pagi-allebasi Pagi Allebasi

Quando diversas mortes ocorrem aparentemente sem motivo algum, a exótica cidade de São Timóteo é virada de cabeça para baixo. Elena, uma garota ligada ao sobrenatural, descobre que as coisas são muito piores e mais profundas do que parecem ser.


Horror Histórias de fantasmas Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fantasmas #Terror #amizade #inkspiredstory #borboletas #humor
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I. o bote amarelo

Capítulo 1

— 12 de setembro de 1989, São Timóteo. 22:21 da noite. Relatório 234. Estou tentando me comunicar diretamente com o elemento O.C., pode me ouvir, O?

Houve um farfalhar na ligação, uma espécie de zumbido, o telefone que o velho segurava firmemente em uma das mãos estava ligado no alto falante.

— Muito... mal, capitão. O sinal está péssimo.

— Onde está agora, O?

— No lugar de sem...e.— a voz do homem de outro lado soava entrecortada.

O velho olhava diretamente para a câmera em sua frente, sério.

— E o que está fazendo agora?

— Pensei que tivéssemos combinado de conversar apenas sobre o... aconteceu.

— Tudo a seu tempo.

— Tempo é algo que não temos, J.R.

O som do vento batia na linha telefônica.

— Está certo, O. Me conte então sobre aquilo que combinávamos que diria.

— Sabe, capitão, ...céu está estranho por aqui. Parece q... pode chover a qualquer momento, mas do outro... ado da costa, o céu est... incrivelmente limpo.

— Está olhando para a costa agora?

— Sim.

— Interessante. Não se pode olhar de casa para a costa a menos que... Bom, mas o que isso tem a ver?

— Sei lá, se a ligação ficar mui... Ruim. Saiba que não f... Propósito.

— Eu entendo, O. É mais um motivo para nos apressar.

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Elena tentava manter-se acordada, o que parecia impossível com a Sra. Galvez falando sobre Orações Subordinadas ou algo assim. A mulher já era chata por natureza e quando tratava de assuntos ainda mais chatos, a aula se tornava uma tortura. A garota levantou a cabeça e olhou para o relógio do outro lado da sala. Foi no exato momento em que o sinal tocou, estridente como o grito de uma gralha. Era uma daquelas coincidências sem importância mas que te dão uma certa satisfação. Com Elena não se tratava apenas disso, era algo muito mais profundo, coincidências como aquela, mesmo que pequenas e insignificantes, aconteciam a ela o tempo todo. Como da vez em que milagrosamente resolveu estudar matemática sem saber que no dia seguinte teria uma prova surpresa da matéria. A turma guardou o material, com uma velocidade que teria surpreendido até mesmo Hermes.

— Não se esqueçam da tarefa para a nossa próxima aula…— a professora tentava falar em meio ao tumulto e barulho que um bando de adolescentes é capaz de fazer na hora da saída. — Páginas 103 a 120. Valerá ponto!

Em questão de segundos, Elena já estava no pátio, tentando não ser esmagada pela monstruosa massa de corpos na puberdade, com algum esforço, conseguiu sair porta a fora. Apertou a mochila nas costas e se pôs a andar. Sua casa não era muito longe dali, apenas uns três quarteirões, mas não era para lá onde ela estava indo.

Em vez de seguir o caminho reto, virou à esquina do segundo quarteirão e seguiu. Alguns estudantes que haviam acabado de sair da escola tagarelavam em grupinhos até chegarem a suas casas.

— Ei, cabelo de abóbora podre, cuidado para não sair rolando descida abaixo.— Nicholas Holloway (ou Nico, como seus amigos o chamavam) passou ao lado dela na bicicleta vermelha muito arranhada seguido por outros do grupo, que riam como hienas. Elena apresentou o dedo do meio. Já estava cansada daquilo e já desistira há muito de se importar com aquele tipo de comentário.

Aquilo só fez com que Nico risse mais.

