guilhermerubido Guilherme Rubido

Cansados da vida na cidade, Fernando e Renata buscam uma casa em uma pequena cidade para tentar conseguir um pouco de paz em suas vidas. Lá, enquanto arrumava algumas coisas no sótão, Renata acaba por encontrar um fungo na parede que emite uma estranha luz azul. Fascinada, Renata começa a desenvolver uma obsessão pela luz, até que essa obsessão faz com que as coisas comecem a ruir.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Cuidado! Há algo brilhando no sótão...



— 1 —


Era a primeira noite deles naquela casa.

Fernando já estava com seus 56 anos e, a essa altura, decidira que estava precisando de um pouco mais de paz em sua rotina. Estava cansado do movimento interminável da cidade e o trânsito onipresente que congestionava cada esquina. As lojas abarrotadas de gente e as buzinas na madrugada. Com um pouco de esforço – meses de esforço, essa era a verdade –, convenceu Renata a comprarem uma casa em uma cidade vizinha, localizada a não mais de duas horas de onde moravam.

A cidade, com seus 3 mil habitantes – e o convidativo nome de Águas de São Pedro –, parecia-se mais com a representação contida de uma maquete. Era minúscula e boa parte de sua extensão era preenchida por vastas áreas de plantação das propriedades rurais que cercavam a zona ao redor da cidadezinha. Havia uma igreja no estilo gótico localizada no centro e, atrás dela e da torre com o sino que anunciava o início das missas, havia um belo campanário. Naquela curiosa cidade as casinhas se espalhavam espaçadas ao longo das ruas estreitas e, bem ali, em uma das vielas, Fernando e Renata Rodrigues escolheram seu novo lar, uma construção relativamente isolada das outras.

A princípio, ela não gostara nem um pouco da ideia. Não porque não tivesse vontade de morar em um lugar mais afastado e pacato. Nada disso. Na realidade, essa ideia sempre fora dela, a princípio. Há anos tentava convencer Fernando para que se mudassem, nem que fosse apenas por um tempo. Para espairecer um pouco e depois voltar à rotina. O problema é que ela não conseguia gostar de nenhuma das casas que o corretor lhes oferecia. Eram todas feias e modernas demais para o estilo de vida que procuravam. Tinham muito da cidade grande em cada pilar, fachada e alpendre. Por um tempo, chegaram até mesmo a desistir da ideia, dizendo a si mesmos que veriam isso mais pra frente. Contudo, algumas semanas depois de terem tomado a decisão, o corretor – um homem gordo e grande chamado Luiz Santori – ligou empolgado para Fernando:

— Você não vai acreditar na preciosidade que eu achei, Fernando! — O homem falou com aquele jeito sedutor tão típico dessa área. — A Renata vai adorar. Tenho certeza! É do jeitinho que ela quer. Podem vir aqui na corretora umas duas da tarde pra verem umas fotos?

Sem muita coisa a perder, eles foram.

A casa era realmente linda.

Um sobrado de dois andares – sem contar o sótão em cima – enfeitada e projetada ao típico estilo arquitetônico brasileiro. Uma casinha branca com amigáveis detalhes de tinta amarela. Em sua entrada e ao longo da casa, enormes janelões estilo colonial corriam de alto a cima, e, na entrada da casa, um confortável alpendre de madeira sulcada coberto por um telhado de telhas cor de tijolo se abria convidativo, aguardando-os com uma rede para descanso ao lado da porta da frente.

E ali estavam eles.

O caminhão de mudança despachara as caixas e móveis – poucos, pois a casa já era mobiliada – às 15h45 da tarde e, já com o crepúsculo sobre suas cabeças, Fernando e Renata desembrulhavam as últimas caixas. Renata estava lá em cima, no amplo sótão que ficava no espaço sob as telhas. Já estava lá há pelo menos uma hora, desempacotando e abrindo as caixas onde guardaram os enfeites do natal passado – que eram, para todos os efeitos, os mesmos dos outros natais há muitas décadas. Pisca-piscas, bolas vermelhas e douradas, bonecos de neve de pelúcia e, por fim, a própria árvore. Entre outras tralhas que ficariam lá em cima pegando poeira por um bom tempo, já que raramente eram usadas para alguma coisa. Se é que um dia seriam. Era mais provável que ficassem lá para sempre ou até que finalmente decidissem jogá-las fora. Mas Renata nunca o deixaria fazer isso. Ele já tentara. Mas sempre havia um “se” mágico que parecia justificar o acúmulo de qualquer coisa. Sim, era verdade que já não usavam mais aquele aspirador de pó há pelo menos 5 anos – e que um novo já fora comprado dois anos atrás para substituí-lo – mas... “...e se um deles quebrasse?”. Ela diria e ele desistiria outra vez. Houve uma época em que talvez ele insistisse no assunto e a chamasse de acumuladora e coisas do tipo, mas, com o passar dos anos, aprendera a deixar isso de lado. Como dizia o velho mantra, preferia a paz à razão.

