guilhermerubido Guilherme Rubido

Desamparada depois da morte de sua mãe e de uma briga com seu pai, Silvia Lins se vê obrigada a alugar uma velha casa em um bairro esranho e decrépito. Durante meses, Silvia tem a impressão de estar sendo observada; como se olhos a acompanhassem pela casa. Sem ter para onde ir, ela permanece contra sua vontade até que, certa manhã, ao sair da cama, ela se depara com algo estranho... havia pegadas bem ao lado de sua cama. Alguém invadira sua casa e se aproximara dela à noite. No entanto, nada tinha sido roubado. Com uma faca sob o travesseiro, ela aguarda a próxima visita do invasor. A descoberta do que se tratava "aquilo" que a observara durante meses e onde era seu esconderijo é aterradora.


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Inesperado Inquilino


Pela primeira vez, Silvia Lins percebeu que não estava sozinha.

Havia alguém em sua casa.

Sabia disso. Podia sentir os olhos a acompanhando das sombras, quando ela atravessava a sala ou preparava um pão com queijo na cozinha. De algum lugar, espreitando por trás dos móveis empoeirados, escondido em baixo do estrado de cama ou por trás de uma porta, alguém a observava.

Um calafrio percorreu suas costas, como se mãos geladas deslizassem por sua pele.

A princípio, suspeitara de algumas coisas. Estava morando ali há pouco tempo e, como o orçamento era baixo e as opções, escassas, teve de se contentar em criar justificativas para o que via, sentia e pensava ouvir. Não podia se dar ao luxo de simplesmente ir embora. Não havia essa opção. A mãe estava morta, enterrada a sete palmos do chão em um cemitério qualquer no centro da cidade. O pai, por sua vez, desde que ela decidira abandonar a faculdade de medicina para seguir a carreira de jornalismo, a odiava, ou agia como se odiasse. Dali a uma semana, completariam 6 meses sem se falar. Ela esperava que as coisas mudassem. Esperava mesmo. Mas não criava falsas esperanças.

Quando a mãe morrera cerca de quatro meses atrás, ele não se importou em ajudar com o dinheiro para a coroa de flores da mamãe. Sorte de Silvia que sua tia estava lá para ajudá-la a pagar, senão, estaria ferrada. Apesar disso, Silvia não podia se deixar levar e viver às custas da tia. Teve de dar um jeito nas coisas. Colocar os parafusos no lugar. E a casa alugada foi um desses. Um dos grandes, porque ela detestava o bairro e a casa; cada milímetro dela. Era mal iluminada e a madeira escura que formava o chão e os móveis forneciam um ar sombrio ao lugar, impedindo que as fracas luzes brancas do teto penetrassem a penumbra.

Ninguém te disse que as coisas seriam fáceis, Silvia minha querida, ela pensou, enquanto olhava ao redor em busca de alguma coisa que acalentasse seu pavor. Ela tinha esse problema. Quando estava com medo – e naquele momento ela estava quase se borrando de medo –, usava o humor para se acalmar. E, quando ela acordou naquela manhã de sábado, teve de usar uma bela dose dele para não desmaiar e bater a cabeça no chão.

Eram 9h45 da manhã. Lá fora, um bem-te-vi cantava empoleirado nas telhas da casa da frente. Uma resga de luz quente entrava pela janela, recaindo sobre a face dela. Não importava quanto tempo passasse, ela odiava acordar cedo. E, para ela, aquilo era bem cedo, ainda mais em pleno sábado. Limpou a baba seca que escorrera pelo canto da boca com as costas da mão, jogou o cobertor para o lado e se sentou, colocando os pés para fora da cama.

Seus dedos encostaram em algo gelado.

No reflexo, ela retraiu os pés, puxando-os e os suspendendo no ar. Mas que merda é essa? Ela pensou, olhando com uma careta para as marcas que brilhavam sobre o assoalho desgastado. A luz da manhã fazia-os brilhar, como poças d’água que começavam a secar no asfalto quente.

Eram pegadas. Pegadas humanas.

