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Raquel Maria de Souza Reis


Crianças do Estige é como são chamados aqueles que dedicam-se à Macária, vivendo na luz no fim do túnel que separa vida e morte, diariamente. As guerras divinas não os atingem, mas ainda acontecem lá fora. Deuses e seus invólucros, e servos, ainda se digladiam entre si, mas as Crianças do Estige permanecem quietas, um absoluto mistério para a maioria dos vivos até o momento em que deixam a vida. Viver à beira da morte o aproximaria dos vivos ou dos mortos? Sigmund, uma alma iluminada, dotada de muito poder, encarnada em um pequeno monge, enfrentará este dilema. A intolerância existe em todos os lugares, a ignorância vive em qualquer ser pensante, admiti-la é uma escolha. Acompanhe a infância de Sigmund, abnegado, rejeitado, insano e revoltado, guiado pelo destino para tornar-se mais uma Criança do Estige. Algos não é uma história de superação. Tampouco o amor de um homem e uma mulher. Algos é sobre não crer na humanidade, mas investir suas últimas esperanças em uma força divina. Sobre cuidar da vida, mesmo não acreditando nos vivos. Sobre responsabilidade consigo e com o outro. Sobre a essência de viver em comunidade, com os vivos ou os mortos. *** Algos é uma obra inspirada pelo universo de Cavaleiros do Zodíaco do nosso Grande Mestre Masami Kurumada. Pode ser possível observar os pontos em comum com a grande obra de Kurumada, mas, em geral, poucos elementos da série serão vistos. *** Leia com Discrição. Deixo desde já o alerta de gatilhos, muitos assuntos sensíveis serão abordados.


Fantasia Fantasia negra Para maiores de 21 anos apenas (adultos). © Todos os Direitos Reservados

#fé #tristeza #sadismo #dor #amor #mitologia #filosofia #Algos
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Prefácio

"Dezenove anos... Foi o tempo necessário para chegar onde cheguei. As influências de Algos sobre mim, no momento, são mais intensas. Ela é selvagem e este é seu maior encanto. Criatura rubra que vive nos céus das escadarias e no íntimo de minha alma.

Chegar onde cheguei não foi uma tarefa fácil. Não sou um homem dotado de virtudes invejáveis, mas se deseja conhecer um pouco de mim, dezenove anos é o tempo que precisamos voltar.

O tempo em que eu não conhecia o valor da virtude de ter o céu sobre minha cabeça, mesmo sempre admirado pelo brilho das estrelas.

O tempo em que meu corpo prematuro, não suportava as muitas capacidades que nasceram comigo... conosco.

O tempo em que minha visão da realidade era ingênua e eu era incapaz de perceber o quanto a vida é desnecessariamente pífia... vulgar...

Nunca eu teria imaginado, há dezenove anos, que um lugar surrealista seria meu lar e que eu guardaria com real amor não somente o lugar, como as pessoas, meus filhos que comigo, vivem. Talvez a impossibilidade de ouvir falar de Escher seja um dos motivos da minha falta de imaginação; pode ser um mero devaneio, mas ele fez um bom trabalho, inspirado pelos ventos da boa morte sobre sua vida.

Devaneios à parte, tenho que falar de mim... tsc... Não há tanta complexidade em minha vida.

Uma infância difícil!? Não tanto, dada a velocidade com a qual a grande problemática se resolveu. Observando as crianças que vivem agora, em plena década de oitenta, posso chamar minha infância de feliz e saudável. Dizem que as almas carregadas por Macária são privilegiadas. Uma alma apadrinhada, abraçada por Ela está algumas vezes distante de somente privilegiada... exprimir o quão sortudo, abençoado, ou sabe-se lá qual adjetivo usar, é impossível.

Uma adolescência difícil? Nem um pouco. O treinamento pesado era mera lapidação. O trabalho com almas sim, foram difíceis. Ainda são! Entretanto, esta não é uma realidade que mudará, as almas continuarão em constante putrefação por tempo indeterminado. Toda vez que duvidei da capacidade humana de piorar, eles se superaram, acredite!

Não há muito em minha história para ser visto ou contado. Afinal, não houve um momento antes do meu real voto de devoção à minha mãe divina em que eu realmente vivi. Iluminado! Todos gostavam de dizer, mas em que esta luz realmente ajudou quando eu precisei? Uma criança muito sábia! Pasmavam eles, mas o quanto buscaram em minha sabedoria, entendimento o suficiente para se aprimorarem como fétidos vivos que eram?

