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JK Sous


Zay Yan é uma jovem que não vê algo de bom em comemorar o Natal, mas que neste especialmente se sentia muito perdida. Gabes é a garota nova na vizinhança, e tem algumas desavenças coma família. Duas leitoras, duas pretas ousadas, duas goianas, duas almas perdidas que se encontram, e talvez não só por acaso. Essa é uma breve história que promete te deixar com o coração quentinho ao mesmo tempo em que se emociona. Zay Yan e Gabes estão ansiosas pela sua passagem por suas histórias, tá esperando o que, uai?


Conto Todo o público. © [email protected]

#LGBT
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Andando pela calçada de casa hoje, percebi que eu estava infeliz.
Não foi algo como uma luz no céu dizendo isso, nem nada, mas eu senti. Sabe, eu não mais consigo sorrir ao ouvir minhas músicas favoritas. Já não fico super animada ouvindo as histórias de vida do meu avô.
A vida deveria ficar sem graça após os trinta, é o que dizem. No entanto, aqui estou eu, e tenho dezenove.

Ainda na calçada, reparei numa moça nova no setor, em frente à minha casa. Nunca tinha visto ela, por isso acho que chegou agora, porém, é claro, eu sequer conhecia meus vizinhos até ontem, quando vieram em minha casa e minha avó me fez ser agradável.
Mas, olha, a moça parecia legal. Devia ter uns 17 anos, ela. Tinha um olhar... meio perdido. Pensei que fosse pela cor profunda de seus olhos, bem pretos, mas não. Eram perdidos mesmo, olham para tudo, mas ao mesmo tempo, para nada.
Sua pele era mais escura que a minha, já escura, em uns dois tons, e estava bronzeada, notei em sua clavícula. Seu cabelo era de fazer inveja, eu o amei. Cachos mais fechados que o meu e mais escuros.

Um crespo poderoso. Uma preta poderosa.

Ela se parecia comigo quando mais nova, até mesmo na magreza, exceto só pela pele mais escura mesmo.

A mulher mais velha, que só me dei conta da presença depois de admirar a moça, estalou os dedos perto do rosto da garota, e esta pareceu assustada e murmurou algo. Fiquei observando as duas interagirem, tão naturais, tão alegres. Mas... não, não exatamente alegres. Aquele olhar...
- Zay Yan!
Eu quase tive um ataque cardíaco com o berro da minha avó. Mas não aculpei, certamente ela já me chamou várias outras vezes, gritar foi a última opção.
- Oi, vó! Senhora precisa de ajuda lá?
Ela estava arrumando a árvore de natal com minha irmã e meu primo mais velho, Gabi e Isaque. Não sei se ela sabe que não gosto do Natal, mas se sabe, fez bem em não tocar no assunto. Até o momento.
- Ah, o Isaque não consegue tirar as teia da casa, menina. Tem que ser ocê.

Como assim, não sabe? Quase falei, mas para quê? Eu já sabia que ele não faria. Ele nunca faz.
Fui resolver totalmente contrariada e com raiva, mas externamente normal porque assim tem que ser.

No fim das contas, era a coisa mais fácil do mundo, mas diferente de tantas vezes antes, eu não só fui lá e arrumei. Ensinei Isaque a fazer e ele o fez. Depois voltei pra fora.
Levei um susto enorme quando vi: a moça bonita estava chorando baixinho debaixo do pé de angar, em frente minha casa. Bem onde eu estava meia hora atrás, observando ela.
Fiquei sem reação, mas não por muito tempo. Me aproximei dela de modo que meu sapatos fizesse barulho.
- Tarde, moça.
Ela sequer me olhou antes de falar:
- É. E aí, qual teu nome? - o sotaque dela é um bilhão de vezes mais puxado que o meu, mais goiana que isso é impossível.
- Zay Yan. Seria um prazer se eu estivesse em condições de sentir prazer em algo.
Ela riu, tão linda. Aquele sorriso valeu todo o meu dia.
- Gabes, e é um prazer pra mim, sim. Adorei teu cabelo.
- Obrigada. E eu amei o seu, tipo, mesmo.
- Valeu.
Ficamos sem assunto algum por uns quinze segundos, e foram segundos bem constrangedores.
- Então, é, feliz Natal, né?
Releve, eu estava sem graça, não lido bem com gente nova.
- É, e blá, blá, blá, próspero ano novo e mais blá, blá, blá. Enfim.
Foi minha vez de rir, e vê-la me encarando e sorrindo foi lindo.
Foi aí que eu soube o que faltava em minha noite.
- Você não parece muito feliz. Quer se sentir um pouquinho melhor? Tenho um bom lugar para isso.
- Como é?
Eu sorri, inigmaticamente.
- Confie em mim.
- Uai. Nem conheço você, anjo.
- Gostei de você, garota. Mas, poxa, confie, vai!
Ela não discutiu quando a peguei pela mão e sai carregando feito uma criança.