A menina subiu o pequeno morro, andou mais algumas ruas e já podia sentir o ar mais fresco, o cheiro salgado na ar, o som das ondas distantes. O mar não ficava muito longe dali, e com ele, o lugar que ela considerava o mais interessante de toda a pequena cidade. Era preciso andar mais um pouco, passar por um bar muito frequentado e uma loja de conveniência onde vendiam artigos de praia e piscina. Atravessou a pista e pisou, sem tirar os tênis amarelos, na areia fina. O vento da maresia esvoaçava os cabelos fartos e cacheados, Elena tentou afastá-los do rosto enquanto seguia para o Farol. Era um lugar abandonado, depois que construíram um flutuante no outro lado da costa, aquele perdera a sua utilidade. O que, na opinião dela, o tornava ainda mais especial. Não demorou muito para que ela arranjasse um jeito de entrar lá, era apenas questão de posicionar corretamente as dobradiças da porta, ajeitar as correntes do cadeado e fazer algum malabarismo. Todavia, naquele dia, ela não entrou no Farol. Sentou- se numa das grandes pedras que o cercavam e simplesmente admirou o mar. Ela costumava fazer aquilo quando queria espairecer, quando sentia que na sua cabeça, havia informações demais para processar ao mesmo tempo.

Mar, brisa, apalpar a areia com as mãos, o cabelo no rosto. Era bom. Mas não importa quantos mares olhasse, aquela sensação não ia embora, e ela sabia que não iria abandoná-la tão cedo. Era sempre assim.

O pior é que ela não sabia explicar bem o porquê. Apenas a sentia e era desse jeito, não havia outra coisa. O céu estava num azul deslumbrante, poucas nuvens se dissipavam. Aquele trecho da praia estava deserto, como era de se esperar. Por algum motivo, ninguém gostava daquele ponto. Sentiam uma energia estranha ali, e talvez essa fosse uma segunda razão para Elena gostar de ficar ali. O mar estava calmo, a brisa continuava suave e morna, mesmo assim, naquele momento, a garota sentiu o pelo de seus braços se eriçarem. Estava acontecendo de novo.

Foi então que, de repente, ela viu. Um vulto negro passando próximo às rochas. Tão rápido que a única coisa que ela poderia afirmar com certeza é de que saía daquelas pedras um pouco mais afastadas do Farol. Elena pôs-se de pé e foi até ele, ainda de mochila nas costas. O vulto andava ao redor de alguma coisa. Ela se aproximou mais. Não era nítido, eles nunca eram totalmente. Ela se aproximou mais. Agora podia ver algo no chão, amarelo-canário, algo de plástico. Aproximou-se mais. Parecia um bote. E havia algo dentro do bote. Ela não precisou dar nem mais um passo. Dentro do objeto, um corpo jazia. Era o cadáver de uma criança.

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A coisa se mexia ao redor do corpo morto, meio acinzentado, quase transparente. Parecia a réplica do menino em fumaça escura. Elena sabia que ele iria começar a se tornar mais e mais difícil de enxergar com o tempo e que logo não se tornaria mais visível. O fantasma do menino olhou para ela e sorriu. Parecia completamente são, não parecia ter qualquer ferimento ou marcas. Ele teria morrido afogado? Não, não teria como ele voltar para o bote estando afogado, certo? Envenenado, talvez? Quem envenenaria uma criança e a poria num bote no meio da praia?

— Como você morreu?

O sorriso do menino vacilou. Não pareceu surpreso com o fato de ela poder vê-lo. Alguns nunca pareciam surpresos de verdade.

— Eu não sei.— a voz meio distante, quase como um eco.

Elena franziu o cenho, confusa.

— Você não sabe?

— Não sei, não.— ele olhou para o corpo no bote. — Eles vieram até mim.

— Quem? Quem veio até você?

— As bloboletas.

Elena fitou a criança mais uma vez. Deveria ter o quê, seis, sete anos? Mais ou menos isso. Não deveria saber do que que estava falando. A garota sentiu uma pontada de tristeza. Era tão novo… Tão criancinha… eram injustiças da vida como essa que a faziam fugir para aquele lugar e questionar o mundo. Era isso o que frequentemente enchia a sua cabeça a ponto de parecer que iria explodir. Eis o fardo de encontrar corpos por aí.

