fernandailusao Fernanda Ester

Não é a primeira vez que Rei Álvaro morre, mas será a última graças ao filho perdido de seu irmão mais novo.


Fantasia Medieval Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Imagem de: Pixabay: https://pixabay.com/pt/illustrations/noite-conto-vintage-desenhando-4028339/

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Álvaro, o Rei que se foi


— O Rei está morto.  —  disse o homem  —  Aconteceu pela noite.
 —  De novo?  —  perguntei baixo.
 —  Álvaro se portava de maneira distinta essas últimas semanas.  —  O Sacerdote Conrado andava em círculos sob o altar ao fundo da capela, um homem que por mim, não valia tanto o quanto dizia  —  Deixou-nos numa situação de verdadeiro pânico.
 —  Não…  —  as outras tantas vozes no salão se lamentaram em uma forçada dor.
 —  E agora, meu senhor? A Rainha Revna logo tomará a cidade!  —  Irmã Luciana se ergue
 —  Nós podemos lutar!  —  Irmã Anna gritou dos fundos estendendo a mão com uma brasa ardendo em sua palma.
 —  Deixemos os assuntos militares para os soldados. Fomos criados para trazer a paz e não a morte.  —  Conrado sorriu  —  Nem tudo está perdido. A partida de Álvaro não estava escrita! O Senhor dos Céus não escreveu assim a partida desse homem!
 — A partida dele escrita ou não, ocorreu e você não pode mudar isso!  —  Irmão Haran grita.
 —  Posso.  —  e de murmúrios se fez silêncio. Conrado serviu o rei por uma vida inteira, e já não era mais um jovem  —  Se Álvaro não for resgatado, todos nós iremos lamentar daqui poucas semanas. Temos que trazê-lo de volta!
 —  O que?  —  a maioria do salão da paz fez. Orando para Haesis, o Senhor dos Céus como se assim espantasse as palavras de seu Sacerdote, que pareciam estar corrompidas por um mal. Um mal que eu, conheço muito bem.
 —  Isso é pecado!  —  um dos irmãos berrou  —  Um grande pecado!
 —  Podemos nos defender da Rainha que deseja nossas terras! Nós mesmos!  — Anna gritou.
 —  Você!  —  Conrado me aponta depois de ouvir lamento e ódio por meia hora.
 —  Senhor.  —  levanto do banco de madeira  —  Irmão Leandor.  —  faço uma saudação.
 —  Diferente de teus irmãos e irmãs, não disse uma palavra.  —  ele foca seus olhos em mim  —  Na Fé de Haesis todos os monges opinam. Porque não diz a vossa sagrada opinião?
 —  Quanto você me paga?  —  o Salão da Paz se esqueceu do nome e até tapa tomei no momento em que fiz essa perguntinha.
 —  Silêncio!  —  Conrado batia palmas e sua longa veste se sacodia  —  Jovem, o que disse?
 —  Jovem não. Não me sinto assim há anos. E embora eu não tenha a habilidade de muitos daqui, tenho coragem. O Senhor fará uso de magias não comuns, e para isso precisará certamente de um artefato…
 —  Não o escute!  —  Irmão Lauro se lançou na frente de Conrado  —  Irmão Leandor é um ótimo aluno e um ótimo ser humano! Por favor não lhe dê ouvidos, meu senhor! Ele é apenas um jovem confuso.
 —  Leandor, certamente você entende o que peço? — Conrado continuava a sorrir — A fé é algo muito extenso garoto, saiba que nunca há apenas errado ou certo para muitas coisas em que a vida lhe testará.
 —  Ah, eu bem sei!  —  segurei uma risada  —  Haverá uma invasão com a morte de Rei Álvaro e você só deseja traze-lo de volta. Teme a chegada da Rainha Revna de Amrod que tem sede de poder. E teme ver o povo morrendo pelo machado que o exército da mulher carrega. E eu desejo vagar para longe daqui. Então, eu repito; quanto paga, Senhor? — eu juro que tentei esconder a ironia de minha voz. Juro.
 —  A família de nosso Rei guardou muitas fortunas no Castelo Abandonado há sul daqui, onde não é o lugar mais belo do mundo. Traga-me de lá o Baú das Verdades, é dele que preciso. Reconhecerá quando o ver, não há erros.  —  Conrado me estende a mão  — Lhe darei o ouro para uma vida inteira de luxo.
 — Entendido.  —  lhe estendo a mão  —  Ouro por uma vida inteira de luxo.
 —  Ingrato!  —  eu escutei  —  Maldito! Isso não ficará assim!
 —  Você saberá o que fazer. Tenha pressa, meu jovem.  —  Conrado me estendeu uma bolsa.