As marcas de pé vinham do corredor, atravessando a porta do quarto e caminhando para dentro, até pararem bem ao lado da cama onde ela dormia. Puta merda, alguém entrou aqui, foi o primeiro pensamento que ela teve. Era óbvio. Claro como as pegadas do chão. O bairro não era dos mais seguros. A casa não tinha alarme nem cerca elétrica ou arame farpado. Era o cenário perfeito. Quando ela se levantasse e começasse a vasculhar, veria que a televisão da sala não estaria mais lá, bem como o aparelho de DVD que comprara por um ótimo preço em um sebo perto da praia. A torradeira teria sumido e, a esse ponto, já teria sido vendida a 15 reais pra que algum filho da puta pudesse comprar um pino de cocaína.

Só que nada havia sumido.

Estava tudo lá, intocado como ela deixara. Sua carteira com o dinheiro e os documentos também não tinha sido mexida, continuava fechada sobre o criado-mudo ao lado da cabeceira da cama. Confusa, ela seguiu as pegadas, que corriam ao longo do corredor e, de repente, desapareciam perto de um móvel e um espelho de parede na lateral da sala.

Eu mereço... ela pensou, se jogando no sofá azul e encarando a sala sem saber o que fazer. Não sabia se devia ligar para a polícia. “Alô, sim, sim, aqui é Silvia Lins, escuta só. Alguém invadiu minha casa. Arrombamento? Pfft! Não! Tá tudo trancado. Tem pegadas também, mas elas somem do nada. Ah, e mais uma coisa, a pessoa não roubou nada. Acho que no final era só alguma amiga minha querendo me visitar. Deve ter visto que eu estava dormindo e decidiu voltar outra hora. Deve ser isso”. Não. Sem chance. Eles provavelmente diriam que era para ela ficar de olho e “se vir alguma coisa, liga pra gente”. Só que aí já seria muito tarde.

Ela se lembrava de uma das primeiras noites na casa. Ainda estava arrumando tudo que trouxera. Colocando as roupas no armário, a escova de dentes e os produtos de higiene na pia do banheiro, quando algo estranho aconteceu. Ela estava com a mala aberta sobre o colchão da cama. Estava mexendo em uma bolsinha onde guardava suas maquiagens e, com o canto do olho esquerdo, achou ter visto alguma coisa no fundo do quarto. Era do lado do gigantesco guarda-roupa que cobria a parede do chão ao teto.

Havia um pequeno buraco ali, na parede ao lado da última porta. E, por um momento – por um brevíssimo momento que congelou seu corpo e fez suas pernas desligarem no mesmo instante – Silvia pensou ter visto um olho brilhante a encarando lá de dentro.

Ela estancou, segurando um tubo de esmalte nas mãos trêmulas. Prendendo a respiração, ela andou na ponta dos pés até o buraco, cada passo dos pés descalços fazendo as tábuas do chão rangerem. Ela se aproximou e olhou lá dentro.

Não havia nada.

Era um apenas um vão no tijolo. Dava para ver alguns canos no fundo, mas nada mais. E, de qualquer modo, era impossível uma pessoa entrar ali. O olho – se é que houvera de fato um – pertenceria, no máximo, a um rato qualquer. Apesar do medo, ela realmente acreditou nisso. Não era um absurdo. Loucura seria pensar que havia uma pessoa na parede. Contudo, apesar disso, antes de dormir ela pegou uma bolota de papel molhado e tampou o buraco. Seria melhor assim.

Os meses se passaram e agora ela estava ali, sentada aflita no sofá. Aquele buraco da parede nunca mais a incomodara e, para falar a verdade, ela até se esquecera dele. Havia outras coisas para se preocupar, como os rangidos e estalos no meio da noite. A sensação de estar sendo observada e, agora, as pegadas molhadas.

Olha só, Silvia, você tem que se acalmar. Provavelmente não é... provavelmente é o caramba! São pegadas, cacete! Pegadas! Não foi uma porta fechando sozinha na madrugada onde eu pudesse culpar o vento. Alguém esteve aqui. Esteve do meu lado droga! Sua mente rodava inquieta. Sentia-se fraca, mas estava sem fome ou força alguma para ir até a cozinha preparar algo para comer. E, além disso, tinha medo de que esse alguém ainda estivesse por aí. Escondido em algum lugar. Não podia suportar essa ideia. Se ao menos pudesse ter a certeza de que, por mais absurdo que seja, a pessoa só invadiu a casa, não levou nada e foi embora, poderia ficar tranquila. Só que...