— O que você estava fazendo sozinho… aí?

— Eu não estava sozinho. As broboletas estavam comigo.

— Foram as borboletas que te colocaram nesse bote? Assim, no meio do mar?

— Não, isso foi o Capitão. Ele mandou que eu remasse depressa o máximo que eu conseguisse. Ele disse pra eu continuar a remar e remar… Ele disse pra eu ter cuidado com as bloboletas. Pra eu chegar até lá. — ele apontou para um ponto meio distante no oeste. O ponto onde a praia geralmente lotava. Próximo ao farol flutuante. — Mas aí veio o vento e bagunçou tudinho. O mar me afastou, eu tava quase chegando! Eu não tinha mais força e as broboletas me pegaram.

Elena sentiu o coração se apertar cruelmente. Ela não tinha condições psicológicas para aquilo. Por

— Quem… Quem é esse Capitão?— perguntou, tentando juntar o máximo de informação possível embora soubesse, por experiência própria (e bota experiência nisso) que a polícia não acreditaria em nada do que dissesse. Afinal, como ela poderia saber de tudo aquilo se nem conhecia a pessoa e não tinha provas nem evidências suficientes? Seria suspeito de mais.

— Ele é o Capitão Russo.— ele fez uma pausa— Eu preciso ir. — É claro que precisava. Mas era apenas uma sensação, ainda levaria algumas boas duas horas para que ele fosse de verdade.

— Tudo bem.— Elena conseguiu dizer, sua própria voz soava estranha. — Tenha uma boa viagem.

A menina se virou para ir embora.

— Ei, espere. Só mais uma coisa.

Ela girou nos calcanhares.

O menininho olhou bem para ela.

— Tome cuidado com as broboletas.

Elena não chamaria a polícia e nem seria preciso. Naquele mesmo dia toda a cidade já saberia do ocorrido. O nome do menino era Samuel Dirsle e ele tinha seis anos. Ele havia se perdido dos pais numa feira que havia ocorrido no dia anterior, desde então, eles aguardavam dar as vinte e quatro horas para relatar o desaparecimento.


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— Ajeite suas pernas, estique seus braços e tentei arremessar. — a menina mandou. A bola voou poucos metros, caindo pesadamente muito longe da cesta.— Não ponha tanta força na bola!

— Eu não coloquei tanta força assim.

— É claro que colocou, eu não sou cega! Deixe eu te mostrar como se faz. — Lana pegou a bola de basquete do chão, onde havia caído depois do péssimo lançamento de Erick. Se posicionou exatamente como instruíra e arremessou. Um belo lançamento, a coisa laranja voou magnificamente para dentro do aro enferrujado.

— Isso não vale, você pratica.— O garoto protestou, ela deu de ombros.

— Coisa que você deveria fazer.

Os cabelos castanhos estavam amarrados desleixadamente no topo da cabeça, caindo em cascata pelas suas costas, a badana azul cobria a parte da testa e início da raiz dos cabelos, usava uma camiseta acidentada grande demais para seu corpo magro e as shorts verdes também folgados demais, tinham os bolsos cheios de balas e papeis de balas. Erick a achava a pessoa mais descolada da escola, depois apenas de Dylan Jing. Ele (Erick) deixara os cabelos crescerem nos últimos meses, agora chegavam a altura do pescoço, usava sempre um gorro por cima deles, tentando parecer mais legal. Passara a usar roupas largas também e tentava usar gírias sempre que a mãe não estava por perto. Passara a ouvir rock por influência de Elena… Elena apareceu inesperadamente na abertura da quadra, foi caminhando até os velhos ( e, há apenas alguns poucos dias atrás) amigos.

— Ah, não, o que está fazendo aqui? Veio dar mais algum sermão?— Lana disparou, assim que a viu.

Elena vestia uma camisa azul com o Pacman ilustrado, tentando fugir de três fantasminhas coloridos. Seus brincos eram de cereja, o que combinava com a ideia da blusa. Ela vestia calças jeans de cintura alta e os famosos tênis amarelos. A mochila pendia em um dos ombros, ainda não tinha passado em casa.