Quando chegamos na Áurea de Espelhos, ela ficou deslumbrada. Percebi só pelo seu olhar, afinal ela era uma dessas pessoas que refletem o que sentem com facilidade. Bom, ao menos algumas coisas.
- Uau!
- Eu sei. Vem cá, fica ainda melhor.

A Áurea de Espelhos é um lugar bem semelhante a uma igreja do século XVIII em termos de luxo, mas a sua utilização mesmo era exclusivamente para fim de refletir sobre você mesmo, também funcionando como local para ler ou para beijar alguém. É um dos raros lugares verdadeiramente luxuosos em Goiânia.

A sala para a qual levei Gabes era a mais isolada e mais cheia de espelhos. É meio constrangedor se ver por todos os lados, mas eu já me acostumei há tempos. Gabes pareceu ter nascido pra conhecer esse lugar, ficou tão a vontade que, nossa, fiquei bem surpresa.
Bom, nem tanto assim, pois descobri alguns minutos de conversa a frente que Gabes adorava ler e aquela era a Sala Real da Leitura, ou seja: uma biblioteca luxuosa e cheia de espelhos.
Linda e peculiar, como Gabes.

Eu peguei "1984" e "Olhos d'água" emprestados para aproveitar a viagem, e Gabes, com muito bom gosto, pegou "Quarto de despejo".
Saímos saltitantes da Sala Real da Leitura, vulgo biblioteca luxuosa e refletida.
- Cara, isso foi incrível. Fez a minha noite!
- Que bom, Gabes. Eu fico feliz que tenha gostado, esse é meu lugar preferido no mundo. Olha, - disse, olhando as horas - precisamos ir para casa agora.
Ela evidentemente mudou de postura.
- Não temos que ir agora. Podemos... ir a outro lugar.
Realmente pensei em levar ela pra outro lugar, mas eu tinha um palpite sobre o porquê dela não querer ir embora e precisava tocar no assunto.
- Você tem algum problema com sua mãe?
Não adiantava embelezar a pergunta mesmo, achei melhor ser direta. Acabei acertando em cheio numa zona sensível. Ela suspirou.
- Ah, olha - sua voz era pura lamúria e seu olhar desviado retornou - Eu... hum, meio que me assumi bi pra ela. Tipo, hoje.
Eu não esperava tal coisa. E pela expressão dela... pelo comportamento desde que a vi mais cedo, a revelação não foi bem aceita.
- Ah, Gabes. Eu sinto tanto. Sério.
E era sério mesmo. Nem imagino o quanto desse ser complicado quando nem nossos familiares não aceitam como somos. Eu nunca tive esse problema, minha família foi muito tranquila quando "me assumi" para eles, mas sei bem que, nesse assunto, eu sou a exceção e não a regra.
- Tudo bem. Nem quero falar sobre isso mesmo, então, partiu próximo assunto.
- Não, não mesmo, olhe aqui - virei o rosto de Gabes para que ela me olhasse e segurei firme sua mão - Não está tudo bem, Gabes, estaria se você tivesse pessoas decentes como família. Sabe como é, às vezes as pessoas não entendem... especialmente nossas "famílias", mas não deixe de ser você para seguir os padrões de outras pessoas. Você não precisa se encaixar em um lugar só porque alguns se encaixam, tá bom? Me prometa que não vai se sentir culpada pelo mundo ser um monte de merda e pessoas estúpidas, isso é culpa só deles.
Não reparei na hora, mas ela havia deixado umas lágrimas escaparem.
Eu a abracei por longos minutos.
- Obrigada, Zay. E ocê, hum, é também...?

