saulo-guimaraes- Saulo Guimarães

Um velho jardim, um monge solitário, uma história antiga...


Conto Todo o público.

#katana # #Samurai
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Tsuba


- Sempre gostei da cultura japonesa, me encanta sua honra e seus valores.

Realmente me foi prazeroso escrever esse conto, veio como um pássaro, sem avisar, e rápido como o por do sol ele terminou. Agradeço ao amigo Junior, afinal esse conto nasceu por causa de uma canção instrumental enviada em uma manhã nublada... – Saulo Guimarães


























Além do jardim Okamoto, existe um lugar único, sobre um bambuzal, uma pequena clareira se abre, e uma gruta preenche o vazio com o som de águas sendo vertidas.

Os raios de sol iluminam pequenas partes do solo como flechas divinas rasgando a densa copa do bambuzal.

Todas as manhãs eu o vejo lá, prostrado, ele já apresenta idade avançada, a calvície levou boa parte dos cabelos do topo da cabeça, porém alguns ainda se mantiveram longos e alvos.

Uma fina barba desce por entre as vestes laranja.

Todas as manhãs ele está lá, contemplativo, silencioso, impar... inalcançável.


Durante minha estadia no pequeno vilarejo Kobayashi, eu fiquei intrigado com a devoção dele, todas as manhãs, seja com sol ou chuva, ali estava ele, parte da linda paisagem.


Um dia minha curiosidade me fez ir de encontro com o ancião.


Antes de me dirigir a ele, eu fiz uma oração em sinal de respeito, mesmo não sendo da minha cultura, o lugar me impôs tal atitude, algo ali era diferente, era palpável, o ar estava carregado de uma essência, algo difícil de colocar em palavras.


O ancião permaneceu imóvel, como que minha presença ali fosse nada mais que uma das várias e pequenas folhas de bambu que cobriam o chão.


Nunca fui adepto de meditação ou coisas do gênero, mais naquele dia senti uma vontade imensa de fazê-lo.


Paz... pela primeira vez na vida, encontrei o vazio da mente, um lugar sem meus problemas, minhas frustrações ou perdas...Paz


Sem que fossem necessárias minhas palavras, ele então iniciou:

- Vejo que seu espírito se acalmou.

- Esse lugar fez isso, de alguma forma... Eu alcancei a paz

- A paz não habita em lugares, ela é gerada.

- Entendo.


Cada palavra que saía dele, fluía como um pequeno rio, sereno porem constante. Eu não estava preocupado com o tempo, ali, naquela clareira, o tempo não foi capaz de me seguir.


- Meu nome é Hasegawa, a muito vivo nessa terra, a muito sou tido como sábio por alguns e louco por vários.


Ele fez uma pausa e sorriu, como uma criança sorri depois de um carinho materno.


- Meu nome é James Aoki.

- Você veio de longe Aoki, mais suas raízes pertencem a essa terra, interessante como a árvore azul cresceu longe de seu solo natal.


Pela junção de meus nomes ele pôde ter percebido que vim de famílias japonesas e inglesas, ou talvez algo maior tenha sido dito, porem ainda não pude compreender totalmente.


- há muito você tem vindo a esse lugar jovem Aoki, o que você deseja?

- Conte-me, o que o senhor faz todas as manhãs nesse lugar? Ora? Medita?


Hasegawa não disse nada, ao invés disso, direcionou o olhar para frente, não pude deixar de me sentir um tolo, estava ali o tempo todo, mais minha falta de atenção ou o péssimo hábito de não observar, me fez achar que eram pedras.


Eram velhas, certamente mais velhas que eu, cobertas por musgo, porém limpas de qualquer folha, -certamente por Hasegawa- três no total, simples e rústicas lápides esculpidas de maneira simplória.


Sobre a do meio, uma tsuba foi encravada na pedra, era tão simples, geralmente tsubas tinham ornamentos ou desenhos que representavam animais ou símbolos usados por famílias, mas essa era comum, enferrujada e já trincada.

- Algum parente?

- Não, para ser sincero não os conheci pessoalmente, mas existem laços maiores que o sangue Aoki.


Ele respirou calmamente e olhou para cima, em seguida voltou a olhar para as pequenas lápides.