Pego o item e apresso o passo para longe sem olhar para trás. Pego ao final da capela meu arco, uma bolsa com flechas e uma leve adaga. Para isso este convento me serviu; me ensinar a lutar. Senti o cheiro das velas uma última vez, fecho os olhos e lembro de quando o menino de pouca idade foi deixado aqui. O jovem sem memória e sem nome que recebeu a graça de Leandor. Então sigo minha jornada olhando para o horizonte e vejo. O tal do Castelo Abandonado ao sul, que é visto de muito longe. Tão alto que chega a beijar os céus. Sigo pela trilha do comércio da amada cidade e passo pelo portão que os guardas do Rei mantinham vigiados, e logo após um dia inteiro, adentro a floresta das redondezas. Deixei meu uniforme de Irmão pela floresta e vesti a armadura leve que Conrado me deu. Era nova e bem costurada. Com meu arco nas costas junto das flechas eu me sentia Leandor, o guerreiro, e não, Leandor, Irmão. Era como se os céus sorrissem para mim. Era o sentido de alegria que tanto me faltou nos últimos anos de dor.


E na estrada da floresta nada amigável, depois de três longas noites mal dormidas, entendi o porquê do maldito Conrado pagar tão bem. A floresta tinha vida própria. E sei que todas têm. Mas essa é diferente. Diversas vezes me peguei orando por medo das criaturas que ouvi rastejando, gritando, e perturbando a mim e aos outros seres que ali queriam apenas dormir. Mas meu medo tinha razão. Alguém gritava tão alto naquela noite que resolvi procurar a fonte de dor com meu arco. E achei. Uma criatura gritava a beira de um lago. Parecia um cadáver esquecido, mas eu não tenho certeza. Jogo uma pequena pedra na criatura que gritava sem economizar garganta.


 —  Você precisa me deixar dormir. Cale já essa boca!  —  disse.


A criatura se assusta e encerra seu choro. O mal do ser humano é pensar que não existem limites, eu já ouvi dizer. E a criatura era um morto. Ou quase isso.


 —  Teu lugar nem é aqui.  —  ele diz com a voz rouca e falha  —  Vai, volte.
 —  Preciso dormir, ser.  —  insisti.
 —  Fazem hoje vinte e dois anos de minha morte.  —  o ser de altura baixa puxa o pé podre do lago em que descansava exalando um forte odor.
 —  Não precisa se esforçar, não quero nada teu.  —  seguro o ar do nariz.


E demorou para o ser se formar. Primeiro da água surgiu as pernas magras e secas, e apoiando na árvore o seu restante em decomposição. Seu único olho morto e cansado em uma órbita ressecada surgia em um grito de dor. Esverdeado, apodrecido, quase nada vivo.


 —  Qual seu nome, andarilho?  —  ele se estica parecendo que assim sua dor cessaria.
 —  Leandor.
 —  Outro ninguém . —  ele congelou o olhar caído em mim por instantes  — Você me lembra alguém. Um dia fui igualzinho a você. Mas daí tudo mudou.  —  ele tenta caminhar  —  Amigos! Um ataque aqui há vinte anos e seis flechas no peito. Sabe quantos voltaram por mim?
 —  Nenhum.
 —  Exato!  —  ele sorri já sem dente algum  —  Sou Willy. Já Williem de Hampert e…  —  ele puxava ar pelo pulmão coberto por um peito perfurado e fedorento  —  O mal do homem é achar que não está sozinho. Morri aqui na floresta e jurei proteger o local de minha partida.  —  ele tenta caminhar  —  Daqui sei de tudo. Daqui vejo tudo.
 —  Preciso dormir. Tenho que buscar algo naquelas torres abandonadas.  —  disse com pressa. Essa criatura está começando a me colocar medo.
 —  Lá tem coisas antigas. O que houve?  —  a criatura pergunta.
 —  Álvaro morreu. O Rei.
 —  Ah não.  —  ele baixou o olhar realmente magoado  —  Pobre alma…
 —  Querem que ele volte a viver mais uma vez.
 —  Isso não é certo.  —  a criatura diz abaixando o olhar  —  Não faz bem para o ser.
 —  Morrerão muitos com a ausência dele.
 —  É o caminho. Todos um dia passarão pela porta da vida.  —  ele se volta a rastejar desanimado pelo lago  —  Farei meus vinte anos outro dia. Sozinho. Seu nome é Alaor, você disse?
 —  Não, senhor. É Leandor.  —  lhe sorri.