Pegando um copo d’água na cozinha ele percebeu como estava exausto. Com 56 anos, achava que não conseguiria fazer o que fizeram em um dia, com todas aquelas caixas e coisas pra subir. Degraus e degraus correndo de cima a abaixo da casa, fazendo suas pernas reclamarem cansadas. Na sua cabeça, precisariam de pelo menos uns três dias para deixar tudo em ordem; mas, aparentemente, terminariam tudo na tarde seguinte. Suando, começou a beber. A água da garrafa ainda não estava muito gelada e a geladeira zumbia ao seu lado, esforçando-se para fazer seu trabalho.

Eles haviam comprado um filtro de barro para instalar na cozinha. Fernando sempre amou essas coisas. Quando ainda era criança, era convencido de que a água da casa de seus avós era a melhor de todas. E atribuía esse fenômeno ao antigo filtro de barro que ficava na cozinha da vó, coberto por um bordado branco e rendado feito por ela. Não sabia por que isso acontecia. Talvez magia. Era o que pensava quando era menor. E, de alguma forma, parando para pensar agora, continuava a acreditar nisso. Imerso em seus devaneios, Fernando pegou o copo e olhou pelo janelão que se abria acima da pia.

Uma leve brisa entrava por ali, trazendo o cheiro adocicado de mato e de terra molhada. Choveria mais tarde. Conseguia ver as nuvens se amontoando no céu crepuscular, dançando em cores purpuras e azuis. Lá fora, as copas das árvores balançavam de um lado para o outro, acariciadas pelo vento que deslizava por dentro das ruas, fazendo as folhas lá em cima farfalharem como chocalhos noturnos e outras deslizarem secas pelo asfalto.

Fernando respirou fundo, satisfeito com o que haviam feito. Era um bom dia. É mesmo, ele pensou, sentindo-se bem.

Trazendo-o de volta ao mundo, Renata gritou, chamando por ele:

— Fernando, sobe aqui rapidinho! Você precisa ver isso!

A voz dela soava abafada pela caixa acústica que era o sótão.

Ele colocou o copo na pia e atravessou a sala.

— O que aconteceu? Você tá bem? — Ele perguntou, olhando para cima enquanto subia a escadaria em direção ao segundo andar. Conseguia ouvi-la falando alguma coisa, embora não compreendesse uma palavra. Era tudo abafado, e a voz se perdia pelo andar de cima antes que pudesse chegar nele com clareza. — Renata?

— Anda, anda! Vem ver logo! — Ela falou, aparentemente impressionada com algo.

Isso ao menos o acalmou.

Renata vivia dizendo que ele era muito pessimista. Que, sempre que ela o chamava ou ligava, ele já conjecturava e imagina as piores hipóteses. Ela tinha um pouco de razão nisso. Quando ela gritou, ele imaginou que ela pudesse ter se espetado em um prego enferrujado lá no sótão, visto um rato ou uma barata ou até mesmo caído lá de cima. Ela era uma mulher teimosa. Tinha dito a ela que o chamasse quando fosse descer, mas sabia que ela não faria nada disso. Desceria sozinha, mesmo que tivesse de pular para baixo sem a escada, com o risco de quebrar um dos pés. Levando em conta a altura, ela quebraria os dois, muito provavelmente.

Ele continuou subindo, seguindo a curva que a escada de madeira fazia. Ali, na curva, uma janela fechada observava a casa do alto com suas abas de madeira bem presas por uma fechadura daquelas de correr. Ao passar, Fernando esticou-se na ponta dos pés e tentou abri-la, mas a fechadura parecia emperrada. Dura demais para deslizar. Desistindo, continuou subindo até chegar ao patamar, onde um corredor se abria, cercado por quatro portas. Ouvindo a esposa murmurar, Fernando olhou para cima. Já havia anoitecido e, pelas janelas, sombras se projetavam para dentro da casa. O corredor era parcamente iluminado por um lustre de vidro com luz amarela e, a alguns palmos de distância, uma portinhola se abria no teto, revelando o alçapão que levava ao sótão.