Ela ficou tão envergonhada por perguntar, fiquei pensando sobre isso. Mas é algo tão normal, por que tanto alarde? Mas é claro que eu entendia. "Sai do armário" faz um tempão, mas antes disso eu sempre tive um tipo de medo de perguntar sobre a sexualidade das pessoas. Medo de que me julgassem por achar que eu estava julgando.
- Sim. - falei e logo depois sorri - Somos parceiras de bandeira e de letra também!
- Nossa, que legal - respondeu, genuinamente feliz. - Então, eu sirvo para você?
Olhe, se eu estivesse bebendo algo, teria voltado para trás.
- Como é que é, Gabes?
É, eu disse mesmo isso. Nunca sei como reagir diante pessoas tão diretas em questões embaraçosas.
- Ah... deixa.
- Gabes, quantos anos cê tem?
- Vinte, por quê?
- Mentira! - fiquei incrédula - Sério mesmo? Nem parece... mais velha que eu, cara!
Ela até me mostrou a identidade, e realmente: faria vinte e um anos em menos de duas semanas. Eu não fui capaz de conter minha surpresa.
- Uou.
Sorri, porque parecia o melhor a se fazer, e ela me acompanhou.
- Você poderia sorrir mais. Se quer a verdade, fica muito linda sorrindo.
Quando eu disse isso, ela além de sorrir, ficou meio vermelha. Ou seja, além de linda, ficou fofa.
Eu tomei uma decisão arriscada em seguida, e foi uma das melhores decisões que tomei. A beijei.
Eu não sabia que precisava dessa sensação até senti-la. Tipo, tão... natural, não sei, como se os braços dela fosse tudo o que eu precisasse para me sentir em casa.
- Eu precisava tanto disso, Gabes.
- Eu queria tanto isso.
Rimos.
- Você é um amor. Sabe disso, né? Acredite, você é. - eu disse.
- Não me elogie tanto. É bem constrangedor.
- Preciso que você acredite, anjo. - peguei sua mão de novo e beijei a parte de cima - Preciso que acredite em você, acima de tudo. Você pode ter esse mundo todinho assim que desejar. E, se não quise-lo, bom, - sorri, e olhei mais de perto - na pior das hipóteses, você tem a mim.

Foi ela quem me beijou em seguida.
Do nada, levantei uma questão:
- Gabes, topa jantar lá em casa hoje? Se quiser, chama tua mãe.
Longos cinco segundos se passaram, é, eu contei. Mas no fim das contas ela abriu um sorriso e concordou.
Tornei a beija-la, ainda mais docemente. Percebi logo depois que ela estava em uma mistura de lágrimas e sorrisos.
E beijos, claro.