E consegui voltar ao meu simples acampamento e dormir até a tarde do outro dia. Foi uma noite bem dormida. Pela manhã, apaguei a fogueira que fiz e segui pela trilha sofrida. O ser morto e triste não estava mais lá quando retomei o caminho. Eu tentei passar pelo local sem olha para os lados, e após mais dois dias de caminhada, já era visto no topo de uma colina o velho Castelo Abandonado. Estava há menos de um kilometro. Caminhei até o anoitecer e senti um frio congelar minhas pernas, e mais uma vez em anos, me lembro do que era o feito o medo. Um fino e irritante barulho começou a irritar meus ouvidos. Não era nenhum inseto. Era uma presença que rondava a colina do Castelo. Morto e vagando sem os pés. Flutuava como uma folha. Cobria-se apenas por um tecido esfarrapado. Abaixei-me num arbusto e orei para meu Senhor. Espero que este não tenha se esquecido de mim como eu me esqueci dele. Meu arco tremia para ser usado. A aparição não me deixaria passar nunca. Mas, mesmo assim, arrumei coragem de onde não tinha mais, ajeitei a mão pelo arco e mirei na criatura, e antes da flecha lhe acertar, ele sumiu num grito. Eu a alertei. Segundos depois a criatura me agarrou com suas longas e afiadas unhas e rasgou meu peito num abraço doloroso. Gritei mais que ela. Me sacudi e espantei a aparição para longe com minha adaga, e subi correndo pela colina que ela protegia. A dor da ferida me cegava. A colina era íngreme e maldosa demais, mas mesmo assim, com a força que restava em meus joelhos a escalei. Após horas, um portão surgiu ao topo. Uma simples entrada que parecia ser a do castelo. Adentro o local velho e me deparo com um jardim já apodrecido, uma fonte terrivelmente fedorenta e com uma parede com encantamento de proteção num antigo idioma

‘" Aquele para ser salvo. Mesmo cansado."

Desfaço o belo encanto com a mesma frase e a parede ilusória se desfaz, surgindo uma sala com uma estreita janela sem grades e um berço ao fundo. Me aproximo e encontro uma toalha com o nome;

Williem de Hampert e Lannd. Filho amado e tão desejado, neto querido e bisneto em reinado.

O nome do morto do lago! Ele era irmão de Álvaro. Lannd é o sobrenome família de Álvaro! A criatura podre já foi alguém! Ao fundo da sala havia a escadaria que levaria até o topo dessa construção, mas a dor de meu ferimento no peito é quase insuportável, assim como o cheiro do local. Ao lado do berço vejo o baú que Conrado desejava. Pequeno, velho e trancado. Coloco na bolsa e fujo. Decidi enfrentar a aparição lá de fora com meu arco em mãos, mas lá não havia ninguém.


 — Olá!  —  um homem me chama ao pé da colina  —  Willy pediu para te ajudar!
 —  Há uma aparição por aqui! Fuja!  —  gritei.
 —  Aquilo?  —  o homem apontou para um amontado de cinzas ao chão.
 — Era isso.  Eu agradeço profundamente.  —  disse.
 —  Álvaro está finalmente esfriando.  —  o homem diz aliviado.
 —  Willy e Álvaro eram irmãos, sim?  —  pergunto.
 —  Eram. Isso tem muitos anos. Willy morreu ainda jovem ao defender o Rei de uma pequena emboscada ou briga que teve naquela floresta, apenas Willy morreu. Ninguém veio buscar o príncipe morto que jaz na água, nem Álvaro, nem os amigos dele na época, nem mesmo sua amada. Ele virou aquilo por culpa do irmão, sim. Álvaro era para ter morrido há tempos . —  ele ri  —  Conrado não deixa aquele homem morrer. Acho que bastou para ele ter perdido um dos príncipes.
 —  Quem é você?  —  insisto.
 —  Um simples guerreiro que devia um favor.  —  ele diz  —  Willy me salvou de uma noite de fome. E você realmente lembra ele em seus dias de felicidade.  — o guerreiro me encara com um sorriso  — Que alegria abençoada a que meu amigo está sentindo.
 —  Do que você está falando, senhor?
 —  Você se parece muito com ele! Não o rejeite, garoto! —  ele se irrita rapidamente  —  Se apresse, vai! Eu tenho o que fazer ainda.


