antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Alienígenas tomam a forma de humanos, se infiltram nos governos e transformam a Terra num mundo assustador, coberto por uma atmosfera de fumaça negra. A raça humana está fadada a desaparecer, porém, dois homens viajam para o passado em busca de uma solução, de algo que possa mudar o futuro..


Ficção científica Viagem no tempo Impróprio para crianças menores de 13 anos.
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Os vermes lagartos

O mundo em que nascemos é um mundo de trevas. Um planeta envolto por uma neblina cinzenta, pegajosa. O sol que conhecemos é apenas um disco etéreo, de luz débil, mal visível no céu de alcatrão. O que sabemos dele e do mundo do passado, estão nos raros livros que escaparam do fogo, da destruição da cultura, das ciências, dos costumes, imposta pelas criaturas meio humano meio lagarto, meio vermes, os Sincomorfos, também chamados de Wormes, ou Vermes. São eles que governam o mundo, que dirigem nossas vidas.

*****

Quando o trem chegou na estação, os passageiros voltaram a colocar suas máscaras. Coloquei a minha junto com o cilindro de oxigênio às costas. A porta se abriu, pisei na plataforma suja de fuligem. No saguão um fiscal de viagem pedia a identidade. Entrei na fila. Do outro lado, policiais armados de fuzis em seus jaquetões amarelos e máscaras pretas, vigiavam a movimentação.

Mostrei meus documentos para o fiscal; Nome- Alexandre Silvano, 38 anos. Solteiro. Profissão, faxineiro na cidade de Figueira, setor 01. Motivo da viagem, visitar Edgar Silvano, irmão, morador de Santa Tereza, Rio de Janeiro, capital.

Os empregos de antigamente não existiam mais. Naqueles anos sombrios você não tinha escolha, trabalhava em minas, nas estufas para plantas, nas usinas, na faxina limpando o lixo e a fuligem das ruas, ou era funcionário público, ganhando um ticket extra para alimentação, como aquele fiscal. Se você tem família para cuidar tem que aceitar qualquer trabalho.

Antigamente, quem trabalhava para o governo era considerado um traidor, um pária. Com o tempo, o preconceito deixou de existir. Você aceita o regimento do governo, ou morre de fome ou sem ar para respirar. A perspectiva de vida baixou muito. Muitos jovens morrem de câncer no pulmão. A natalidade também diminuiu e as previsões para o futuro da raça humana não eram nada boas. Estávamos à beira da extinção.

Saindo da Estação do Brasil, peguei um taxi na avenida Presidente Vargas e mandei rumar para Santa Teresa, rua Fallet. A visibilidade estava boa naquele dia. Passamos pela Marques de Sapucaí, no Sambódromo existia agora uma fábrica de alcatrão. As quatro chaminés lançando toneladas de fumaça negra e oleosa para o ar. Alcatrão, principal substância que as criaturas respiravam. O oxigênio era fabricado apenas para nós, humanos, porque nos tornamos escravos para suas necessidades básicas.

Os Sincomorfos tem a habilidade da transmutação física. A raça de repteis, que tomaram a Terra. Eram humanoides, dois braços duas pernas, olhos escuros, boca sem lábios, corpo delgado, roliço, com algumas rugas nas articulações a pele escamosa de um roxo escuro, brilhante. Não usavam roupas a não ser quando se transformavam em humanos.

Não sabemos de onde vieram, quando vieram. Não havia nenhum registro da chegada de astronaves alienígenas. Quando nos demos conta, já tinham tomado a Terra ocupando cargos políticos e mudando sistemas de governo. Aos poucos foram construindo fabricas disfarçadas que se tornaram emissoras de gases a base de alcatrão.

Ninguém fazia nada para combater a poluição do ar. Iniciou-se a fabricação de cilindros de oxigênio e máscaras de gases. No princípio foi distribuído de graça. Os governos autoritários criaram exércitos de homens sem vontade própria, e os colocaram para policiar as ruas, manter a ordem. A única pista que tínhamos no passado sobre os vermes, era uma referência a Deodoro da Fonseca general do exército. Num livro de história havia uma referência sobre ele ser um lagarto fantasiado de gente. Deodoro morreu durante uma rebelião de forma misteriosa.

