suoflya Suoflya

Até em que ponto a amargura e a dor causada por uma frase que nunca fora dita pode transformar totalmente o coração de uma pessoa? Após perder seu melhor amigo e primeiro amor de uma forma um tanto inesperada, a maneira que Thales via o mundo fora drasticamente mudada. Mas o que aconteceria se depois de bastante tempo, isto é, ao passar de dez anos, de repente uma pessoa praticamente idêntica àquela aparecesse em sua vida? Thales então se vê tendo que lidar com o fantasma do passado, o qual nem por um mísero segundo o deixou em paz nesses últimos dez anos. Poderia mesmo essa pessoa ter voltado dos mortos? Isso de fato era possível? Ele tinha o visto bem na sua frente e chorado em seu túmulo, mas por quê? Quantas histórias incertas rondam essa repentina morte?


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Fantasma do Passado

Às vezes mesmo sem perceber trazemos um olhar para a vida sem muitas expectativas, dançamos com o receio e nos agarramos a falta de coragem. Esse sentimento de medo quando é alimentado, torna-se cada vez mais difícil de se lidar e a pessoa que o vive ao menos sabe por onde começar a desprender-se deste, transfigurando-se a uma triste fatalidade.

Enfim, naquele dia tudo parecia estar estranhamente alinhado, o tempo estava ótimo e confortável, o céu azul brilhava como pérolas recém polidas, as nuvens movimentavam-se livremente e faziam desenhos não muito claros, ao olhar para cima qualquer pessoa poderia dizer que pareciam um coelho, um cavalo ou um emaranhado, uma bagunça tremenda também, algumas referiam-se as mesmas como um amontoado de poeira, isto é, tão subjetivo. O vento veraneio era seco e quente, a luz solar dourada e bem externada acabara por fazer com que quem estivesse vestindo muitas peças de roupas se livrassem destas de forma mais rápida o possível.

Mas quem tinha tempo para se importar com algo tão simples como meteorologia se tinha algo meramente importante tomando toda a sua atenção? Com isso, Thales ao menos ligava se estava suando devido ao uniforme bem colocado de seu colégio de nome imponente, se parecia um otário de meias três quartos e sapato social, se seu cabelo crespo se encontrava desalinhado, ele não estava nem aí para isso. Andavam lado a lado, as ruas sempre estavam cheias naquele horário fazendo que fosse praticamente impossível de transitar sem um esbarrão e múrmuros de desculpas. Porém tal situação irritante ao menos os incomodava, pois aquela era a única hora do dia que podiam passar juntos devido suas agendas e vidas diferenciadas, enquanto um preocupava-se constantemente com coisas como: aula de violão, pintura e natação, outro contentava-se com saber se seu colégio manteria ou não as aulas no dia seguinte, era uma dura realidade, a qual eles nem mesmo citavam na presença um do outro.

Thales rotineiramente se sentia inquieto ao olhar seu amigo Thomás, se conheciam há tantos, mas tantos anos e repentinamente uma sensação estranha crescia em si, a qual ele jurava não ter a resposta, não sabia o porquê o sorriso daquele amigo o cativava, a forma que falava arrastado também e por que diabos prestava tanta atenção assim em suas expressões faciais? Adorava o ver feliz, com raiva e confuso, suas sobrancelhas enrugadas e olhar constrangido devido a incompreensão eram seus favoritos.

— Thales! Thales! — uma voz o tirou de um extenso devaneio e fincou completamente sua mente na realidade, o jovem virou-se para seu amigo que o chamava impaciente. — Ei! Estou faz dois minutos tentando falar e tudo o que você faz é me olhar com essa cara de idiota. — o jovem mais alto não era bom com as palavras, mesmo sem querer ele acabava sendo hostil. — 'Tava pensando em ir na lan house mais tarde..."

— Não vai dar... — suspirou cansado, brincava com o chaveiro de sua mochila entediado. — Meus pais querem de novo me arrastar para um maldito evento, desde que meu velho cismou com esse lance de política, sinto que nunca mais terei paz. — soou sincero e Thomás pareceu não entender, na verdade é bem difícil pedir compreensão quando se vivem em mundos totalmente diferentes. — Mas eu te pago um sorvete, que tal? — Thales sugeriu e o rosto do mais alto mudou de cor, aquele era seu ponto fraco e o tempo quente e seco só tornou mais fácil ainda a persuasão, Thomás raramente aceitava que ele pagasse algo para si, era tão teimoso que sempre acabavam discutindo sobre isso, para Thales dinheiro nunca fora problema, então que mal tinha de querer mimar o seu melhor amigo? E por que diabos ele ficava tão ofendido com isso? Estava aí algo que nunca entendera, mas também não se questionava muito sobre.