Só que ele não foi, não é, Silvia? As palavras deslizaram frias dentro de sua cabeça, fazendo sua nuca se eriçar e um calafrio percorrer seus braços. Suas pernas formigavam. Porque você já pensou ter ouvido sussurros de madrugada, vindo de algum lugar. Ou passos rápidos que você sempre atribuiu aos ratos que você nunca viu. Sem falar nas naquela blusinha que você jurava que tinha guardado na parte de cima do armário, mas que nunca mais encontrou...

— Para com isso! — Ela falou em voz alta para si mesma, cortando de uma vez a linha de pavor que a içava para um espaço perigoso de paranoia justificável. — Pelo amor de Deus, você é sonâmbula desde menininha! Deve ter dado umas voltas pela casa e pronto.

Mas isso não explica a água brilhando na madeira do chão, ela pensou, mas não teve tempo de concluir. Alguém batia palmas lá na frente, no portão, fazendo com que ela voltasse ao mundo real e à rotina. Era o carteiro. Tinha algumas cartas de conta de luz, água, gás e mais de um monte de coisas que Silvia nem mesmo sabia como iria pagar. O trabalho na loja até que estava indo bem e as pessoas pareciam interessadas em produtos caros para o cabelo. Mesmo assim, ela se via sendo sufocada pelas contas que chegavam sem parar.

Agradeceu o carteiro com um bom dia e voltou para casa. Fechou a porta de entrada e abriu uma das cartas. Era um aviso amigável, alertando que, caso ela não pagasse a conta até a data limite, cortariam sua luz. Ela nem se importou em abrir as outras. Jogou-as no móvel ao lado do sofá e foi até a cozinha. Queria se sentar e chorar, mas não se permitiria uma coisa dessa. Mesmo sozinha, não faria isso. Quando era menor e começava a ameaçar chorar, sua mãe a cortava na hora: “anda, menina, sem churumelo pra cima de mim. Vai! Anda ou vou chamar seu pai, hein”, ela falava, enquanto uma Silva ainda pequena contorcia os lábios e sentia seus olhos lacrimejarem. Ela nunca soube exatamente o que a palavra “churumelo” significava. Não sabia nem mesmo se ela sequer existia. Mas entendia o conceito e, quando a mãe dizia isso, ela parava de chorar na hora, engolindo o choro e limpando o rosto.

Tinha de ser forte.

— Vamos lá — ela disse para si mesma, começando a preparar o almoço. — Sem churumelo, garota.

Ela fez o almoço e deixou a janta pronto. Arrumou a casa, limpou a entrada da casa, separou algumas roupas para lavar, lavou a louça e mais um monte de outras coisas. Para ocultar o silêncio da casa, ela colocou um CD da Legião Urbana para tocar. Seu pai amava Renato Russo e, com o tempo, depois de ouvir repetidas vezes nas viagens de carro ou nos sábados de churrasco, ela aprendera a gostar também. E aquele álbum tinha uma de suas músicas favoritas, Marcianos Invadem a Terra, porque seu pai adorava brincar com ela recitando uma das partes principais quando ela era menor:

Cuidado com a coisa

Coisando por aí...

Chegava a ser engraçado, embora ela sempre achasse que havia algo de meio medonho na letra.

E, quando ela viu, havia se perdido nas tarefas da casa e nas músicas, a ponto de se esquecer das pegadas no quarto. Estava ocupada demais pensando em outras coisas. Nas contas para pagar e no pai com quem não falava. Pensou em ligar para ele no dia seguinte. Conversariam e se entenderiam.

Quando se deu conta, já eram sete horas da noite e, exausta, ela dormiu.

Por baixo do travesseiro, escondeu uma das facas de cortar carne da cozinha.


***


Ela ouviu o som baixo e roufenho da respiração. Um som que tremia rouco por baixo do chiado forte da chuva que caía lá fora.

Não abriu os olhos. Não ousaria fazer isso; não em um primeiro momento. Ouvia o som de trovões estourando através das nuvens e via o reflexo dos relâmpagos que explodiam no céu e se irradiavam pela janela do quarto até seus olhos fechados.

Alguém estava parado ao lado da cama.

