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Eu tomei café da manhã no último restaurante antes do início da estrada para a floresta da cidade. Tentava recobrar energias para continuar meu caminho.

- Com licença, posso me sentar aqui? - o local estava lotado e a única cadeira vaga era da minha mesa. Fiz "sim" com um aceno de cabeça e o rapaz se juntou a mim - Me chamo Max.

- Sergio. - tomei mais um gole do meu café.

Ele chamou a garçonete para pedir algo e logo puxou conversa comigo, exalando um forte hálito de hortelã. Seu olhar era rápido, passeava muito pelo local e constantemente caía sobre mim. Falando demais, Max reclamava de coisas aleatórias e contou um pouco do caminho que percorreu até então. Vindo da Holanda ele buscava aventuras. Expliquei que sou mexicano e formei uma família aqui.

- Estou andando sem rumo.

-Eu também.

- Posso te acompanhar...? - ele arqueou o corpo para frente e sorriu um pouco.

- Quer mesmo? - ri irônico, olhando para um lado. Me virei para ele

- Um homem precisa de companhia para não enlouquecer.

Concordei, mesmo ainda um pouco relutante.

Quando pagamos as contas, ele puxou meu mapa de um dos bolsos laterais do meu casaco; me virei em sua direção. Conversamos brevemente sobre eu querer ir para C através da floresta H, o que era uma ótima ideia segundo Max.

- Podemos passar por V. - acrescentou, dobrando o mapa. Colocou de volta. - Já fui lá e conheço bem.

- Tá bom. - eu dei de ombros e logo saímos do estabelecimento.

Saindo da lanchonete os próximos dez metros de estrada ainda eram asfaltados, mas logo o caminho se tornou estreito, enlameado e escorregadio. A ventania que anunciava chuva se fazia agressiva, assobiando um som assustador. Andávamos no mesmo ritmo ora falando qualquer coisa, ora somente ouvindo o crocitar dos corvos.

Eu me sentia um pouco diferente, com um aperto no peito jamais visto. As pontas dos meus dedos formigavam e isso ía até os pulsos, mas eu não disse nada.

- Tudo bem? - Max percebeu. Paramos. Os fios de cabelo dele balançavam.

- Sim.

- Certeza? Respire fundo.

Respirei e senti um incômodo no ato. Respirei de novo e o mesmo incômodo.

- Vamos voltar pra cidade... - ele segurou meus pulsos e automaticamente o encarei nos olhos. Com o cenho franzido, ele parecia preocupado de verdade. Mas neguei, pois não queria voltar por algo bobo e insisti para prosseguirmos.

Não demorou para chegarmos à floresta.

Quando anoiteceu já havíamos andado muito, uma quantidade ótima para apenas um dia. Na primeira clareira que vimos, montamos as barracas em volta da fogueira e Max saiu para pescar o jantar. A temperatura caía e a minha fome aumentava deixando meu humor instável.

Mas eu me sentia muito melhor do que antes sem aquelas sensações estranhas da manhã. Permaneci pelo menos meia hora sozinho, o que me deu privacidade para devanear um pouco sobre os acontecimentos recentes. Eu pensava na minha esposa e nos meninos, eles devem estar preocupados.

Recostado a uma das maiores árvores na clareira, fechei os olhos e puxei o ar com força sentindo meu peito se abrir e fechar, um pouco trêmulo. Minha boca começou a ficar seca e eu sentia uma dor estranha em minha garganta, seguido de um aperto na região do coração. Abri os olhos com o som dos galhos e folhas secas quebrando.

- Você gosta de peixe? - meu companheiro retornou. Com o animal em mãos enrolado num pano qualquer que ele levava na mochila, Max se aproximou da fogueira e se ajoelhou na frente dela. - Ei, pegue alguns galhos. Vamos fazer uma grelha para esse meninão aqui! - ele parecia bem animado com sua conquista.

Nos deitamos próximos a fogueira, cada um de um lado dela. O rapaz admirava a comida enquanto eu olhava para os últimos resquícios de laranja e rosa no céu, pois uma mancha de azul escuro se aproximava e caía a noite, enfim.

- Ei Sérgio, por que você está aqui?

- Discuti com minha esposa. - respondi com as mãos sob o abdômen. Eu sentia que era observado, aqueles olhos rápidos não passavam despercebidos.

Silêncio foi tudo o que tivemos pelos próximos cinco minutos, até que ele se sentou de pernas cruzadas e mãos apoiadas nos joelhos.

- Acho que nosso jantar está pronto. - sorriu e correu para pegar uma tigelinha em sua grande mochila; eu tinha uma também. Peguei a minha e não conversamos mais nada até a manhã seguinte.

Aliás, na manhã seguinte acordei muito mal. A luz que transpassava minha barraca estava prestes a me deixar cego; apertei os cobertores contra meu corpo como se isso resolvesse algo e tentei dormir, mas era impossível. Dor era tudo o que eu sentia. Aquele aperto em meu peito voltou com mais força, como se algo dentro de mim quisesse sair. Que inferno.

Ao pôr os pés para fora da barraca tive que correr para vomitar. Me ajoelhei atrás de uma árvore e pus tudo para fora, dando forte puxadas de ar em intervalos de segundos, pois eu ficava sem fôlego. Passei o dorso da mão esquerda sobre os lábios e usei a direita para me apoiar em algo.

- Você está bem? - Max saiu sei lá de onde e correu até mim, parecendo verdadeiramente preocupado.

