l-b-goularte Luana Borges

Trabalhar como demônio é difícil. Após tantas discórdias, as ações podem perder um pouco de importância e as coisas ficam monótonas. Porém, em uma noite agitada para a herdeira do inferno, um esbarrão pode mudar muitos destinos... ou melhor, pode resultar em uma paixão. Acompanhe as cenas desse amor.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#amor #Sobrenatural
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Capítulo Único

Cena 01: O encontro


Mais um dia de trabalho exaustivo. Ser filha do Satã não facilita as coisas para ninguém, e ser a mais velha também não colabora. Muitas responsabilidades e expectativas sobre mim.


Você deve estar se perguntando: "Com o que você trabalha?"; "Você faz maldades?". Sabe aquele livro que diz que, no final dos tempos, muitas coisas vão acontecer? Então, uma das coisas é que o amor irá esfriar e o desamor irá crescer. Meu trabalho é semear o desamor, fazer casais e famílias se separarem, causar intrigas e muitas outras coisas. Esse é o meu departamento.


Não, isso não é uma maldade no meu ponto de vista; às vezes, eu só mostro a verdade que está presente nas pessoas. Não crio emoções ou sentimentos, apenas manipulo o que já existe. Se a pessoa guarda muito rancor, apenas trago isso para fora.


Nesse momento, estou em uma festa bem badalada em alguma cidade na América. Observo um casal há quase 30 minutos e, com isso, percebo algumas coisas:


✓Primeiro, o rapaz é ciumento e possessivo.


✓Segundo, a moça não está feliz e não gosta mais do cara.


✓Terceiro, o amigo do rapaz está com cara de excitado enquanto olha para a namorada do amigo.


O que posso fazer nessa situação? É algo bem simples. Antes de tudo, aproximo-me do namorado e sussurro a ideia de ir ao bar para pegar bebidas. Por ser um demônio, ninguém me vê, apenas pessoas com traumas fortes ou que já tiverem momentos de livramento de morte.


Enquanto o namorado sai, obedecendo-me, sussurro a ousadia no ouvido do amigo e coragem no ouvido da moça e, quase de forma instantânea, observo eles se olharem com os desejos mais pecaminosos no olhar. Em questão de segundos, estão encaminhando-se para o banheiro da boate.


O rapaz volta com as bebidas e começa a procurar a companheira e o amigo. Nem preciso sussurrar para que ele se encha de pensamentos duvidosos e caminhe sozinho para os banheiros.


Parece que vamos ter confusão!


E não é isso que acontece? Os dois saem rolando aos murros da festa, e a menina sai de fininho, ela é esperta. Dou pequenas risadas, observando a cena. O trabalho é ardiloso, mas tem suas diversões. Já na porta da festa para sair do local, alguém esbarra na minha pessoa.


— Desculp... Você tem idade para estar em um lugar como esse?


Esse rapaz tá falando comigo? Ver-me é uma coisa, agora, esbarrar em mim é outra coisa totalmente peculiar. Minha sobrancelha arqueia sem entender. Idade para estar aqui?


— Estou falando contigo, moça pequena parada na porta e me olhando com dúvida.


É comigo mesmo que ele está falando.


— Idade? Ninguém me impede de ir ou vir, meu caro... — Sorrio enquanto ando para o lado de fora da festa.


Esses humanos estão cada vez mais enxeridos, ou aquele rapaz teve um trauma imenso para enxergar a herdeira do inferno. Será que isso é obra do meu irmão? Ele que trabalha nessa área de traumas.


Já bem afastada da movimentação, preparo os círculos de feitiços para voltar ao inferno, mas uma cena me impede de continuar. O rapaz que me viu está gritando com alguém enquanto está cercado por muitos outros rapazes.


Outra confusão?


As emoções estão ásperas, eles estão esperando um comando para bater, mas não quero permitir isso. Se aquele rapaz me viu, já tem traumas suficientes nas costas. Aproximo-me e sussurro coisas para dispensar o amontoado de caras queriam bater no rapaz. Com o líder tenho mais trabalho, mas, com as palavras certas, ele sai desorientado.


