silva_writer Silva

Era uma cidadezinha pacata com a vizinhança agradável. Portanto, nada de muito interessante acontecia e as crianças faziam o melhor para se divertir. Diante de um tedioso dia de chuva, Lucas e seus amigos se deparam com um mistério sobre o Cemitério das Boas Almas e as histórias que cercam o lugar. *Ouça também no vídeo da história os 4 capítulos especialmente narrados por Marcelo Favaro do canal Conto Um Conto.



Infância Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#cemitério #infância
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Chuva

Chovia forte naquela sexta-feira. A rua esburacada parecia um rio e a essa altura, o campinho da 98 havia virado um mar de lama. De braços cruzados diante da janela, Lucas bufou. Detestava dias chuvosos, afinal ficaria enfurnado dentro de casa e contrariar sua mãe era pedir uma sova de cinto. Emburrado pela derrota na partida de ontem, seus joelhos ainda ardiam, lembrança do metido do Diogo e o carrinho criminoso que lhe deu antes que chegasse a chutar pro gol. Com certeza aquele trapaceiro agora se divertia com os jogos do seu Gameboy, mas ao menos não estava lá para se gabar dos pokémons que capturou.

Carlinhos, o baixinho da turma, estava empolgado com os novos quadrinhos do Homem Aranha que o pai lhe trouxera da banca onde trabalhava. O pidão Dudu, ou Bolinha como chamavam, certamente dormia ou fazia o que mais gostava: comer. Não podia ver ninguém lanchando que já vinha pedir um pouco. Já a Lili provavelmente teria essas coisas chatas de menina pra fazer. Lucas não entendia porque ela sempre demorava a chegar durante as brincadeiras. Ela dizia estar se arrumando e que os meninos não entendiam nada de moda. Embora sempre terminasse tão suja e suada quanto eles no fim do dia.

No entanto, para o garoto da Rua 13, não havia muita opção num toró daqueles. Lhe restavam o álbum de figurinhas e cartas, um jogo de botão, bolinhas de gude e um pião de madeira. Não tinha graça nenhuma brincar sozinho. A chuva arruinava um dia inteiro de brincadeiras e a revanche prometida ao Diogo. Lucas ficou tão entediado que acabou pegando uns jornais velhos. E então foi lendo tirinhas e completando palavras cruzadas até que bateu o olho numa matéria. Falava sobre a reforma no Cemitério das Boas Almas, em que o velho mentiroso do prefeito levou o crédito, mesmo que só fizesse as coisas perto da eleição. Lucas achava um absurdo gastarem tanto dinheiro num cemitério quando a pracinha do bairro tinha mais ferrugem e lixo que um ferro velho. "Poxa, eles podiam pelo menos colocar balanços novos e pintar o escorrego." Lamentou-se pelo parquinho, embora já tivesse ouvido histórias sobre o tal cemitério. Escutou sua mãe conversando a vizinha que o lugar havia sido construído onde antes funcionava um manicômio. O povo dizia que durante à noite as almas dos loucos andavam pelos túmulos, gritando em dor e agonia.

"Isso é balela, até parece que gente morta volta. Isso tudo é história pra pôr medo em alguém."

No caminho até o campo da 98, passavam em frente ao cemitério. Um portão de ferro dava acesso para as tumbas. Era um lugar muito quieto, raras vezes viam o coveiro por aquelas bandas. Lucas nem dava bola, geralmente vinha discutindo com Diogo que sempre o ruivo se dizia melhor em alguma coisa. Lili era a guardiã dos lanches, a loirinha os carregava na mochila rosa, sempre armada com um estilingue caso alguém tentasse pegar algo que não era seu. Bolinha apressava os passos e nem olhava pro cemitério, as vezes tropeçava e era segurado por Carlinhos, o menino negro que ia à missa com os pais de vez em quando, era o mais supersticioso e se benzia toda vez. Para surpresa e alívio de Lucas, após uma manhã enfadonha e cinza, o sol deu o ar da graça na tardinha. Restava saber qual dos amigos chamaria primeiro para brincar naquela sexta-feira 13.