— Sei que 'tu gosta de menta, tangerina, baunilha e detesta chocolate. Acertei? — o mais baixo deles sorriu orgulhoso de seu feito, sua boa memória era de fato algo para se admirar segundo a si. — Mas julgando pelo dia de hoje e sua cara, 'tu vai querer tangerina né? — riu e os olhos do outro se arregalaram, eram como duas esferas negras e cintilantes, nunca que passaria em sua cabeça que ele o conheceria tão bem assim. — Ei! Se me encarar assim, vou começar a achar que está apaixonado — Thales brincou e Thomás virou o rosto, ficou quieto um bom tempo, se Thales fosse um pouquinho mais sensível, perceberia as orelhas vermelhas de vergonha de seu amigo, mas como de costume, o garoto avoado havia deixado isso passar.

— Ah! Vá para o inferno! — rugiu e o outro se segurava ao máximo para não rir, incomodar seu amigo também era uma das coisas favoritas de sua lista, se divertia tanto com o fato do mesmo só parecer ameaçador em aparência, afinal era bem grande e na última medição ele havia jogado bem na sua cara os seus 1,85cm de altura, seus olhos pequeninos e afiados denunciavam sua descendência asiática, usava aparelho também em uma tentativa de alinhar seus dois dentes da frente que ficaram estranhamente tortos depois de um acidente enquanto brincavam da infância.

— Não precisa me amaldiçoar também. — cruzou os braços e fingiu falsa irritação, ambos continuavam caminhando em passos lentos pela movimentada calçada. — Não brinco mais com isso, pode ser? — ele não sabia o porquê ficara tão decepcionado ao proferir tais palavras, mas achou que Thomás se sentiria melhor depois de ouvi-las, quem só respondeu com um indiferente "hm".

Seria imensamente incrível de tudo aquilo que mais almejássemos na vida geralmente terminasse da melhor maneira possível, infelizmente na realidade suposições e anseios não passam somente disso.

A vida real machuca, dilacera e faz com que pessoas antes tão calorosas e sorridentes se tornarem frias e distantes.

De fato, é uma pena...

Estranho ou não, tem momentos que os dias parecem se mesclar completamente com as emoções, sua percepção e forma de lidar com o mesmo acabam se tornando todas baseadas nisso. A chuva lá fora era plácida, o céu vasto e pálido trazia consigo um inexplicável e desconcertante sentimento de melancolia, o tilintar suave e calmo das gotas que ruíam, pousavam e delicadamente se desfaziam no chão eram como a mais harmônica melodia, aquela que faz um corpo tenso relaxar e aproveitar o seu doce soar.

Thales encarava a janela sem ao menos se importar no que o professor falava em frente a toda classe, seus olhos estavam fixos nos bancos molhados perto da gigantesca entrada do colégio, nas pequenas poças espalhadas pela expansiva região e em alguns alunos que vagavam por ali sem nenhum motivo explícito para si, muitos sorriam abobados, outros passavam com a expressão sisuda como se tal lugar fosse a projeção do inferno na terra e eles estavam ali sendo obrigados a queimar naquele purgatório de conhecimentos gerais.

No calendário marcava 16 de agosto de 2011, uma terça-feira, também o dia que completava exatas quarenta e oito horas que seu amigo Thomás ao menos dera algum sinal de vida, nada tirava de sua cabeça de que algo muito grave tinha ocorrido, era um aperto estranho no peito, como se facas dilacerassem o próprio de maneira agressiva, uma angustia, um desconforto tremendo que ele sequer conseguia concentrar-se em qualquer coisa por mais boba e simples que ela fosse, afinal a personalidade de seu amigo era como a águas translucidas de um rio, tão limpas e claras que conseguia ver o fundo com clareza, isto é, sabia que ele era reservado, mas não incomunicável e mesmo que ambos não tivessem muito tempo, sempre arranjavam uma forma de desperdiçar nem que fossem os dez minutos de recesso da aula ou os míseros segundos furtivos no qual tentavam contato um com outro através de mensagens mesmo com a aula em andamento.