Nosso pai tinha um livro de um escritor inglês, não me lembro o nome dele, sobre uma máquina que viajava no tempo. Depois que ele leu, ficou pensando se poderia construir uma máquina do tempo para poder ir ao passado e descobrir como os Vermes surgiram. Conversou com um amigo e os dois começaram a construir o aparelho. Naquele tempo eles ainda possuíam conhecimentos de física quântica. Tinham condições de adquirir peças no mercado negro. Porém, nunca conseguiram terminá-la. Eles morreram e a máquina ficou escondida por anos no porão de casa. Até que, nós, eu meu irmão Edgar e nosso amigo Roger, já adultos, resolvemos terminar a construção do aparelho.

Levamos mais 10 anos para completá-la, catando peça por peça nos escombros da Era Antiga, seguindo rigidamente os esquemas de nosso pai.

*****

Desci do taxi, paguei a corrida e subi uma escadaria até a porta da casa do meu irmão. Batia na porta. Quando abriu, passei rápido e fechei logo em seguida para barrar a atmosfera externa. Larguei a maleta no chão, tirei a máscara e despi a capa de plástico. Cumprimentei Cecília, minha sobrinha. Notei que estava preocupada com alguma coisa.

— Algum problema?

— Estamos preocupados com papai. Venha.

Eu a segui através de um corredor até uma sala nos fundos da casa. O aposento estava repleto de aparelhos, painéis eletrônicos e um computador. No centro da sala, sobre uma base de concreto, estava uma esfera metálica composta por uma sequência de placas de metal cinzento. Junto a ela estava Roger, vestindo um jaleco de sarja azul. Ele apertou minha mão.

— Edgar resolveu fazer a primeira viagem como um teste. Foi para o ano de Mil Oitocentos e Oitenta e Nove. Planejou ficar apenas alguns minutos, mas já se passaram mais de uma hora que ele está lá e não manda o sinal para resgatá-lo!

Roger fez uma pausa e apontou para a tela do monitor onde aparecia um mapa de ruas e um ponto luminoso.

— Aquele ponto luminoso indica que ele está na cidade do Rio de Janeiro, no século dezenove. Eu estou com a intenção de ser transportado a fim de procurá-lo. Você fica nos controles.

— Eu vou. Você conhece melhor os controles do que eu.

Ele abriu uma gaveta de um armário e me deu um anel prateado, com um dispositivo redondo no lugar da pedra.

Um sinalizador que o viajante precisa ter consigo. É através do sinal que emite que o operador do painel consegue localizar a pessoa no mapa. Envia a energia da máquina para aquelas coordenadas e a pessoa volta ao nosso tempo. O anel precisa estar no dedo da pessoa para que possa ser transferida e isso só acontece se ela tem seu registro corporal no banco de dados. Isso evita que estranhos venham a serem transportados.

— Talvez papai não esteja com o anel. – cogitou Cecilia. — Por isso não conseguimos trazê-lo de volta.

— É uma possiblidade. Ou ele decidiu se aventurar sozinho na investigação.

Coloquei o anel no dedo e vesti roupas da época. Roger registrou meus dados corporais na memória do computador. Me deu um documento que me identificava como jornalista, além de uma quantia em dinheiro da época para qualquer imprevisto, e um pequeno aparelho eletrônico onde havia uma serie de botões e um visor com calendário.

— Com este receptor você poderá localizar o sinal do anel de Edgar e as coordenadas onde ele se encontra. Quando quiser voltar basta dar uma volta completa na pedra do anel. Certo? Boa sorte!

— Quando eu o encontrar, vamos procurar uma pista sobre os vermes, portanto, não se preocupem se demorarmos a enviar o sinal.

Entrei no cilindro, a Cápsula do Tempo. Dentro não havia nada, apenas uma lâmpada que emitia uma luz azulada. Roger trancou a porta e dali à instantes soou um zumbido. Fiquei observando os números do calendário digital no rastreador, nome que eu achei mais adequado para aquele aparelho. Os anos começaram a retroceder. A luz apagou-se de repente e fui envolvido por uma densa escuridão.