Estava bem ao seu lado, quase sendo possível sentir sua presença. E ela ouvia. Ouvia o ruído da respiração de seja lá quem estivesse ali e o barulho dos pés quando ele se ajeitava ou trocava o apoio de uma pena para a outra. Imaginou aquilo parado em pé, olhando para a cama enquanto ela fingia que dormia. Quantas vezes isso acontecera? Ela não saberia dizer. E, para falar a verdade, tinha medo da resposta. Tinha medo de saber há quanto tempo era vigiada dessa forma, acompanhada sabe-se lá como por onde quer que fosse da casa.

Você não pode ter medo agora, Sil, ela pensou, tomando coragem para fazer o que pretendia. Sentiu o cabo de madeira da faca de carne pressionar quente contra a palma de sua mão que suava e tremia. Estava morrendo de medo, essa era a verdade. Não tinha medo em admitir isso. Mas também sabia que, apesar do pavor que agora gelava seus ossos e fazia sua barriga formigar, ela faria o que tinha que ser feito. E que se danassem as possíveis consequências.

Quando sentiu que ele estava perto o suficiente, ela agiu.

Agarrou com toda a força a faca, temendo que ela escapasse de sua mão, e puxou-a de debaixo do travesseiro. Com um grito tribal, ela desferiu um golpe no corpo ao seu lado, sem nem ter tempo de olhar quem era. A lâmina trespassou com velocidade o véu de sombras que cobria o quarto, brilhando ligeiramente ao ser capturada pela luz da lua que dançava no céu. A ponta da faca encontrou algo e, com rapidez, deslizou para dentro, até o cabo travar seu movimento.

Silvia largou a faca, tremendo e sentindo os nós dos dedos doerem pela força exercida.

Ela saltou para fora da cama, distanciando-se de seu perseguidor.

Na escuridão da noite, ele era apenas a sombra de um homem grande e velho, balançando-se de um lado ao outro do quarto gemendo de dor. Enquanto se debatia, ele derrubava as coisas a sua volta e, na intenção de se proteger, Silvia foi ao chão. De costas, ela engatinhou até a parede do fundo do quarto, procurando uma ilha de espaço seguro longe daquilo e um apoio para poder se levantar. Havia um cheiro terrível pairando no quarto; um odor pútrido de mofo que era quase sufocante e que parecia vazar da ferida aberta causada pela faca. Os gritos eram terríveis, parecendo emergir de dentro de uma caverna que distorcia as vozes em um ulular sinistro. Vendo que ele começava a se recuperar, Silvia escaneou o quarto em busca de algo que pudesse usar como arma.

Eu vou morrer, ela pensou desesperada, os pensamentos surgindo em um turbilhão interminável. Raiva... tá com raiva demais. Ele vai me matar ou me estuprar se eu não fizer alguma coisa.

O caminho até a porta do quarto estava bloqueado pela figura que cambaleava machucada. Com a faca presa, ele se apoiava em uma das portas do armário e se preparava para arrancá-la a sengue frio. Pensando rápido e tentando não tirar os olhos dele, Silvia se aproximou com cuidado da escrivaninha no canto do quarto, pegou a cadeira de madeira pelas costas e, levantando-a no ar com uma mistura de raiva, pavor e adrenalina, acertou a cabeça dele com um golpe que teria desmontado em pedaços uma cadeira um pouco mais frágil.

Sem parar, ela continuou a bater na forma à sua frente. Ela estava chorando de raiva, e cada pancada fazia as pernas da cadeira machucarem suas mãos e dedos.

No intervalo do terceiro golpe, um relâmpago irrompeu no manto cinza e tempestuoso que era o céu, iluminando o quarto de Silvia por alguns instantes com um véu de um azul incandescente. O rosto da coisa a sua frente não era humano; e, sob a pressão dos golpes, o rosto daquilo deformara-se de forma horrenda, transformando-se em uma máscara derretida e disforme.

Com um grito terrível que parecia misturar ódio e dor, a coisa se afastou, deslizando para fora do quarto em uma imitação grotesca de uma cobra.

O corpo inteiro de Silvia tremia. Suas mãos vibravam e saltavam em movimentos espasmódicos, doloridos com o impacto da cadeira. Caralho, que merda é essa? Pelo amor de Deus, o que que é isso?! Ela pensou, questionando-se repetidamente enquanto via a coisa que deslizara para fora do quarto contorcer-se para longe como uma aranha bizarra, produzindo sons e ruídos que ela não conseguia distinguir se eram fala, medo, divertimento ou sadismo. Qualquer uma das opções era igualmente aterrorizante.