Não aguentando mais ficar sentado e esperando notícias, assim que ouviu o soar sinal que indicava o término das aulas, levantara o mais rápido que conseguira, guardou todos os seus matérias de forma desorganizada e desleixada, fizera até algumas orelhas nas folhas de seu caderno, seu coração batia rápido e descompassado com a possibilidade descobrir a causa dessa ação estranha de dias. Ao terminar de fechar sua mochila, jogou somente uma alça sobre os ombros, ignorou algumas garotas que sempre tentavam chamar sua atenção diariamente e até mesmo esquecera de despedir-se com respeito do último professor do dia.

Correndo institivamente, sabia que precisava ser furtivo o suficiente para não alertar os seguranças que sua família contratara para o vigiar e pegar o metrô para o outro lado da cidade, mesmo que Thomás não gostasse disso, ele iria visitá-lo de qualquer forma, já o imaginava gritando consigo fervorosamente, o xingando de diversos nomes infames que se seu rosto de feições bastante agressivas fosse visto por uma pessoa de fora, acreditariam fielmente que aquela seria uma discussão real e não dois jovens próximos o suficiente para se tratarem dessa maneira tão tortuosa, mas esse era o preço que ele teria que pagar para finalmente acalmar a chama da incerteza em seu coração, uma grande pena que tal pensamento nunca pôde se tornar realidade.

Algumas gotas de chuvas caiam padronizadas em seu ombro, com seu uniforme e cabelo encharcados, para quem o visse de longe, ele realmente parecia um garoto a ser digno de pena. A cada passo que dava, o quão mais próximo chegava da casa de seu amigo, seu coração se apertava e seus olhos carregados de esperança, sem motivo aparente queriam se debulhar em lágrimas, seu corpo estava reagindo, sua mente gritava para si que isso não fazia o menor sentido, afinal por que ele se encontrava tão triste? O que tinha de errado consigo? Tal questionamento martelava sua cabeça sem cessar, uma tortura tremenda, seus pensamentos desordenados agora se movimentavam loucamente competindo sobre qual o enlouqueceria primeiro.

Thales parou um pouco, estava em uma rua escura com somente alguns postes funcionando, respirou fundo e olhou para cima e uma gota gelada caiu certeiro e deslizou sobre sua bochecha esquerda, perdeu alguns minutos contemplando aquele feito para por fim voltar a caminhar, antes dedicou sua atenção para um relógio bastante imponente em seu pulso, presente de seus pais, era um prateado vibrante capaz de cegar qualquer olho que o cobiçasse com o brilho que emanava, Thales o olhava indiferente, pois era como todos os outros, eles nem mesmo se lembravam que já tinham o presenteado com um desses no ano retrasado, passado e agora nesse também, sorriu sem mostrar os dentes e suspirou cansado, "Quando que eles vão desistir de um mísero segundo de suas próprias vidas e ganância e focar em si?" se torturou mais um pouco, talvez ele fosse um tremendo egoísta, mas tudo bem, quem não age de forma possessiva com os próprios pais? Sacudiu a cabeça no intuito de espantar esses incômodos devaneios e decidiu seguir mantendo sua mente em silêncio, distraindo-se com a forma das construções, andar apressado de algumas pessoas e até mesmo com o barulho da chuva, tudo para não se machucar mais do que já estava machucado.

Bateu na porta de uma casa com os muros amarelos bastante desgastados pelo longo caminhar do tempo, a rua não era uma das mais agradáveis de se estar e pelo céu escuro anunciando o breu de uma noite gelada ela parecia assustadora, estava ensopado e tremia um pouco, como um filhotinho de gato que acabara de vivenciar uma das mais traumáticas lembranças de sua vida: o banho. Com o coração cheio de anseios, esperou apreensivo para que alguma alma viva abrisse aquela porta de madeira escura.

Não deu muito tempo, passos largos e arrastados foram ouvidos, um homem quem provavelmente tinha mais de trinta anos apareceu, seus olhos também eram pequenos e afiados, seu rosto era maduro e hostil, era magro, alto e dono de uma aparência abatida, seus trajes eram desleixados e seu olhar apático, logo Thales percebera que alguma coisa de muito errado tinha acabado de acontecer, ele conhecia a natureza do senhor Wang, embora ele não confiasse em si e não gostasse nem um pouco de sua amizade com seu filho, nunca apareceria de forma tão deplorável assim na sua frente, afinal era orgulhoso demais, sempre que ele via o pequeno garoto de linhagem rica, estufava o peito e aflorava cada vez mais uma autoconfiança inexistente, uma maneira de se proteger até.

