arnaldo-zampieri Arnaldo Zampieri

Quando adulta me senti ridícula. Então eu abri mão, e viver se tornou desenhar sem borracha.


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Cheiro de Chuva

Quando criança, eu tive um pano, um pequeno pano que me acompanhava para dormir. O contato dele com meu rosto me trazia calma. Não era pela maciez do tecido nem pela estampa, com aqueles ursos carinhosos e coloridos. A minha calma morava no cheiro dele. Um cheiro de chuva.

Eu colocava bem encostado no rosto, e sentia que o mundo não era mais tão complicado. Minha mãe e nosso vizinho ainda eram somente isso, não haviam se tornado um casal de pessoas que nunca mais eu vi. Meu pai ainda sorria. Com o cheiro de chuva , era como se ninguém mais me olhasse diferente ou fizesse comentários cobrindo a boca na minha presença.


O aroma daquele pedaço de pano era uma borracha para as imperfeições dessa vida. Quando adulta me senti ridícula. Então eu abri mão, não somente daquele pano, e viver se tornou desenhar sem borracha.


Eu não queria fazer bobagens, mas é exatamente assim que nós cometemos todas elas. Nesses anos eu deixei algumas pessoas tocarem a minha alma, mas elas não se sentiram em contato. Me libertei, mas em pouco tempo eu era prisioneira, e não mais, senhora da minha mente. E a falta de compreensão de quem julga colou em minhas costas um papel escrito "Louca".


Quem foi importante quis mais que isso, tentando assumir papel de diretor do meu roteiro e juiz do meu próprio jogo. Palavras soando como trovões, que interrompiam meus argumentos. Cabeças que só acenavam positivamente quando eu dizia ou agia da forma menos transgressora. Me matava, pra não morrer de rejeição. Ninguém nunca se desculpou pelas suas atitudes, só me culparam pelas minhas reações. Senti a tempestade chegando, mas sorri. Eu sabia que aguentaria, afinal, em meio ao temporal, sempre existe o cheiro de chuva.


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Sugiro uma leitura complementar, a publicação de nome "Tempestade", e deixo aqui um agradecimento especial. Obrigado @c.-clark-carbonera pelo incentivo à explorar esse universo.


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14 de Outubro de 2021 às 17:12 7 Denunciar Insira Seguir história
5
Fim

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Arnaldo Zampieri Assimétrico como a vida é o meu trabalho. Dividindo essa existência em: Composições, crônicas, contos, poesias e HQs.

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CC C Clark Carbonera
Cara, a sinopse já cata nosso olhar de um jeito... "...e viver se tornou desenhar sem borracha." A poesia durante a narrativa vai se tornando predominante nos seus contos eu aprecio demais isso. Poesia não é escrita somente em versos, ela é sentida no coração e depois libertada conforme o som que captamos aqui dentro...encontrando sintonia lá fora... A resposta pro conto Tempestade foi linda. Podemos entender um pouco do que levou a personagem tentar desistir, e aqui em Cheiro de Chuva vemos o resgate dela, resgate esse que não dependeu de nenhum príncipe ou princesa, de nenhum ser divino, dependeu puramente dela mesma! E o título ficou muito bom também e condizente com a narrativa dos dois contos: primeiro vem a tempestade com trovões e ventania, depois aquele cheirinho de chuva, de terra molhada, de água no ar, som de calma... Agradeço por ter aceito meu desafio e por ter nos presenteado com mais um belo conto, Arnaldo! Valeu!
October 23, 2021, 15:54

  • Arnaldo Zampieri Arnaldo Zampieri
    Agradeço muito pelo comentário e por sem sempre presente por aqui. Me deixa muito motivado! October 24, 2021, 23:08
desativei Andrade desativei Andrade
Adorei o seu texto! Houve muitas partes que me chamaram a atenção, e isso me aproximou cada vez mais dele. ❤
October 14, 2021, 17:54

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