Machucada, Silvia seguiu a coisa até a sala. Não podia desistir agora.

Andando ou deslizando como um animal quadrúpede, a sombra retorcida percorreu rapidamente a sala, pisoteando pelo chão ou escalando pela parede, derrubando móveis, vasos e quadros por onde passava. Com uma investida, a coisa saltou e atravessou o espelho onde, pela manhã, as pegadas haviam desaparecido.

Paralisada, Silvia ficou observando toda a cena de uma distância segura.

Houve um som agudo de vidro se partindo e cacos voando para todos os lados. Os fragmentos do espelho brilharam no chão de madeira escura, cintilando como um céu negro estrelado. No escuro, Silvia viu o buraco que se abria na parede da casa, enorme e carcomido, escancarado por trás do que antes era um espelho comum de parede. Era diferente do que ela tampara em seu quarto. Esse era grande. Quase um túnel; espaçoso o suficiente para que uma pessoa pudesse passar. Deslizando por dentro dele, a criatura se contorceu, debatendo-se na boca do buraco como uma aranha inchada e gorda. Os braços e perna balançavam no ar em uma cena nojenta, espremendo-se e achatando até que passassem por inteiro e, finalmente, desaparecessem junto do resto do corpo através do buraco no meio da sala.

Os moradores do bairro ouviram os barulhos que vinham da casa em plena madrugada. Coisas caindo, vidro quebrando, batidas e gritos. Vários chamaram a polícia e, cerca de meia-hora depois, Silvia foi encontrada sentada no quintal de casa em estado de choque. Suas mãos estavam inchadas e o corpo tremia, como se mergulhado em uma banheira de gelo. Porém, antes que as viaturas chegassem, ela olhou por trás do espelho.

Com cautela, ela se aproximou do buraco e olhou lá dentro. Estremeceu no mesmo instante, sentindo náuseas que quase a fizeram desabar. Havia uma espécie de quarto secreto ali, escondido pelo resto da casa por trás do espelho e da parede. Em uma das paredes ficava uma cama e ela pôde divisar outras formas, embora não soubesse do que se tratavam, já que estava muito escuro para que ela pudesse ver. Por um breve momento, Silvia teve tempo de ver a coisa deslizando para dentro do chão, desaparecendo de sua vista.

Todo esse tempo ela esteve certa. Quando ia até a cozinha beber água de noite e pensava ter alguém a observando, ela não estava enganada. Não era só impressão. Ele –aquela coisa repugnante em que enfiara a faca – estivera lá o tempo todo. Deslizando por trás das paredes e a acompanhando por frestas e buracos.

A coisa estivera lá.

Estivera lá no dia em que ela comera a morar sozinha pela primeira vez em sua vida e enquanto ela dormia sua primeira noite na casa.

E estivera antes – quanto tempo antes só Deus saberia, mas muito antes – dela alugar a casa, observando outras pessoas que iam e vinham.

Isso a apavorava.


***


Quando os policiais entraram na casa e arrombaram o buraco para que pudessem passar, se depararam com um cenário estranho.

O buraco dava direto para um porão desativado e selado, talvez pertencente a própria casa ou a do lado, que era adjacente. O porão aparentemente tinha servido de uma espécie de quarto improvisado, já que havia uma cama ali, bem como um armário de aço fechado com cadeado. O motivo do lugar ter sido selado, ninguém sabia e, quando o locador com quem Silvia alugara a casa foi questionado, declarou que nada sabia sobre o tal porão e que essa parte da casa nem constava nas plantas do local, mas que, se tratando de uma casa muito antiga, talvez datando da época do império, as plantas poderiam ter mudado com o tempo.

Quando os dois policiais do departamento da cidade, Nicolas e Moisés, se esgueiraram através da fenda com lanternas na mão, descobriram uma outra coisa. O ambiente era amplo e fedia a mofo, parecendo não ser utilizado há muitos anos. Jogado em um dos cantos do lugar, eles encontraram roupas femininas, abarrotadas ao lado da cama velha e carcomida. Tentaram arrombar o armário puxando uma das portas, mas não conseguiram. Precisariam de alguma ferramenta para quebrar o cadeado.

Bem no centro do cômodo, havia um poço aberto.

— O que é isso?