— O que veio fazer aqui? — seu olhar frio fez o garoto engolir em seco, aquele homem alto realmente era capaz de o fazer tremer de medo. Apertando as alças da sua mochila com força, o mais jovem deles respirou fundo e respondeu:

— Eu vim ver o Thomás senhor. — sua voz quase o abandonara ai, ele se sentia como um filhote de cachorro que acabara de se perder de seu dono e agora tinha que sobreviver em meios as ruas e que devido a sua má sorte, terminara por encontrar um pitbull gigante com dentes bastante afiados e salivantes bem na sua frente. É, ele estava completamente apavorado, mas não desistira assim tão fácil. — Faz alguns dias que... eu... a... — gaguejou, havia gastado muita energia para formular a frase anterior sem vacilar que essa ele praticamente não conseguira.

— Ele não está. — soou frio e arrogante, seu olhar queimava em fúria, Thales sequer sabia o porquê aquele homem o odiava tanto, após receber essa reposta o jovem protestou e o homem perdeu a paciência e por fim gritou. — ELE ESTÁ MORTO SEU FILHO DA PUTA! MORTO, ENTENDEU? — o mais baixo entrou em choque, seus olhos se encontravam tão esbugalhados que pareciam que saltariam a qualquer momento.

— Morto? Mas..., mas... Como assim? — lágrimas nem um pouco contidas rolavam pelo seu rosto juvenil, seu tom de voz vacilante emanava nada além de dor, balançava sua cabeça de um lado ao outro em negação, recitava baixinho para si mesmo que o que acabara de ouvir era mentira, mas por que diabos ele mentiria para si? A gritaria do mais velho acabou alarmando a senhora da casa que não demorou e apareceu no portão também, ela era baixa, corpulenta, com bochechas salientes e tinha olhos gentis, os quais estavam carregados de tristeza, ela afastara seu marido e pediu calmamente para que ele fosse para dentro, quem protestou vigorosamente, mas logo assentiu.

— Thales meu jovem — começou, sua expressão dolorida tentava ao máximo trazer um pouco de conforto ao pequeno rapaz que se debulhava em lágrimas a sua frente. — O que meu marido disse é verdade, meu filho Thomás faleceu há dois dias. — explicou, mas o outro ainda se mantinha em negação, afinal como alguém tão jovem morreria assim do nada? Ele não queria acreditar, ele não podia acreditar, não podia... — Ele foi atropelado por um carro enquanto voltava da cidade, o motorista nem mesmo parou para prestar socorro — deu uma longa pausa. — Meu filho agonizou até a morte naquele asfalto sujo e quente pelo verão. — complementou, ela já estava chorando, lágrimas tímidas e brandas, porém bastante significativas, seu rosto enrugado e avermelhado denunciava que aquela de longe seria a primeira ou última vez que sua aparência tomaria esse formato, julgando pelo tom de voz, ela se encontrava exausta. — Sua vida foi subjugada como se fosse um nada, alguém sem mera importância. — eram palavras duras de serem ouvidas, mas a senhora tinha tanta dor dentro de si que perdera a capacidade de filtrá-las.

Thales olhou a senhora baixinha, seu olhar atônito e profundo dizia muitas coisas que a mesmas sequer conseguiria compreender, aquelas palavras cortaram seu peito como facas, pisotearam sua alma com veemência e por fim tripudiaram em sua esperança mundana a tornando distorcida e cruel. A senhora gordinha o abraçou por alguns minutos, as lágrimas quentes do jovem molhavam seus ombros, soluços suplicantes formavam um nó em sua garganta, Thales nunca na vida se importara em parecer frágil, se ele estava triste, ele seria triste, feliz idem, mas naquele dia nunca se odiou tanto por não conseguir consolar a senhora Wang, por ter sido um completo inútil.

— Antes de morrer, Thomás deixou algo para você. — um fio de voz trêmulo pelo choro foi ouvido, a mais velha se desvencilhou do abraço e pediu para que o mesmo esperasse um pouco, até o convidaria para entrar se não fosse a fúria descomunal de seu marido, só restou ao mais jovem ver sua silhueta sumir e voltar depois de algum tempo, ela trazia uma caixa amassada e ainda lacrada em mãos, não era muito grande, mas também não tão pequenina assim.