Ficamos nessa um tempão, até que deu sete horas da noite e saímos a caminho de nossas casas. Estávamos de mãos dadas, conversávamos sobre a vida, aulas, pais, padrões etc.
Quando chegamos, não sabíamos exatamente o que fazer.
- Bom... acho que cê precisa conversar com sua mãe agora, então boa sorte. Vai dar tudo certo, ok?
- Obrigada, Zay. - Detalhe: ela era a única pessoa no mundo que me chamava unicamente de Zay, e eu adorava isso. - bem, ahm... você talvez viria comigo? Tipo, sei lá, seria bom ter ocê lá.
Não consegui esconder meu sorriso de orelha a orelha.
- Claro!
Entao fomos. As apresentações tinham tudo para serem forçadas e constrangedoras, mas me surpreendi muito quanto a isso. Reparei que os olhos da mãe dela estavam bem vermelhos, com certeza esteve chorando recentemente.
- Boa noite, mãe. Essa é... nossa vizinha, Zay Yan.
- Boa noite, dona...
- Patrícia. É um prazer, moça.
- ...Dona Patrícia. Igualmente.
Ela era desse tipo de pessoa que cumprimenta as outras abraçando. Não gosto disso, mas deixei passar.
- Mãe, na verdade... sobre o que te falei hoje? Sabe que é verdade, não é?
Ela nem pareceu incomodada, considerei como algo bom.
- Então - o olhar nada perdido de Gabes dessa vez disse precisamente tudo o que eu queria ouvir, eu até sorri discretamente. Gabes se aproximou de mim e pegou minha mão - a Zay, na verdade, é quase minha namorada.
Ela beijou minha mão assim como fiz com a dela horas antes, e me encarou certamente pra ver se eu não reagiria mal. Pisquei pra ela.
Inacreditavelmente, dona Patrícia só acenou com a cabeça e sorriu, mais ou menos.
- Me desculpe por mais cedo, meu amor. - murmurou ela a Gabes, que acenou e foi abraça-la - Eu fui muito dura... peço perdão, de verdade. Fico feliz em te ver bem, meu amor. Seu pai ficaria tão contente, também. Só me desculpa, amor.
Foi aí que ela desabou a chorar e Gabes foi abraçar ela.
Ficaram ambas lá chorando e eu sem saber o que fazer, até que disse que iria lá pra fora e pedi pra Gabes repassar meu convite pra mãe dela.

No fim disso tudo, estávamos todos nós: Gabes, dona Patrícia, minha avó, meu avô, Gabi, Isaque e eu; na casa de minha avó comemorando o natal com um belo jantar improvisado. No dia seguinte fizemos um café da manhã verdadeiramente caprichado e com muito amor envolvido. Gabes precisou sair bem cedinho para sua consulta diária com a terapeuta dela, mas não demorou muito por lá.

Foi tão diferente de como imaginei meu natal. Não que tenha passado a ser uma data super especial do nada, claro que não... Eu não tenho muito disso. Mas ver todo mundo ali, reunido e feliz, sabe, feliz de verdade, fez muito sentido, e eu fiquei feliz também. Minha avó estava respladencente de tão alegre e eu me emocionei demais por isso.
E Gabes também estava ali, com minha quase sogra. Sogra. Palavra que eu nunca nem usei antes e agora soava tão familiar.
Na hora de abrir a champanhe, uma tradição da qual minha avó realizava religiosamente, Isaque distribuiu as taças e as encheu. Minha avó disse:
- À vida e às famílias, aos recomeços e às almas mais perdidas, que ocês encontrem a luz, amém.
Todo mundo repetiu, sabiamente. Então bridamos.
Quantas almas perdidas haviam ali, eu não sabia. Mas sabia que eu já estive entre elas e tudo o que eu mais queria era que essas pessoas enxergassem mesmo sua luz.

- Gabes - chamei - Me empresta "Quarto de despejo" quando cê terminar? Queria reler ele.
- Claro! Devo terminar em uns dois dias e te entrego.
- Tá bom, anjo.
Aproveitei que estavamos na cozinhas, salvas de olhares, e a puxei em um beijo.
- Não sei como se sente aí dentro, meu anjo, mas se sua alma está perdida, farei o possível pra te ajudar a se encontrar. Estamos juntas nessa, viu? - prometi, no que ela concordou.

Essa foi a promessa mais sincera que já fiz. E durou anos e anos.

Fim.—

19 de Setembro de 2021 às 03:17 1 Denunciar Insira Seguir história
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Liv 🏳️‍🌈 Liv 🏳️‍🌈
Incrível. Me identifiquei com a Gabes. Me emocionei mais ainda com a dona Patrícia. Patrícia é o nome da minha mãe, só que diferente dessa, porque a minha não reagiria bem assim. Enfim, escrita fluída e palavras bem colocadas que deram um sentido claro e dinâmico no texto.❤🦋
September 19, 2021, 14:32
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