Moisés perguntou, fazendo uma careta ao sentir o cheiro que emanava da escuridão quase palpável do poço a sua frente.

— É da Água Limpa — o outro respondeu, aproximando-se da borda e mirando a luz da lanterna para as trevas. — Uma rede de esgoto desativada. Meu vô me falava que os amigos dele já criavam lendas sobre isso aqui quando ele era criança. Dizem que foi o próprio Dom Pedro II que mandou fazer e que é a porra de um labirinto. Antiga pra cacete. Mas vai saber, acho que é tudo historinha.

Os dois encararam o fundo do poço por um tempo. Não conseguiam enxergar o fundo, nem mesmo com a ajuda das luzes.

Das sombras, resfolegando e deslizando, alguma coisa os observava lá em baixo.

— Anda. Vamos fazer o relatório e ver pra onde vão mandar a gente.

Se encolhendo pelo mesmo buraco por onde entraram, eles deixaram o lugar.

Lá em baixo, a coisa deslizou, afastando-se da casa e se perdendo ao longo dos caminhos escuros e cavernosos de túneis subterrâneos que formavam a desativada rede de esgoto que percorria, adormecida e indefinidamente, sob a cidade, desembocando em outros porões e cômodos esquecidos e selados pelo tempo.

Em um dos túneis, protegidos de toda e qualquer luz, dois cadáveres procurados pela polícia aguardavam nas sombras da eternidade, prontos para, algum dia, serem encontrados.

11 de Agosto de 2021 às 21:29 3 Denunciar Insira Seguir história
12
Fim

Conheça o autor

Guilherme Rubido Olá, que bom que conseguiu chegar até aqui. Seja muito bem-vindo. Por favor, tire o tênis e sinta-se em casa. Parece que começou a chover. Consegue escutar? É uma chuva daquelas... Teremos muito tempo até que pare. Sendo assim, escolha um assento e fique confortável. Aqui veremos muitas coisas horríveis, então, prepare-se. Tem café quente na mesa e bolachas no armário de cima (não mexa no de baixo, não vai gostar do que tem lá dentro). Caso goste do que viu, não se esqueça de deixar uma gorjeta (like) ou comentário para o escritor, ele agradece pela sua cooperação. Para o caso contrário, deixe um comentário com sua reclamação, estamos sempre tentando melhorar. Espero que se divirta. :)

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Maria Natália Messias Camargos Maria Natália Messias Camargos
Mano, arrepiei com a história, ainda bem que não jantei. Agora acredito em Deus pois vou fazer o nome do pai antes de dormir, fui ler isso justo a 01:08 da manhã quando minha casa assovia a noite, tava com a cabeça aonde mds 😱🤢🤮😵
August 19, 2021, 04:09

  • Guilherme Rubido Guilherme Rubido
    Tudo bem, Maria? Olha, devo dizer que, apesar do seu relato de medo e arrependimento, fico feliz que a história tenha lhe causado esse efeito! É o paradoxo do terror, haha. Não sabemos se ficamoks felizes por sentir medo ou com raiva por sentir medo. O assovio do vento pela casa sempre me causou arrepios, acho que é por isso que coloco tanto esse evento em meus contos. E imaginar o vento deslizando poço adentro, perdendo-se nos caminhos sem fim, cada vez mais e mais e mais longe... Obrigado pelo seu comentário! Espero do fundo do coração que, diferente do caso de Silvia, o assovio que você escutou em sua casa seja... bem, só um assovio mesmo... mas, por precaução, talvez seja melhor dar uma olhada atrás dos espelhos, armários. Sei lá. Só por precaução, sabe? A gente nunca sabe o que pode encontrar... Brincadeiras a parte, obrigado de verdade pelo comentário e pelo relato! Espero que encontre outros contos meus que te agradem. Volte sempre! August 19, 2021, 20:09
  • Maria Natália Messias Camargos Maria Natália Messias Camargos
    Amei o conto kkkk relato na minha vida tem de sobra, eu morava em zona rural, o que de coisa estranha que acontece por lá nem livro pra contar, já escutei um cachorro rosnando de baixo da minha janela a meia noite e na manhã seguinte nem sinal de cachorro ter passado ali, até hoje não sei o que fazia aquele barulho, medo roda solto até hoje depois daquela, noite de quaresma da medo gente ._. August 20, 2021, 01:59
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