lunesnueva Aghata Lunes

Às vezes, a maior declaração de amor que você pode dar é aceitar quem te completa, mesmo que incompleto.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#cotidiano #casal #258 #341 #realismo-fantástico #espiritualidade
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Eu tenho um sonho, ele é você.

Laranja e cor-de-rosa iluminam o céu durante o pôr do sol. É bastante tarde para se estar fora de casa numa quinta-feira, considerando que amanhã preciso acordar às 6h da manhã e ainda tenho muito o que organizar em casa. Mas viemos até aqui só para isso. Fazia eras que eu não observava as nuvens nessa coloração e ela me disse que, em épocas de lua cheia, isso acontece todos os dias. Eu não sei se isso é verdade, e possivelmente não é. Ela com certeza falaria isso só para ver a lua logo em seguida. De qualquer forma, ela estava certa sobre hoje e o degradê rosado que se forma sob as nuvens é quase tão lindo quanto o jeito que ela serve o suco na cuia de tererê: concentrada, mordendo o lábio e quase trêmula, para que a erva não se esparrame — o que costuma ser justamente a razão pela qual ela sempre derrama.

— Tó. É a sua vez.

— Obrigado. Você acha que essa cor do céu é o efeito provocado por Deus estar colocando as luzinhas decorativas enquanto ainda é dia e, portanto, Deus é só muito fã da estética que vemos em qualquer página do Tumblr em 2009?

— Com certeza. Se Deus não fosse fã de Tumblr, metade das coisas naturais não seriam tão fairy aesthetic lo-fi hip hop beat 24/7 enquanto a outra metade é extremamente deprimente. Por um lado, o litoral tem a estética de quem ama Meninas Malvadas e secretamente deseja ser a própria Regina George. Por outro, a Finlândia é o cerne de todo o metal melódico e também do espírito do jovem emo que posta textão contemplando a própria crise existencial, anexado a uma imagem de um all star envolto por mãos femininas com unhas pintadas de preto. Ou seja, Deus inventou o Tumblr. Por isso que só muito depois, no Novo Testamento do Tumblr, é que proibiram a pornografia.

Fico encarando, perplexo, antes de começar a rir. Não faz nenhum sentido, mas não precisa fazer. Sei que ela faz toda essa graça naturalmente, mesmo que a intenção de me fazer rir esteja sempre presente. Dou um gole longo na bebida, que já nem está tão boa, pois a térmica que deveria manter o suco gelado é de péssima qualidade e o dia está bastante quente.

— Quer ficar até a lua aparecer por aqui?

— Quero sim.

O sorriso que invade o rosto dela, logo após me responder, também me garante que eu não estava tão errado em supor a vontade que ela tinha em querer aproveitar o banho de lua.

Os minutos vão passando, rápidos demais e extremamente pacíficos. À medida que escurece, o vento começa a soprar gelado nos meus braços. No entanto, a cada gargalhada que ela dá, jogando a cabeça para trás, eu sinto que poderia fazer 10 graus negativos e eu ainda sobreviveria ali. Todas as vezes que eu falo alguma bobagem bem pensada, não é só a risada me aquecendo que me faz querer ser cada vez mais bobo: os tapinhas leves e constantes que ela dá na minha canela parecem sempre causar arrepios em seu braço, ansiando por se transformarem em carinhos. Nunca acontece.

Já se veem alguns pontos brilhantes borrados no céu azul. O ar vai ficando rarefeito e quase maciço entre o meu…

— Sabia que o nome dessa cor é Azul França? Acho que é o melhor tom de azul possível.

— Nunca. Azul é uma cor péssima. Por conseguinte, azul França seria a PIOR cor que existe, pois, além de azul, também é da FRANÇA.

— Eu vejo sua boca se mexendo e as ondas sonoras se formando, pero no puedo entender los sonidos, no hablo, mil disculpas…

— Vai se foder.

A pior parte disso tudo é ter que admitir que a cor é muito bonita. O meio-termo entre o azul-escuro e o ciano de um dia claro. Contudo, o ar ainda pesa no meu peito. Ela está a uns trinta centímetros de mim, sentada no chão com os ombros apoiados nos joelhos e as mãos segurando o queixo enquanto olha ao longe. Entre nós, existe um pote cor-de-rosa sujo, onde ela trouxe pedaços de torta, uma cuia cheia de erva-mate, uma garrafa térmica vazia e os nossos celulares. Apesar de identificar todos esses objetos, eu sinto o ombro dela encostando no meu. Eu sinto o seu joelho chocando contra o meu. Eu sinto a perna balançante acariciando a minha. Eu sinto o perfume de coco e avelã que exala de cada fio de cabelo, como se a minha cabeça estivesse apoiada diretamente neles.

Quando a noite por fim invade, ela insiste em me convencer de que azul é uma cor bonita e ainda ousa dizer ser a minha cor. Que sou vários tons de azul. Isso me incomoda e até quase me ofende. Eu não gosto de azul.

