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Gabriel Felipe Montes Lima


Do que é capaz uma mulher traída? Nesse texto fazemos uma releitura do clássico grego Medeia, agora uma jovem gestante da Idade Moderna.


De Época Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#assassinato #veneno #mulher #Medeia #feminilidade
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Cenas

Cena I

(Em um quarto ricamente adornado. Amira sentada em uma penteadeira. Sua criada , Beatriz a penteia)


Amira :

Veja , minha querida como as rugas

Se escavam em meus olhos!

Veja , pelos céus, como me

Transpassam dolorosas inquietações!

Olhai-me : já não sou eu quem vês , mas

O cadáver de Amira , uma Dido imolada,

Uma Cleópatra sem beleza. Ai de mim,

Que não sou nada! Meus cabelos ...

Como eram belos ; de que loira cor

Não transbordavam...e agora o que são?

São o feno que alimenta os cavalos e

A linha que costura as sacas ! Tudo isso

Por que? Pelo amor desgraçado que

Me tira a paz ! Não fujas de meu olhar.

Todos nesta casa sabem da verdade.

Todos veem quando na madrugada

Meu infame marido chega egresso da

Noite e das mãos das meretrizes!

Todos veem o descaso com que ele trata

Aquela que se imolou por ele e que é mãe

De seu único filho a quem o sol ainda

Não pôde beijar a face....


(Fita a outra com um olhar alucinado ao qual se segue um sorriso bestial.)


Mas hoje , nesta noite de sombrios

Amores , tudo se encerrará!

Ouça como o vendo sibila nas janelas...

Ouça como cantam e riem os demônios

Da escuridão. É o meu nome que eles

Chamam em frenezis de insânia!

Oh , minha boa Beatriz...Dizem que

As gestantes são todas dotadas de uma

Bondade natural. Eu discordo,

Pois o bem que havia em mim

Levaram as noites em pranto , que

Por Daniel eu tive chorado...

Veja como é vil a minha imagem

Neste espelho...Sabes por que razão

Ela parece tão perturbada?


Beatriz:

(Um tanto assustada)

Não, senhora.


Amira:

Olhe bem para onde a luz se perde

Em minhas pupilas: lá há um reino

De nobres demônios . Todos vivem

Em negra escuridão e seus pensamentos

São tão somente maldições.

Minha alma , depois de muito sofrer

Por quem a desprezava ali encontrou

Sua morada e desde então o mal

Tomou conta do meu ser!


Beatriz:

Pelos céus!

Que sombrias palavras,

Minha senhora!

Serena o teu coração.

O que não fará

Todo esse ódio de

Mal à tua criança?!


Amira:

A criança! O troféu supremo de

Minha humilhação . O fruto

Do amor maldito que me faz

Refém do pior algoz! Sentes

Como violentamente ela me

Chuta , como se desde o ventre

Soubesse da miserável

Que é sua mãe.


Beatriz:

Que deus nefasto houve maldito

O nome de nossa família?!

Que mal lhe fez esta pobre infeliz

Que em teu ventre encontra o

Mais terno conforto?


Amira:

"Que mal fez o monstro de Frankenstein ?"

Ela pergunta...

Oh ! (Suspira) Que mal fazem

Os demônios quando desponta

A aurora? Que vil engenho

Ocultam as bruxas quando no bosque

Se reunem para amar em

Loucas orgias?

Eu lhe digo , minha querida,

Minha bela e doce Beatriz:

Quando o mal se multiplica

Somente trevas pode espargir

Por sobre a terra.

( tira um pequeno frasco de vidro do vestido.)

Mas hoje tudo se encerra...

(Novo suspiro.)

Vês , minha querida?

Isso é estricnina ...

Algumas gotas e tudo

Se acaba .


Beatriz:

(Assusta-se)

Pelos céus!

Madame não pretende fazer

O que só ousam sugerir

Meus assustados pensamentos ,

Não é ?!


Amira:

Pelo contrário , minha querida.

Nessa noite minha dor cessará

Quando meu coração se cansar

De bater . Daniel e eu , então,

Dormiremos finalmente o sono

Dos amantes , qual Romeu e Julieta,

Que na morte sublimaram o mais

Puro dos amores.


Beatriz:

Ai de mim!

Não faça isso , minha senhora.

Teu coração é bom e delicado.

Não permita que o mal penetre

Em teu santuário!


Amira:

Tu me conheceste uma , minha querida.

Aquela , porém já é uma estranha nesta casa.


(Beatriz solta um suspiro)


Amira:

(Toma um par de taças e serve vinho em cada uma , pondo em ambas o veneno.)

Já é tarde para mim.

Oh...Mas me faça uma promessa.


Beatriz:

O que deseja ?


Amira:

Que chores por mim no dia

De nosso réquiem ...


Beatriz :

(Profundamente afetada)

Se assim o desejas...


(Beatriz sai)

Cena II

(Ouve-se uma batida na porta)


Daniel :

(Fora de cena)

Amira?


Amira:

(Lívida)

Entre, meu querido...


(Daniel entra.)


Amira:

(Com os olhos um tanto fixos em sua própria imagem no espelho)

Como senti sua falta.

Onde estava ?


Daniel:

Como uma pluma a quem o vento agita,

Debruçou-se meu coração nesta noite

Por estranhos leitos...Voei como um

Albatroz que no mar sem fim vai caçar

A ceia de cada anoitecer...Somos assim, não?

Estranhos a quem o leito nupcial uniu

Com frágeis laços....


Amira:

(Para si)

Com fria indiferença ele saúda

Aquela que a vida lhe entregou.

(Ao outro)

Claro.

L'amour est une oiseau rebelle .


Daniel :

Exato.

( olha para as taças.)

Vinho?


Amira:

Para celebrar os anos de

Nosso casamento.


(Daniel pega uma taça.)


Amira:

Um brinde de amor para os que sofrem.


(Bebem. Passados alguns instantes ,beijam-se. Logo em seguida ambos se fitam longamente . Por fim , deitam-se na cama)


Daniel:

Bons sonhos , querida.


Amira:

(Com evidente consternação.)

Boa noite , meu amado.

(Sente o bebê chutar.)



10 de Setembro de 2021 às 17:01 0 Denunciar Insira Seguir história
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