mruniicornz Diego Noronha

Pensamentos de uma pessoa qualquer a refletir sobre a vida, a condição humana e sobre a sociedade em uma madrugada chuvosa.


Não-ficção Todo o público.

#aesthetic #vida #Filosofia
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Madrugada em Claro

O som da chuva a gotejar por entre as folhas das árvores proporcionavam um agradável contraste ao som da cidade, os pneus dos carros pelo asfalto molhado indo em diversas direções mesclando-se ao agradável som da natureza.

A luz dos postes amarelados juntando-se com a iluminação de algumas janelas que brilhavam em apartamentos esporádicos proporcionavam também uma bela imagem em meio à escuridão de uma noite sem Luar. Pessoas como eu acordadas em plena madrugada por tantos motivos diferentes que poderiam me fazer pensar e ponderar sobre durante muitas noites, de certa forma, saber que há tantos indivíduos diferentes com motivações e questões tão singulares quanto, sempre me deixaram desconcertadamente calmo, este visual tão belo e estas ideias tempestuosas sempre me fizeram companhia quando a própria Lua se mostrava ausente.


Da janela de meu quarto eu podia ver as ruas e avenidas cortando inúmeros caminhos por entre outros inúmeros prédios e lojas, como verdadeiras artérias que transportam os materiais necessários para a sobrevivência deste organismo quase vivo. De muitas maneiras, seria correto até mesmo comparar cidades ao próprio corpo humano, onde cada pessoa é uma célula que o habita e desempenha suas funções para o funcionamento do mesmo, até mesmos aqueles que lutam contra ou que dificultam a funcionalidade pacífica deste meio, invariavelmente contribuem para evolução e mutação deste corpo sem nem ao mesmo se apercebendo deste fato, inclusive aqueles que fogem deste corpo de concreto e metal são fatores importantes para sua eterna mutação.


Os faróis dos carros a percorrer as vias desapareciam nas entranhas da metropole, tantos pontos de luz que mais pareciam vagalumes a voar e a mesclar-se para então sumirem naquela fina névoa de chuva. Apesar de fraca e fina, a chuva se mantinha constante mantendo aquela sinfonia da natureza com a música caótica da cidade dos homens, tudo era tão harmonioso e com tantos detalhes para se observar que mesmo estando ali contemplando aquela visão por quase uma hora, sempre que eu pensava em sair dali, algum outro pequeno pormenor fazia-me ficar novamente perdido em pensamentos.

Minha caneca quente entre minhas mãos com um chá de camomila a lançar seu vapor perfumado em minhas narinas era o que me ancorava na realidade, o contraste do calor com o frio daquela noite se tornava agradável ao meu corpo. Um curto gole do líquido fez com que meu corpo se arrepiase com o súbito calor a invadir meu corpo, que sensação agradável em uma noite gélida.


"Definitivamente em uma vida tão caótica e incerta como a de nossa sociedade atual, onde nunca paramos e nossa mente é lotada tanto de preocupações quanto informações", os pensamentos começam enquanto eu fitava o horizonte vasculhando o ambiente sem focar em nada em específico, "quantas vezes paramos e simplesmente apreciamos as pequenas coisas, a sensação de uma xícara de chá quente em uma fria noite, a visão de nossa cidade onde simplesmente ignoramos os belos e pequenos detalhes, e o simples e agradável som da chuva?"

Mais um gole do doce líquido de uma infusão de chá que preparei com uma colher de mel já não fez meu corpo estremecer, o calor apesar de ainda ser agradável, não era surpreendente ao meu corpo. "Se em momentos como este quando não estou a fazer nada em específico, quando apesar das crescentes pressões sociais de sempre estar produzindo algo para a dita sociedade, por quê é que justamente agora que me sinto mais completo e repleto de uma paz?"


Com um miado baixo sinto algo a se esfregar na minha calça de moletom, um som que já conheço a tanto tempo, e lá está ela, 'Nayla' a gata que adotei há dois anos, apesar de me faltar companhia humana aquele era o único ser vivo que sempre está por perto quando preciso, em todos os momentos agradáveis ou estressantes de minha vida, é sempre reconfortante ser recebido em casa por ela e seu gentil miado.