— Azul pode ser tanta coisa. Azul é a cor mais profunda que existe. É LITERALMENTE a única cor onde se pode mergulhar.

— Não adianta, você não vai me convencer.

— Tudo bem. Mas eu ainda posso mergulhar.

— Do que você está falando?

— Te provar que azul é uma cor em que se pode mergulhar. Que é a melhor das cores, pois é infinita, é tudo, é o todo. Significa todas as faces de todas as coisas. Tudo o que é móvel, profundo, obscuro, mas também seguro, é azul. Você pode não gostar e nem aceitar de início. Ainda assim, é a sua cor. Ainda assim, é você.

Enquanto diz isso, ela desamarra o cordão do vestido branco longo que usava e o escorre pelos ombros. Totalmente desinibida, ela corre em direção ao trapiche curto que se encontra a poucos metros de onde estávamos sentados. Reparo que ela já estava usando um biquíni preto por baixo, como quem já esperava pular na água antes mesmo de chegar. Por que ela não me avisou? Poderia estar ao menos preparado para isso.

— O que você está fazendo?

— Você pode ficar aí sendo o maior dos britânicos, esperando seu título nobiliárquico inglês, ou pode vir nadar comigo.

— Eu não trouxe outra roupa…

— E daí? — Nisso, ela mergulha de ponta, toda torta, como quem sabe fazer isso muito bem, mas já não o faz há muito tempo. Demora vários segundos para emergir de volta, chego a pensar que ela não vai voltar nunca mais. Essa sensação dói no meu peito e eu levanto, deixando tudo o que trouxemos para trás, e vou até à beirada do trapiche. É quando a vejo voltar, com os cabelos completamente molhados e o olhar preocupado, seguido de uma cara travessa de alguém que fez algo muito errado.

— O que foi?

— Eu esqueci de tirar meus óculos.

— Como assim?

— O azul engoliu meus olhos…

— Eu não acredito.

— Isso é culpa sua! Se você não fosse tão teimoso, ele não se vingaria, descontando toda sua fúria em mim.

— Você é completamente maluca, sabia?

— Bom. Vai entrar ou não? Agora eu não enxergo mais. Logo não poderei sair sozinha. Como vou tatear a imensidão do rio? Vou acabar desaguando no mar. Iemanjá vai me levar e me adotar como sua ama de companhia e nunca mais poderei ver nada em toda minha vida. Serei uma sereia cega ao serviço da grande mã...

Eu salto, abraçando o meu joelho no ar para jogar a maior quantidade possível de água nela. Enquanto volto para a superfície, dou uma cutucada na perna dela. Quando consigo respirar, mal tenho tempo de perceber que ela está de costas para mim e começando a bater os pés na água, deixando minha visão completamente embaçada. Seguro um de seus pés para a impedir e ela perde o equilíbrio do nado, arregala o olho e se debate, correndo até mim para apoiar suas duas mãos em meus ombros.

— Tá tentando me matar?

O olho enormemente arregalado e inquisitivo quase me engole. É o mais próximo que estivemos um do outro desde o começo desse dia. De novo, mesmo a água estando muito fria, consigo sentir meu peito queimar como nunca. Começo a palpitar notavelmente. É óbvio que ela consegue perceber, qualquer um conseguiria: eu estou visivelmente nervoso. Mas à medida que o calor irradia para os meus braços, a segurança o acompanha, e com eles eu a seguro pela cintura por baixo da água. Esse é o lugar mais seguro do mundo. No fundo do azul.

Ela me abraça e aproxima seu lábio do meu ouvido, como quem vai sussurrar algo:

— Escuta...

E ela some. Não existe nada na minha mão, não existe cabelo gelado no meu pescoço. Algo me puxa para o fundo e eu sou engolido de volta para o azul. Tudo é água, agora quente, infinita e escura. Sou eu quem não enxerga. O azul não é só intenso, é escuro e vazio, e vai me engolindo cada vez mais. Tenho a sensação de algo me puxando pelos pés cada vez mais fundo e, tateando inutilmente, nada encontro ali. Não consigo espernear, não consigo sair. Cada gotícula de água faz uma pressão enorme junto à coluna de água que a acompanha.

Ao tentar criar a propulsão para subir, uso de toda minha concentração para voltar, antes que o vazio tome conta. Eu ainda sinto o calor me aquecendo de dentro, sei que ainda existe escapatória. Paro de me debater, me seguro em mim. Com os braços entrelaçados ao redor do meu próprio peito, salto em direção à superfície sem ter onde me apoiar. A pressão está quase intransgressível.

Acordo,

a cama encharcada de suor, o ar novamente rarefeito, mas presente. Olho para os lados e a cama completamente vazia, a não ser pelo lençol emaranhado e grudando no colchão. O calor do peito se condensa em um e o desespero efêmero enche meus olhos de lágrimas, mas, antes que qualquer uma possa cair, meu peito se preenche em um novo suspiro.

