antonio-stegues-batista Antonio Stegues Batista

Quando autores famosos se reúnem para um jantar de aniversário... Quando uma autora famosa sai para dar um passeio...


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Gênese do Terror

BICHINHOS DE ESTIMAÇÃO

Edgar Allan Poe levava seu corvo de estimação pousado em seu ombro. Seus passos soavam apressados pela Baker Street, quase deserta naquele início de noite. Atravessou a rua e entrou no prédio de número 221. Subindo a escada bateu na porta do apartamento B, onde morava sir Arthur Conan Doyle, pai de Sherlock Holmes.

— Boa noite, senhor Poe – disse o serviçal, abrindo a porta.

— Boa noite, James.

— O patrão está no gabinete.

Logo que colocou os pés na sala, Poe estacou tossindo furiosamente. O ambiente estava cheio de fumaça proveniente de um cachimbo e um charuto.

— Pelo amor de Deus, gente! – exclamou, largando o corvo sobre uma cadeira e indo abrir a janela para respirar ar puro. — Não sei como vocês aguentam essa fumaceira.

— Você chega a ser cômico com esse drama todo – retrucou Arthur, apagando o cachimbo. Ao lado dele estava um cão da raça Manchester Terrier, sentado no chão. Do lado oposto, numa cadeira de espaldar alto, sentava-se um homem de barba, de olhos pequenos e nariz fino, que também apagou o grosso charuto num cinzeiro de jade.

Doyle fez um gesto na direção dele — Acho que você conhece o senhor Bram Stoker.

Poe cumprimentou-o – Não pessoalmente. Tenho lido suas histórias no Daily Telegraph.

— Soube que o senhor também escreve. Está publicando onde? - perguntou Stoker.

— Alguns continhos e poemas no The Penn.

— Obrigado por terem vindo – disse Doyle.

Poe respondeu, observando o cachorro. – Achei interessante a sua ideia de comemorar o aniversário de seu animal de estimação, convidando os pets dos amigos.

Poe percebeu que o cão não havia se movido nenhum milímetro. Desconfiado, foi olhar mais de perto. Percebeu que não era um animal de carne e osso, mas um cão empalhado.

— É esse o seu animal de estimação?

— Claro que não – respondeu Arthur Conan Doyle – Esse era o cão que assombrava os Baskerville. Eles o empalharam quando morreu e me deram de presente. O meu se chama Jack, o Estripador. Jack vem cá!

Dali a instantes, surgiu um Fox Terrier correndo, parou diante de Arthur, que acariciou a cabeça do animal. — Muito bem. Deite-se e fique quieto.

Poe olhou para Bram Stoker — E o senhor? Trouxe seu animal de estimação?

— Claro. – respondeu Stoker, estendeu o braço, tirou a capa de pano que cobria uma gaiola sobre a mesa. Dentro estava um morcego de cabeça para baixo segurando-se no poleiro.

— Esse é o Drácula. Ganhei de um amigo que mora na Transilvânia.

Poe exibiu o seu.

— O meu é o Pluto, um legitimo corone.

Naquele instante chegou o terceiro convidado, um homem jovem, de rosto comprido, óculos de aro fino, cabelos cuidadosamente penteados.

— Senhores – disse Arthur com um gesto. — Apresento-lhes, Howard Phillips Lovecraft.

Ele cumprimentou todos com um aperto de mão.

— Boa noite.

Ao responder o cumprimento, Poe percebeu que a mão dele era tão gelada quanto a mão de um morto.

— Acho que agora podemos jantar. – disse Arthur, erguendo-se. — Trouxe o seu pet? – perguntou ele para H. P. Lovecraft.

O rapaz meteu a mão no bolso externo do paletó e exibiu seu animalzinho de estimação. Um bichinho pequeno que cabia na palma da mão. Agitando seus tentáculos, emitiu um som agudo, borbulhante, como o chiar de uma chaleira com água fervendo.

— O que é isso? Um filhote de polvo? – indagou Stoker. Lovecraft olhou para o animalzinho como um pai olha para seu filho recém-nascido.

— Na verdade, não sei. Encontrei-o numa noite dessa durante um passeio pelo Hyde Park. Como meu peixinho de estimação morreu, fiquei com ele. Também achei que fosse um filhote de lula e o coloquei no aquário, mas ele detesta água. Preferiu dormir ao lado da estufa.

— Deu um nome a ele? – indagou Poe.

— Chamo-o de Chulo.

— Vamos para a sala de jantar, rapazes. – convidou Sir Arthur Conan Doyle.

Eles passaram para o outro cômodo, onde estava uma mesa comprida coberta com pratos de comidas variadas. No outro extremo, no chão, sobre um tapete persa, estavam alguns pratos de latão.

— Podem colocar seus pets ali que James vai lhes dar de comer. – disse o anfitrião e perguntou a Lovecraft; — O que o seu pet come?