Ela a entregou e sorriu tristemente para ele. — Acho que esse deveria ser o último desejo do meu filho. — disse docemente com o tom de voz quase vacilante novamente. — Embora meu marido sempre tenha sido contra a amizade de vocês. — deu uma pausa e pousou seus olhos gentis ao garoto que parecia desconsertado. — Quero que sabia que eu não fui contra em nenhum momento, sempre que eu via o sorriso e a fala energética do meu filho ao citar seu nome, eu... eu... — gaguejou por ter se perdido entre as palavras. — Não tinha como eu ser contra uma amizade tão profunda como essa. — admitiu. — Eu não posso fazer mais nada pelo Thomás agora e infelizmente você também não. — soou sincera e calma. — Sei que é difícil de acreditar, mas aquele garoto jovem de rosto forte e atrapalhado não vai mais voltar, então por favor, como uma mãe que amava muito o seu filho, peço que nunca o esqueça, tudo bem? Pode parecer egoísta... Não, eu estou sendo egoísta, mas eu não teria rosto quando eu finalmente for encontrar o meu filho no reino dos céus para lhe dizer que seu melhor amigo o esquecera.

Só Deus realmente poderia dizer como Thales conseguira tal feito de chegar seguro em sua casa naquela sombria noite, com suas roupas, sapatos e cabelos encharcados, o jovem tremia freneticamente devido a temperatura fria de seu corpo, seus dedos estavam úmidos e gelados, lábios pálidos o suficiente para alguém o confundir com um fantasma, também carregava consigo uma expressão devoluta em seu rosto jovem, a qual externava que seus pensamentos se encontravam bem longe dali. Ainda agarrado com a caixa de presente sutilmente amassada, a abraçou ainda mais forte como se fosse o seu bem mais precioso em vida, o qual protegeria com o próprio corpo de fosse necessário.

Deferiu sua visão a grande porta branca que dava início ao que ele deveria considerar chamar como residência, um ambiente com um jardim extenso e bonito, com arbustos absurdamente verdes e bem tratados salpicados pela chuva que caíra até pouco tempo, sua arquitetura era moderna e requintada, embora fosse um prazer para os olhos, de longe aquele frio lugar teria uma aparência de um lar familiar. Poderia ser comparado a um grande hotel de luxo, sem quaisquer resquícios de alguma personalidade ou até mesmo como um oásis no deserto visto por um viajante que delirava devido a sede e fome, isto é, uma doce ilusão.

Tirou a chave do bolso de sua bermuda azul petróleo bastante castigada pelo mau tempo, olhou com tristeza o pequeno e discreto chaveiro de tangerina que a decorava, tinha o comprado faz muitos anos, pois toda vez que olhava para si as boas memórias vinham e o aqueciam como um abraço terno. Não se lembrava mais qual deveria ser a sua idade na época, somente de duas crianças que corriam furtivamente depois de tirar algumas tangerinas da casa da vizinha rabugenta e amarga de Thomás, eles riam tanto pelo caminho que suas barrigas doíam, depois de praticamente se sentirem como se tivessem corrido uma maratona inteira, os dois meninos se escondiam em um deposito abandonado bem próximo da região e se deliciavam com o doce sabor das frutas pegas. Um ao lado do outro, encostados em uma parede descascada e velha, suados e ofegantes, mas sorridentes por terem saído ilesos do feito traquina.

Colocou a chave na fechadura, seus dígitos finos e compridos giraram-na com delicadeza e finalmente abriu a porta, caminhou pelo liso e ilustrado piso de madeira clara, retirou o seus sapatos enlameados adjunto das meias e trocou por um simples chinelo cinza que sempre ficava a sua espera ao lado da sapateira, por fim logo notou que estava sozinho em casa, deu um longo suspiro cansado e com as pálpebras baixas subiu as escadas em silêncio e foi direto até seu quarto, ao entrar sequer acendera a luz, seu rosto já se encontrava enrugado e inundado de lágrimas novamente, as quais escorriam de maneira desordenada sobre suas bochechas, seus olhos estavam vermelhos e ardentes, sua voz o abandonara há muito tempo e seu nariz? Bom, escorria como de uma criança que acabara de ralar os joelhos em meio de uma brincadeira, não era uma imagem bastante agradável.