- Você anseia saber sobre quem foram, isso eu sinto, porém há histórias que não são belas aqui nessa terra, elas se tornam felizes depois dessa existência.


Pude sentir meus pelos arrepiarem, as palavras de Hasegawa emanavam energia, peso, algo que somente a idade concede.

Inclinei meu rosto em sinal de concordância e ele começou...


"Isso foi há muito tempo, conta-se que um camponês era muito bem visto por seus vizinhos e colegas de trabalho, sempre muito honesto e com uma honra digna de um Shogun, seu nome, bem, o tempo fez questão de guardar para si, mais sejamos sinceros, nomes são apenas a forma de nos diferenciar-mos, no fundo somos todos iguais, tudo é um e um é tudo.


O camponês trabalhava do nascer do sol até o mesmo se esconder atrás das colinas, uma vida feliz.


Toda tarde ele voltava para casa. Era simples o seu patrimônio, nada de luxo, porém algo era digno de atenção, as lanternas feitas por sua esposa, elas iluminavam a casa, como uma arvore habitada por vaga lumes.


Toda tarde ele brincava com seu filho, seu orgulho, todas as noites ele amava sua esposa, seu tesouro.

Essa era a vida que ele possuía, diferente de nós isso bastava para ele, diferente de nós ele era grato.


Um dia depois de seu trabalho, o camponês voltou para casa, mas... -


Hasegawa parou a história, seus olhos estavam cheios de lágrimas, vendo aquilo, não pude conter as minhas próprias, de alguma forma eu sabia, algo ruim estava para acontecer, afinal, a felicidade não costuma ser eterna, não aqui.


Hasegawa olhou para as lápides, uma folha pousava sobre a do meio, então ele ficou imóvel, observando algo além da folha, além da lápide.


Eu não ousei olhar, um grande temor invadiu meu peito, algo me fez inclinar minha cabeça, em respeito simplesmente fiquei em silêncio.


... O camponês chegou em casa e as lanternas estavam apagadas.


Existem duas coisas que um homem deve sempre respeitar sobre os outros, são elas seu orgulho e seu tesouro.

Quando se fere o orgulho de um homem, você provoca uma amargura sem fim e quando você destrói seu tesouro, você compra para si vingança.


Durante uma semana ele chorou, seus vizinhos choraram, as noites eram preenchidas com os lamentos do camponês, sua vida acabara ali.


Sobre a gruta nos fundos da sua propriedade ele velou e sepultou seu orgulho e seu tesouro, sobre as lápides construídas por suas próprias mãos, o camponês fez duas promessas, uma de vingança e outra de retorno.


Ele abandonou a enxada e o rastelo, vendeu todas suas ferramentas, se desfez de todos seus bens, com exceção da casa e da terra.


Em uma loja de penhores ele comprou de um velho a espada com a qual cumpriria suas promessas.


Ele raspou sua cabeça, tirou a barba, tornando-se totalmente diferente do que fora um dia, seu semblante também mudou, agora sério, o olhar calmo e feliz deu lugar a um olhar frio e melancólico.


Durante meses ele havia desaparecido, durante esse tempo ninguém ousou pisar em sua propriedade, pois o rosto de um oni foi esculpido no portão e devido aos acontecimentos ali ocorridos era sinal mais que suficiente para se manter distância.


Ele gastou parte de sua renda aprendendo o básico da esgrima, porém ele sabia que não seria suficiente para concretizar seus planos.

Mais uma coisa era certa, um golpe seria possível desferir, talvez mortal, mas um único golpe era necessário.


Além da esgrima ele aprendeu mais sobre as ervas do campo, aprendeu mais sobre seus efeitos e como usá-los em batalha.


Depois de mais alguns meses ele retornou, a pele estava mais escura, os cabelos estavam longos e desgrenhados, e a barba estava ali de novo, seu corpo também havia mudado, ele não era mais forte como antes, estava mais magro, as vestes negras mostravam isso, ele havia mudado.


Sobre a cintura havia uma espada, simples, sem muitos detalhes, ao lado dela uma cuia pequena com o ideograma de vingança escrito em vermelho.


O camponês já sabia quem invadira sua casa, sabia isso desde aquele dia, os bandidos eram conhecidos na região, cinco no total, andavam sempre juntos, dois deles eram irmãos.

Ele os encontrou bebendo perto de um mercado.


