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José Alberoni


Na cosmopolita Kalori, o passado e o futuro, o incomum e o mundano, se entrelaçam de forma indistinta. Sob a aparente máscara de crescimento e progresso, a cidade está um caos: grupos disputam vorazmente o poder, deixado em aberto após a repentina morte do Estigma. Velhas classes, grupos insurgentes e raças discriminadas tentam, a todo momento, obter a sua fatia de controle na próspera metrópole. E, no meio de tudo, existe Nímie, uma garota de traços exóticos resignada ao seu destino. E também Kinsey, um rapaz desiludido por si mesmo. Além destes, um sacerdote desviado do seu caminho, um jovem ladrão tentando estar à altura das expectativas, e uma estrangeira que fará de tudo para completar o seu objetivo. E... existe o incomum. Dois órfãos. Dois destinos. Alguns dizem que o caos já se encaminha para um fim.


Fantasia Fantasia histórica Todo o público.

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Prólogo | Determinação para matar


Quando Mizaní'hayt abriu os olhos, depois de um rápido e instável cochilo, deu por si mesma observando a paisagem mais além do vidro da janela do aeróstato: raras, diluídas nuvens, e um infinito céu de fim de tarde. Tarde. O cochilo não amenizara a dor de cabeça e a tontura nem um pouco, e tinha a impressão de que demoraria em se acostumar com esse mundo e a sua luz em excesso. Se é que algum dia se acostumaria.

A mulher cobriu um bocejo, deitando a cabeça ainda mais no assento forrado que vinha lhe servindo de descanso. Ao seu lado, e à frente, os outros três passageiros dormiam à escassa luz do reduzido camarote. Observou-os sem muito interesse. Dois homens vanier, e um jovem mestiço vanier e saik. Estrangeiros de roupas vistosas, teria dito ela, quando ainda não havia deixado o Ni Harimi. Não haviam muitos deles lá embaixo. Talvez, afinal, os énil fossem os mais adequados para a terra prometida.

E mesmo assim era seguro dizer que ali, no entanto, a estrangeira era ela.

Os olhos escuros de Mize – todas as outras a chamavam assim – passearam cansados pelo camarote, fixando-se em detalhes desinteressantes das placas metálicas das paredes, parafusos, manchas de ferrugem, a saída de um tubo acústico, até voltarem ao céu que se revelava na janelinha circular à sua esquerda. Fim de tarde. Se ela ainda se lembrava com exatidão (o que, normalmente, era o caso), faltariam em torno de quarenta e dois minutos para a sua chegada a Kalori. Considerando, é claro, que a velocidade do aeróstato tivesse se mantido mais ou menos constante.

Para ser sincera, Mize ainda não sabia exatamente o que faria quando chegasse. Precisava matá-lo, claro, mas talvez antes disso devia confirmar de que a informação era verdadeira, e o desgraçado estava mesmo lá. Não, mesmo antes disso, devia estabelecer alguns critérios ainda mais básicos. Para onde ir? Com quem falar? Como se comportar? Era assombroso que ela, logo ela, não tivesse pensado em nada disso ao tomar aquele primeiro aeróstato em Porto Zeiden. Mas era assim que a situação estava para os que considerava seus irmãos; não podia se dar ao luxo de planejar muito, e deixar passar o momento de agir.

As engrenagens soavam nos limites da audição. Eram elas, em conjunto com a queima de aquacristal de alta pureza, que elevavam e moviam tamanha massa de metal pelos ares. Ao menos isso havia tido tempo de pesquisar: uma importante porcentagem do aquacristal que circulava no mundo vinha de Kalori.

– Aproveitando a vista, madame? – ouviu uma voz masculina ao seu lado perguntar.

Mize considerou, a princípio, as implicações da pergunta. Tendo em mente, ainda, que era a primeira vez que lhe dirigiam a palavra nas últimas horas, e que não conhecia os costumes dos vanier.

Optou pela sinceridade.

– Não muito, na verdade. O céu me parece tão enfadonho quanto uma coisa preta na escuridão.

– Bem, por um lado isso é bom – disse o homem, torcendo os lábios verdes num sorriso. Alisou os bigodes grisalhos. – Significa que não tivemos surpresas ruins até então.

– Se refere às tempestades?

– Elas não são tão frequentes nessas latitudes. Falava das criaturas aéreas.

Mize ouviu uma gargalhada seca, do outro vanier, sentado à sua frente.

– Com todo o respeito, cavalheiro – instigou o outro, que era um tanto mais velho –, o senhor não acha que já passou da idade de temer alguns animaizinhos nas turbinas?

– Acredito que possamos não estar nos referindo à mesma coisa, caro senhor. Estou certo de que já ouviu sobre os acidentes causados pelos espalmanuvens. Em Hacinth, é um dos temas de maior repercussão nos últimos tempos.

– Um caso em cem. Jornalistas gostam de superestimar casos isolados.

– Não acho que devamos ter qualquer problema nos trinta e oito minutos que restam – interviu Mize, e os dois homens olharam para ela com espanto não velado. Pigarreou. – Pelo menos, acredito que não. O tempo e as probabilidades estão ao nosso favor – Mais do que tudo, sentia-se incomodada em constatar que ainda havia muito o que desconhecia no Du Harimi, o que poderia atrapalhar a posterior execução dos seus planos.