Com a caixa em seus braços, suas pernas de repente perderam as forças e sentou-se no chão, ao menos se importou com a poça feita abaixo de si devido as roupas molhadas, perdeu alguns minutos encarando a superfície levemente amassada e buscando dentro de si uma coragem praticamente inexistente para tentar desvendá-la. Encarou, encarou, suspirou, chorou e a encarou por mais um tempo, mas no fim seus dedos longos já prontamente desatavam o nó que antes provavelmente deveria ter sido um laço que foi desfeito em meio ao impacto, a abriu de forma calma e ordenada, estava bastante ansioso e seu coração batia rápido, mas tão rápido que doía, depois de toda aquela luta interna entre o medo e a coragem, finalmente a abriu de fato e logo viu um envelope e abaixo deste tinham dois colares ligados por um pingente artesanal de maneira pintados como yin-yang, os quais também tinham o formato de um peixe: a carpa e não demorou para vir em sua mente a voz de seu amigo lhe dizendo: "Somos como yin-yang, eu sou o lado escuro da montanha e você o claro, um não pode viver sem o outro, um perfeito equilíbrio."

Thales pegou o tímido e simples envelope e se pôs a lê-lo:

"Thales, você sabe como ninguém o quanto eu sou uma negação com as palavras né? Tentei escrever isso aqui umas milhões de vezes e sempre acabava sendo extremamente grosseiro no final, mas 'pra minha sorte, uma moça me viu todo atrapalhado quando eu tentava escrever 'pra você na praça e resolveu me ajudar, ela disse que se eu fosse sincero, você ao menos se importaria se a caligrafia seria tão boa quanto a sua ou se as palavras estariam a sua altura ou não, com isso eu perdi o medo e aqui estou eu o escrevendo mais uma vez.

Esses pingentes de madeira eu aprendi a fazer com o velho Souza da marcenaria perto lá de casa, queria lhe dar um bom presente de aniversário, mas não tinha muita grana sobrando. Da primeira vez que tentei fazê-lo eu cortei meu dedo tão feio que você passou o dia inteiro tentando descobrir a causa, porém eu ainda não podia contar a verdade, desculpa te enganar, ok?

Bom, eles são o yin-yang e talhei as iniciais de nossos nomes atrás, o que está bem confuso pois nossos nomes começam com T, achei a ideia legal, mas no final não ficou tanto assim, além disso, escolhi para se parecerem como carpas por causa da história que a minha mãe sempre contava 'pra a gente na infância, lembra da carpa que tinha que atingir a fonte do rio Huang Ho superando correntezas e cascatas para se tornar um dragão? Então, acho que a coragem, determinação e força combina bastante com a gente, talvez eu esteja sendo arrogante devido a essa afirmação, mas tudo bem, tudo bem, eu consigo lidar com isso.

Outra coisa, como eu já tinha lhe dito antes, você é como se fosse o lado iluminado da montanha, sorridente, inteligente e gentil, já eu o lado coberto por sombras: grosseiro e estúpido, mas tudo bem, embora antagonistas nós nos completamos, afinal como entenderíamos a noite sem nunca presenciar o dia?

Além de simbolizar a nossa amizade eles significam mais alguma coisa, quero que saiba que da mesma forma que você tenta cuidar de mim, me comprando coisas e me ajudando, embora você saiba que sou orgulhoso demais para aceitar isso, eu também posso fazer por você, talvez sem os melhores recursos. Mas sendo exagerado agora, todas as pessoas do mundo sabem muito bem que não tem como se subestimar a determinação de alguém apaixonado. É! É isso mesmo que você leu, naquele dia você acertou em cheio e eu fiquei tão desesperado que só consegui xingar você no final, será que eu fiz errado não ter sido sincero naquele momento?"

— Dr. Thales! Dr. Thales — passos apressados podiam ser ouvidos por todo o extenso corredor, logo uma voz estridente e nada confortável também se fez presente no ambiente. Era uma enfermeira, quem acabara de chegar extremamente ofegante na sala de descanso dos médicos a procura de alguém, seu olhar vagueou por todo local de forma rápida e sucinta, não demorou muito para que encontrasse a quem procurava. — Uma paciente acaba de dar entrada com sintomas graves de alergia.

Comunicou, o homem que procurava estava sentado, encostado na cadeira de maneira relaxada e de olhos bem fechados, pela sua aparência, mesmo a pessoa mais avoada perceberia seu cansaço. Já a enfermeira era uma mulher bem jovem, não era muito alta, seu rosto tinha boas proporções e sempre ostentava um sorriso gentil, sua pele era negra, seus olhos eram grandes e redondos, sua coloração amendoada parecia casar perfeitamente com seus traços.

A moça ainda se mantinha bem ofegante devido a correria de poucos minutos atrás, estava de pé a frente do homem, que de pálpebras baixas e em silencio se arrumava para segui-la.