Uma claridade começou a surgir. Visualizei prédios à minha volta, prédios de arquitetura antiga, uma rua calçada com pedras, bares, cafés e moradias, ainda com suas portas e janelas cerradas. Alvorecia. O Sol lançava seus primeiros raios naquela manhã, coisa que eu nunca vi. Fiquei maravilhado. Senti vontade de caminhar e apreciar aquela claridade, mas precisava antes, me preocupar em encontrar Edgar.

Olhei para o rastreador. O calendário indicava que estávamos no dia 15 de novembro de 1889, às 6 horas da manhã. O sinal do anel de Edgar estava em movimento a uns oitocentos metros para o sul. Um vulto saiu das sombras de uma mangueira. Era ele, Edgar.

— Eu esperava que alguém viesse. Mas não que fosse você. – disse ele cumprimentando-me. — Estou esperando há dois dias!

— Para nós você desapareceu há pouco mais de uma hora.

— Não vamos nos preocupar com isso agora.

— O que aconteceu com o anel? Segundo o GPS ele está longe daqui.

— Logo que cheguei, três soldados da Guarda Negra me abordaram, me revistaram e um deles resolveu ficar com o anel. Protestei, mas eles me ameaçaram prender e nada pude fazer.

— Posso voltar e buscar outro anel para você.

Edgar sacudiu a cabeça.

— Não vai resolver. Meu registro biométrico continua com o anel e só poderei voltar se ele estiver comigo. No futuro vou ter que substituir o anel por um chip implantado sob a pele, assim não haverá contratempos como esse.

— Há quanto tempo você não via um dia assim, de sol claro, respirando esse ar puro?

— Não me lembro bem. Acho que nunca. A poluição do ar foi lenta, o sol desapareceu aos poucos.

Edgar fez uma pausa. — Sinto muito, mas não podemos perder tempo em apreciar o mundo. Preciso recuperar o anel.

Começamos a andar na direção em que o rastreador indicava estar o objeto.

— Viu algum sinal dos vormes nesse século? – perguntei, enquanto observava as pessoas nas ruas. Um jovem jornaleiro anunciava a notícia do dia; Ouro Preto, ministro da Guerra, suspendeu Benjamim Constant do cargo de professor da escola Militar. Um homem vestindo traje típico da época, comprou um jornal e seguiu adiante, uma carroça parou em frente a um armazém e o condutor entrou no estabelecimento, uma senhora varria a calçada m frente a sua residência.

O ar era limpo, mas se percebia uma tênue nebulosidade no céu, como se alguma fábrica estivesse soltando fumaça. Edgar disse:

— Dei uma olhada nos arredores. Fiz perguntas e descobri que tem uma fábrica de celulose em botafogo. Acho que foi a primeira que transformaram em fábrica de alcatrão. Tem uma torrefadora de café, padaria, a usina do gasômetro. Tudo isso foi transformado em fábrica de fumaça.

— Hoje é dia quinze de novembro de mil oitocentos e oitenta e oito, dia em que o Marechal Deodoro da Fonseca tentou acabar com a monarquia. Uma mudança de governo. Você não acha que, se os vermes estão nesse século, eles vão tentar se infiltrar no governo?

— É possível. Foi assim que eles mudaram o mundo. Agora, não creio que apareçam com sua forma de réptil. Você que conhece melhor a História do Brasil, me conte o que acontece hoje? Como se iniciou a revolução comandada pelo marechal Deodoro?

— Na realidade, em princípio, a intenção dele era derrubar o governo do ministro da Guerra, o Visconde de Ouro Preto. O exército estava descontente com o governo já fazia algum tempo. Esse descontentamento aumentou, quando Ouro Preto puniu alguns oficiais. Além disso, suspendeu Benjamim Constant do cargo de professor da escola Militar e castigou seus alunos por terem afrontado em público e em manifesto, o Ministro da Guerra. Benjamim Constant era republicano, a tropa estava descontente, mas ele não podia fazer nada. Eles precisavam de um líder e a escolha caiu sobre o Marechal Deodoro da Fonseca. Deodoro estava com sessenta e dois anos e se encontrava doente, mas mesmo assim, aceitou a liderança.