Acaricio sua cabeça gentilmente com a ponta de meus dedos, seu pelo é fino e macio e ela então esfrega sua pequena cabeça contra minha mão indicando o quanto gosta disto. Continuando a andar a paços curtos deixo-a percorrer meus dedos pelo seu esguio corpo até seu longo rabo escapulir por dentre meus dedos, e então da mesma maneira inusitada e espontânea da qual apareceu ela se vai embora. Observo com um sorriso sua caminhada até que Nayla deita em minha cama toda enrolada, ela me dá uma última encarada com seus olhos cheios até que repousa sua cabeça sobre as patas e põe-se a dormir, meu amor por esta criatura e minha felicidade por a ter como companhia invade meu coração.

"São nestes precisos momentos que minha vida se faz presente, nestes preciosos e fugazes momentos que constituem nossa vida, que jamais voltaria a se repetir, somos tão finitos quanto estes momentos eternos em minha alma, ainda que minha existência quanto a da gata se termine em breve".

Voltando a fitar a janela eu tomo o último gole de meu chá que agora já está morno.

"Ainda que eu morra daqui a 5 minutos, ou pior, ainda que em alguns punhados de anos eu saiba que tudo isto terminará, mesmo que minha única certeza nesta caótica e sem sentido existência, onde tudo e todos que eu conheço chegarão num súbito fim, tudo isto, toda a dor e sofrimento que já enfrentei valeram a pena, minha existência vale a pena simplesmente por eu estar presente neste calmo momento passageiro, nesta madrugada fria e chuvosa eu me sinto mais pleno do que jamais senti em meu emprego ou em meus estudos".


Lentamente eu me afasto da janela e corto a escuridão de meu quarto em passos lentos e calmos ainda com a caneca vazia em mãos indo em direção à cozinha.

Enquanto ando pela silenciosa e escura casa, onde não preciso depender totalmente de minha visão para navegar por entre os cômodos, minha mente está calma e presente somente neste momento, foco somente no som da chuva e na sensação do meu pé descalço a pisar no chão de madeira, estou totalmente presente no agora sem sequer me preocupar com os problemas do meu dia a dia, isto não existe no agora, tudo que é real é a minha presença e minha existência.

Repouso a caneca a beira da pia de minha cozinha e volto ao quarto tão calmo quanto na ida, não tenho pressa alguma e as horas já não me são importantes, mesmo que tenha que acordar cedo isto não me importa nem um pouco no presente.

Lentamente me aconchego na cama tomando cuidado para não atrapalhar o sono de minha pequena companhia. Puxo o cobertor até o pescoço e me vejo fitando o teto branco onde as luzes da vida noturna metropolitana é emitida como espectros luminosos.

Mesmo calmo e tentando me entregar ao abraço de Morfeu, o sono parece escapar de mim, tento fechar os olhos mas após algum tempo eu percebia que estava novamente a fitar o teto com pensamentos tumultuosos, sempre que pensava muito na existência e na essência da própria humanidade eu perdia quase que por completo o sono.

Em mesma medida que aproveitava os breves momentos de paz que tinha, sentia-me entretanto, perdido e sem saber o que fazer comigo mesmo. Quando estava no trabalho eu sempre ansiava e esperava pela hora em que voltaria para minha casa e refúgio, tantas ideias e vontades acerca do que fazer, mas quando chegava nestes intervalos que cada vez mais se encurtavam, tudo que minha vontade permitia-me fazer eram coisas que muitos diriam ser improdutivas e por vezes me pegava a ter vontade de voltar ao trabalho simplesmente para ter algo significativo para fazer comigo mesmo.


"Se quando trabalhamos não vemos a hora de voltar ao nosso descanso, como uma verdadeira febre pelo dito happy hour, e como a vida ensinou-me que meus sentimentos e ideias mesmos que nunca proferidos, expressados e compartilhados com outras pessoas, são mesmo assim compartilhados por tantos outros, me escapa a noção do porquê estamos sempre insatisfeitos e infelizes."