Pela abertura, Fernando viu que a luz lá de cima estava apagada. Porém, uma leve irradiação deslizava para fora da portinhola, fosforescente e de um azul claro.

Estranhando aquilo tudo, ajeitou a escada para que ficasse alinhada com o buraco e, com cuidado, começou a subir.

— Renata? Por que você tá no escuro?

Ele apoiou os braços na moldura do alçapão e se projetou para cima.

O lugar fedia a mofo e ar parado. Sobre sua cabeça, as vigas de madeira corriam por baixo das telhas, convergindo em um triângulo empoeirado e cheio de teias de aranhas que formava o telhado da casa. Era abafado lá em cima; cada barulho ecoava de uma maneira estranha pelo lugar seco.

— Não acende a luz! — Renata gritou de algum canto, sua voz soando estranhamente alarmada. Ele chegou a se assustar com a reação dela. — Vem aqui, Fernando.

Sem falar nada, ele obedeceu e avançou, usando a luz azul como guia. Ela estava agachada em uma das quinas do sótão. Ele se aproximou e se curvou ao lado dela, olhando na mesma direção em que os olhos da esposa recaíam.

A luz era mais forte ali.

— Tá vendo? — Ela perguntou admirada. Seus olhos estavam arregalados e encaravam mesmerizados o estranho brilho a sua frente: — Não é lindo?!

Ele chegou um pouco mais perto, tentando entender do que se tratava aquilo. Era uma espécie de fungo, que se espalhava em camadas na parede do lugar, se alastrando pela superfície como a erupção de um vulcão. De longe, a coisa parecia fofa, como se fosse macia ao toque. No centro daquilo, um cogumelo branco crescia em meio à massa branca grudada à parede. Juntando tudo, não devia ser maior que a palma de uma mão. E o cogumelo – um tipo estranho e com menos forma do que se costuma ver em desenhos – era bem pequeno; devia ter uns 5 centímetros.

Ainda assim, o brilho azul que aquela coisa emitia era muito mais forte do que se esperaria.

Fernando recuou um pouco, enojado com aquilo.

— Que coisa é essa, Renata? Onde você achou?

A pergunta era um tanto quanto idiota. Era óbvio que ela o encontrara bem ali, onde estava. O fungo não tinha patas para sair andando por aí. Mas ele estava se sentindo desconfortável naquele lugar; tonto e cansado. Fazia calor e o cheiro de mofo e poeira era sufocante. Além do mais, a luz azul fornecia ao sótão um aspecto estranho, projetando sombras fantasmagóricas por trás das vigas, pilastras e telhas.

— Eu... eu não sei — ela parecia confusa, mas não conseguia tirar os olhos daquela luz. — Fui amontoando as caixas pelo chão e, quando fui mexer em uma delas, vi uma luz saindo do espaço escuro entre elas. Tirei a caixa e a luz sumiu. Achei que fosse por causa da luz do teto, que tava acesa. Então apaguei e... isso aconteceu. Estranho, né?

Ela levantou uma das mãos e aproximou os dedos do brilho como se aquilo fosse uma joia preciosa que ela precisasse sentir. Precisasse tocar.

— Ei, ei! — Fernando falou, segurando o pulso dela antes do contato. — Você tá louca, Renata? Isso pode ser venenoso!

Com delicadeza, ela afastou a mão e começou a se levantar.

— É. Você... você tem razão — parecia perdida. Tentava desviar os olhos da luz, mas as pupilas eram fisgadas em sua direção de modo incontrolável. — É só que... é tão bonito que eu quis tocar. Foi só isso.

Fernando virou-se para o fungo luminoso por um tempo. Teria que pensar sobre o que faria com aquilo. Mas parecia óbvio que teria de removê-lo de alguma maneira.

— Anda, Renata. Vamos descer. Amanhã a gente vê isso aí — ele falou, ajudando-a a descer do sótão. — Tô morrendo de fome.

Fernando se apoiou nos últimos degraus e, erguendo a mão, fechou a portinhola.

Por conta da luz do corredor, não era possível perceber, mas, por trás da porta do sótão, a luz azul continuava a brilhar.

26 de Agosto de 2021 às 04:54 0 Denunciar Insira Seguir história
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