E corri sem olhar para trás. Mal conseguia fechar os olhos pelo medo que a floresta me fazia ter. A fome que tive foi pouca, quase escassa, tão contraria a sede, que me castigou. Mas a dor daqueles cortes no peito me tirou do foco por todo o tempo. Em poucos dias de caminhada, sinto a minha amada terra, a cidade que jurei nunca sentir falta. Sinto o cheiro bom da grama recém aparada e dos aromas que vinham da feira. Caminhei pela cidade sem deixar que vissem meu ferimento no peito, e adentrei a capela ao lado do mosteiro que cresci. Subi diversos lances de escada, quase vinte, e numa sala bem grande e muito bem decorada, vejo Conrado com a cara num livro e o Rei morto e fedorento estirado numa cama luxuosa, e um jovem atrás deles. Os tirei do silêncio quando bati três vezes a porta.


 —  Que Haesis os ajude.  —  entrego o baú nas mãos enrugadas do velho.
 —  Leandor! Era exatamente isso meu jovem!  —  ele urrou em alegria. O sacerdote tirou do baú um livro quase destruído pelo tempo e folheou as páginas com rapidez  — Assim ele vem…  —  ele se ajoelhou diante de Álvaro ainda morto e segurou sua mão. Fechei meus olhos assim que vi o jovem fazer igual. Logo as orações de Conrado fizeram-se presentes, e então ouço um profundo lamento de dor aumentando o volume, e então um grito alto  —  Seja bem-vindo mais uma vez.    — ouço o velho dizer.

Abri os olhos e me arrependi amargamente de ter feito, pois vi o morto fechar seus punhos ainda deitado.
 —  Eu…  —  o Rei se engasgava. Extremamente debilitado e cinzento. Bem bonito aliás, para um morto que voltou do além. Sua vista me é aterrorizante.  — Porque? —  Álvaro ainda deitado pegou Conrado pela gola da blusa de maneira violenta  — Eu não queria isso!
 —  Meu Senhor! Você é a nossa luz! Sem você milhares morrerão!  —  Conrado diz.
 —  Pro inferno você!  —  Álvaro se senta fraco na cama soltando a roupa do velho  —  A Rainha chegará e eu quero é estar bem longe daqui!  —  sua voz mal era humana e sua respiração tão pouco  —  Não se assuste comigo . —  ele me olhou com fraqueza e com um calmo sorriso  — Você me lembra meu irmão mais novo. Tinha sua idade quando deu a vida por mim.  —  era notável que a vida já não lhe servia mais. Era realmente notável.
 —  É ele, meu Senhor! O jovem foi cuidado a vida toda! Nascido Alaor, nomeado Leandor!  —  Conrado chorava ao canto da cama  —  É filho de Willy! Eu cuidei dele!
 —  Eu?  —  gritei — Você está ficando maluco?
 —  Inferno! Garoto, me passe aquele papel!  —  Álvaro gritou tão alto que seus dentes caíram ao chão. O jovem chorando de medo entregou ao Rei uma folha  e uma caneta —  Faço de Alaor Leandor, Rei de toda Sedraria… Filho de Williem, único sobrinho de Álvaro...
 —  Eu? Não! Pare com isso, morto!  —  lutei  —  Não quero nada seu, não!
 —  É seu caminho. — sua voz se acalma — Queria ter mais tempo contigo. Você é a volta de Willy e isso deve ser algum sinal de que devo realmente partir, ele deve estar me esperando . Nomear você Rei, é o mínimo que posso fazer para Willy me perdoar. —  Álvaro se levantou fazendo um barulho assustador de ossos rangendo  —  Eu estava feliz.  —  Álvaro diz  —  Me livrei das garras do mundo e você as colocou mais uma vez em mim! Você tinha que ter me deixado em paz!  —  Álvaro pegou Conrado e o lançou contra a janela agarrado em si próprio. Primeiro um gritou. Um brado agudo, assustador, dolorido. Depois o outro logo em seguida, um clamor de alegria e esperança. Então a gritaria apavorada do povo se deu início.
 —  Devo te chamar de Rei, Senhor?  —  o garoto sai assustado de trás das cortinas.
 —  Parece que mais uma vez nessa vida, não tenho escolha.

22 de Agosto de 2021 às 02:51 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Fernanda Ester Olá, me chamo Fernanda! Tentando ser escritora! Adoro fazer novas amizades, então se quiser pode me chamar! Amo aventuras de tema medieval e épico, quanto mais dragões, espadas, capas, melhor! - Eu costumava ser aventureira, então levei uma flechada no joelho.

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