Enquanto voltava a ter pensamentos profundos, Nayla carinhosamente se aconchega ao lado esquerdo de mim, encostada em meu quadril entre meu corpo e a parede da lateral de meu quarto.

"O que me faz pensar que a felicidade, ou melhor, a satisfação humana (ou insatisfação) não está necessariamente ligado ao trabalho que desempenhamos em si, pois mesmo gostando do que faço, muitas vezes não suporto a idéia de fazê-lo pensando por diversas vezes em simplesmente me demitir. Além disso, mesmo quando não estou no trabalho, mesmo aos fins de semana que ansiava para chegar, sinto vontade de voltar ao trabalho, sendo assim, a única resposta lógica que chego é que nossa satisfação está ligada com a sensação de ter um propósito. Válido é esta observação se notarmos que as pessoas são capazes de suportar e causar imensos sofrimentos quando sentem que tem um propósito válido para isto."


Aos poucos a esperança de adormecer me escapava e eu já desistia de encontrar Morfeu, mais valia eu simplesmente abraçar estes momentos e ideias e simplesmente mergulhar neles o mais profundo possível.

Com um longo e profundo suspiro eu deixei meu corpo relaxar e repousar, se minha mente se recusava a render-se ao descanso, ao menos meu corpo merecia tal luxo. Quanto mais relaxo meus membros, mais pesado sinto meu corpo, era como se houvesse um contraste de vontades em meu ser.

Ignoro então a sensação do corpo para somente me concentrar nos meus pensamentos e ideias.


"Há um problema, entretanto, que noto em nossa atualidade, é a verdadeira desinformação que temos com relação a existência. Ora, nos é imposto que o propósito ideal da vida é a acumulação de bens e luxos, é o conforto e o prazer físico em sua infinita busca que move nossa sociedade e suas pessoas, ignoramos os anseios da alma e os afogamos em entorpecentes momentâneos para esquecer do quão infelizes nos tornamos. Álcool, dinheiro, a busca de objetivos infinitos se tornam nossas ferramentas para ignorar os gritos internos. Ficamos tão envolvidos nisto que passamos toda uma vida amargurados que nem sequer damos tempo a nós mesmos, dizemos que uma boa vida é aquela que é sempre ocupada, que precisamos sempre estar a fazer algo ou então o vazio irá nos engolir e nossa existência seria sem sentido, quando em realidade, uma existência de um ser que nunca busca viver no momento em si, nunca busca realmente saber aquilo que precisa para ter significado, nunca busca saber a razão pela qual valeria a pena viver e sobreviver é portanto, o verdadeiro vazio".


"Então," continuei a pensar enquanto fechava lentamente meus olhos, "podemos concluir que uma sociedade que ignora tais verdades, em que as pessoas tentam ser cada vez mais parecidas com máquinas ignorando seus próprios sentimentos e necessidades, onde estas mesmas pessoas ignoram e excluem aquelas que buscam o sentido verdadeiro da vida, com falsas justificativas e noções que dinheiro e bens são o que medem o valor humano ao invés da qualidade das ideias de uma pessoa e a integridade do seu caráter e bondade. Nos tornamos assim uma sociedade doente e facilmente manipulada por aqueles que ditam as regras do acúmulo de riquezas e nem ao menos percebemos isto.

Mas o que seria preciso para mudar isto? Revolução? Anarquia? Começar uma nova sociedade do zero? Ou simplesmente fugir e deixar tudo isso para trás?"

De pouco em pouco meus pensamentos se acalmam estando mais lentos, o sono finalmente estava a chegar.

"Bom, é melhor eu pensar nisso um outro dia, com uma outra insônia em uma outra madrugada."


- Boa noite Nayla.

1 de Outubro de 2021 às 14:45 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Diego Noronha Aspirante a autor, amante de cerveja, animais e bons livros. Histórias obscuras são meu ponto fraco. Edgar Allan Poe e Lovecraft são meus escritores favoritos.

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