Minha mãe divina diz: "Não precisa amar a vida para cuidar dela.", felizmente esta fala ecoa em meu íntimo diariamente, contendo meus anseios genocidas, removendo a loucura de meus olhos e preenchendo-os com melancolia.

Sou como um cão segurado com força pela sua dona, impossibilitado de atacar todos que se aproximam. Tsc... Sempre fui assim, sempre serei assim! Tenho mulheres para proteger e atacarei ao mínimo sinal de ameaça, por minhas duas mães: a mãe divina e a mãe que, por vontade própria, assumiu a responsabilidade por mim, mesmo quando cri não precisar ou querer.

Houve um momento em minha vida que me senti expurgado, extremamente odiado e indesejado. Os impactos desta fase dolorosa até hoje ressoam em meu ser, é inevitável, é parte de mim. Gostar de sofrer é uma característica inefável de nós, foi assim com o mestre do meu mestre, com o meu mestre, é assim comigo e com certeza o será com meu sucessor.

Compreender a dor como uma ferramenta do crescimento e da evolução é um fato, é o Princípio do Sofrimento. Amar a dor como se ama uma esposa é parte de carregar comigo a essência da doce Algos. Como não amar? Aquela que entrega ao mundo expurgo, prazer e evolução.

Sou só um filho. Devoto e leal às minhas mães. Apaixonado por Algos.

Conhecer minha história nunca será o suficiente para compreender todo o complexo de inúmeras verdades que carrego comigo. Há muito filosofia correndo em minhas veias, surrealismo preenchendo meus sentimentos, melancolia e lascívia em minhas palavras.

Nenhum dos acontecimentos de minha vida é uma verdade; nenhum dos meus anseios insanos são meras fantasias. Não há barreira que separa real e irreal na minha vida. A esfera das possibilidades é o céu que envolve minha casa, sonho e realidade são o chão por onde caminho e os degraus que lá fora flutuam, segurados pela força de minha divina mãe, Macária.

Uma superstição diz que há um degrau para cada alma que existe, claro é só superstição. Pela quantidade que já pude observar, eu diria que pode haver um ponto de verdade neste mito. Quem sabe um dia, tomado pela loucura, eu não seja capaz de contar um por um... De todas as citações, esta é digna de meu favoritismo, pelo simples fato de despertar em mim, uma curiosidade digna dos meus tempos de menino.

Em Burma, ensina-se tolerância e humildade por todos os lugares, respeitam-se os ensinamentos antigos com afinco e se necessário, até mesmo com a força. Infelizmente, nós, crianças de Algos, sempre lidamos com um infortúnio religioso e isto despertou em mim a sede pelo sangue dos theravadas. O tempo me ensinou a odiá-los mais, mas minhas donas mantém-me preso com rédias curtas.

Antes que pense mal, não é ruim estar preso, é necessário. Minha mãe carnal diz que a qualquer momento posso partir, mas eu jamais o faria. Minha mãe divina diz que não devo sentir-me preso. Entretanto, sei que sou mais eficiente e um filho melhor, preso, mesmo que os grilhões partam de meu imaginário; não há nada que você pense que não possa se materializar!

Tornar-me uma criança do Estige, meio morto, aumentou minha percepção sobre vida e morte. A palidez que tomou minha pele queimada pelo sol de Burma, deu ao meu corpo capacidade maior para suportar o peso da pouca vida que me resta; deu aos meus olhos, capacidade de enxergar além da mera vida e por trás das cortinas julgadas belas pela humanidade, há um cenário terrível.

Um cenário destruído pela guerra, pela fome, pela ambição, pela corrupção... enquanto os olhos vivos não enxergam, este cenário se alastra como uma praga. Quando tudo atrás da cortina terminar de ser devastado, a desolação não escapará dos olhos vivos.

Se ajoelharão com as mãos na cabeça e se perguntarão: "O que eu fiz?";

Chorarão e afirmarão: "Não há motivos para isto me acontecer.";

Alguns mais insanos, sorrirão: "Finalmente, o fim chegou!";

Os mais lúcidos seguirão, tentando cumprir seu papel de "bons samaritanos", tentando entregar salvação aos muitos que negam a buscá-la.