Sobre o olhar de todos, ele os desafiou, algo inédito até então, os moradores o reconheceram por sua voz, os bandidos, porém riram de seu desafio, ignorando-o.

Como num lampejo, o camponês cortou as mãos do primeiro, rápido e preciso, levou alguns segundos até que os outros pudessem reagir, mas eles o fizeram, cercaram o camponês, um circulo de ódio e saquê.

As pessoas estavam emudecidas, era o fim do camponês, eles sabiam disso.


O camponês então disse calmamente:

- vocês tiraram meu orgulho, tiraram meu tesouro, tudo o que sempre amei...e por quê?

- Diversão!

Gritou um dos bandidos.

- Porém uma coisa vocês nunca vão tirar.

O camponês mudou sua postura.

As pessoas reconheceram, diante de todos estava um autêntico samurai, um homem de guerra.

- Sobre essa terra vocês lançaram meu orgulho e meu tesouro, sobre essa mesma terra, minha vingança os fará cair, um por um e todos serão testemunhas, quando eu me for, meu espírito buscara silenciosamente cada um de vocês.


O camponês girou sua espada em um movimento avassalador, um giro completo, acertando todos, superficialmente.


Ao fim do golpe a espada se quebrou, então ele guardou o que sobrou de sua espada, surpreendendo a todos, ele se ajoelhou.

- Está feito, sobre vocês eu selo esse destino.

Os bandidos enfurecidos cortaram a cabeça do camponês.

Deixaram o corpo no chão, um até pensou em pegar a espada, porém era tão velha e simples que não valia à pena alem é claro de estar quebrada. Um deles cuspiu sobre o corpo e berrou loucamente, "me mate! Vamos, me mate!"

As mulheres choravam contidamente.

Os quatro pegaram o que estava sem as mãos e levaram consigo.

Foram embora rindo, apenas mais um dia.


Os moradores choraram, os homens pegaram o corpo e levaram para ser velado.

Um triste dia...


As folhas caiam, a água corria e eu, bem estava preso a cada detalhe dito por Hasegawa, agora tudo fazia sentido, as lápides o peso daquele lugar... A promessa.


- Não imaginei que tudo isso aconteceu aqui, tanta história, tanto sofrimento...

- Mais a história ainda não acabou Aoki- Ele voltou a olhar para a lápide central- ainda não.


...enquanto preparavam o corpo do camponês, encontraram uma carta, com os seguintes dizeres:

"Dentro de três dias todos aqueles tocados por minha katana serão mortos, dentro de três dias minha vingança os encontrará, por favor, devolvam minha honra, me coloquem junto de meu orgulho e de meu tesouro, pois nesse tempo todo pedi para que me esperassem, afinal, eles não sabem construir morada, esse é meu trabalho, minha função no mundo depois desse."


Ao lerem isso todos os moradores choraram amargamente, pois o camponês nunca se esquecera de sua família, mais ainda ele nunca deixara sua honra.

Às vezes teremos de abandonar nosso lado camponês e deixar nosso lado guerreiro falar mais alto, mais uma coisa devemos sempre guardar... nossa honra.


Nos três dias seguintes o boato se intensificou no vilarejo, a vingança fora liberada com o vento, então os corpos foram encontrados, um a um eles foram achados.

O lugar onde foram cortados estava negro e cheio de pús, em seus rostos, havia somente o horror.


O camponês foi enterrado entre seu tesouro e seu orgulho, sobre esses três princípios eu medito, sobre eles eu oro, sobre eles eu medito.


Eu esperei, mais não havia mais nada a ser dito por Hasegawa, então algo me chamou atenção.


- Você disse três princípios, mais o camponês não era um princípio.

- Preste reverência ao mais sagrado princípio Aoki, limpe as folhas que caíram sobre as lápides.


Eu me levantei e caminhei até as lápides, sobre a primeira estava à mulher do camponês, eu limpei a lápide e estava escrito "meu tesouro" Hasegawa me mandou limpar a terceira, sobre ela estava escrito "meu orgulho" este era o filho do camponês, então com a mão trêmula eu limpei a lápide central, ao ler meus olhos se encheram de lágrimas... Sobre a tsuba estava escrito... Minha honra.


13 de Outubro de 2021 às 22:22 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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