— Não precisa me agradecer. Tchau, pequeno gafanhoto! — despeço-me enquanto me afasto. Não quero ter mais ligações com o acontecimento.


— Droga! Eu merecia sentir aquela dor — escuto o seu sussurro baixo. Resolvo olhar mais detalhadamente para o rapaz: estatura média, cabelo liso, olheiras e feições tristes.


— Por quê? — pergunto enquanto desisto de ir embora e me sento na calçada, vamos de ser ouvinte.... Eu não sou totalmente má.


Cena 02: Pequeno Gafanhoto


— Feliz, eu estou feliz.


Falo enquanto me observo no espelho. Tratei de escolher as melhores roupas para vê-la: uma camiseta preta, um sapatênis azul escuro e uma calça jeans escuro.


Ela chegou sem querer com suas frases ácidas e sinceras. A forma que me olhava era curiosa, até a maneira que ela falava era encantadora, e é surreal como a baixinha consegue me salvar de qualquer confusão e de qualquer pensamento maldoso que me domina.


Apenas ela consegue me mostrar a beleza e a alegria da vida, além de ter me proporcionado os melhores 5 meses da minha vida! Nunca pensei que teria coragem de fazer tantas coisas.


Dancei na chuva de madrugada, no meio da rua, enquanto observava os passos de dança mais divertidos dela. Nunca havia dançado em um lugar público, mas com ela foi intenso e inesquecível.


Fiz um jantar e assisti um filme dramático sem reclamar. Odeio cozinhar e não suporto filmes cheios de dramas, mas com ela foi tranquilo e marcante.


Comprei brinquedos que nunca tive na infância. Tinha vergonha de ir à loja comprar essas coisas, mas com ela foi tão alegre torrar metade do meu salário comprando joguinhos e carrinhos, e foi mais divertido ainda brincar com eles.


Consegui visitar o túmulo da minha mãe e não senti culpa pela morte dela. Um momento triste e me acolhi nos braços dela, que me envolveram com ternura, e ali, naquele cemitério, consegui colocar para fora muitas emoções guardadas.


Escuto o celular tocando e só pode ser ela. Corro e atendo a ligação rapidamente:


— Oi! Tá bem. Você tá na porta? Já vou abrir. Por que tá com essa voz? — falo a última pergunta já abrindo a porta e visualizando minha salvadora com as feições tristes, com o celular na orelha.


— Temos que conversar, gafanhoto. — Ela está triste e isso me preocupa. Não sei muito sobre ela, apenas aquilo que ela soltava de vez em quando.


— Você tá bem? Eu...


— Shiii! Apenas me escuta, tá bom, gafanhoto? — diz inquieta. Nunca havia visto ela insegura.


— Tá bom.


Ela se senta no sofá da sala e faz um gesto para que me sente do seu lado. Assim faço e logo a encaro, tentando decifrar seu rosto.


— Você bem sabe que eu não sou normal, não é? — Apenas assinto com a cabeça. Ela tem seus mistérios, e eu nunca quis pressionar para que me contasse.


— Eu sou a filha mais velha de Satã e meu trabalho no mundo é levar desamor e desordem. A primeira vez que a gente se viu... Naquela noite, você deveria ter morrido e eu não permiti isso, quebrando algumas regras chatas. Agora me acusam de manipulação humana indevida... — Têm lágrimas em seus olhos. Não estou surpreso por ela ser do inferno ou qualquer outra coisa. Aquela lágrima no rosto dela mostra dor, e eu só quero curar essa dor. — E eu tenho que parar de ver você e apagar suas memórias. Um demônio não pode amar e...


As lágrimas começam a passear pelo rosto dela, e a minha única reação é segurar o seu rosto como o mais precioso diamante e beijar seus lábios. Tento passar tudo o que sinto, tudo o que ela me faz sentir.