Junto à inspiração, uma mistura de cheiros invade minhas narinas. Canela. Açúcar. Ovos mexidos. Café. Cada odor que reconheço me ajuda a recuperar os pedaços que faltam do meu corpo. Sento na cama, olho para meus braços. Tudo está aqui e cada célula é minha de novo.

— Cocoricó…

Uma cabeça sorridente e levemente tombada à esquerda me espia pela lateral da parede, com a mão apoiada na alvenaria. As unhas compridas vermelhas tamborilam, combinando com o movimento das mechas de cabelo que adornam o rosto dela.

— Dormiu bem?

— Não muito…

— O que houve?

— Sonhei que você sumia e algo me engolia. Foi péssimo. A pior sensação de todas. Perder você e perder o controle. Preciso de um banho.

— Espera aí.

Ela corre para fora do quarto de maneira totalmente inesperada. Fico incomodado e até um pouco enfurecido com essa sensação que insiste em permanecer, embora esteja agora mais distante. Escuto passos apressados pela cozinha, barulhos de talheres, porta batendo. Os pés descalços e ligeiros no piso de madeira vão aumentando de volume até que ela aparece na porta do quarto, dessa vez inteira e segurando uma bandeja cheia de cheiros.

— Sonhos ruins requerem café na cama.

Na bandeja, se amontoam dois copos de limonada, duas canecas cheias de café; num prato há uma montanha de panquecas americanas cheias de bananas picadas e polvilhadas com canela e, no outro, ovos mexidos e quatro torradas integrais quase caindo.

As mãos dela, cada uma segurando um garfo e uma faca, cortam um pedaço de panqueca, que ela levanta com cuidado. Fazendo formato de concha com a mão esquerda e levantando o garfo com a direita, ela vai até à altura da minha boca.

— Era tão ruim assim, o sonho?

— Começou ótimo, mas você me escapava constantemente. — Mastigo o pedaço enquanto explico e o engulo antes de concluir. — Até que sumiu.

Ela corta mais um pedaço da panqueca, pensativa. Mas, antes de comê-lo, pousa os talheres na bandeja apoiada na cama, aproxima-se da minha orelha, beija meu pescoço e sussurra no meu ouvido:

— Eu não vou a lugar nenhum.

10 de Setembro de 2021 às 10:06 6 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Aghata Lunes Tentaram me matar com um copo de veneno, se quiser matar, me mata, que beber eu bebo mesmo. Tentaram me matar na porta do cabaré, ando de dia e ando de noite, só não me mata quem não quer.

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Palas Palas
Como pode uma escrita tão gostosa? A abundância de imagens, sons e sensações táteis que cada pequeno passa evoca é um passeio sensorial que vai muito rápido das cores do céu pros menores detalhes de alguém servindo tererê me uma cuia. É impossível não se transportar imediatamente para esse trapiche, para esse céu, mergulhar nesse azul. Mas também é engraçado o jeito como a contemplação mais abstrata - racional, mesmo - entrelaçada nessa sensorialidade leva o leitor a absorver o jeito como os personagens se relacionam com esse mundo. Os personagens se comunicam através daquilo que eles nem precisam dizer, das provocações que fazem um pro outro mas já sabendo como o outro pensa. Pequenos hábitos corriqueiros junto de perguntas sobre a natureza de Deus, e de volta pro Tumblr (e tudo ao mesmo tempo)? É como se eles estivessem flutuando sobre essa pintura que as descrições fazem. Eles transformam o mundo em volta para mostrar, um pro outro, o que tá dentro da cabeça deles. E isso torna a interação tão especial quanto o mundo em si. Também é impossível não sorrir junto com eles, observar os trejeitos pequenininhos de cada um. Não tem nada mais gostoso que ser recebido no mundo fora dos sonhos com uma bandeja cheia de cheiros, e é isso que esse conto faz. Tudo que tem de mais concreto, e tudo que tem de mais etéreo, que pode ser descrito se mistura aqui, que nem um sonho muito, muito vívido, do qual a gente acorda com um sorriso, uma espreguiçada e um pouquinho de saudade.
Karina Zulauf Tironi Karina Zulauf Tironi
Adorei esse conto, MEU DEUS DO CÉU!! A descrição das cenas, a construção dos personagens que, em pouco tempo, já me fez criar uma clara ideia de suas personalidades, o azul... Azul é a minha cor favorita, então eu simplesmente amei esse conto inteiro, principalmente a parte do azul ser a única cor em que se pode mergulhar. Espero que seja a minha cor tambémm <3
September 15, 2021, 19:11

  • Aghata Lunes Aghata Lunes
    Fico muito feliz que você tenha gostado, Karina! Coloquei um carinho muito grande em cada um deles. E que coincidência ser a sua cor favorita! É uma das minhas também rs 3 weeks ago
~

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