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Vende-se felicidade

Em um certo dia, daqueles cobertos pela confusão de cidades, cheio de pessoas prontas para fazerem suas histórias, um indivíduo qualquer, que aqui nomearemos como O comum, sendo tragado pelo mar de transeuntes encontra por acaso um simples cartão esquecido, muito feio, diga-se de passagem, mas com um produto que qualquer um igual ao O comum deseja:


VENDE-SE FELICIDADE


Meu caro leitor, neste exato momento como um ser que desconhece frustrações e que tem total consciência de sua felicidade deve estar se perguntando o porquê de tanto alarde por um farrapo papel sem qualquer destaque, por isso imagine-se, use sua total criatividade e como O comum, por míseros segundos tornar-se.


Não existe um momento certo para se transformar em O comum, é algo que pode durar num piscar de olhos ou até o seu último suspiro, mas não importa o tempo, a intensidade será a mesma, a angústia será a mesma e aquele pensamento de que se tornou um figurante de sua própria história será a mesma, tudo é mais belo e colorido para os outros, enquanto na sua pobre vida existe um vazio, uma lacuna que não importa o quanto você coloque suas tralhas emocionais nunca estará preenchida, O comum é só mais um grão de areia entre tantos outros, e assim como os demais se deixa levar pela maré na esperança de encontrar a bendita felicidade.


E é por isso meu caro leitor, que aquela pobre alma planejou com muita euforia buscar seu paraíso de risos, organizou tudo com muito cuidado, afinal, a felicidade não seria algo barato de se ter, O comum aceitou horas extras no trabalho; deixou de fazer suas compras do mês e passou a ter só básico do básico para sua sobrevivência, alimentando-se só de comidas enlatadas duas vezes por dia; sem falar que deixou uma casa consideravelmente aconchegante para alugar um quarto que só cabia um sofá de dois lugares, sua pequena maleta de roupas, um mini fogão e suas latas em estoque. Se a vida do Comum antes era opaca e sem cores, agora nos últimos meses tornou-se isso e um pouquinho mais, uma alma miserável que ao fim de seu dia a única coisa que o entretinha era deitar-se desconfortavelmente em sua cama/sofá e se pegar admirando o desgastado cartão da felicidade, naqueles momentos de noites frias e escuras seus olhos brilhavam como nunca, sonhava acordado com sua felicidade sem materializá-la e ria como se não acreditasse que ela estava logo ali, turva como a chuva caindo em um lago, porém, palpável como a pena de um pássaro ao buscar a liberdade, então, os dias passaram, transformando-se em meses até que o comum decidiu que finalmente era a hora, iria ser feliz, custe o que custasse.


Oh leitor, chegamos ao momento clímax, e para o senhor entender como estava o nosso Comum naquela manhã ao entrar em seu ônibus, é necessário que o senhor ou senhora volte alguns anos de sua vida e relembre sua meninice, mais especificamente nas suas festas de aniversário, um dia especial completo de tudo que você gostava, onde mesmo que se caísse em uma segunda sua animação era inabalada, simplesmente porque você sabia que era o seu momento. E é isso leitor, aquela manhã era o dia do Comum, talvez não tenha sido exatamente a manhã, já que o mesmo só chegou na loja da felicidade no finalzinho da tarde, foram muitos ônibus a serem pegos e mais uns quilômetros a pé, irrelevante para determinação do aventureiro que buscava o maior dos tesouros e finalmente o encontrou.


Quando finalmente viu aquela loja o Comum enfim sentiu um peso em suas costas sendo tirado, ficou admirado, a loja em sim não tinha nenhuma fachada que a identificasse, mas vitrine, a vitrine já mostrava tudo, manequins e mais manequins hiper-realistas de diversas pessoas, com uma única coisa em comum, a felicidade transbordava em seus rostos, uma felicidade eterna que fez o Comum desejar ter.


Seus olhos deixaram a vitrine para encarar a simples porta que quase desaparecia de tão simplória, suas mãos firmaram na maçaneta da porta como se estivesse segurando sua vida e com impulso abriu-a para desvendar um novo mundo, mas tudo que viu foi uma linda mulher colocando com delicadeza um bule de porcelana em uma mesa de vidro.