Tinham se passado dez anos e agora Thales poderia ser considerado um homem feito, havia se afastado tanto de sua aparência infantil que qualquer pessoa de seu passado o encontrasse agora, mesmo as que eram mais próximas teriam grandes dificuldades de reconhecê-lo. Seus cabelos antes cheios, compridos e crespos, os quais normalmente era controlados por um arco preto quase invisível quando posto em sua cabeça, agora se encontravam curtos o suficiente para deixar livre a visão de suas orelhas e um antigo furo que tinha feito quando mais novo, seu olhar jovial e despreocupado desapareceram, dando lugar a olhos mais diretos e inexpressivos na maior parte do tempo, sua pele preta contrastava com a blusa de gola alta vinho que usava, ele realmente tinha mudado, na verdade, mudado e muito...

Logo após ser prontamente guiado até a sala correta, ao chegar lá Thales teve a infelicidade de presenciar uma cena nada agradável de uma menininha com no máximo cinco anos de idade quem lutava por sua vida, sua expressão era de desespero, seus olhos grandes estavam marejados, seus lábios finos entreabertos sinalizavam uma tentativa totalmente falha de respirar. Aquela não era nem a primeira e também de longe seria a última que visualizaria uma cena dessas, mas não importa quantas, ele nunca conseguiria se acostumar completamente.

Os pais da menina se encontravam estáticos e aflitos, a mãe da mesma orava desesperada enquanto o companheiro alisava suas costas tentando confortá-la.

— Ela chegou aqui já em estado de asfixia e manchas avermelhadas na pele. Perguntei aos pais o que eles estavam fazendo antes dela passar mal e eles me disseram que a levaram para almoçar fora como sempre fazem. — passou as informações ao médico para que ele tivesse algum norte de como atuar.

— Sabe se ela tem alergia diagnosticada a algum componente ou substância? — Thales dirigiu essa pergunta aos pais que pelo olhar perdido nitidamente era a primeira vez que estavam passando por uma situação como aquela e ele não gostara nada disso. A garota estava deitada no leito e rapidamente Thales afrouxara suas roupas para facilitar na circulação de ar e iniciou uma massagem cardíaca para ganhar algum tempo.

— Como assim vocês não têm a menor ideia? É dessa forma que vocês cuidam da filha de vocês? A vida dela é tão insignificante assim? — ele realmente fora duro com as palavras, nesses tantos anos de atuação, seu nome era bastante conhecido por sua rigidez e falta de filtro para se comunicar com as pessoas, uma das coisas que mais faziam seu sangue ferver era quando se tratava de irresponsabilidade, a expressão vazia de ambos o tirou o sério e quando finalmente se tocou, já fora ríspido e com o tom de voz alterado fizera mais uma pergunta: — Conseguem ao menos dizer o que estavam comendo? — respirou fundo com o intuito se se acalmar, o que fora falho.

— Não sei ao certo... — a moça tentou falar, mas seus olhos vermelhos desabavam em lágrimas, tornando-se impossível de ouvi-la com clareza devido ao seu tom de voz vacilante. — Acho... Acho... que era camarão... — receosa, disse em um fio de voz, estava atordoada com a grosseria anterior, ela já se sentia culpada o suficiente e depois de ouvir aquelas palavras foi como se tivessem carimbado o seu erro com veemência, não era como se ela quisesse ver sua filha sofrer, machucá-la, ela realmente não fazia ideia que a sua menininha teria uma reação tão extrema dessas com um simples ato inocente de leva-la para passear.

— Enfermeira Ana, traga o mais rápido que conseguir epinefrina, consegui suavizar um pouco a falta de ar, com isso ganhamos algum tempo. — a jovem moça prontamente acatou as ordem do médico e não demorou muito para que trouxesse consigo uma seringa com o líquido, entregou a mesma para o homem que aplicou no braço direito da menina e com o correr de alguns minutos o vai e vem descompassado de seu tórax foi atenuando e aos poucos sua respiração voltando ao padrão de normalidade ficando mais contida e ritmada. Felizmente ela ficaria bem.

Thales deu mais uma olhada na menininha, quem depois de todo aquele susto acabou dormindo, vendo que ela estava estável, ele somente escreveu alguns pedidos de coleta de sangue para confirmar a possível alergia da menina, pediu que a enfermeira instruísse os pais e logo após deixou a sala.