- Eu… Eu não estou. - me desequilibrei e ele me segurou. Aqueles olhos rápidos me analisando como sempre.

- Estamos há menos de cinquenta quilômetros de V, será que você aguenta até lá? - permaneci de olhos fechados e senti seus braços me rodeando, logo me levantando em seu colo. Minha cabeça e braços caídos como se eu fosse um moribundo.

- Se eu tiver que morrer será a qualquer momento, Max.

- Você não vai morrer.

Ele me colocou em sua barraca e me cobriu com os seus e os meus cobertores, me embrulhando como um recém nascido. A situação era ridícula, mas agradável. Consegui dormir.

Não faço ideia de quanto tempo se passou, mas tirei um cochilo rápido. Acordei encalorado e logo joguei todos aqueles cobertores. Tirei meu casaco e moletom tendo apenas um pensamento: sair de lá.

Eu não sentia minhas pernas e meu corpo estava pesado. Comecei a rastejar para fora da barraca cravando as unhas com o resto de força existente.

Parei e respirei fundo. Lembrei dos meus filhos, da minha esposa e dos meus pais.

Para continuar apoiei os cotovelos e me impulsionei para cima e segui em frente, mas no exato momento ouvi passos se aproximando.

Os galhos e folhas secas se partiam e um terror em mim crescia cada vez mais, pois eu sabia quem era mas de algum modo não me sentia seguro

- Fica calmo, Sergio.

- Estou calmo. - me esforcei para virar de barriga para cima.

- Não parece, tremendo desse jeito. - dobrou um cobertor e o colocou no chão para se sentar, de pernas abertas com um cotovelo em cada joelho.

Olhei em volta. O azul claro do dia escurecia e o vento se alastrava com força, jogando as folhas das árvores para todos os lados e fazendo nossas roupas e cabelo esvoaçarem.

- Irei voltar. - nossos olhares se encontraram.

- Não! - se pôs em pé num pulo rápido.

- Tem algo de errado comigo desde que cheguei aqui. - suspirei com dificuldade, pois meu peito doía. Tossi duas vezes e senti uma pontada de dor na parte de trás da cabeça. Max me olhava de cima a baixo.

- O que foi...? - murmurou.

Max coçou o nariz e socou as mãos nos bolsos da calça, mas não permaneceu assim por muito tempo. Começou a andar de um lado para o outro com evidente preocupação. Talvez se eu estivesse melhor, até perguntaria o que houve.

Ele parou e abaixou a cabeça, levando as mãos às orelhas e esboçando uma expressão contorcida.

E assim os dias passaram.

Eu acordava e logo ia caminhar pelos arredores até Max acordar. Nnos abastecemos de comida no dia em que nos conhecemos e até então a racionalização funcionou bem.

Aliás, tudo ia bem tirando o fato de que eu continuava me sentindo estranho, dessa vez o formigamento era nas pernas e meu corpo se paralisava do pescoço para baixo durante a noite. Eu me sentia inapto, preso. Não queria chamar Max até porque não adiantaria nada.

Voltando da caminhada, o holandês não estava lá. Comecei a desmontar a barraca e ele apareceu seminu, vindo do lago mais próximo.

- Cara, vem pro lago! - deu dois tapinhas nas minhas costas.

Suspirei e acabei aceitando. Eu precisava começar o dia bem, então o segui.

- A água tá tão gelada... - minhas roupas estavam no chão próximas das dele.

- Que nada, fresquinho. - rimos e eu tossi.

- Vou ficar gripado.

Tossi mais duas vezes e senti uma pontada de dor na parte de trás da cabeça. Max me olhava de cima a baixo.

- O que foi...? - murmurou.

Eu não conseguia responder porque minha tosse, muito seca e arranhando, não deixava. Ele se aproximou. Aquela sensação estranha de formigamento começou e eu tentei sair do lago, me apoiando em algumas pedras e tentando me comunicar com Max através de olhares.

Senti o calor do corpo dele em volta de mim num abraço. Ele exalava um cheiro terrível de gasolina e cigarros baratos, seus braços começaram a me esmagar e meus olhos reviravam sem que eu o fizesse.

Meu sangue parecia borbulhar, queimando minha pele de dentro para fora.

Tudo o que eu sentia era dor, desconforto e agonia com aquela tosse maldita que não passava. Cabeça quase explodindo, pernas e braços sem movimentos.

Ele parecia feder ainda mais. Segurou meu pescoço com as duas mãos massageando-o, subiu para os meus lábio e abriu a minha boca. Toda minha garganta ardia e eu chorava desesperado. Os olhos dele ficaram amarelos parecendo gemas de ovos e sua pele começou a descascar, caindo sobre mim. Asqueroso, áspero.

Até que eu desisti. Parei de chorar e senti meu corpo esquentar por dentro, meu pensamento embaralhar e meu sentimentos se renovarem para o que eram antes. Sem desespero, sem tosse, sem aperto no peito...

Max afundou na água e algo me disse para não tentar salvá-lo, eu não queria nem tentar para ser sincero. Muita coisa aconteceu e tem algo dentro de mim, eu sei, tem um ser.

Eu sinto ele sussurrar maldições e delegar tarefas agora.

Estou voltando todo o caminho, pois agora tenho uma único motivo para continuar caminhando.

Ser o Diabo na trilha.

28 de Setembro de 2021 às 19:45 0 Denunciar Insira Seguir história
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