— Oh, você finalmente chegou, já estava achando que meu querido cliente não apareceria. — A mulher sorria enquanto se sentava em uma poltrona com estampas de borboletas — Não fique aí parado, entre, sente-se e vamos conversar.


O Comum com passos indecisos dirigiu-se ao local indicado e acomodou-se, enquanto novamente dava sua atenção a moça.


— Eu sei o porquê de você vir aqui, na verdade todos os meus clientes vieram pelo mesmo motivo, mas apesar de terem o mesmo motivo as formas desse motivo são bem diferentes. — A mulher sorriu novamente e por segundos parou de falar, concentrando-se em pôr chá nas duas xícaras. — Então, minha única pergunta é: Como é a felicidade que você deseja?


Que pergunta difícil para se fazer ao Comum, ele nunca pensou que a felicidade teria forma, no entanto, agora estava aquela mulher parada em sua frente lhe dizendo que tinha e que deveria lhe dizer qual era sua forma de felicidade e isso o deixava desesperado, como conseguiria ter o que tanto desejava se nem ao menos sabia o formato dela.


O silêncio que havia se instalado após a pergunta foi quebrado por pequenas risadinhas da mulher, que contente levantou-se do seu lugar e começou a andar envolta do Comum, dedilhando suas costas em forma de brincadeira.


— Ora, ora, ora, pelos seus olhinhos perdidos você não sabe o que quer, tudo bem, você é igual a todos os outros, então deixe-me fazer uma coisa… — as mãos delas agarram do Comum levando-o a se levantar e o guia pela sua loja vazia, como uma dança sem música nem passos — Deixe-me te dizer o que é felicidade!


E entre sorrisos convidativos e passos imprecisos foi dito o que seria felicidade:


— A felicidade é qualquer coisa que se deseja: Seria um belo corpo? Um grande amor ou grandes amores? Muitos amigos? Muito dinheiro? Viajar pelo mundo? Ser reconhecido? Admirado? Morar no paraíso? Nunca ser só? Nunca se sentir triste? Nunca se sentir esquecido?


E assim foi descrito um mundo onde o Comum não seria mais comum, deixando-o extasiado pelas maravilhas que lhe viam a mente, e enquanto se embebedava pela propaganda feita a ele nem ao menos percebeu que a vendedora havia parado de falar e andar.


— Que guloso você é, pelo seu lindo sorriso eu diria que você quer tudo!

Enquanto dizia isso abria sua vitrine e entrava nela, esticando sua mão para ajudar o Comum a fazer o mesmo e o levando a passear pelos seus belos manequins.


— Você vai conseguir todo que deseja, basta olhar para horizonte, para além do pôr do sol e sorrir como nunca fez antes, e eu lhe trarei a felicidade.


Oh caro leitor, saiba que o Comum sorriu e depois que o pôr do sol se foi, muito depois disso, a bela vendedora desligou as luzes de sua loja, trancou sua loja e se perdeu na penumbra da noite, jogando ao vento um simples cartão esquecido, muito feio, diga-se de passagem, que tinha se prendido nas mãos do mais novo manequim e que agora busca um indivíduo qualquer, que tragado por um mar de transeuntes deseja uma única coisa.


E isso meu leitor, você já sabe o que é!

13 de Outubro de 2021 às 21:48 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Emanuelle Araújo Estudante de psicologia e aspirante a escritora. Aprendi a entrar e a fazer diferentes mundos no momento mais conturbado da minha vida, com eles vi que nada é concreto, que não há uma verdade aparente, e como é lindo ver o que já conheço por outra perspectiva. Me fiz e me refaço a cada livro que aprecio.

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Jéssica Kelly Jéssica Kelly
Que lindo escrito 👏. Uma história fascinante
November 01, 2021, 15:47

  • Emanuelle  Araújo Emanuelle Araújo
    Fico feliz que tenha gostado Jéssica, é uma das histórias que mais gostei de escrever :) November 01, 2021, 22:27
~