— Come de tudo, aprecia mais carne crua.

Arthur chamou James, que providenciou a refeições para os animais. Colocou dentro da gaiola um ratinho para o morcego chupar o sangue. Jack o aniversariante, comeu um pedaço de bolo de carne com especiarias do oriente. Chulo, pedacinhos de carne e Pluto, sementes de girassol.

Os homens estavam comendo e conversando sobre livros, autores rabugentos e leitores chatos, quando ouviram um guincho. Ao olharem para os pets, viram um grande Chulo engolindo Drácula com gaiola e tudo. De Jack e Pluto só restavam os ossos sobre o tapete. Chulo havia crescido, estava agora do tamanho de um polvo de 30 quilos e parecia não ter parado de crescer.

Stoker tentou salvar o seu morcego, mas Chulo o envolveu com seus tentáculos para comê-lo também. O homem gritou apavorado. Arthur pegou um guarda-chuva do cabide e começou a bater no monstro, mas de nada adiantou. Poe, que estava com um cálice de vinho na mão, num gesto instintivo, jogou sobre Chulo. O animal gritou de dor e largou Stoker. De imediato, movido pela observação científica e lógica dedutiva, Arthur pegou a garrafa de vinho e derramou a bebida sobre o monstro cefalópode. Chulo derreteu como queijo suíço em chapa quente.

O jantar terminou ali, nada mais restava a fazer. James ganhou trabalho extra aquela noite. Um Bram Stoker triste pela morte de seu pet, despediu-se de seus amigos na porta. Envergonhado, H. P. Lovecraft desculpou-se, convidando-os para um jantar de confraternização em sua casa, quando pagaria pelo prejuízo causado pelo seu pet e presentearia os amigos com um volume do seu mais novo livro, o Necromicon. Edgar Alan Poe foi embora, pensando em fazer um poema para seu falecido corvo.

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BATER DE ASAS

─ Vou dar um passeio – disse a patroa para a criada.

Emma não respondeu, continuou a limpar os móveis, sabia que o aviso não era para seu interesse, apenas para dizer ao patrão, caso ele perguntasse, onde a esposa estava.

Ela seguiu pela vereda atrás do casarão, uma antiga trilha de caçadores. Caminhou devagar, apreciando a natureza. Era um dia claro, de temperatura agradável. Logo chegou ao bosque. O sol, através das folhagens, tecia intricados bordados de sombra sobre a serralha.

Aspirou o aroma das resinas. A mata transpirava um cheiro adocicado, refrescante. Vinha ao bosque sempre que precisava desanuviar a mente. Os bloqueios criativos a deixavam inquieta, irritada. Só o bater das teclas da máquina de escrever, o processo de criar uma história, lhe davam ânimo, novas energias.

Deixando o esplendor das faias e bétulas para trás, chegou à charneca. Ali estava o velho carvalho em sua morte lenta. Devia ter uns 400 anos. Dos 50 metros de altura, possuía só a metade. Fora abatido por um raio, o fogo eliminou sua seiva, secou seu cerne. Mas ele não se entregava tão rápido.

Rodeado por seixos e liquens secos, jazia moribundo, alguns galhos ainda com folhas verdes.

Num galho baixo, havia um ninho, encaixado numa forquilha. Ela aproximou-se, ficou na ponta dos pés para ver o interior. Viu três ovos pequenos, azulados, salpicados de roxo.

Ficou encantada com a descoberta. Súbito, ouviu um bater de asas e pequenas garras atacaram seus cabelos.

Um tordo adejava sobre sua cabeça, defendendo seus ovos.

Afastou-se correndo, respeitando a propriedade alheia. O pássaro foi atrás, mas logo cessou a perseguição, quando a intrusa estava bem longe de seus domínios.

Ela voltou para casa, aliviada e ao mesmo tempo alegre pelo evento inusitado. Enquanto seguia pela trilha, uma centelha acendeu-se em sua mente, colocando engrenagens em funcionamento. Uma ideia despontou, como um filhote de passarinho que logo saiu voando.

Os pensamentos concentrados no episódio tomaram outras formas quando pisou o umbral da casa.

─ O senhor Maurier está esperando a senhora para o desjejum. – avisou Emma.

─ Diga que estou sem fome. Estarei no gabinete escrevendo e não quero ser incomodada.

Foi direto para o gabinete. Sentou-se diante da máquina de escrever, colocou uma folha de papel entre os rolos, ajustou as bordas e bateu nas teclas o título e continuou escrevendo:

"No dia 3 de dezembro, o vento mudou durante a noite. Era inverno. Até então, o outono tinha sido ameno. As folhas haviam permanecido nas árvores, vermelhas-douradas, e as sebes ainda eram verdes. (...)


Os Pássaros, de Daphne du Maurier

1 de Setembro de 2021 às 13:38 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

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