— Nós podemos dar um jeito... Você pode amar! Me ensinou tantas coisas, deixa eu te ajudar a enfrentar tudo isso! — digo após a separação do beijo.


— Você não tem dúvidas? Eu posso ter te manipulado para que você me amasse. Talvez nada que você senta seja real. — Dúvidas. Ela quer acreditar em suas próprias palavras ou me fazer acreditar?


— Você não é só o que te fazem ser! Você me ajudou diversas vezes e eu nunca sussurrei nada para ti. Acredita em suas emoções e nas minhas, por favor — praticamente imploro. Sinto-a chegando perto e se aconchegando em meus braços, e apenas a aperto em um abraço forte. — Te amo e sei quem realmente você é...



Cena 03: Um pai preocupado


Dor de cabeça, isso que essa menina está dando. Até estava preocupado, já que ela não deu trabalho todas essas décadas, mas querer se rebelar a ponto de querer ser humana? Isso é inacreditável.


Já até sondei o conselho para saber se houve influência interna nas decisões e ações dela, mas tudo é culpa daquele humano! Aquele ser inferior fez a minha princesinha se revoltar. Ela era a melhor em criar intrigas e, agora, me vem com esse papo de que descobriu que não precisa ser do mal e que um demônio pode amar.


Além de aguentar esse inferno de gente gritando, ainda tenho que suportar o conselho dizendo que vou perder a credibilidade. Só quero entender a linha de raciocínio dos anciãos demônios. Como que minha filha se revoltar vai interferir no medo contra o satanás?


É uma coisa sem sentido. Meu trabalho era tão fácil, era apenas receber e castigar almas, mas, do nada, começou a aparecer tanta gente, que o serviço começou a requerer uma organização melhor. Aí, quando vi, estava casado e com um monte de filho dando problema.


O mais novo resolveu que quer deixar a casa mais fria e quer colocar ar condicionado em casa. E lá foi ele caçar, no meio do enxofre, algum técnico especializado no assunto. Minha casa está em obras há 6 meses porque só foi surgindo problema em cima de problema.


A segunda mais nova quer coleções de mangás e fica andando pra cima e pra baixo para buscar esses papéis, então nunca sei aonde está a menina.


O do meio está fazendo um monte de bagaceira lá em cima. Aí, chega um monte de gente aqui e eu tento falar para ele se acalmar, que aqui não é tão grande para tanta gente. Mas me escuta? Não, nunca me ouve.


O segundo mais velho está trancando no quarto, dizendo que está no século da bad, só porque a alma por quem ele se apaixonou disse que não o quer mais. Mas o guri foi se apaixonar logo por uma alma que está no inferno, e quer que seja um mar de rosas?


A minha herdeira de comportamento exemplar agora quer espalhar amor e virar uma humana para seguir uma vida normal.


Paro de reclamar e observo o papel em minha frente. Estou na minha sala de trabalho. Puxo o papel com força e ele se rasga, e na minha mente vêm os selamentos de poder.


Todo demônio tem um selo que prende seu poder. Se esse selo for quebrado, o demônio se descontrola e então age por sua natureza maligna. Isso que vou fazer! Se soltar o selo da minha herdeira, ela vai agir seguindo a natureza. O rapaz ficará com medo e fugirá dela, então ela voltará para casa sabendo que humanos não prestam.


Bem que dizem! Eu sou esperto!


Cena 04: Final


Um sorriso diabólico se forma no rosto da pequena herdeira do inferno. A moça é baixa, com cabelos pretos como a noite e olhos brancos que possuem o brilho da própria lua. O pequeno parque daquela cidade pacata nunca viu tamanho perigo.


Energias negras em forma de espiral saem das profundezas do chão, rachaduras no solo avisam que o mal vem das profundezas do desconhecido, as chamas do tormento queimam a vegetação do parque.


O sorriso da pequena jovem vendo a destruição é de pura loucura. A adrenalina consome a jovem, parece que toda sua tranquilidade sumiu e apenas sobrou a desejo de sangue. Ela sai andando em meio ao fogo, sem se importar com as pequenas queimaduras que se formam em sua pele. A dor que sente a faz dar enormes gargalhadas.