Quando chegamos em frente ao gasômetro, nos deparamos com as tropas revoltosas. Os soldados marchavam para o Quartel General no Campo de Santana, tendo à frente num carro, o Marechal Deodoro. Eram cerca de seiscentos soldados armados com carabinas, lanças, espadas, revolveres e 16 canhões.

Consultando o rastreador GPS, constatamos que o anel se encontrava no Campo de Santana, exatamente no QG. Imediatamente seguimos os revoltosos. Parando na Praça Onze de Junho, Deodoro mandou um oficial e oito soldados fazerem o reconhecimento no Campo de Santana, onde havia forças da Marinha e da Policia fora do quartel e dentro, cerca de dois mil soldados do exército. Deodoro abandonou o carro, montou num cavalo e ordenou que o grupo continuasse avançando. Seguimos atrás deles.

Logo depois os revoltosos ficaram frente a frente com as forças da Marinha e da Polícia. O grupo hesitou por um momento e Deodoro decidiu avançar, gritando:

— Então, não me prestam continência?

Imediatamente os soldados se perfilaram e deram passagem. Momentos depois outros soldados aderiram à revolta. Alguns minutos antes das oito horas da manhã, as tropas de Deodoro chegaram aos portões do quartel, e em seguida o Marechal mandou um oficial procurar Floriano Peixoto, para dizer-lhe que queria conversar com ele.

Enquanto isso, surgiu um carro ministerial do Arsenal da Marinha com o Barão de Ladário e Deodoro mandou prendê-lo. O Barão saiu do carro empunhando uma pistola e disparou a arma, tentando acertar o Marechal, mas errou. Antes que ele atirasse novamente, dois soldados dispararam suas armas contra o Barão. Ladário tombou ferido, foi subjugado e preso.

Logo em seguida, Deodoro se preparou para entrar no quartel para falar com Floriano. Aproximei-me dele e me apresentei, exibindo a carteira falsa de jornalista.

— Senhor, marechal, com licença. Podemos acompanhá-lo para registrar esse momento?

Deodoro olhou-me de alto a baixo.

— Registrar?

— Para o jornal.

O Marechal assentiu, sacudindo a cabeça e dirigiu-se para o quartel. Fiz um sinal com a mão para Edgar esperar junto ao portão. Entrando no quartel, disfarçadamente examinei o rastreador e verifiquei que o anel estava exatamente na sala para a qual Deodoro se dirigia. Nela se encontrava o Marechal Floriano Peixoto, o Visconde de Ouro Preto e outros oficiais. Quando Deodoro entrou, todos permaneceram calados. O Marechal fez um discurso revelando as causas da revolta, elogiou o Exército Brasileiro afirmando em seguida, que Ouro Preto e o Ministro da Justiça ficariam presos até serem deportados para a Europa. Disse ainda, que enviaria uma lista do novo ministério a Dom Pedro II.

Enquanto ele discursava, observei as mãos de todos que estavam ali e vi no dedo de um soldado, o anel de Edgar. Aos poucos me aproximei, ficando às suas costas. Logo depois, inclinei-me e sussurrei ao seu ouvido:

— O Marechal prometeu prender ladrões e vândalos. – O rapaz olhou-me com ar intrigado e continuei: — Esse anel em seu dedo pertence a um dos sobrinhos dele. Acho bom você me entregar, antes que alguém o denuncie.

Imediatamente o soldado tirou o anel do dedo e entregou-me. Logo em seguida, sem pressa, sai da sala e deixei o prédio. Saindo pelo portão me reuni a Edgar. Recebendo o anel, colocou-o no dedo.

— Se algum deles era um Sincomorfo, não notei.

Um grupo de pessoas estava próximo, tentando ver através das grades o que se passava dentro do quartel. As minhas palavras chegaram aos ouvidos de uma senhora que prontamente, voltou-se para mim e afirmou:

— Deodoro é um deles, os invasores do espaço. Você não leu o livro do Júlio Verne? Leia que você vai entender.