20 de Agosto de 2021 às 01:04 6 Denunciar Insira Seguir história
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Alexis Rodrigues Alexis Rodrigues
Olá, Silva! Meu nome é Alexis, do Time de Verificação, e estou aqui para parabenizá-lo pela verificação da sua história! Gostaria de começar dizendo que amei o tema de mistério envolvendo crianças. Um clima nostálgico de aventura na infância deixa aquele quentinho gostoso no peito, aquele sentimento de boas lembranças <3 Ah, os dias chuvosos. Não tem nada que uma criança que ama brincar fora de casa deteste mais que uma chuva pra atrapalhar a diversão, e quem tem irmãos pequenos, ou cresceu com primos, sabe muito bem que menino entediado dentro de casa equivale à confusão e alguma coisa se quebrando (digo por experiência própria). No caso, aqui na história, os meninos entediados se divertem com jogos eletrônicos (saudades Gameboy, meu sonho de princesa era ter um). Entretanto, para o nosso protagonista, Lucas, não resta esse luxo. Lucas tem apenas um álbum de figurinhas, cartas, jogo de botão, bolinhas de gude e um pião e madeira e não vê graça em brincar sozinho (claramente o protagonista é uma pessoa extrovertida). Em meio ao tédio, fazendo palavras-cruzadas no jornal, se depara com a matéria sobre a reforma de um cemitério e logo fica indignado, acha um absurdo que a prefeitura gaste dinheiro em um cemitério e não na pracinha da cidade, por exemplo. Obviamente, não demora muito para que Lucas e seus amigos decidam visitar o tal cemitério, o que se torna um teste de coragem para os meninos, e um divertido de acompanhar. Sobre sua escrita: ela é fluída e divertida, gostosa de acompanhar. Notei alguns erros de digitação, como algumas palavras ‘‘coladas’’, e ausência de algumas vírgulas (como na frase: ‘‘E quando é que a gente vai comer hein?’’, onde a vírgula vem logo após ‘‘comer’’), mas nada que não possa ser corrigido rapidamente. Obrigada por nos dar essa história nostálgica e divertida <3 Precisamos de mais histórias como a sua nesses tempos sombrios, pra nos lembrar de que ainda é possível ser feliz ^.^ Espero ler mais de seus textos por aqui na plataforma ^.^

  •  Silva Silva
    Oi Alexis, muito obrigado pela avaliação e pelo feedback sincero. Essa história me trouxe tanta leveza e espero poder continuar escrevendo sobre essa turminha. Abraços! <3 2 weeks ago
Felipe Hasashi Felipe Hasashi
Uma deliciosa introdução recheada de nostalgia e nessa pegada mais simples e infantil, me senti fazendo parte dessa turminha, transportado para essa fantástica época! Ah cara, você acertou no ponto fraco, eu sempre quis ter um gameboy quando piá e bem na época do lançamento aqui no BR do Color e do Advance, para justamente jogar Pokémon. Hoje é só no bom e velho emulador de guerra kkk. Todas as referências foram saudosas e a sua narrativa foi mágica, pelo ponto de vista da gente quando piás! Parabéns por mais um ótimo projeto!
September 14, 2021, 13:00

  •  Silva Silva
    Fala mano, agradecimento atrasado, mas valeu demais! Eu não peguei um GB em mãos, mas ao menos os emuladores estão aí pra salvar a pátria e realmente teve muitos títulos excelentes. 3 weeks ago
CC C Clark Carbonera
Tadinho do Lucas...se ao menos as crianças votassem! Gostei muito do primeiro capítulo desse conto, Silva! Quero ver o que a turminha vai fazer em seguida, espero ver altas aventuras fantasmagóricas nesse cemitério :F
August 23, 2021, 15:53

  •  Silva Silva
    Talvez o país fosse outro kkkk Valeu Clark! Espero poder atualizar em breve ❤️ August 24, 2021, 12:04
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