A noite tranquila começa a sentir a escuridão tomando forma, as estrelas não brilham e a lua não aparece. A escuridão toma espaço em meio ao ambiente, dominando cada cantinho.


Com um sorriso psicopata e perturbador, a jovem começa a destruir tudo o que vê. Não se importa com o choro das crianças, a procura da mãe. Não se importa com a agonia dos pais em ver suas crianças serem queimadas. Quer apenas ver sangue, e ouvir os pedidos de misericórdia que para ela é como a mais bela orquestra.


Simplesmente, ela está à procura de destruição. Sem sentimentos, fria e tirando a vida de cada ser que encontra. No seu estado de descontrole, até sua imagem se torna real para todos. No meio do caos em que a cidade está, dentre as cinzas do que um dia foi um parque, uma voz de desespero se aproxima, aos prantos, da herdeira do inferno.


Aos gritos, chama desesperadamente a atenção da jovem que espalha destruição. A voz é a de um rapaz de altura mediana, em vestes brancas, aos gritos, e diz:


— EU SEI QUE NÃO É VOCÊ!!! EU SEI QUEM REALMENTE É! — Com lágrimas nos olhos, vê a moça a encará-lo.


— Não sabe o que sou! Não vê o que faço? Eu sou um demônio. Não mereço amor. Desista de mim, sabe que não é possível. Você é inalcançável pra mim. — Todas as chamas param de se alastrar, não há grito de agonia. Lentamente, o rosto que tinha um sorriso diabólico se torna um rosto triste, as lágrimas começam a transbordar, escorrer por toda a face da moça de olhos de lua.


O rapaz de vestes brancas se aproxima da jovem até estar ao seu lado. Com sua mão, limpa as lágrimas do rosto da pequena moça, dá um pequeno sorrindo de conforto. Com muito amor, abraça a herdeira, um abraço forte e apertado. Derramando lágrimas de emoção, o rapaz diz à moça:


— Não importa se é impossível, não importa o que é e nem o que fez. Para mim, nada importa se eu tiver você em meus braços. Nada importa... Te amo — com um sussurro, o rapaz termina a frase.


Enquanto a jovem sorri ao abraçar o impossível para si, ela se esquece de seu entorno e não lembra que as pessoas sempre vão vê-la como um monstro. Nesse momento de pequena eternidade, uma afiada lâmina vem de encontro às costas da moça. O abraço é interrompido por alguém que a ataca e foge.


Os olhos de lua perdem o brilho. O rapaz, em desespero, começa a chamar sua amada aos gritos, na esperança de que ela acorde. Ela não acorda. Ele, chorando, retira a lâmina de prata banhada de sangue das costas de sua amada.


Sem pensar, apenas enfia a lâmina em seu peito. A dor do corte nem chega perto da dor de ver sua alma gêmea morta à sua frente. Em poucos segundos, o rapaz de vestes, agora, vermelhas para de respirar. Seus últimos momentos de vida passam enquanto observa o rosto de seu grande amor e, aos poucos, cai ao lado de sua amada.


A noite volta a brilhar, as estrelas aparecem, a lua brilha formosa no céu e as pessoas procuram seus entes queridos, ainda traumatizadas com a destruição.


Mas, em uma parte agitada das profundezas do inferno, há um casal que está em um eterno abraço de felicidade. O casal sorri de forma descontraída, dão pulos de felicidade, se abraçam de forma calorosa. A distribuição de carícias é infinita.


Mesmo em meio ao enxofre e com os gritos de agonia como som ambiente, a felicidade dos dois está em perfeito estado porque, no final, nada importa. Se estiver com quem se ama, até a morte pode ser a passagem para a felicidade eterna.


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25 de Novembro de 2021 às 00:55 0 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Luana Borges Uma pessoa apaixonada por contos, microcontos e poesias que ama se aventurar pelas palavras. "Uma alma sem forma Pelo tempo se transforma"

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