— Podemos conversar com a senhora? Meu nome é Nilton e este é Edgar. Somos repórteres e gostaríamos de saber mais sobre essa história.

— Claro. Me chamo Helena. Vamos até minha casa tomar um chá. Eu tinha ido ao armazém comprar pão – mostrou o pão de meio quilo enrolado um papel branco — Quando vi o rebuliço, vim ver o que estava acontecendo. Achei que era a invasão do mundo pelas criaturas do espaço.

Seguimos caminhando até a casa de Helena. De longe ouvimos tiros no quartel. Alguém tinha atirado em Deodoro, sepultando o sonho pela república.

*****

— Eu já falei por aí sobre os monstros do espaço, mas ninguém acredita em mim acham que estou caducando. Tenho setenta e nove anos, mas minha mente continua boa como se tivesse vinte.

Na casa de Helena tomamos chá. Ela era viúva do comendador Mendes de Oiticica. Nos contou o caso que aconteceu com o sobrinho dela. Alberto veio morara com ela depois que o comendador faleceu.

— Eu estava cochilando no sono da tarde, quando ouvi vozes no quintal. Levantei-me e vi o Alberto conversando com o coronel Belarmino Duarte. Não ouvi muito bem o que diziam, sou meio surda, mas parece que o comendador oferecia um emprego para o meu sobrinho. Eles estavam bem ali, no quintal. – Helena fez um gesto para porta dos fundos que estava aberta. Vimos um caramanchão com alguns arbustos. O cheiro de alfazema chegava a até nós.

— De repente o comendador se transformou. A cara dele se tornou escura, arroxeada, era um cara de lagarto. Colocou a mão na cabeça do Alberto. Era uma mão de dedos compridos com uma bolota na ponta. Quando vi aquilo, meu coração disparou e desmaiei. Quando acordei, estava sentada nesse mesmo sofá e o Alberto na minha frente, dando tapinhas na minha cara. Contei pra ele o que tinha visto e ele disse que eu tinha sonhado. Fez um chá de camomila pra me acalmar. Depois falou que iria pra São Paulo trabalhar numa usina, saiu e nunca mais apareceu. Fui na delegacia, falei do monstro. Prometeram que iriam investigar e me mandaram pra casa. Isso já faz umas duas semanas. É essa a história. Vocês vão publicar no jornal?

— Primeiro nós vamos ter que fazer umas investigações – respondeu Edgar, se erguendo — Talvez voltamos a conversar com a senhora outro dia. Sabe onde mora o coronel Duarte?

Nos despedimos e saímos.

A casa, um chalé pintado na cor ocre, ficava na periferia da cidade, no fim de uma rua com poucas casas, próximo a um prédio abandonado. Em frente da residência estava estacionado um veículo estranho. Tinha quatro rodas, um telhado (ou capota?) de duas águas, tubos de cobre junto ao que parecia ser uma chaminé de lareira fumegante, escada dobrável que levava a uma porta de madeira guarnecida com ferragens de metal dourado, dianteira arredondada com cinco janelas e frisos niquelados.

Da casa saiu um homem envergando um sobretudo amarelo, óculos de aviador enfeitando a cartola, camisa de camurça com amarras em couro e botões dourados, calças justas e botas até o joelho. Em seguida, surgiu outro homem vestindo jaquetão preto, camisa branca com punhos rendados, gravata borboleta, calças de corte reto e botinas. Usava luvas sem dedos e uma bengala com punho prateado. A bengala era apenas um acessório que fazia parte do traje, mas também servia como arma de ataque e defesa. Eles entraram no veículo e partiram, lançando uma fumaça negra para o ar.

— É assim que eles começaram a poluir a atmosfera. – disse Edgar.

— Na nossa época, sabemos que eles respiram alcatrão, mas aqui o ar é puro.

— Talvez usam um dispositivo que não percebemos por baixo da aparência humana.

— O que vamos fazer agora?

