido de posição lhe causava um certo desconforto. Ela não teria justificativa para o que fez, não para os outros. Para a população, Mariana Queiroz seria apenas uma psicopata que agiu sem motivos. Ela quase conseguia imaginar o rosto tristonho de José na tela da TV, dando entrevistas e falando sobre como ele estava se sentindo culpado por ser ele quem entregou a torta. Ele também irá dizer que Mariana fez inúmeras perguntas sobre o porteiro Manoel, e possivelmente a notícia será distorcida ao ponto que todos passem a crer ser ela quem estava dando bola para ele. Na internet, dirão que ela é uma puta reprimida. Ela não está com medo de nada disto, desde que possa voltar a viver sem aquela sensação horrorosa que vinha habitando sua vida desde maio. Se querem chamá-la de assassina e vadia, que assim seja, afinal.

Ela acorda horas depois e vê que já anoiteceu. Passou o dia dormindo naquele refúgio, cansada demais, o corpo implorando por um descanso justo. Mariana endireita-se no banco e faz uma careta quando suas costas estalam. Ela abre o porta-luvas e tira de lá o seu celular. São quase oito da noite, e na tela há inúmeras chamadas feitas por sua amiga Daiane. Não satisfeita, ela ainda lhe enviou uma mensagem. Bocejando, Mariana clica no ícone da carta e começa a ler:



“Onde você se meteu? Estou tentando ligar para você o dia todo. Quero saber como minha amiga está. Você faz uma falta danada lá no serviço. Você era a única pessoa que eu realmente admirava por lá. E a segunda que admirava na vida. O primeiro é o meu pai, e espero que um dia você o conheça. Acho que vai gostar dele, apesar de ser meio caladão. Bom, acho que já falei demais e desculpe se estou lhe importunando. Mais tarde vou tentar ligar outra vez. Agora, me dê licença que vou devorar uma torta de limão que meu pai trouxe do emprego e deu só para mim. Beijos, minha grande amiga!”

























































































































16 de Outubro de 2021 às 17:41 0 Denunciar Insira Seguir história
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