— Eu não vim aqui falar com você, nem dar sermões, se quer saber. Vim aqui para falar com Erick.

Lana olhou para o amigo, que errava no arremesso mais uma vez. Erick se virou para Elena. O conflito dela era com Lana, ele não tinha nada a ver com aquela história, ainda podiam se considerar amigos.

— Veio falar comigo?

— É. Mas não aqui. Vamos para outro lugar, onde a gente possa conversar — lançou um olhar sério à outra garota— sem sermos ouvidos.

Lana fez uma careta.

— Hum… Tá.

Elena o arrastou até o banco da praça, logo ao lado da quadra de esportes.

— Nós temos que continuar com o plano. Aquela coisa… Aconteceu de novo.

Erick empalideceu com uma rapidez impressionante.

— Você disse que talvez a gente não precisasse…

— É, mas isso foi antes. Agora tem uma coisa diferente no ar, eu posso sentir.

— O que ele ou ela disse?

— Ele. Era um menino, falou sobre as borboletas de novo. E algo sobre um Capitão ter ajudado… Ele era só uma criança, não entendeu direito o que tinha acontecido.

— Isso é triste. Muito triste. — Erick balbuciou, sem saber ao certo o que dizer.

— O que me intriga não são as borboletas. Ainda não sabemos nada sobre, mas alguns outros já tinham comentado sobre elas, grandes e pretas, pareciam com mariposas.

— Teve aquele aquela mulher que disse que pareciam morcegos gigantes. — o garoto lembrou.

— E aquele cara que achou que fosse o anjo da morte.

— E se for isso mesmo, anjos da morte?

Elena já tinha pensado nisso, balançou a cabeça.

— Não, não acho que sejam. Se fossem, por que nem todos dizer tê-los visto? Só alguns relatam sobre as “borboletas negras”. E são justamente os que morrem de forma mais estranha, sem nenhum sinal de envenenamento, esfaqueamento ou seja o que for. Erick concordou.

— Mas se não é isso o que te preocupa, o que é?

— O tal "Capitão". Ele disse que se chamava Russo.

— É, mas pode ser só a etnia do cara. Tipo o Capitão América.

Elena lançou a ele um olhar de tédio.

— Não, seu bobão. Não consegue pensar em nenhum homem com esse sobrenome?

Erick fazia cara de paisagem enquanto pensava. Subitamente suas sobrancelhas se arquearam.

— J. J. Russo!

— Exato.

— Acha mesmo que...

— Tudo é possível.

Ambos voltaram a olhar para a quadra, Lana fazia mais um belíssimo arremesso.

— E quando vamos fazer?

— Daqui a dois dias.— Elena respondeu.

— Acho que posso me preparar até lá.

— E nada de envolver a Lana nisso. — ela completou, rapidamente.— Ela não faz mais parte desse plano, lembre-se disso.

— Ela não anda mais com aqueles caras, você sabe.

— Isso é o que ela diz.

Erick abanou a cabeça e se levantou. Era inútil tentar convencê-la.

— Nos vemos em dois dias.

— Até lá nos comunicamos para preparar tudo.

— Certo.

E assim se separaram, Elena foi para casa e Erick voltou à quadra com as mãos enfiadas nos bolsos da calça.

Lana quicou a bola no chão.

— O que ela queria?

— Nada.

— Pra quê ela teria te chamado para falar nada?

Erick coçou o nariz.

— Bem, na verdade ela disse que estava se sentindo muito sozinha, queria me convidar para assistir O Exterminador, ir no fliperama ou coisa do tipo.

— E você aceitou?

— É claro. Ela é minha amiga, não é?

O garoto pegou a bola de Lana e treinou mais um arremesso. Ela o observava, sem acreditar nem um pouco naquela história.


10 de Junho de 2022 às 23:21 0 Denunciar Insira Seguir história
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Leia o próximo capítulo II. o sr. dirsle

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