— Por mim eu iria almoçar num restaurante. Estou louco de fome, mas acho melhor darmos uma olhada na casa do coronel Duarte.

— Antes, vamos ver o que tem naquele cercado que me parece suspeito.

No campo havia um prédio abandonado e ao lado uma cerca de tábuas protegia alguma coisa. Havia uma trilha escura que ligava o prédio àquele cercado, exatamente num buraco redondo da parede. Outra trilha no meio do gramado, levava até a casa. O proprietário vinha regularmente ao cercado. Empurrei o portão e entrei. Edgar postou-se ao meu lado.

Dentro do cercado havia uma poça de lama preta medindo cerca de oito metros de circunferência. Exalava um cheiro acre. A haste que emergia da lama parecia um broto de planta com a semente na ponta. Aquilo estava em evolução. Aos poucos se transformou em algo parecido com uma minhoca, corpo liso, com rugas nas extremidades. Tombou sobre a lama e começou a rastejar para fora. Seguimos a coisa em silêncio. Aparentemente a criatura viscosa não percebeu nossa presença. Ela seguiu se arrastando pela trilha em direção ao prédio e entrou por uma porta lateral. Entramos também.

No antigo curtume já não havia mais maquinários, porém restaram tanques de plásticos e foi num desse que a criatura entrou. Cautelosamente, me aproximei e olhei por sobre a borda. O tanque estava cheio de um líquido escuro, cheirando a betume. Sob o liquido, repousava o verme.

Examinando os outros tanques, descobrimos outras criaturas, algumas com protuberâncias nas extremidades, outras as protuberâncias eram maiores, formavam braços e pernas. Concluímos que os tanques eram uma espécie de útero, onde os seres viscosos tomavam forma como humanoides.

Eu estava distraído, olhando o interior do tanque, quando senti uma mão em minha cabeça. Não consegui me virar, não consegui reagir. Fiquei paralisado, senti o corpo formigar e o meu cérebro se dissolver. A sensação foi por poucos segundos, mas foi horrível. A razão clareou, assim como a visão, mas ainda senti as pernas meio bambas. Olhei para o lado e vi Edgar com um tijolo na mão. A criatura jazia estirada no chão ferido na cabeça.

— Vamos sair daqui. Consegue caminhar?

— Sim. Vamos.

Fora do prédio, Edgar fez uma tocha com capim seco, voltou para dentro e colocou fogo nos tanques. Decidido, ele entrou no cercado e jogou a tocha na poça de lama oleosa. As chamas se lastraram estorricando um broto que surgia do fundo do lamaçal. Uma fumaça negra subiu para o céu claro.

— Nunca poderíamos imaginar que era aqui, naquele lodo de produtos químicos que eles nasceram. – disse Edgar. Ele começou a se afastar e eu o segui.

— Tomara que possamos matar todos.

Ao voltar para a cidade, avistamos um grupo de pessoas ao redor de um vulto caído no chão.

— Era o prefeito. – disse um homem. — Eu o vi sair correndo da prefeitura se batendo todo e caiu no chão. Juro que esse tição queimado era o prefeito.

Ninguém podia duvidar, aquela coisa vestia as roupas do prefeito.

Mais adiante encontramos o carro do coronel Duarte. Ele jazia caído ao solo, queimado como uma espiga de milho. O chofer estava sentado na beira da calçada, com as mãos na cabeça. Ergueu o rosto e nos olhou.

— O que aconteceu? – perguntou. Não falamos nada, continuamos a descer a rua. Não adiantava explicar nada. Talvez eles nunca soubessem o que aconteceu. Naquele instante também nãos sabíamos se todos os Sincomorfos foram aniquilados na origem, se conseguimos modificar o futuro. Chegando na mangueira, parei e encarei Edgar.

— Está na hora de voltar. Acha que modificamos o futuro, ou não?

— Se modificamos, chegaremos na nossa época num dia de sol claro, de ar puro, vivendo numa república.

— Será que eu ainda vou ser um faxineiro? Meu sonho sempre foi ser médico.

— Provavelmente será. – sentenciou Edgar e torceu a pedra do anel.

12 de Outubro de 2021 às 17:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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