O homem mais velho – um vanier de cabelos já brancos, roupas extravagantes e o rosto pequeno e furtivo de um roedor – a examinou em meticuloso silêncio.

– A madame não é do Continente, estou certo?

– Mas que coisa rude de se perguntar a alguém que não se conhece! – comentou o outro, com fingida indignação.

– Não considero isso rude, de minha parte – assegurou ela, e voltou-se para o cavalheiro mais velho. – Não, não sou do seu continente. Como pode ver, sou énil – Mize roçou o próprio queixo, uma forma que os seus usavam para se referir a si mesmos. Estava ciente que, aos olhos deles, o seu rosto de pele especialmente pálida e manchas escuras ao redor dos olhos e boca devia parecer estranho, exótico.

– De fato, é o que vejo. Por acaso, está indo para lá a lazer?

– A verdade é que não.

Mize os deixou discutindo os supostos problemas que agora afligiam a cidade de Kalori, o seu destino, e desviou a atenção para a última claridade diurna, que se perdia por trás do horizonte. Nunca, em seus trinta e um anos de vida, havia tido qualquer motivo para desejar deixar o Ni Harimi, o mundo subterrâneo. Não era dos que tinham motivos para tal. Apesar de tudo, considerava-se afortunada: tivera educação, boas companhias, honra, e um futuro promissor. Tivera o privilégio de crescer em segurança (uma das poucas), enquanto o seu mundo desmoronava ao redor.

A crise chega a todos, agora sabia. Não é algo do qual se pode simplesmente fugir.

Com as mãos entrelaçadas sobre o colo, olhou para o mestiço, que roncava despreocupadamente no seu assento, e para os dois homens, que punham tanto vigor na discussão de um assunto supérfluo. Sentiu uma pontada de inveja. Essas pessoas do Du Harimi – esses vanier, esses saik, esses terba – deviam viver mesmo uma vida tranquila, para ter tempo a gastar com bobagens como essas. Provavelmente, os desgraçados gasosos não os assolavam com bombas e soterramentos, como faziam com o seu povo. A guerra devia ser, para eles, uma ideia distante.

A noite começava a tomar conta do céu além da janela, e com ela, desaparecia a insidiosa tontura que vinha acompanhando Mize na maior parte do dia. Ao mesmo tempo, tornava-se cada vez mais consciente do frio, que a fazia procurar aconchego nas próprias vestes, escuras e de corte tradicional énil.

– DAMAS E CAVALHEIROS – soou uma voz distorcida, que Mize logo identificou como vinda da saída do tubo acústico, no alto da parede –, EM BREVE ESTAREMOS SOBREVOANDO A CIDADE DE KALORI. PEDIMOS QUE MANTENHAM OS SEUS PERTENCES CONSIGO, JÁ QUE NÃO NOS RESPONSABILIZAMOS POR EVENTUAIS PERDAS. O BILHETE DEVERÁ SER ENTREGUE NA SAÍDA.

A maleta de couro com as suas coisas continuava aos seus pés. Não havia se movido durante toda a viagem.

– Deveria mesmo tomar um pouco de cuidado, madame – retomou o cavalheiro mais velho, observando-a com uma expressão mais grave do que antes. – Tenho bons motivos para crer que esta cidade para onde vamos está mais instável do que normalmente. E mais perigosa.

Mize não viu outra alternativa, que não fosse assentir em resposta.

Pouco mais tarde, enquanto o aeróstato descendia em direção à borbulhante metrópole peninsular, a mulher e os seus três companheiros de viagem saíram do camarote para o corredor, onde uma fila já se formava para esperar o desembarque. Sob as enfraquecidas luzes do corredor, mulheres de vestidos grandes e vistosos, lábios verdes ou azuis, homens de fraques elegantes e impaciência contida.

Então, o leve tremor sob os seus pés parou. Mize avançou com o grupo para a saída, onde entregou o bilhete de viagem a um sujeito de aspecto cansado, descendo em seguida os degraus de uma rampa de metal.

O grupo dos recém-chegados logo se dispersou, como ar vazando do furo de um balão. Ela, não. Parecia mais coerente absorver os detalhes do lugar ao qual havia chegado, da Estação Aerostática de Kalori (é o que indicavam as placas). Luminárias acesas, enfileiradas, bancos parcialmente ocupados, a amálgama de murmúrios da multidão, de vassouras varrendo o chão de pedra e de água corrente. Além do cheiro de suor e de maresia, um outro, cáustico, que não soube identificar. Feito isso, com a maleta nas mãos, Mize seguiu as placas na direção em que provavelmente era saída da estação.

Não importava ter consciência de que não tinha nenhum plano traçado para o futuro imediato. Elaboraria um quando fosse preciso. O mais importante, para ela, era saber que não viera até esse reduto vanier para ter férias, nem nada do tipo; viera porque era necessário. Era necessário dar um basta nisso tudo… ou os énil não existiriam nas próximas décadas. Seu povo teria, enfim, sido massacrado pelos atrozes chissei, e não restaria nenhum para contar a história. O Ni Harimi voltaria a ser como era no início dos tempos: inabitado, silencioso. Vazio. O mais importante, para ela, era saber que viera com a determinação para salvar.

Pintado no céu noturno da cidade, o grande Arco do Mundo brilhava sublime.


9 de Setembro de 2021 às 03:09 0 Denunciar Insira Seguir história
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