Os mais corruptos devorarão os lúcidos, os chorões e os arrogantes... na sobremesa, devorarão os insanos, e em seguida, consumirão uns aos outros...

Um ciclo de gula e canibalismo intrigante, literal ou não, fica a cargo de quem ler. A literalidade agora é como a esfera da possibilidade, vive por entre as linhas que separam as frases, alternando-se entre a realidade das letras.

No dia em que os vivos forem capazes de observar a desolação, felizmente não será tarde demais. Será o momento de todos sangrarmos para evitar que ela nos engula, evitar que retornemos todos para o interior de Caos. Sangraremos todos e infelizmente, mesmo minha mãe divina o fará.

Felizmente, ainda não aconteceu e talvez eu viva para saber o que se sucederá. Nosso curto tempo de vida pode nos impossibilitar de ver, é uma pena! Pela fatia de responsabilidade que carregam pelas lágrimas e pela dor de minha mãe, eu quero ver o momento em que sangrarão. Adoraria ver a humanidade gritando, sofrendo em coro, a mera menção me causa arrepios; lascívias a parte, a história daquele que fui antes de ser quem sou é pouca, talvez muita, não sei; a loucura levou meu senso de tempo.

Os devaneios cantados pela sinfonia de minha alma tocam poucos, mas com sorte e um pouco de fé, ressoará pelas almas dos tocados e transmitirá a estes, um pouco de minha louca sabedoria.

À Macária meu melhor, hoje e sempre.

Que a Boa Morte esteja lá, em seu último suspiro.

Algos, Sigmund."

***

Esta é uma obra de ficção que usará alguns acontecimentos históricos.

***

Por toda ignorância, intolerância, corrupção e ódio...

Toda sabedoria, compreensão, amor e perseverança...

Em nome de todas as mães e pais amorosos e responsáveis

E em nome de todas as mães e pais que não mereciam viver.

Por todas as crianças assassinadas, maltratadas e abusadas diariamente,

Por todas as mães e pais assassinados pelos próprios filhos...

Por todo estranho irmão que se julga divino

O suficiente para tirar a vida de outro...

Em nomes das avós e avôs que penaram na escravidão da vida...

Por todos os brancos, negros, pardos, amarelos

Que se digladiam como animais,

Crendo em algo como superioridade racial...

Por todo o ódio que vem suprimindo a vida e o amor...

Por todo amor que padece numa tentativa

Desesperada

De tocar o coração de, ao menos, um...

Por tudo que há de mais terrível,

Por tudo que há de mais belo.

Por tudo que há de mais santo,

Por tudo que há de mais obsceno e blasfemo.

Pela natureza que sangra e chora,

Abandonada,

Deixada de lado.

Isto é Algos.

Inspirado nas mais belas visões que tive

Da humanidade

E nas mais terríveis cenas que vi, vivi e sonhei.

***

Algos é parte de um projeto enorme, maior que eu.

Por me darem coragem e por acreditarem em mim, deixo meus agradecimentos:

Ao meu esposo e melhor amigo, Carlos F. Nogueira;

Ao meu amigo e irmão, Denis Moura S.;

Por último, mas não menos importantes,

Aos meus leitores assíduos, irmãos de África:

O poeta Jokano Albano

E o escritor Nelito Miguel.

Sem vocês, Algos nunca teria existido e não pulsaria vivo no seio da Literatura...

Sem vocês, o sonho de escrever jamais seria cogitável.

Aos leitores, leiam com sabedoria e discrição.

Sejam felizes e cuidem de si e do outro!

Nunca deixem que a corrupção da vida,

intervenha na sua capacidade de fazer o bem.

Sempre somem um com o outro,

jamais se esqueçam que ninguém tem

o poder de lhes dizer quem devem ser.

Nunca se permita.

Sempre seja!

Viva!

Ame!

Att. Raquel Souza.

***

Bom, voltemos dezesseis anos na história de Sigmund...

29 de Setembro de 2021 às 19:42 2 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo Protetor Vitorioso

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CF Carlos Fernando
Já de cara já percebi que encontrarei aqui uma excelente escritora não encontrei erro ortográfico e estou ansioso para conhecer este universo parabéns pelo trabalho 👏😍👏👏👏😍
October 05, 2021, 20:27

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