— Sinto muito, sinto muito! — com as pálpebras baixas, Ana se desculpava com os mesmos por toda a grosseria anterior. — Acho que vocês ficaram bastante impressionados com a forma de agir do Dr. Thales, peço novamente desculpas por esse comportamento dele. — tentou suavizar toda a situação desconfortável, decerto que seu rosto gentil e animador conseguiria esse feito sem dúvidas. — As pessoas tendem a achar um pouco ríspido às vezes, mas ele é uma boa pessoa, não levem para o lado pessoal ou fiquem chateados com isso, tudo bem? — a própria tinha um sorriso receoso formado nos lábios, essa cena para si não era nenhuma novidade, sempre que Thales fazia uma bagunça como essa, ela que acabava tendo que usar seu carisma e bons modos para resolver, tanto que já considerava até pedir um aumento se as coisas continuassem por esse caminho.

Os pais da menininha, cansados com tudo aquilo, preferiam não arranjar mais problemas e concordaram com a moça que tomou uma postura bastante aliviada depois.

Os vestígios da noite já podiam ser notados quando se olhava para as grandes janelas que muitas vezes decoravam os corredores pálidos e sem vida do hospital, normalmente nesse horário o fluxo de pessoas transitando era brando, mas nesse dia fora totalmente diferente, um grupo de médicos discutiam fervorosamente na tentativa de adivinhar o porquê foram chamados até a sala de reuniões em uma hora pouco usual, mas não falavam tão alto assim e logo se calaram quando entraram no tão esperado lugar. Era bem difícil que vissem o diretor do hospital com muita frequência, então acabava sendo um evento bastante comentado quando ocorria.

A sala de reuniões era extensa e sem personalidade, suas paredes facilmente igualadas a telas em branco, tão lisas e sem nenhuma marca de história. Embora fosse muito confortável, as pessoas ali presentes se contorciam devido a ansiedade, com isso o ambiente que deveria ser agradável não conseguia cumprir esse feito.

Thales se encontrava bem ao fundo da sala entediado, brincava com a caneta que antes estava no bolso de seu jaleco, entre os dedos, também olhava apressado para seu relógio, pois o cansaço acumulado de dias finalmente viera lhe cobrar e exigir que desacelerasse por algum breve momento. Naquele instante seu único desejo era piscar e perceber que na verdade tudo aquilo era uma terrível ilusão e ele estava em sua casa, deitado em seu sofá buscando coragem para tomar um banho e por fim apagar em sua cama, mas infelizmente tal situação era real, tão realista que não aguentava mais olhar para aquelas pessoas. — Bufou cansado.

De repente a porta fora aberta e todos que antes se mantinham falantes e desordenados devido as especulações ficaram quietos e comportados, o diretor entrou com uma postura imponente, a qual não conseguiu segurar por muito tempo, tinha um sorriso satisfeito em seus lábios ao ver todos ali. Por mais que tivesse tudo para agir como um tremendo tirano, aquele homem baixo e barrigudo era um poço de simpatia, conversava e tratava a todos como igual, se dessem abertura o suficiente ele apertaria a mão de todos e distribuiria diversos tapinhas nas costas, para ele aquelas pessoas eram como sua segunda família.

Para a surpresa dos demais, um homem bastante alto o caminhava a seu lado, tinha uma expressão tensa, olhos pequenos e afiados, mas com um brilho esperançoso, ninguém ali percebera, mas seu coração batia rápido e suas mãos suavam devido o nervosismo. Tinha um rosto rígido, mas muito bonito, sorria timidamente também, o que fazia um contraste interessante, afinal sua aparência não era muito gentil de fato, mas a sua postura querendo ou não, demostrava outra coisa.

— Esse aqui é Wang Wei Qi. — virou-se para o rapaz que mais parecia um gigante a seu lado, deu um tapinha em seu braço para chamar sua atenção e cochichou rapidinho e o mesmo assentiu com a cabeça, provável que tentasse confirmar se tinha pronunciado o seu nome de forma correta. — Ele é um residente em um hospital parceiro lá na china e vai passar um período aqui aprendendo e compartilhando conhecimento conosco. — o mais velho parecia animado e logo os demais também ficaram depois do anúncio de um rosto novo.

Thales ainda brincava com sua caneta entediado, nem mesmo tinha olhado as duas pessoas que acabaram de entrar porta a dentro, ao subir suas pálpebras, seu rosto de expressão tediosa se contorceu com o susto, como se tivesse visto um fantasma. Dizia para si mesmo que aquilo era impossível, pois aquela pessoa estava morta, morta há dez anos...

3 de Outubro de 2021 às 20:15 0 Denunciar Insira Seguir história
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